Preguiças marinhas nadadoras!

Até hoje não consegui atingir o nirvana do zoólogo praticante, ou seja, descobrir e descrever uma nova espécie. Mas tudo bem, culpa minha ter escolhido a ornitologia e não outros campos menos explorados da zoologia. Certa vez ouvi a confissão de um ex-ornitólogo e, atualmente, influente ictiólogo do MZUSP, de que ele havia se convertido à ictiologia pois caso quisesse poderia descrever tantas espécies novas de peixes que sobraria homenagem até para a sogra.

Embora n√£o tenha batizado nenhuma esp√©cie desconhecida, quase diariamente, de mato em mato e livro em livro, experimento em doses homeop√°ticas o prazer de se deparar com uma criatura inc√≥gnita. Arrisco-me a dizer que entre os prazeres do intelecto poucos s√£o capazes de concorrer com a sensa√ß√£o arrebatadora de se descobrir sobre a exist√™ncia de uma criatura que at√© ent√£o se ocultava na vegeta√ß√£o cerrada da humilde ignor√Ęncia.

Embora enebriante, como todo novo achado, descobrir um animal j√° descoberto t√™m tamb√©m um qu√™ de frustra√ß√£o indagada, algo do tipo “como eu n√£o sabia nada sobre isso?”. Assim me aconteceu com o extinto gliptodonte, um tatu de tamanho de um fusca, a rar√≠ssima doninha-amaz√īnica (Mustela africana), que apesar do ep√≠teto “africana” √© uma esp√©cie restrita a bacia amaz√īnica, e muitas outras criaturas incr√≠veis. Poucas destas descobertas, no entanto, me renderam tamanha surpresa quanto quando soube pela primeira vez da exist√™ncia dos Thalassocnus.

Recentemente paleontólogos brasileiros divulgaram a descoberta de um fóssil quase completo de uma extinta preguiça terrestre que viveu há míseros 11 mil anos atrás na atual região da Chapada Diamantina, interior da Bahia. Embora ainda fosse um indivíduo jovem, o exemplar de Ahytherium aureum baiano possuía mais de três metros de comprimento e estima-se que pesava cerca de 500 quilos.

Como se n√£o bastasse a majestade bestial das pregui√ßas-gigantes, os ossos de Ahytherium aureum revelaram uma faceta incr√≠vel de sua biologia. Sua cauda era um pouco achatada, lembrando a das atuais lontras, o que levou seus descobridores a sugerirem que ela fosse uma √≥tima nadadora. Pregui√ßas-terrestres-gigantes j√° s√£o dignas de figurarem em qualquer enredo √©pico fabuloso ao lado de criaturas como as gigantescas √°rvores andantes de “O Senhor dos An√©is” e aquele mega-cachorro de “A Hist√≥ria sem Fim”, o que dizer ent√£o de pregui√ßas-nadadoras?

Mas, o poder criativo despretensioso da evolu√ß√£o √© capaz de quase qualquer coisa. Imagine voc√™ um paleont√≥logo escavando f√≥sseis em dep√≥sitos marinhos na costa sul-peruana. Entre os f√≥sseis de conchas, peixes, le√Ķes-marinhos e baleias voc√™ se depara com v√°rios ossos de pregui√ßas-terrestre. Hip√≥tese n√ļmero 1, algu√©m colocou isso aqui e est√° tirando uma com a minha cara; hip√≥tese n√ļmero 2, estou precisando dormir mais; hip√≥tese n√ļmero 3, descobri uma pregui√ßa-marinha e vou publicar na Nature. Adivinhe qual hip√≥tese Muizon e MCDonald escolheram? L√° est√°, edi√ß√£o n√ļmero 375 da Nature, p√°g. 224: “An aquatic sloth from de Pliocene of Peru”. Neste artigo foi batizado Thalassocnus natans, traduzindo do grego: “thalassa” = mar, “socnus” = pregui√ßa e “natans” = nadadora, ou seja, pregui√ßa marinha nadadora.

Thalassocnus natans. Imagem de Bill Parsons retirada daqui.
Thalassocnus natans. Imagem de Bill Parsons retirada daqui.

As justificativas que corroboram o tratamento de Thalassocnus natans como um verdadeiro mam√≠fero marinho, v√£o muito al√©m do simples fato de seus f√≥sseis terem sido encontrados em sedimentos marinhos. Diversas caracter√≠sticas em seu esqueleto demonstram que esta criatura surreal possuia v√°rias adapta√ß√Ķes que permitiam que ele se sentisse completamente √† vontade na √°gua.

A mais evidente destas adapta√ß√Ķes √© que, ao contr√°rio de todas as suas parentes terrestres, Thalassocnus possui os membros anteriores mais compridos que os membros posteriores. Uma adapta√ß√£o encontrada tamb√©m em diversos grupos de animais aqu√°ticos atuais que utilizam as patas anteriores como potentes remos, como os peixes-boi e as focas.

Esqueleto de Thalassocnus natans em exposição no Museu de História Natural de Paris. Repare na diferença de tamanho entre os membros anteriores e posterios. Imagem retirada da Wikipedia
Esqueleto de Thalassocnus natans em exposição no Museu de História Natural de Paris. Repare na diferença de tamanho entre os membros anteriores e posterios. Imagem retirada da Wikipedia

Outras adapta√ß√Ķes not√°veis de Thalassocnus √† vida aqu√°tica incluem as v√©rtebras da cauda, similares √†s das lontras e castores, e caracter√≠sticas do cr√Ęnio e da mand√≠bula que est√£o relacionadas com a capacidade de morder e arrancar algas do fundo do mar. Durante o Plioceno, √©poca em que viveram as pregui√ßas-marinhas, a costa peruana foi um √°rido deserto e dentro deste contexto n√£o √© dif√≠cil conceber que algas marinhas eram uma das poucas fontes de alimentos dispon√≠veis para um herb√≠voro de grande porte.

√Č muito prov√°vel que em um ambiente des√©rtico as algas marinhas funcionaram como verdadeiras sereias gastron√īmicas, estimulando os ancestrais do Thalassocnus a se lan√ßarem ao mar. Outra evid√™ncia que as pregui√ßas marinhas se alimentavam basicamente de algas pode ser encontrada nos seus dentes. Al√©m de apresentarem uma morfologia diferente de suas parentes terrestres, os dentes de Thalassocnus apresentam in√ļmeras marcas de desgaste causadas pela abras√£o dos dentes com a areia da praia. Se voc√™ j√° tentou comer aquele queijo-coalho na beira da praia que a peste do seu sobrinho meteu a m√£o cheia de areia, voc√™ ent√£o j√° experimentou algo parecido com os h√°bitos alimentares das pregui√ßas-marinhas.

Os representantes da família dos atuais peixes-bois, e outros grupos de animais aquáticos extintos, possuem os ossos muito mais espessos e pesados que o normal. Esta característica é conhecida como paquiostose e é uma adaptação que torna esses animais mais pesados, permitindo que eles afundem e se alimentem das algas no leito marinho. As preguiças marinhas não possuíam tal adaptação e o mais provável é que utilizassem suas longas garras para se agarrarem nas algas no fundo do mar semelhante ao que fazem as iguanas-marinhas das Ilhas Galápagos.

Iguana-marinha (Amblyrhynchus cristatus) das Ilhas Gal√°pagos. Repare nas unhas grandes utilizadas para se agarrar nas pedras onde nascem as algas das quais se alimenta. Imagem retirada da Wikipedia.

Desde a descrição de Thalassocnus natans, em 1995, quatro outras espécies de preguiças marinhas foram desenterradas na mesma formação da costa peruana. O mais interessante, no entanto, é que cada uma destas espécies viveu em um determinado período de tempo entre o Mioceono e o Plioceno e que seus fósseis demonstram uma transição incrível entre a vida terrestre e marinha. O desgaste causado nos dentes pela areia, por exemplo, diminuiu gradativamente entre as espécies mais antigas e as mais recentes, demonstrando que as preguiças marinhas estavam buscando seu alimento cada vez mais fundo e não mais se alimentando de algas trazidas pela maré.

Mandíbulas de cinco espécies de Thalassocnus, a esquerda a mais antinga a direita a mais jovem. Note o aumento progressivo da ponta da mandíbula, uma adaptação relacionada com o desenvolvimento de lábios grandes semelhantes aos dos peixes-boi que ajudam na hora de se alimentar de plantas aquáticas.
Mandíbulas de cinco espécies de Thalassocnus, a esquerda a mais antinga a direita a mais jovem. Note o aumento progressivo da ponta da mandíbula, uma adaptação relacionada com o desenvolvimento de lábios grandes semelhantes aos dos peixes-boi que ajudam na hora de se alimentar de plantas aquáticas.

√Č bastante poss√≠vel que Thalassocnus yuacensis, a esp√©cie mais recente de pegui√ßa-marinha, tenha sido t√£o adaptada √† vida aqu√°tica quanto os atuais pinipedes. No entanto, h√° cerca de 1,5 milh√Ķes de anos atr√°s as pregui√ßas-marinhas se extinguiram. Talvez a distribui√ß√£o aparentemente restrita tenha favorecido a extin√ß√£o por alguma doen√ßa, ou mudan√ßas clim√°ticas severas podem ter afetado as algas que eram seu principal alimento. Extintas ou n√£o, criaturas fabulosas como as pregui√ßas-marinhas est√£o longe de ser raridade e poder aprender um pouco mais sobre estes animais incr√≠veis √© um √≥timo motivo para celebrarmos a ignor√Ęncia.

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