Mulheres na ciência: alguns números do Brasil.

(imagem retirada do banco de imagens pixabay)

Recentemente fui convidada para dois eventos, cujo tema era o lugar das mulheres na ciência. Foi um momento importante para eu agrupar alguns dados que tenho lido de forma dispersa e pensar com mais pesquisadoras sobre como a universidade e o meio acadêmico possibilita espaços de inserção para a mulher pesquisadora e/ou que está traçando esta trajetória para se tornar uma pesquisadora.

Sobre a ocupação dos espaços na academia

Quando olhamos os números, aparentemente, o Brasil não está mal no panorama mundial. Por exemplo, o relatório da Unesco, publicado em 2018, sobre Mulheres na Ciência, aponta que temos entre 45,1% e 55% de pesquisadoras mulheres (o número se refere a profissionais contratados). Além disso, outro dado significativo é que 49% das publicações científicas brasileiras tiveram, como primeira autoria, pesquisadoras entre 2011 e 2015. Isto representa um aumento incrível, quando comparamos aos 38% de publicações de mulheres, entre os anos de 1996 e 2000.

No entanto, uma das questões recorrentes é se este número maior de mulheres expressa igualdade de gêneros dentro da carreira acadêmica. Um artigo recente apresenta os dados relacionados não só à quantidade de mulheres produzindo ciência e à quantidade de artigos publicados, mas, também, à quantidade de mulheres em cargos hierárquicos dentro das instituições de pesquisa no país e, também, a distribuição de bolsas produtividade por área de atuação.

Por outro ângulo: será que estamos mesmo ocupando espaços?

Assim, um dos dados que apresenta-se interessante é o de que Academia Brasileira de Ciência apenas 14% das pessoas são mulheres. Sua distribuição nas áreas específicas é:

    • 8,9% Engenharias, Exatas e Ciências da Terra;
    • 20,4% nas Ciências da Vida;
    • 18,2% nas Humanidades e Ciências Sociais Aplicadas;

Outra questão específica deste artigo, que mostra como existe uma diferença significativa de gênero na ciência brasileira, é a distribuição de bolsas produtividade entre pesquisadores. A partir disso, a autora menciona a diferença significativa nesta distribuição.

Nas áreas exatas, engenharias e ciências da terra, por exemplo, 20,1% das bolsas produtividade são de mulheres. Já nas ciências da vida, mulheres têm 41,3% das bolsas. Nas humanidades e ciências sociais aplicadas, 49,7% das bolsas são de mulheres. Isto é, seguimos com menos mulheres – especialmente nas áreas chamadas “duras”.

E nos projetos?

Em projetos, também temos baixa representatividade de mulheres nas aprovações acima de 120 mil reais (20% em exatas, engenharias e ciências da Terra; 33,9% em ciências da vida; 40,3% nas humanidades e sociais aplicadas). Esta quantidade aumenta na faixa de valores menores que 30 mil reais (25,9%; 45,9%; 52,2%, respectivamente).

Estes números se vinculam a editais e análises em que o gênero é, sim, explícito. Ou seja, para analisar um projeto de pesquisa e validá-lo, ou para analisar a possibilidade de bolsa produtividade, se conhece o perfil dos pesquisadores, uma vez que é preciso acessar seu currículo lattes* para isso.

Ao passo que estamos aumentando em quantidade dentro do meio acadêmico e alcançando quase 50% das publicações nacionais (que são, via de regra, analisadas anonimamente), estes outros dados nos mostram que ainda há muito espaço a ser ocupado e, legitimamente, validado. Os números se apresentam díspares quando são acessados nossos gêneros como dado, o que indica que isto é uma variável importante a ser demarcada. Quero dizer, com isto, que o fato de sermos mulheres é, sim, um fato observado. Mesmo que de forma não declarada (e muitas vezes não completamente ciente).

Finalizando

Sem muita intenção de aprofundar na questão, estas duas mesas redondas que participei recentemente – uma na Semana da Química (Unicamp) e outra na Semana da Biologia (UFSCar) – apresentam algumas questões relevantes. Por um lado temos números que demonstram que, sim, mulheres ainda precisam ser avaliadas de forma mais igualitária dentro do meio acadêmico. Por outro lado, temos movimentos desde a graduação que já começam a demonstrar interesse pela questão.

O debate ocorrer dentro de semanas acadêmicas – bem como em outros espaços científicos que temos observado – demonstra que isto não tem sido mais invisibilizado e se torna fundamental tensionar os números e questioná-los sobre o que envolve estas disparidades. Tais estudos vem apontando que esta diferença não é ao acaso e que existe uma relação de gênero despontando como parte das análises. É fundamental que as mulheres e os homens percebam estas diferenças e tenham espaços para debater se este é o modo como gostaríamos de construir o conhecimento científico.

E é, de fato, se me permitem um apontamento pessoal, incrível ver discentes de graduação propondo este debate e participando ativamente destas questões.

*Currículo Lattes é o currículo estruturado e padronizado que se utiliza no Brasil, academicamente, na plataforma Lattes, do CNPq, cuja disponibilidade é acessível e aberta a qualquer pessoa, via internet.

Para saber mais

Valentova JV, Otta E, Silva ML, McElligott AG. Underrepresentation of women in the senior levels of Brazilian science. https://doi.org/10.7717/peerj.4000

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Bióloga, Mestre e Doutora em Educação. Professora do Instituto de Biologia da UNICAMP e do Programa de Pós-Graduação em Ensino de Ciências e Matemática (PECIM). Pesquisa e da aula sobre História, Filosofia e Educação em Ciências, e é uma voraz interessada em cultura, poesia, fotografia, música, ficção científica e... ciência! 😉

Sobre Ana Arnt 31 Artigos
Bióloga, Mestre e Doutora em Educação. Professora do Instituto de Biologia da UNICAMP e do Programa de Pós-Graduação em Ensino de Ciências e Matemática (PECIM). Pesquisa e da aula sobre História, Filosofia e Educação em Ciências, e é uma voraz interessada em cultura, poesia, fotografia, música, ficção científica e... ciência! ;-)

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