A Chapada Diamantina e a questão Palestina

Chapada Diamantina vista do alto do Morro do Pai Inácio / Crédito da Foto: Paulo A. Muzio

Para aquelas pessoas que abriram este texto por causa do título, aviso de antemão que o fio que segue não é sobre política. Este post é um breve relato de viagem, no estilo daqueles que vez ou outra costumo fazer por aqui no blog e que pode até ser útil como um pequeno guia para as férias. Não nego que utilizo um pouco da “metodologia do rolezinho”, expressão criada pelo saudoso jornalista científico Maurício Tuffani para conceituar a prática não científica de, após uma rápida voltinha pela vizinhança, determinar o que existe a partir do que foi visto e sacramentar o que não existe a partir do que não foi observado durante o rolê. Vou tentar minimizar os impactos da narrativa apaixonada. Mas como isto não é um paper… rumo à Chapada Diamantina, no interior da Bahia.

De início achei que seria uma viagem fácil, já que há um aeroporto na cidade de Lençóis. Troquei uns pontos do cartão de crédito por uma passagem com voo direto de São Paulo (com uma pequena conexão). Aparentemente o aeroporto local estava fechado desde o começo da pandemia. A passagem foi cancelada em cima da hora, dando um pouquinho de dor de cabeça (Obrigado, Azul!). Parece que a empresa aérea seguiu vendendo bilhetes mesmo sem saber se o aeroporto estaria funcionando na data prevista da viagem. O engraçado é que após cancelarem minha compra, recebi em meu e-mail propaganda de voos deles para Lençóis para datas dois meses à frente. Sacanas. Não querendo mudar meu destino de férias, acabei voando por outra companhia para Salvador e de lá peguei um ônibus para Lençóis, o que deixou a viagem um pouquinho mais exaustiva.

Para quem visita a Chapada Diamantina, há diversos municípios para se hospedar. Lençóis é o que mais recebe turistas. A cidade chama a atenção por sua beleza. Casas coloridas, ruas de pedra e natureza ao redor. O povoamento começou por ali já no século XIX, em 1845, com a exploração das minas de diamantes. O patrimônio histórico e paisagístico foi tombado em 1973. Fora os nativos, é difícil encontrar brasileiros passeando por lá. A maioria dos turistas são estrangeiros. Alguns acabam até prolongando sua estadia e ficando. Não foi a toa que o britânico Jimmy Page, lendário guitarrista da banda de rock Led Zeppelin, fixou residência por lá entre 1994 e 2008.

Cidade de Lençóis vista a partir das piscinas naturais do Serrano / Crédito da foto: Paulo A. Muzio

A cidade é bem tranquila e parece que não há violência. Não vi um policial na rua durante os dias que fiquei por lá. Se vi, não gravei na memória, pois não chamou a atenção. Diferente do município de Palmeiras (outro da Chapada), onde em poucos minutos já pude observar alguns fardados. Também não soube onde era a delegacia (ou batalhão, ou comando…), mas depois, procurando pelo Google, confirmei que existe. Alguns nativos dizem que se algum turista é roubado em Lençóis, eles cortam a mão do infrator. Ou matam de vez. Ninguém bole com turista. Ainda assim, fuja de um malandro que atende pela alcunha de Luan. Ele é inofensivo, mas inconveniente. Quem cai na sua conversa mole compra gato por lebre. Não caindo no papinho, o máximo que fará é ser grosseiro e ir embora.

Mochileiro versus motoqueiro

Alguns lugares madrugam de portas abertas. Não apenas destrancadas, mas escancaradas. Assim era no primeiro hostel em que me hospedei. Isso chocou o motoqueiro que estava no mesmo quarto que eu. Logo que o vi, vestindo um daqueles coletinhos pretos de motoclube cheio de insígnias bordadas, já saquei qual era a do cara. Acostumado à dinâmica de uma metrópole como Recife, a programas pinga-sangue na televisão e a canais masculinos na internet, o senhor pernambucano temia por sua segurança. Fisicamente, era uma mistura de Véio da Havan com Renato Aragão. O resultado era algo parecido com o protagonista da tela “O grito”, de Edvard Munch. Ele tinha parado naquela hospedaria típica de mochileiros quase que por acidente. Ou por falta de opção.

Desenvolvíamos uma conversação razoável. Até que ele trouxe a informação de que os caminhoneiros bloqueariam as estradas por conta de mais um aumento repentino no preço dos combustíveis. Botou para tocar um vídeo de seu próprio canal, onde publica suas viagens de motocicleta, solicitando informações e apoio a outros motoqueiros e ao mesmo tempo dando informações sobre a condição do tempo e das estradas. Seu comentário no vídeo (direcionado aos seus) sobre o preço da gasolina foi precedido por um “Não falo de política…” ou algo parecido. Não deu nome aos bois. Mas na hora que veio trocar uma ideia comigo sobre o assunto não teve dificuldades para chamar o Lula de ladrão ou a Dilma de louca, imputando-lhes responsabilidade sobre o preço da gasolina em 2022. Para poupar minha beleza, parei de dar atenção e me debrucei sobre a janela que dava para uma bela paisagem. De costas, ainda consegui ouvi-lo cochichando em alto e bom som (como se fosse uma esquete dos Trapalhões) com o coitado de seu filho adolescente que o acompanhava na garupa: “Ele é petista”. O menino devia estar bastante entretido com seu smartphone e não deve ter entendido, pois seu progenitor teve que repetir a grave ofensa que desferiu sobre mim: “Ele é petista”.

Passado o mal-estar o momento, o Véio da Moto parecia bastante melindrado comigo. Segui dando bom dia, boa tarde ou boa noite quando cruzava com ele. Não ter tretado e sustentado uma polidez, na medida do possível, talvez tenha dado um bug na cabeça do mínion. Tanto que até pediu para que eu o seguisse no Instagram. Seu perfil na rede social registrava, entre outras passagens de sua peregrinação, uma foto em frente a uma loja da Havan. Óbvio que não segui.

O figura estava de moto. Eu sem condução própria. Isso faz uma baita diferença na hora de explorar a Chapada Diamantina. Para se chegar a alguns lugares é preciso pegar estrada, mesmo que a atividade final seja um trekking de longa distância (daqueles que duram mais do que um dia). No caso de mochileiros, às vezes a saída é ter que pagar um passeio. Mas também há atrativos no entorno de Lençóis. E adiante falo um pouco sobre os dois tipos.

Parque Municipal da Muritiba

Bem próximo ao centro da cidade é possível chegar a pé ao Parque Municipal da Muritiba. A área é uma Unidade de Conservação da Natureza, ou seja, uma área natural que, por sua relevância ecológica, paisagística ou histórica, é protegida por lei. É bem tranquilo se autoguiar lá dentro. Ouvi um guia comentar que eventualmente alguém se perde. Algo como uma vez ao ano. Na entrada principal da área, os visitantes são abordado por alguns guias oferecendo seu serviços. Mas a experiência acabaria sendo turística demais pro meu gosto. Eles te levam aos lugares óbvios e são especialistas em direção de fotografia. As imagens com certeza saem ótimas nas redes sociais. Mas minha ideia era outra. Segui explorado solo. O que não me impediu de conversar com grupos ou outros guias que cruzei pelo caminho.

Logo na entrada do parque saguis chamam a atenção dos visitantes. Às margens do Rio Lençóis pude observar diversas espécies animais, como um cobra d’água que assustou um casal que posava para foto na Cachoeirinha, um dos pontos turísticos. Calangos se vê aos montes e de diferentes espécies. Teiús, pelo tamanho, também podem assustar alguns desavisados. Todos os dias consegui ver grandes caranguejeiras pretas neste parque, além de tê-las avistado na área urbana. Aranhas do gênero Nephila fazem suas teias na mata. Pequenas e belas libélulas de cores azul ou vermelha também podem ser facilmente encontradas por ali. A região é um prato cheio para os amantes da observação de aves. Vi um suiriri (Tyrannus melancholicus) próximo às piscinas naturais do Serrano. Mais à frente consegui fotografar um caneleiro-preto (Pachyramphus polychopterus). Por ali fiquei sabendo que havia uma espécie endêmica de beija-flor que era bastante buscada por observadores de aves. Não a encontrei naquele momento, mas pude observar outra que não pude identificar, mas que poderia ser algum tipo de beija-flor-de-rabo-branco (há várias espécies parecidas). Em outro momento de silêncio e solidão fui cercado por uma família de gralhas-cancã (Cyanocorax cyanopogon) que me apresentaram a beleza e a variedade de sons que produzem com seu canto.

Gralha-cancã (Cyanocorax cyanopogon) / Crédito da foto: Paulo A. Muzio

A coloração da água que corre no Parque e na maioria dos lugares da região é marrom avermelhada, resultado do acúmulo de matéria orgânica em decomposição. Lembra Coca-cola. A área parece muito bem conservada. Não vi nenhum tipo de lixo jogado em nenhuma área deste parque. Um jovem guia com quem papeei comentou que eles constantemente fazem mutirão para deixar a área limpa.

Parque Nacional da Chapada Diamantina

Um dos passeios mais recomendados da região é o trekking no Vale do Pati, que fica no interior do Parque Nacional da Chapada Diamantina. O Parque possui 152 mil hectares e foi criado em 1985. É uma Unidade de Conservação de Proteção Integral, conforme a Lei que instituiu o Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC). O Plano de Manejo (documento técnico-científico que ordena o uso da UC) foi elaborado entre 2004 e 2007, aprovado em 2009 e teve alterações pontuais em 2017.

Parti para uma aventura de três dias de longas caminhadas, onde dormiríamos nas casas de nativos. Além de mim, o grupo foi formado por dois guias locais, um turista inglês de origem libanesa e seis israelenses.

Expedição rumo ao Vale do Pati /Crédito da foto: Paulo A. Muzio

As formações geológicas da Chapada Diamantina têm cerca de 1,8 bilhões de anos. Há 850 milhões haviam geleiras por lá. Há 6oo milhões a região era banhada pelo mar. A vegetação do Complexo da Chapada Diamantina é constituída por um mosaico de formações típicas de diferentes biomas, como Cerrado, Caatinga e Mata Atlântica. Há uma grande ocorrência de espécies endêmicas, ou seja, que só ocorrem ali e em nenhum outro lugar. A variedade de orquídeas é um dos grandes atrativos da região. Os orquidófilos piram. Mas cuidado, extrair orquídeas da natureza (entre outros produtos) é crime, conforme a Lei Federal nº 9.605/1998.

A gestão do Parque é feita pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).  Perguntei ao guia mais experiente da expedição (que já passa dos 60 anos, mas tem que seguir trabalhando duro para garantir o sustento em um país que não gosta de idosos) qual o motivo, na opinião dele, da área estar bem conservada. Ele atribuiu ao fato de ser um Parque Nacional. Perguntei quantos funcionários do ICMBio estavam lotados na área. “Nenhum”, respondeu. Contou que volta e meia aparecem cinco ou seis servidores pra fazerem seus trabalhos, mas que não há ninguém fixo. No site da UC temos a informação de que “Não há estruturas institucionais de apoio à visitação dentro do Parque Nacional, tais como guaritas ou centro de visitante”. Contou ainda que são os guias e os nativos que correm atrás de caçadores e que apagam incêndios.

Explorando o território

Às vésperas do trekking, o dono da agência de turismo tinha me informado que o grupo estava formado pelos seis israelenses e uma francesa e perguntou se estava tudo bem para mim. Respondi que sim. Achei que se não se falasse de política, dava para interagir numa boa. O fato é que o alerta não foi a toa. No dia seguinte a francesa já não apareceria.

A postura do grupo nesses três dias de caminhada que somaram mais de 40km foi simplesmente terrível. Tocava-se música pelo smartphone e cantava-se aos berros o tempo todo. No começo é até divertidinho ou engraçadinho… mas depois cansa. Foram três dias sem parar. Os guias começaram a ficar putos porque ninguém estava nem aí para aprender sobre a história, a geologia e a flora da região. Faltou a noção de grupo. Não havia preocupação e raramente se prestava alguma assistência ao companheiro de trilha que eventualmente precisasse. Na hora da comida, quem vacilasse ficava sem. É sintomático que um país colonizador forme jovens que não sabem dividir. Saber contemplar a natureza é saber respeitar o próximo. Está tudo conectado. Para quem não está acostumado com a acidez da minha escrita é preciso explicar que não se tratam de comentários xenofóbicos ou antissemitas. Até porque dos seis, era um ou outro que estimulava a bagunça e acabava comprometendo todo o grupo. Individualmente, havia dois ou três que talvez quisessem uma experiência diferente. De contemplação. De aprendizado. De imersão. De comunhão. Resguardados o respeito aos diferentes credos e origens, é importante mencionar que há governos autoritários pelo mundo e apenas parte de seus cidadãos reproduzem essa cultura de opressão e desrespeito. Outra parte se opõe. Além disso, como mencionado anteriormente, apliquei apenas uma metodologia do rolezinho para este relato. E sabemos o quanto o empirismo tem suas limitações. Ademais, o brasileiro médio viajante também costuma ser bem desrespeitoso com as pessoas e os lugares por onde passam. E nem todo brasileiro é reflexo de seu governo.

Infelizmente o estilo rave do passeio comprometeu a observação de animais. No máximo foi possível avistar umas aranhas d’água sobre as pedras nos rios. Nos poucos momentos de silêncio, quando diminui o passo e deixei o grupo barulhento à frente, pude observar belas aves como o cardeal-do-nordeste (Paroaria dominicana), as gralhas-cancã que novamente me cercaram para mais uma apresentação coral e o tão procurado beija-flor-de-gravata-vermelha (Augastes lumachella), que só ocorre na região.

Aprendendo com o turismo

A região ostenta uma infinidade de atrativos. Dada a limitação de tempo, tive que fazer outro passeio junto a uma agência para conseguir visitar uma maior quantidade de lugares durante meu último dia na cidade. Os guias conduzem de carro a cada uma das paradas, distantes de Lençóis e entre si. Até onde entendi, todas as paradas que menciono a seguir são cobradas no local, caso o visitante queira ir por conta própria. No meu caso, já estava incluso no valor pago à agência.

O dia estava bastante nublado e talvez até tenha caído uma fina garoa quando chegamos à cachoeira do Poço do Diabo. A beleza do local é logo ofuscada pela história contada pelo guia de que dali do alto eram jogados os escravos fujões pelo temido coronel Horácio de Matos. Pesquisando a história do coronel, é possível constatar que ele ainda era uma criança quando a escravidão foi abolida no Brasil. No entanto, se ainda nos dias de hoje há quem não respeite a legislação e dignidade humana mesmo aqui na maior metrópole do Brasil (tema brilhantemente tratado pelo filme de ficção 7 Prisioneiros, dirigido por Alexandre Moratto e estrelado por Rodrigo Santoro), o que dirá no sertão baiano no início do século XX. Apesar do tempo fechado e de eu estar cansado dos dias anteriores de trekking de longa distância com mochila pesada nas costas, resolvi mergulhar naquela água de coloração escura e passar por debaixo da queda d’água. Algumas braçadas e minha energia já estava esgotada. Fazia frio. E havia dor. Talvez também porque eu havia esquecido de tomar meu remédio para reumatismo.

Poço do Diabo / Crédito da Foto: Paulo A. Muzio

Perto dali, pude ser apresentado pessoalmente a uma espécie do cerrado que conhecia apenas na forma de pomada anti-inflamatória vendida na farmácia: a canela-de-velho (Miconia albicans), árvore que possui importante função ecológica, fornecendo alimento a diversas espécies de fauna. A planta também tem propriedade antioxidante. Pesquisando pela internet, vi que é possível encontrar o chá para comprar. Mas fiquem atentos às contra indicações.

Pegamos novamente a estrada a caminho da próxima parada: Gruta da Fumaça. Confesso que cochilei durante a breve viagem. Divididos em dois veículos, estávamos novamente em dois guias e oito turistas: um italiano que falava português, uma francesa que também falava português, outra francesa que não, um alemão e três israelenses. Uma pessoa do grupo estava resistente a entrar de máscara na gruta, para onde fomos conduzidos por um terceiro guia, funcionário do local. E duas pessoas fizeram uma certa algazarra dentro da caverna, deixando o guia, que não era lá dos mais polidos, um pouco irritado. E sobrou pra quem? Pro tradutor. Ou melhor, pro bobão que, diferentemente dos gringos, recebe seu salário em Reais, mas que pagou o mesmo preço que eles no passeio e ainda teve que trabalhar traduzindo as informações dos guias. Inclusive broncas. A certa altura larguei mão e deixei na conta da boa vontade do italiano.

Na saída da gruta a armadilha. Dito de outro modo, o almoço que não estava incluso. Custava R$ 40. Aliás, fazendo uma leve digressão, é preciso mencionar que comer em Lençóis é caro. É difícil encontrar um PF (prato-feito) a um preço honesto. Custei a achar e consegui um ótimo custo-benefício em um dos “carros de comida de rua” (não direi em inglês) que ficam localizados às margens do rio. Mas na saída da gruta estávamos longe de Lençóis e fomos comer em um restaurante rústico a poucos metros dali à beira da estrada. A comida era boa. Caseira. O preço só seria avisado depois que todos já tivessem se alimentado. O guia, macaco velho, disse pra eu traduzir pros gringos o quanto eles tinham que pagar. Dei o famoso migué (afinal  eu não estava recebendo para fazer esse trabalho constrangedor) e saí para o quintal do restaurante para observar aves. Em meio ás árvores e escutei o belo canto do corrupião (Icterus jamacaii), chamativo pássaro de cores preta e laranja o qual os nativos da região dão o nome de sofrer. Depois avistei outras aves as quais não pude identificar, mas que me tomaram tempo o suficiente para que eu fosse o último a pagar a conta e escapasse do ridículo papel, informalmente atribuído a mim, de ser o mensageiro da facada.

Novamente na estrada, a caminho do próximo atrativo, na comunidade Santa Rita, avistei três anus-pretos (Crotophaga ani) pousados sobre uma cerca. Logo chegamos na Fazenda Pratinha, um empreendimento rural com ares de clube ou resort. Ali passa o Rio Pratinha, que diferentemente dos outros locais antes visitados, apresenta coloração transparente devido à alta concentração de calcário, tal como acontece em Bonito, no Mato Grosso do Sul. Parte do rio corre subterraneamente conectando a Gruta da Pratinha e a Gruta Azul. Esta última, bastante semelhante à Gruta da Lagoa Azul sul mato-grossense.

Um dos clichês turísticos da Chapada Diamantina é assistir ao pôr-do-sol do alto do Morro do Pai Inácio. Essa era a derradeira parada do último dia de passeio. A área é administrada pela Prefeitura de Palmeiras e a vista é pitoresca. É possível observar um dos mais belos (e talvez o mais amplamente divulgado) cartões postais da Chapada. Logo ao lado, uma gigante antena de telefonia celular. Abaixo, a estrada cortando o pé do Morro e às suas margens algum estabelecimento comercial que não recordo se era posto de gasolina, restaurante ou hotel. Um dos donos da agência de turismo tinha até me recomendado a não fazer o passeio, já que eu tinha visitado o Pati que era muito mais bonito. Seu sócio havia contado que antes havia grande presença de vendedores ambulantes no local, mas que com as medidas de isolamento da pandemia a prefeitura conseguiu conter o acesso deles ao mirante. Lá no alto, o dia ainda estava um pouco nublado e não foi possível apreciar o ocaso.

O guia contou então a lenda que dá nome ao morro. De um escravo negro que se envolveu com a filha do coronel e a engravidou. O desfecho foi uma emboscada cinematográfica no topo do local, mas Inácio conseguiria fugir dos jagunços. Mesmo acreditado tratar de folclore, torci para que o final feliz fosse verdade. Difícil foi ter que fazer a tradução simultânea da história para os gringos. Mais uma vez, por mais divertido que tenha sido, paguei para trabalhar. Parece ser uma grande questão ali os guias não falarem inglês. Isso acaba sobrecarregando os turistas brasileiros e comprometendo a experiência. Fosse a exceção, estaria tudo bem. Mas é a regra. Por outro lado… malditos dos gringos que não aprendem nossa língua. Brincadeiras e acidezes a parte, a diversidade de pessoas com que se cruza na Chapada é uma experiência riquíssima.

Existe uma expressão popular que é uma resposta que damos quando somos perguntados se/para onde vamos/fomos viajar nas férias ou em algum feriado. Então respondemos que fomos/vamos para lençóis. É uma brincadeira com a linguagem, pois é um nome que se refere a diferentes localidades no Brasil (além da vila baiana temos Lençóis Paulista e Lençóis Maranhenses), mas a intenção é comunicarmos que não viajamos ou não viajaremos, pois ficamos ou ficaremos em casa, na cama, debaixo das cobertas. E o motivo de não viajar pode variar, sendo desde a falta de grana, a falta de tempo, ou mesmo um cansaço excessivo que peça esse descanso. Então, pela expressão popular, passar as férias em lençóis significa desfrutar desse tempo livre de maneira tranquila no aconchego do lar. E eis a beleza da complexidade da língua e do mundo que com ela tentamos descrever. Nessas férias fui pra Lençóis. Não descansei e nem fiquei em casa. Foi intenso e exaustivo. Para o corpo e a mente. Mas valeu.

Algum ponto da trilha do Vale do Pati onde os turistas posam para as fotos que irão para as redes sociais

 


Paulo Andreetto de Muzio é graduado em Relações Públicas (2005) pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo – ECA/USP. Especializou-se em Jornalismo Científico (2016) pelo Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo – Labjor, da Universidade de Campinas – Unicamp, e é mestre em Divulgação Científica e Cultural (2020), também pelo Labjor.

4 Comentários

  1. Adorei o relato. Vontade de visitar o lugar. Principalmente depois de ver suas fotos e ler o livro Torto Arado sobre as peripécias de crianças e a formação das comunidades quilombolas nessa região!

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