Sobre escola, alunos e obviedades pouco questionadas…

Diz quem foi que inventou o analfabeto
E ensinou o alfabeto ao professor

(Chico Buarque, Almanaque)

Hoje eu resolvi falar sobre obviedades… Acerca da escola, da infância, da docência… Tudo aquilo o que em um primeiro momento parecerá bobo. Todavia, sempre me faz parar e pensar (e pensar e pensar) quando me deparo com perguntas específicas em sala de aula… Mas, que perguntas seriam essas? Ora… aquelas que buscam respostas precisas de ações específicas! 

Dia desses me deparei com um artigo antigo, de 1998, intitulado “Adeus à infância (e a escola que a ensinava)“, de Mariano Narodowski. Esse é um texto que fala sobre uma infância que precisa ser reinventada. Bem como de uma escola que não atinge mais a população que adentra este espaço…

Esse texto apresenta um debate sobre a infância. Uma infância que antes de ser “um puro período biológico” é um conceito. Um produto da história, como construção de uma determinada sociedade. Qual o motivo (e relevância) dessa discussão? O intuito dessa discussão é interrogar sobre a função da escola contemporânea e a formação de sujeitos.

Fiquei pensando com meus botões o quanto o texto era atual. E, além disso, nos traz boas ideias para olharmos as dificuldades que enfrentamos nas escolas e na formação de professores… O último texto do blog falou sobre tecnologias na escola, abordando o quanto não basta inserirmos novas tecnologias para modificarmos a lógica da escola e seu modo de atuação e formação (link ao final do post).

Não é recente a ideia de que “aluno” é um termo que designa uma categoria social. Isto é, mais do que um sujeito específico, é um grupo delimitado de pessoas que ocupa determinado lugar dentro da sociedade. Parece óbvio, não é mesmo? No entanto, essa simples ideia traz consigo um potente debate que diz respeito à função da escola! E isto inclui compreendermos que pessoas não nascem sabendo ser alunas, elas aprendem a ser alunas dentro de um espaço social específico: a escola.

Porém, não se esgota a questão neste ponto (ainda falando de obviedades pouco pensadas cotidianamente). Assim, se vivemos em tempos diferentes de 20 ou 30 anos atrás, a infância hoje também é vivida de modos diferentes. Ao desenvolver a análise acerca das novas maneiras de se viver a infância e dos reflexos disso na instituição escolar, Narodowski discute como o conceito de “aluno” entra em crise, uma vez que a categoria “aluno” funcionava para um tipo de infância, diferente da que temos nos dias de hoje. Neste sentido, seria preciso discutir sobre quais saberes são relevantes para estes “novos” alunos que chegam no espaço escolar. O autor debate que é possível pensar escola e infância não em termos de reforma, mas como desafio. E qual seria este desafio?

Tenho questionado muito, a partir de meus estudos, minha prática como “professora de professores”. Isto é, interrogo sobre como preparar estes futuros docentes para atuar nesse mundo em que as instituições chamadas modernas estão em crise. Constantemente sou interpelada por perguntas que vão nessa direção, dos licenciandos. Estes insistem para que lhes dê respostas com soluções concretas e seguras, recheadas de metodologias certeiras. Tais respostas, conseqüentemente, não são passíveis de serem executadas com pessoas que estão em constante modificação…

Nesse sentido, trago a música Almanaque, de Chico Buarque. Uma vez que esse verso da epígrafe é, para mim, interessantíssimo, por colocar em pauta essa noção da construção dos sujeitos na sociedade. Interrogo-me, ainda: Quem inventou o analfabeto e, por conseqüência, tornou o professor esse sujeito de conhecimento? Nossa profissão parece ter esquecido que o aluno, como sujeito, é alguém construído. Ou seja, foi constituído dentro de uma lógica, a partir de uma instituição inventada, não natural em nossa sociedade… Assim, ao esquecermos que nosso aluno não ‘nasce’ aluno, também não nos damos conta que é nossa função, como professores – ou educadores -, ensinar a criança (ou o adulto, nos EJAs) a ocupar esse papel de “aluno” – ou “educando”.

Para além dos conhecimentos acadêmicos e científicos formais, talvez a questão seja trabalhar nos cursos de formação docente essa noção de quais conhecimentos e objetivos são pertinentes à escola atual! Isto é: a escola é uma instituição cuja tarefa de trabalhar a dimensão do conhecimento perpassa inúmeras estratégias. Quais? Dentre elas, a própria inserção social e compreensão da diversidade de opiniões, modos de viver e estar em nossa cultura contemporânea. Assim como, através dos conhecimentos técnico-científicos, percebermos que a formação ocorre em vários sentidos! Sejam aprendizados comportamentais, civis, sociais, culturais, científicos, etc.

A partir disto tudo, me pergunto: será tão difícil assim encarar isso que a escola ensina (enquadra, disciplina) pessoas e os torna alunos? E que os torna sujeitos de nossa sociedade? Além disso, que isto – antes de ser visto como negativo – é uma das tarefas escolares e deve ser planejada e pensada como tal? 

Em suma, ao ler este texto me deparei com o fato de quê: depois de 20 anos do texto de Narodowiski publicado, este texto segue falando de obviedades não claras e pouco questionadas. Obviedades das dificuldades cotidianas da prática escolar. Obviedades sobre a formação de professores. Obviedades sobre a formação de sujeitos em uma cultura. Enfim: obviedades sobre a rotina escolar.

O quanto permitiremos que o óbvio siga não sendo pauta, virando cotidiano atropelado em nosso trabalho?

Para saber mais:

NARODOWSKI, Mariano. Adeus à infância e à escola que a educava. In: SILVA, Luiz Heron da (Org.). A escola cidadã no contexto de globalização. Petrópolis: Vozes, 1998. p. 172-177.

XAVIER, Maria Luíza. Os incluídos na escola: o disciplinamento nos processos emancipatórios. Disponível em: <http://www.lume.ufrgs.br/bitstream/handle/10183/1887/000361017.pdf>. Acesso em: 21/05/2018.

Sobre posts anteriores relacionados:

O uso de tecnologias e a modernização do ensino: qual o objetivo?

Para escutar enquanto lê:

Chico Buarque. Almanaque. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=E92mUpHtjcI

 

 

Sobre Ana Arnt 19 Artigos
Bióloga, Mestre e Doutora em Educação. Professora do Instituto de Biologia da UNICAMP e do Programa de Pós-Graduação em Ensino de Ciências e Matemática (PECIM). Pesquisa e da aula sobre História, Filosofia e Educação em Ciências, e é uma voraz interessada em cultura, poesia, fotografia, música, ficção científica e... ciência! ;-)

4 Comentários

  1. Professora, na minha prática e agora lendo sua reflexão, me lembrei de mim mesmo em terceira pessoa. Aquele euzinho que foi vários eus ao longo da trajetória subordinada em grande medida aos atropelos óbvios, à pressa, às e aos muitos docentes que não gostavam do ofício e o faziam como quem faz gestão hoje em dia de qualquer coisa após assistir tutorial no youtube. Subordinados e alunos, nessa vertical vertiginosa recebem saraivadas, ora escatológicas, e às vezes uma argila virgem pra moldar ou uma oficina livre pra ministrar em festival de inverno.

    Ainda bem que a gente pelo menos se indaga “e daí? Que que eu faço dessa história e dessa subjetividade?”. Me conta quando você descobrir a resposta pra sua, por favor. Muito obrigado pelo texto.

    • Olá, Gustavo!

      Muito obrigada pelo teu comentário e relato… Acho que a ideia é essa: seguir se perguntando “e aí? que faço com tudo isso?”

      Não sei se descobrirei “a” resposta ahhaha, mas seguirei tentando achar um ou outro caminho!
      Quem agradece sou eu pelas ideias. Abraço.

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