Ensinar a ler: um olhar para si mesmo

Ensinar a ler

Jorge Larrosa discute a educação e os atos de ensinar, a partir do filósofo Nietzsche. Ele defende que “ensinar a ler de outra forma é educar o homem por vir, o homem do futuro. Porém, ensinar a arte da leitura não é transmitir um método, um caminho a seguir, um conjunto de regras práticas mais ou menos gerais e obrigatórias a todos”.

Nesse sentido, a aprendizagem se dá não através de conceitos e práticas/protocolos, prontos, acabados. Não existe aprendizagem fora do pensamento e da reflexão. Isto é, não existem modos de ensinar aos estudantes sem que se leve em consideração em que aquilo que falamos se relaciona com suas vidas. Isto não seria para ditar regras, costumes e valores arraigados de nossa ciência e nossa sociedade. Pelo contrário, para que possamos oportunizar novas maneiras de olhar e agir – consigo e com a sociedade.

Assim, Larrosa dirá ainda que “a tarefa de formar um leitor é multiplicar suas perspectivas, abrir seus ouvidos, apurar seu olfato, educar seu gosto, sensibilizar seu tato, dar-lhe tempo, formar um caráter livre e intrépido… e fazer da leitura uma aventura. O essencial não é ter um método para ler bem. Mas saber ler, isso é: saber rir, saber dançar e saber jogar, saber interiorizar-se jovialmente por territórios inexplorados, saber produzir sentidos novos, múltiplos”. Finalizando, Larrosa dirá que “todos os livros estão para serem lidos e suas leituras possíveis são múltiplas e infinitas; o mundo está para ser lido de outras formas; nós mesmos ainda não fomos lidos” (Larrosa, 2002, p.26-27).

Por quê?

Qual a relevância disto, em nosso mundo contemporâneo? Ora, parece-me que continuamente uma das grandes questões que enfrentamos é a falta de tempo. A falta de tempo para ler, dedicadamente. Isto é, sem conectarmo-nos a nada mais além da linearidade das palavras – e de tudo o que elas podem nos possibilitar.

Da mesma maneira, a tarefa de ensinar estes modos de leitura de mundo torna-se, também, árduo. Assim, a instantaneidade da informação contrapõe-se com esta multiplicidade de sentidos que conseguimos abstrair das leituras que costumamos nos demorar. Há algumas cenas no filme Hannah Arendt, em que Arendt está em seu processo de escrita e interrompe tudo para deitar-se em um sofá (ou divã). Estas cenas do filme me intrigaram, pelos prazos apressados exigidos para a autora (que aparecem em cenas seguintes, com editores aos brados). Todavia, mesmo com prazos curtos, a cena teimosamente demorava-se apresentando Arendt deitada vislumbrando um aparente nada.

Que motivo tenho eu para evocar esta cena neste post? Acho deveras interessante o quanto estes momentos do filme foram representativos dos espaços de produção de sentidos, produção (efetivamente) da escrita – e também da leitura de mundo que a filósofa fazia. Isto é, era preciso tempo, era necessário interromper a ânsia dos apertados prazos para pensar.

Esta questão tornou-se (mais uma vez relevante) tendo em vista a leitura que fiz do texto de Peter Schulz Para quem os cientistas escrevemos? Este artigo é interessante por muitos motivos (que vocês, ávidos leitores, podem ir lá e conferir por si, claro…). Mas eu gostaria de destacar algo que remeteu a minha busca pelo ensino da escrita e leitura…

Sobre nosso próprio aprendizado

A ideia de ensinar a ler – e a escrever (como formadora de professores) – me fascina há algum tempo. Claro que isso não quer dizer que eu seja eficiente na tarefa. De qualquer modo, um trecho me fez estancar “precisamos aprender a escrever novos tipos de textos e acrescentá-los a nosso repertório”. afirmou Schulz.

Talvez um dos desafios contemporâneos, neste ato de ensinar a ler, é exatamente olharmos para nós mesmos como aprendentes e, mais do que isso, como pessoas que precisamos continuamente reavalizar e acrescer tais aprendizados em nosso repertório. Vorazes na intenção de aprender, mas respeitando o tempo deste aprendizado e suas multiplicidades necessárias…

Em suma, (retomando as palavras de Larrosa) aprender a ler é “saber interiorizar-se jovialmente por territórios inexplorados, saber produzir sentidos novos, múltiplos”. Demorar-se no ritmo das palavras, explorá-las e produzir, para si mesmo, sentidos. Conectar com o já sabido, modificando-o, produzindo novos conhecimentos.

Para saber mais:

Larrosa, Jorge. Nietzsche e Educação. Belo Horizonte: Autêntica, 2002.

Larrosa, Jorge (2002) Notas sobre a experiência e o saber da experiência. Revista Brasileira de Educação, n.19.

Schulz, Peter. Para quem cientistas escrevemos? Jornal da Unicamp. 15 MAR 2019

Hannah Arendt. Direção Margarethe von Trotta, Produção: Heimatfilm Gmbh. Alemanha, França, 2013.

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Sobre Ana Arnt 40 Artigos
Bióloga, Mestre e Doutora em Educação. Professora do Departamento de Genética, Evolução, Microbiologia e Imunologia, do Instituto de Biologia (DGEMI/IB) da UNICAMP e do Programa de Pós-Graduação em Ensino de Ciências e Matemática (PECIM). Pesquisa e da aula sobre História, Filosofia e Educação em Ciências, e é uma voraz interessada em cultura, poesia, fotografia, música, ficção científica e... ciência! ;-)

2 Comentários

  1. Oi Ana,
    puxa, obrigado pela costura com o Larrosa. “Uma empurrando/ a outra/ uma inquietando/ a outra apaixonando/ uma a outra/ interminavelmente.” Infelizmente adultos costumam achar que não vale para eles, que não vale para a ciência.

    abração! Peter

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