“A Última Floresta”: novos olhares para a Educação Ambiental

Texto escrito por Maria Clara Sosa

500 anos antes do primeiro homem branco chegar, os Yanomami já estavam aqui”.

Assim começa o filme ‘A Última Floresta’ dirigido por Luiz Bolognesi e co-escrito pelo xamã yanomami Davi Kopenawa. A estreia do filme no Brasil ocorreu no dia 18 de Abril de 2021, na véspera da celebração da Resistência Indígena. E a obra é de fato uma celebração. Uma vez que o enredo traz a cultura do povo yanomami, exalta sua força, sua resiliência e sua potência de vida, também nos alerta para o perigo do garimpo ilegal em suas terras.

Pretendo, neste texto, abordar sobre como autores, como Davi Kopenawa e Ailton Krenak, nos ensinam sobre a cultura de povos indígenas e sua relação com a natureza. Assim, a partir deste debate, trago ideias acerca da Educação Ambiental, dentro de um cenário da cultura ocidental, branca e como percebemos o conceito de natureza. Por fim, proponho um exercício de reflexão na articulação destas diferentes maneiras de perceber, narrar, experienciar a vida, a educação e a natureza.

    “Defendo a floresta porque a conheço”. 

 Davi Kopenawa, autor do livro A Queda do Céu,  afirma que a importância do filme é justamente divulgar conhecimentos sobre o povo yanomami, para que os brancos os conheçam. Mas por que esse conhecimento é importante? É a partir do conhecimento das coisas que podemos criar laços, e a partir deste afeto, nós passamos a nos engajar com a causa yanomami. Esse engajamento tem se mostrado cada vez mais necessário. Uma vez que suas terras têm sido invadidas e poluídas pelo garimpo ilegal, e as autoridades pouco têm feito no sentido de combater esse crime.

O relatório da Hutukara Associação Yanomami (HAY) e Associação Wanasseduume Ye’kwana (Seduume) de Março de 2021, mostra que o garimpo ilegal aumentou 30% no ano de 2020 e tem cada vez mais se aproximado dos territórios isolados de populações indígenas. Além disso, ao nos engajarmos com a luta yanomami entramos em contato também com sua visão de mundo, sua visão da natureza e, quem sabe, não refletimos sobre nossa relação com o meio ambiente?

    “Sabemos bem que, sem árvores, nada mais crescerá em sua terra endurecida e ardente. Comeremos o quê, então? Quem irá nos alimentar se não tivermos mais roças nem caças? Certamente não os brancos, tão avarentos que vão nos deixar morrer de fome.”  

O perigo do garimpo ilegal em terras yanomami é de longa data. Em 1993, ocorreu o Massacre de Haximu, o qual é lembrado até os dias atuais pelo povo yanomami, no qual foram assassinados 16 indígenas, entre homens, idosos, mulheres e crianças,  por garimpeiros que invadiram o território yanomami. No livro “A Queda do Céu”, o líder yanomami, Davi Kopenawa, discorre sobre o povo da mercadoria, os brancos, que são fascinados pelo minério, pelos metais brilhantes. Segundo a tradição yanomami, os minérios não devem ser retirados do solo da floresta, pois isso culminaria na caída do céu sobre nossas cabeças, uma clara imagem do fim do mundo. Além disso, Davi argumenta também que ao retirar os minérios do solo são liberadas nuvens de fumaça e nuvens de epidemia.

Os povos indígenas viveram epidemias em todo o contato com o homem branco, que ao chegar em suas terras traziam consigo as nuvens de fumaça e doença. Isto é, o mundo em pandemia não é novo para eles, é só uma confirmação do que eles já viam acontecer ao destruírem suas florestas e suas terras.

Todavia, Krenak, também afirma que, a pandemia atual do coronavírus “nos desafia a pensar como estamos vivendo sobre a terra”, e como temos vivido. No blog Natureza Crítica, há uma discussão acerca de como o  desequilíbrio ambiental é um fator no surgimento de novas pandemias, uma vez que isso ocasionaria um desequilíbrio de microrganismos e por consequência uma maior exposição dos humanos às doenças zoonóticas.

Então questiono: Como estamos vivendo na terra? Qual a nossa relação com o meio ambiente? E como a Educação Ambiental pode auxiliar na reflexão sobre os meios ambientes múltiplos e sobre nossas possibilidades de relação com a natureza?

    “Somos habitantes da floresta. Nascemos no centro da ecologia e lá crescemos”

Todas as sociedades apresentam algum formato de educação (formal ou não). Os processos educativos e os diferentes tipos de conhecimento são construídos historicamente, de maneira contextualizada. Entretanto, tal como tenho buscado apontar neste texto, é necessário, cada vez mais, praticar a descolonização dos saberes, ideia trazida por Gildo Girotto aqui no blog do PemCie. Isto é, nós podemos (e devemos) repensar o lugar em que comumente se situa a Educação Ambiental no Brasil. 

O livro e o filme de Davi Kopenawa são importantes nessa reflexão, pois nos mostram uma forma diferente de se pensar a relação entre humanidade e natureza. Nós, brancos de tradição ocidental, ao longo da história da nossa ciência, fomos nos afastando da natureza, analisando-a externamente, em ambientes controlados, transformando-a em um autômato. Mas, em plena pandemia, fica claro que não é mais cabível pensar a natureza como fenômenos isolados, com variáveis controláveis (e controladas). 

A educação do povo yanomami integra a natureza e sua sociedade, é uma tradição holística em que os sentidos da vida, da religião, do meio ambiente, são indissociáveis. Minha ideia não é, de forma alguma, que nós simplesmente modifiquemos nosso modelo de vida. Tampouco que tenhamos uma visão mística da natureza. Não é disto que se trata este texto…

Nossos olhares para outras culturas

O intuito é, ao olhar para outras culturas, que desenvolvem suas sociedades a partir de pressupostos menos fragmentados na produção de suas vivências,pensar nossa relação com a natureza. Mais do que isto, talvez seja importante, neste exercício de olhar outras culturas e aprender com elas, repensar sobre o porquê fazemos (e nos propomos a fazer) Educação Ambiental. O que quer dizer Educação Ambiental nos moldes da educação ocidental? Como pensar a Educação Ambiental e quais concepções de natureza e meio ambiente permeiam a nossa sociedade e o nosso educar?

Davi Kopenawa em suas obras nos mostra claramente, que o povo yanomami vive ao redor de uma Educação Ambiental. Eles fazem Educação Ambiental há séculos, desde antes do primeiro homem branco chegar às suas terras. Por outro lado, a nossa é recente. As primeiras conversas sobre ambientalismo vão se dar apenas na década de 70. E ainda assim, seus objetivos são pouco claros. Afinal, o que se quer dizer com “conscientização ambiental?”. Ensinar sobre conteúdos biológicos, expor lugares e ambientes e transmitir uma grande quantidade de informações que dificilmente serão absorvidas?

Sobre informação e Educação Ambiental

Informação é comumente relacionada ao conhecimento, contudo, isso não é verdadeiro. O conhecimento não pode existir sem a experiência, o território de passividade e receptividade no qual somos imersos pelo saber do outro, no qual nós mesmos somos nada menos que esse território de passagem. Pensar vai além do raciocinar, é sobretudo dar sentido ao que nos acontece, ao que nos perpassa (LARROSA, 2002).

Conversando com a vertente da Educação Ambiental Crítica, reclamo aqui a inserção da sociedade na natureza, no ambiente, e não o afastamento entre ambos. Nessa inserção é necessária a reflexão sobre quais as concepções sobre natureza, meio ambiente, fazem parte da tradição da EA, e como pensar novas maneiras de pensar estes termos. É defender a pausa na passagem contínua de informações e alimentar “o pensar” de Larrosa, ou seja, alimentar o “darmos o sentido às coisas e a forma como pensamos no meio ambiente”. Logo, é premente a discussão sobre as políticas ambientais, os perigos sofridos por populações indígenas pelo garimpo ilegal, e os impactos ambientais a partir de tais ações, e quais os sentidos disso para nós.

Por fim,

As possibilidades de Educação Ambiental são múltiplas. Todavia, entendo que imersos em uma pandemia, como a que vivemos hoje com o COVID-19, e em meio à grandes devastações da floresta Amazônica, do Pantanal e de outros biomas brasileiros, a EA não pode se abster de seu papel político e social.

Líderes mundiais concordaram que devemos combater as mudanças climáticas e os desastres ambientais, a EA é essencial nesse propósito. Os yanomami têm EA em sua origem, eles conhecem sua floresta, eles cuidam de sua floresta pois entendem o seu papel ecológico na manutenção de alimento, água, saúde. Vamos aprender com eles a valorizar nossa própria natureza, para que evitemos novas pandemias, para que evitemos o colapso ambiental.

Em suma, minha proposta, como primeiro passo nesse caminhar é: assistir ao filme “A Última Floresta” e percebemos que não há Terra, além dessa

Para saber mais

ALVES, Vinicius Nunes (2020) Carlos Nobre alerta que além da pandemia, é preciso conter o aquecimento global.

BRANDÃO, Carlos Rodrigues (1988) O Que é Educação, São Paulo: Editora Brasiliense.

BRASIL (1999) Política Nacional de Educação Ambiental, Lei 9795 Diário Oficial da República Federativa do Brasil, Brasília, DF, 27 abr, 1999.

GIROTTO, Gildo Jr (2021) Ensino de ciências descolonizado: espaço de todos os saberes.

GUIMARÃES, Mauro (2004) Educação Ambiental Crítica, In: LAYARARGUES, PP (org) Identidades da educação ambiental brasileira. Ministério do Meio Ambiente. Diretoria de Educação Ambiental, Brasília: Ministério do Meio Ambiente.

KOPENAWA, Davi; ALBERT, Bruce (2015) A Queda do Céu: palavras de um xamã yanomami, São Paulo: Companhia das Letras.

KRENAK, Ailton (2019) Ideias para adiar o fim do mundo, São Paulo: Companhia das Letras.

KRENAK, Ailton (2020) A Vida não é Útil, São Paulo: Companhia das Letras.

LARROSA, Jorge Bondia (2020). Notas sobre a experiência e o saber de experiência, Rev Bras Educ,  Rio de Janeiro,  n19, p20-28.  

MATAREZI, José (2006) Despertando os sentidos da educação ambiental, Educ rev,  Curitiba,  n27, p181-199.

NUNES, Marilene (2020) Institucionalização da Educação Ambiental no Brasil.

RAMOS, Elisabeth Christmann (2001) Educação ambiental: origem e perspectivas, Educ rev, n18, p201-218. 

VIDEIRA, Antonio Augusto Passos (2004) Natureza e Ciência Moderna, Ciência & Ambiente (Online), v28,  p121-134.

KRENAK, Ailton (2021) Roda Viva 19/04/2021 

Notícias sobre o Garimpo Ilegal:

Garimpo ilegal avança 30% na Terra Yanomami em ano de pandemia, aponta relatório

Cicatrizes na floresta: garimpo avançou 30% na Terra Indígena Yanomami em 2020

Garimpo ignora pandemia e avança 30% na Terra Indígena Yanomami em 2020

Organizações Indígenas lembram os 20 anos do Massacre de Haximu

A Autora

Maria Clara Sosa é bióloga pela Unicamp e mestre em Educação em Ciências e Matemática, na Unicamp, pesquisadora no Grupo de Pesquisa em Educação em Ciências (PEmCie) da Unicamp e FURG.

Sobre PEmCie 5 Artigos
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9 Comentários

  1. Educação ambiental na base do pensamento, não como acessório. Interessante que as ideias não precisam vir de fora, são produzidas aqui por pensadores que representam povos originários.

  2. O pensamento colonialista de que as coisas e lugares só existem depois que são “descobertos” é por essência completa falta de respeito pela vida. Continuar com esse pensamento depois de tantos anos, é extermínio.
    Clarita, parabéns pelo belíssimo texto e pela discussão muito necessária que traz.

  3. Que tema precioso heim !!!. Dentre tantas informações ricas me chama a atenção como as pessoas ainda demoram a perceber que quanto mais se tira da Terra maior é o desequilíbrio. Grata demais por este conteúdo

  4. Texto muito bem escrito!! Questões urgentes para construção do futuro de nosso planeta . O que mais é possível que ainda não estamos considerando?

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