Disciplina e escola: que sujeitos queremos formar?

Fala
Eu não sei dizer nada por dizer, então eu escuto
Se você disser tudo o que quiser, então eu escuto
Fala
Se eu não entender, não vou responder, então eu escuto…
Eu só vou falar, na hora de falar, então eu escuto…
Fala…
(Fala, João Ricardo e Luli)[1]

Há tempos que penso, estudo e trabalho com uma ideia sobre a importância de sempre refletirmos acerca de quem é nosso estudante de sala de aula. Mas é mais do que isso: de que modo queremos formá-lo. Com isto, quero dizer: como aquilo que trabalhamos, em termos de conhecimento, postura, organização e estrutura do cotidiano, contribui para a formação do estudante como um sujeito de nosso tempo. E sempre que eu estudo alguns livros específicos, como Vigiar e Punir, do Michel Foucault, e autores que trabalham nesta linha, de alguma forma me recordo deste poema na epígrafe (musicado por Secos e Molhados). 

A meu ver, esta música pode ser pensada como um estudante falando sobre sua rotina escolar. Ou seja, uma rotina que o ensina a permanecer em silêncio, pela noção construída de que não há nada a ser dito, por sua pessoa. Só abre-se espaço para a palavra em poucos momentos, mas na totalidade, se escuta. Por outro lado, há alguém (docente?) autorizado a falar. Desse modo, este sujeito que fala, que faz as perguntas e autoriza (ou não) o outro a falar. Dentro das discussões sobre disciplina e poder disciplinar, falamos muito sobre como a instituição escolar (e tantas outras instituições de nossa sociedade) buscam um controle das ações do corpo dos sujeitos, tornando-os dóceis e úteis.

Assim, existe toda uma “política de coerções e correções do corpo”. Isto seria um esquadrinhamento e cálculo de gestos, comportamentos, ações que visam organizar, compor, educardisciplinar o corpo (e, portanto, os sujeitos). Desse modo, tanto professor quanto aluno tem o corpo disciplinado, aprendem seu papel dentro da sala de aula: quando falar ou escutar. Bem como, o que “ensinar” ou “aprender”, o quanto devem escrever e produzir; em quanto tempo as tarefas devem ser feitas… Aqui, professores e estudantes estão sendo interpelados pelo conjunto de saberes e poderes que funcionam naquela instituição aumentando a produtividade. Seja em relação à quantidade de conhecimentos a serem trabalhados, seja ao modo como os estudantes devem se portar na sociedade. Enfim, tal idéia, associada a esta música, leva-me também a um aforismo, escrito pelo pedagogo Jorge Larrosa, que peço a licença para citar integralmente:

Para ler, o estudante dispõe de todos os livros. Alinhados, ordenados, valorados. Cada livro em seu lugar. E todos à mão, perfeitamente disponíveis, dispostos, à sua disposição. O estudante começou a estudar com a segurança de que os livros, convenientemente reproduzidos e transmitidos, cuidadosamente editados e anotados, estão ali em uma espécie de plenitude: a plenitude sem falha da cultura, a prova palpável de sua imensa generosidade. Mas logo sente uma vertigem. Houve um momento que também se sentiu feliz diante da presença firme e segura de todos esses livros. Também ele sentiu o que neles existe de prestígio, de segurança, de promessa. Também se deixou seduzir por esse inventário bem ordenado dos produtos da cultura, por todas essas certezas alinhadas. Mas um dia se sentiu sufocado. E sentiu que os livros, em sua generosidade, não lhe deixavam espaço (LARROSA, 2003, P.51).

Larrosa, neste aforismo, traz outra dimensão da disciplina. Pois não se trata somente do controle do corpo (da fala e dos gestos permitidos em um espaço determinado – a sala de aula). O autor fala da ordem, da disciplina como organização para uma maior eficácia, dentro mesmo das instituições e introjetada como parte de nós (como a arquitetura projetada para uma maior funcionalidade nossa, por exemplo). Tempos, espaços, lugares, vigilância organizados, comunicações delimitadas, estrutura de vida útil.

Tanto Foucault, quanto Larrosa, tratam da organização e localizações em relação aos corpos (distribuição das pessoas em um espaço definido). Embora isso também se refira aos espaços ocupados pelos sujeitos. Bem como onde eles estão atuando (como usam os espaços).

É interessante trazer isso nos dias de hoje, em tempos de tanta discussão acerca do que deve ser ensinado na escola. Pois, temos hoje a busca pela construção de saberes comuns a um país inteiro – com a Base Nacional Comum Curricular. Por outro lado, temos um debate social acirrado acerca do papel da família e a interferência desta na organização curricular (em nome da moral familiar).

Todavia, também temos a eterna questão da necessidade de não tomarmos as crianças dentro da escola (ou os adultos dentro das universidades) como um conjunto homogêneo (de ideias, valores, interesses) e a decorrente falta de individualidade desta compreensão. Simultaneamente, temos, a constante reclamação de indisciplina por parte do corpo docente (e discente…).

Assim, tomando que nenhuma destas problemáticas se desvinculam de práticas disciplinadoras (e isso não é algo bom ou ruim, é o modo como nos organizamos socialmente) nos remetemos a inúmeras questões. Que aluno queremos? Que sujeito queremos formar/produzir para a sociedade? Quais conhecimentos são fundamentais para a formação de sujeitos atualmente? De que modo estes conhecimentos são selecionados e apresentados na escola? Em que isso se vincula à formação dos alunos

Quando nos colocamos como formadores de sujeitos, é impossível não nos tomarmos como disciplinadores. Isto é, organizamos espaços, tempos e corpos, controlamos movimentos, a fim de torná-los mais eficazes e produtivos para nossa sociedade. Assim, a questão que fica é que se ainda queremos que essa formação/produção de sujeitos se dê através de processos de escolarização, temos que (re)tomar a responsabilidade para nós (professores), apresentando como nosso trabalho funciona, que expertises são acionadas e de que maneira isso ocorre na escola, quais saberes nos formaram e como os articulamos em nosso cotidiano… Entretanto, isto deve ocorrer sem que, também, ignoremos que nossos alunos já chegam às escolas constituídos por um contexto social e cultural que também vai se articular com os saberes trabalhados na escola.

Portanto, ser professor é uma profissão formativa, nós trabalhamos produzindo cultura e conhecimento. Participamos da formação das pessoas dentro de um sistema que é disciplinador de tempos e espaços. Demanda conhecimento e prática. E demanda, também, reconhecimento de nossa tarefa (por nós mesmos). Ou seja, nós formamos pessoas: construímos formas de ser. Compreender este processo é, ao mesmo tempo, responsabilizar-se por isso e apresentar (e batalhar por) maneiras mais ciente de nosso trabalho ser respeitado. Por fim, compreender este processo é, também, estar mais presente na concepção e organização dos sujeitos que queremos formar.

Para saber mais:

FOUCAULT, Michel. (2002). Vigiar e Punir: nascimento da prisão. 25ª Ed. Trad. Raquel Ramalhete. Petrópolis: Vozes, 1987. Capítulo Os corpos dóceis, p. 117-142.

LARROSA, Jorge. (2003). Estudar=Estudiar. 1ª ed. Trad. Tomaz Tadeu da Silva. Belo Horizonte: Autêntica, 2003.

PRATA, Maria Regina dos Santos. (2005). A produção da subjetividade e as relações de poder na escola: uma reflexão sobre a sociedade disciplinar na configuração social da atualidade. Revista Brasileira de Educação. n.28. 2005. p. 108-115. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/%0D/rbedu/n28/a09n28.pdf. Acesso em: 30/05/2018.

VALEIRÃO, Kelin; OLIVEIRA, Avelino da Rosa. (2014). A microfísica dos corpos na escola. Cadernos de Pesquisa: Pensamento Educacional, Curitiba, v. 9, n. 22, p.79-94 maio/ago. http://seer.utp.br/index.php/a/article/download/676/566. Acesso em: 30/05/2018.

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Sobre Ana Arnt 20 Artigos
Bióloga, Mestre e Doutora em Educação. Professora do Instituto de Biologia da UNICAMP e do Programa de Pós-Graduação em Ensino de Ciências e Matemática (PECIM). Pesquisa e da aula sobre História, Filosofia e Educação em Ciências, e é uma voraz interessada em cultura, poesia, fotografia, música, ficção científica e... ciência! ;-)

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