Ideias soltas ao vento: ou de como o pulso, ainda pulsa…

Recentemente retomei um artigo do pedagogo Jorge Larrosa, intitulado O ensaio e a escrita acadêmica. Este texto é escrito a partir das ideias de Adorno, presentes no texto O ensaio como forma. Hoje eu resolvi escrever sobre a escrita. Sobre o prazer de escrever e as cobranças acadêmicas… Vamos lá?

Larrosa, brilhantemente, nos leva aos meandros da pesquisa e escrita acadêmica no texto. Inicialmente, o texto nos deixa perplexos. Isto por dizer em bom tom o que muitos pensam sobre as produções acadêmicas e, também, por deixar claro o quanto nos encaixamos em várias críticas traçadas por ele.

Neste texto, Larrosa critica as fronteiras acadêmicas. Por exemplo, meu trabalho é em Educação? Qual o motivo, então, de ler Filosofia? E Antropologia? E Química? E qualquer-outra-coisa-que-me-chame-a-atenção? Assim, assolando as certezas, afirma: “o que o ensaio faz é colocar as fronteiras em questão”. E as fronteiras, como se sabe, são gigantescos mecanismos de exclusão. No instigante texto que segue à frase, o autor continua dando grandes sopapos na soberba acadêmica. Desta forma, aponta os chavões que acompanham a arrogância inerte, muitas vezes produtiva, mas sem sentido, qualidade, vontade ou paixão.

Cabe ressaltar que no momento que vivemos, em que todos nos exigem produção – toneladas delas – este texto é um alívio. Pois, há quem ainda concorda que as ações devem ser pensadas e executadas com alegria, devem fazer parte de quem sou e como ajo no mundo. Ainda citando Larrosa, nesta crítica visceral:

O espaço acadêmico esqueceu a lentidão da leitura, a delicadeza da leitura, essa forma de tratar o texto como uma força que nos leva além de nós mesmos, além do que o texto diz, do que o texto pensa ou do que o texto sabe (…) a escrita acadêmica é alérgica ao riso, à subjetividade e à paixão.

Passado (ou aquietado) o assombramento da escrita, Larrosa nos leva à paixão pela pesquisa. Isto é… quer dizer, não daquela tradicionalmente vista nos corredores das universidades. Mas àquele ímpeto inicial, àquelas vontades homéricas, constantemente contidas, pelos padrões, normas, moldes do tradicional.

Em seus escritos (neste artigo e em outros), Larrosa dificilmente deixa incólume seu leitor e, falando especificamente de mim como leitora, sempre deixa rastros em meus pensamentos e me impele (quase compulsivamente) a escrever. Não necessariamente sobre o que trata seu texto, mas o que me move a seguir pesquisadora, professora universitária formadora de professores de ciências e biologia, pensadora da vida (a minha e a dos outros, a biológica, a mundana, a cotidiana, vidas culturais, viscerais…). Ou seja, uma vivente com (e de) palavras.

Em suma, por hoje somente ideias jogadas ao vento, depois de uma longa semana lendo e escrevendo… Uma vontade de compartilhar a alegria de achar as primeiras palavras de um árduo (mas apaixonado e prazeroso) trabalho que tenho pela frente com possíveis leitores me obriga a escrever mais um pouco e declarar que ler me leva a pensar e a escrever, de outras formas… O risco é não ser compreendida, sempre. Até o dia da avaliação chegar, o que resta é escrever mais e mostrar que não há estudo interessante sem pesquisador(a) encantado(a), não há palavras fora do sentido, não há humanidade em pesquisas imparciais. E que tudo o que quero fazer, ainda é pouco (ou o pulso ainda pulsa).

Para se encantar também

Larrosa, Jorge. O ensaio e a escrita acadêmica. Revista Educação & Realidade, Porto Alegre, vol28, n2, 2003, p.101-115.

Para escutar junto

Titãs: O pulso ainda pulsa.

Sobre Ana Arnt 36 Artigos
Bióloga, Mestre e Doutora em Educação. Professora do Departamento de Genética, Evolução, Microbiologia e Imunologia, do Instituto de Biologia (DGEMI/IB) da UNICAMP e do Programa de Pós-Graduação em Ensino de Ciências e Matemática (PECIM). Pesquisa e da aula sobre História, Filosofia e Educação em Ciências, e é uma voraz interessada em cultura, poesia, fotografia, música, ficção científica e... ciência! ;-)

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