Bichos do Brasil: Atretochoana eiselti

Atretochoana eiselti, mas pode chamar de bicho-feio-da-p****. Foto por Juliano Tupan.

As cecílias são os mais esquecidos dos vertebrados. A maioria das cerca de 200 espécies deste estranho grupo, de existência absolutamente desconhecida pela maioria dos seres humanos, se assemelha superficialmente muito mais a minhocas do que a outros vertebrados. Pequenos, sem membros, alongados e muitas vezes fossoriais, esses animais constituem a ordem Gymnophiona. Ao lado dos mais populares anuros (sapos, rãs e pererecas) e salamandras, formam a classe Amphibia.

Uma esp√©cie de gimnofiona era para mim um dos maiores s√≠mbolos do quanto o Brasil ainda desconhece sua fauna. Essa esp√©cie, Atretochoana eiselti, foi descrita em 1968 com base em um √ļnico e antigo exemplar depositado no museu de hist√≥ria natural de Viena.¬† Trata-se da maior cec√≠lia do mundo, com quase um metro de comprimento e at√© dez cent√≠metros de circunfer√™ncia.

O mais surpreendente, no entanto, √© que a Atretochoana simplesmente n√£o possui pulm√Ķes. Essa caracter√≠stica n√£o √© √ļnica entre os tetr√°podes: pulm√Ķes tamb√©m est√£o ausentes muitas em muitas esp√©cies de salamandras (inclusive no √ļnico g√™nero que ocorre no Brasil, Bolitoglossa), mas estas t√™m no m√°ximo poucos cent√≠metros de comprimento, fazendo da Atretochoana n√£o s√≥ a maior cec√≠lia mas tamb√©m, de longe, o maior tetr√°pode sem pulm√£o conhecido.

O frustrante √© que esse esp√©cime do museu de Viena, possivelmente coletado pelo naturalista austr√≠aco Johann Natterer em suas viagens pelo Brasil no in√≠cio do s√©culo 19, n√£o possui qualquer informa√ß√£o associada, exceto que prov√©m da Am√©rica do Sul. Em 1998, um segundo exemplar foi descoberto, na cole√ß√£o da Universidade de Bras√≠lia (UnB), mas sem quaisquer informa√ß√Ķes sobre a localidade de coleta. A Atretochoana possui uma morfologia consistente com h√°bitos aqu√°ticos, e devido √† aus√™ncia de pulm√Ķes e a seu grande tamanho, especulou-se que viveria em riachos frios e com corredeiras do Brasil central, condi√ß√Ķes em que a √°gua √© bastante oxigenada, favorecendo a respira√ß√£o cut√Ęnea.

Portanto essa era a absurda situa√ß√£o at√© 2011: a maior gimnofiona do planeta, o maior tetr√°pode apulmonado do planeta, um animal enorme de quase um metro de comprimento, e pod√≠amos apenas especular sobre qual seria seu h√°bitat e at√© distribui√ß√£o geogr√°fica! Quem sabe os dois √ļnicos exemplares coletados seriam para sempre os √ļltimos e √ļnicos testemunhos de uma esp√©cie que j√° se fora…

O mistério da Atretochoana começou a ser finalmente resolvido em 2011, quando herpetólogos do Museu Paraense Emílio Goeldi, em Belém (PA), receberam fotos de um grande animal capturado num matapi, uma armadilha para captura de camarão colocada em águas rasas. O animal não foi capturado, mas com base nas fotografias os cientistas o identificaram como um exemplar de Atretochoana eiselti. Surpreendentemente, as fotografias não foram realizadas num riacho frio e rápido do Brasil central, mas sim numa praia na ilha de Mosqueiro, logo ao norte de Belém, no estuário do rio Amazonas.

A Atretochoana em comparação com uma cecília de tamanho mais usual para a ordem (Boulengerula niedeni). Fotos, respectivamente, de Hogmooed et al. e daqui

Pouco mais de um m√™s depois, os mesmos herpet√≥logos receberam novas fotos de Atretochoana, e desta vez exemplares foram coletados. A coleta ocorreu a 2500 km de Bel√©m, numa piscina formada no leito seco do rio Madeira dias ap√≥s o represamento do rio para a constru√ß√£o de hidroel√©trica de Santo Ant√īnio, em Rond√īnia. Subsequentemente, os herpet√≥logos do Museu Goeldi conseguiram obter esp√©cimes tamb√©m da regi√£o da ilha de Mosqueiro, possibilitando a publica√ß√£o das primeiras informa√ß√Ķes sobre a esp√©cie em seu ambiente natural e a an√°lise de esp√©cimes rec√©m-coletados. Esse estudo foi publicado no Boletim do Museu Paraense Em√≠lio Goeldi por Marinus Hoogmoed, Adriano Maciel e Juliano Coragem, e dele tiro todas as informa√ß√Ķes desse post.

A primeira conclus√£o permitida pela redescoberta √© que, al√©m de j√° deter os pr√™mios de maior cec√≠lia e maior tetr√°pode sem pulm√Ķes, a Atretochoana √© s√©ria concorrente ao t√≠tulo de animal mais nojento do planeta. Cinza, lisa e comprida, n√£o d√° para saber se parece mais uma sanguessuga anabolizada ou uma cobra deformada… E para piorar, dependendo do √Ęngulo, ainda tem um leve aspecto f√°lico, o que levou parte da m√≠dia a apelida-la de ‚Äúpenis snake‚ÄĚ… (Falando nesse assunto, as gimnofionas s√£o os √ļnicos anf√≠bios que possuem um √≥rg√£o copulat√≥rio especializado, chamado falodeu. Aposto que essa informa√ß√£o mudou sua vida, heim?)

A segunda conclus√£o √© que as especula√ß√Ķes sobre seu h√°bitat estavam totalmente erradas. Ambas as localidade conhecidas s√£o de √°guas quentes e turvas. Na regi√£o do rio Madeira em que foi coletada, ainda h√° v√°rias corredeiras, que aumentam a oxigena√ß√£o da √°gua, mas no estu√°rio do Amazonas as √°guas s√£o lentas. De modo geral, n√£o √© um ambiente em que se esperaria encontrar um animal que depende de respira√ß√£o somente atrav√©s da pele.

Os capilares sangu√≠neos da Atretochoana s√£o muito pr√≥ximos da pele, confirmando que ela muito provavelmente realiza respira√ß√£o cut√Ęnea. No entanto, devido a seu grande tamanho corporal, muitas vezes maior que outros tetr√°podes apulmonados, deve haver outras superf√≠cies de troca gasosa. Hoogmoed e seus colegas especulam que essa respira√ß√£o complementar pode ocorrer na cavidade bucofar√≠ngea e n√£o excluem a possibilidade de respira√ß√£o intestinal ou at√© cloacal, como ocorre em algumas tartarugas (e aumentando as chances da Atretochoana no concurso de animal mais repugnante do mundo).

Vista em close da cara (?) de uma Atretochoana. Figura modificada de Hoogmooed et al.

A presen√ßa da Atretochoana em duas localidades t√£o distantes sugere que ela deve ser amplamente distribu√≠da (ainda que talvez rara) na Amaz√īnia brasileira e que seu desaparecimento por tantos anos foi devido simplesmente √† falta de procurar no lugar certo. Seu mist√©rio come√ßou a ser desvendado, mas muito ainda resta para se descobrir sobre esse peculiar animal. A maior d√ļvida √© fisiol√≥gica (como respira um animal deste tamanho, sem pulm√Ķes e em √°guas n√£o particularmente ricas em oxig√™nio?), mas virtualmente nada se sabe ainda sobre sua hist√≥ria natural, h√°bitos e rela√ß√Ķes filogen√©ticas.

Como escreveram seus redescobridores: ‚ÄúAinda temos um longo caminho a percorrer antes de considerar esta esp√©cie ‚Äėconhecida‚Äô‚ÄĚ. E, pensando assim, quantas esp√©cies ser√° que podemos dizer que s√£o realmente conhecidas?

Bichos do Brasil: urutaus e m√£es-da-lua

 

Uma m√£e-da-lua (Nyctibius griseus) mostrando todo seu charme. Foto por Carlos Gussoni no site Wikiaves.

O nome popular j√° diz muito sobre essas aves: ‚Äúurutau‚ÄĚ vem do guarani guyra (ave) e tau (fantasma). Tratam-se dos membros da fam√≠lia Nyctibiidae, conhecidos como urutaus ou m√£es-da-lua, um dos grupos mais fascinantes (e bizarros) de aves brasileiras. Essa pequena fam√≠lia inclui sete esp√©cies de aves noturnas, cinco das quais ocorrem no Brasil. Todas s√£o inclu√≠das no g√™nero Nyctibius e exclusivas dos neotr√≥picos (regi√£o biogeogr√°fica que inclui a Am√©rica do Sul, Central, partes do M√©xico e do extremo sul dos Estados Unidos).

Muita gente chama os urutaus de feios, mas eu prefiro dizer que eles s√£o apenas estranhos. Os membros dessa fam√≠lia t√™m uma cabe√ßa enorme e a boca descomunal, mas o bico √© min√ļsculo. E ainda por cima seus enormes olhos s√£o esbugalhados e amarelos. As p√°lpebras possuem uma engenhosa adapta√ß√£o: duas pequenas incis√Ķes que permitem √† ave enxergar mesmo com o olho fechado.

A plumagem √© cinza ou amarronzada. Essas cores, em conjun√ß√£o com o h√°bito de pousar em postura ereta na ponta de galhos verticais, conferem aos urutaus uma das melhores camuflagens dentre todas as aves do mundo. Essa postura √© assumida at√© mesmo pelos filhotes mal sa√≠dos do ovo. Podem ter seus poleiros de descanso diurno em mour√Ķes de cerca ou outros troncos totalmente expostos, em plena luz do dia, tal √© a excel√™ncia de sua camuflagem. Com certa freq√ľ√™ncia s√£o surpreendidos nesses poleiros, e, de t√£o estranhos que s√£o, acabam virando at√© not√≠cia de jornal, como foi o caso at√© mesmo em plena capital paulista.

Uma m√£e-da-lua em sua postura de camuflagem. Observe os entalhes na margem da p√°lpebra que permitem que o animal enxergue mesmo o com os olhos fechados. Foto por Ricardo Q. T. Rodrigues no site Wikiaves.

Como se esses h√°bitos cr√≠pticos j√° n√£o bastassem para dar um ar fantasmag√≥rico aos urutaus, suas vocaliza√ß√Ķes podem ser ainda mais estranhas. Variam desde o melanc√≥lico lamento da m√£e-da-lua (Nyctbius griseus) – citado diversas vezes por Guimar√£es Rosa em seu Grande Sert√£o: Veredas – at√© o aterrorizante berro da m√£e-da-lua-gigante (Nyctibius grandis). Imagine o que os primeiros europeus a chegar a nossas terras n√£o devem ter pensado ao ouvir essas vozes sinistras ecoando na noite…

Tudo isso levou o urutau a ser figura popular no folclore brasileiro. Uma das hist√≥rias mais difundidas conta que a m√£e-da-lua seria uma jovem que perdeu seu amor. Era uma menina do sert√£o muito feia, mas muito inteligente. Certa noite, encontrou um belo pr√≠ncipe nas redondezas e conseguiu impression√°-lo com sua intelig√™ncia. Quando o pr√≠ncipe estava prestes a pedi-la em casamento, a lua cheia surgiu por detr√°s das montanhas, iluminando o rosto da jovem. Assustado com sua fei√ļra, o pr√≠ncipe fugiu para nunca mais voltar. Desolada, a garota procurou uma feiticeira e pediu para ser transformada em uma ave, para buscar o pr√≠ncipe onde quer que ele estivesse. A feiticeira consentiu, e assim nasceu a m√£e-da-lua. No entanto, mesmo ap√≥s longa procura, a garota em forma de ave n√£o conseguiu encontrar o pr√≠ncipe. Voltou √† feiticeira e pediu para ser transformada de volta em gente, mas isso estava fora dos poderes da bruxa. Desde ent√£o, a garota vaga pela noite como uma ave feia e triste, e sempre que aparece a lua, solta seu pio melanc√≥lico ‚Äúfoi, foi, foi…‚ÄĚ, lembrando do pr√≠ncipe que a deixou.

Uma mãe-da-lua gigante (Nyctibius grandis), a maior espécie da família e dona de aterrorizante vocalização. Foto por Celuta Machado.

Voltando agora ao aspecto mais cient√≠fico, a fam√≠lia Nyctibiidae √© parte da ordem Caprimulgiformes, que inclui outras aves noturnas, como os igualmente bizarros ‚Äúfrogmouths‚ÄĚ (fam√≠lia Podargidae) da √Āsia e Oceania e os mais familiares bacuraus e curiangos (Caprimulgidae). Suas caracter√≠sticas √ļnicas, no entanto, e a exist√™ncia de um urutau f√≥ssil datado de 25 milh√Ķes de anos (Euronyctibius kurochnikii) n√£o deixam d√ļvidas que se trata de um grupo muito antigo e distinto. Este f√≥ssil prov√©m da Fran√ßa, sugerindo que a fam√≠lia j√° teve uma distribui√ß√£o bem mais ampla que a atual. A pr√≥pria separa√ß√£o entre as esp√©cies da fam√≠lia aparentemente √© bastante antiga, j√° que, apesar de sua morfologia externa bastante homog√™nea, possuem enorme diverg√™ncia gen√©tica e diversas diferen√ßas no esqueleto, sugerindo que possam no futuro ser separados em g√™neros distintos.

A fam√≠lia dos urutaus guarda ainda uma das esp√©cies de aves brasileiras ‚Äúperdidas e achadas‚ÄĚ nas √ļltimas d√©cadas: o urutau-de-asa-branca (Nyctibius leucopterus), que ficou incr√≠veis 168 anos desaparecido para a ci√™ncia. Essa esp√©cie foi descoberta em 1821 no litoral da Bahia pelo naturalista Maximiliano de Wied-Neuwied. Desde sua descri√ß√£o n√£o se teve mais not√≠cias dela at√© 1989, quando ela foi reencontrada nos arredores de Manaus, em plena Amaz√īnia, a mais de 2500 km do litoral da Bahia. Os h√°bitos cr√≠pticos dos urutaus certamente contribu√≠ram para essa esp√©cie passar tanto tempo sumida. Mas, felizmente, quando ocorreu essa redescoberta a vocaliza√ß√£o do urutau-de-asa-branca (um l√≠mpido assobio), at√© ent√£o desconhecida, p√īde ser gravada. Munidos dessa grava√ß√£o, ornit√≥logos utilizando a t√©cnica do playback (em que aves, altamente territoriais, s√£o atra√≠das pela reprodu√ß√£o do canto de sua pr√≥pria esp√©cie) localizaram a esp√©cie em diversas localidades amaz√īnicas, do Peru √†s Guianas, e, em 2003, de novo no litoral da Bahia.

O raro urutau-de-asa-branca (Nyctibius leucopterus). Foto por Andrew Whittaker.

Para saber mais: meu amigo e especialista em urutaus e bacuraus Thiago V. V. Costa estudou a anatomia dos urutaus. Seu trabalho pode ser conferido em Costa & Donatelli (2009). Cestari et al. (2011) estudaram o cuidado parental de Nyctibius griseus. O artigo inclui uma interessante foto do filhote j√° em posi√ß√£o ereta no ‚Äúninho‚ÄĚ –¬† se √© que podemos chamar assim. Sobre as redescobertas de N. leucopterus, confira Cohn-Haft (1993) e Whitney et al. (2003). Para uma introdu√ß√£o popular a esses bichos bizarros, veja o texto de Fernando Straube na revista Atualidades Ornitol√≥gicas: Straube (2004).

Resgates de fauna e suas verdades ocultas

por Rafael Marcondes, Luciano Moreira Lima & Guilherme Garbino

Recentemente foi amplamente noticiado a morte em massa de animais silvestres afogados devido ao enchimento da represa da Usina Hidrel√©trica de Santo Ant√īnio, que est√° sendo constru√≠da no Rio Madeira, pr√≥ximo √† cidade de Porto Velho – RO. De acordo com uma pessoa que trabalhou nas atividades de¬† resgate de fauna durante o enchimento do lago da usina, o resgate foi ineficaz e houve um verdadeiro exterm√≠nio de animais na regi√£o. Antas, tatus, pacas, cotias e diversos outros bichos se afogaram, morreram e apodreceram nas √°guas do Madeira. O cons√≥rcio Santo Ant√īnio Energia, respons√°vel pela constru√ß√£o da usina respondeu que realmente ocorreram mortes, mas elas teriam sido m√≠seros “1,8%‚ÄĚ do total de animais resgatados, 25.517, e que desses, 97,7% haviam sido devolvidos “saud√°veis” a natureza.

Um dos milh√Ķes de animais afogados pelo enchimento do lago da Usina Hidrel√©trica de Santo Ant√īnio, Rio Madeira, Rond√īnia. Fonte - aqui -

Um pequeno exerc√≠cio matem√°tico revela uma verdade oculta e macabra por traz s√£o desses n√ļmeros. Vamos raciocinar um pouco… Uma esp√©cie t√≠pica de ave passeriforme possui uma densidade populacional de 1 casal a cada 5 hectares, ou 1 indiv√≠duo a cada 2,5 hectares (Terborgh et al. 1990). Segundo a pr√≥pria Santo Ant√īnio Energia, a √°rea a ser alagada √© de 16.400 hectares. Essa √°rea comporta, portanto, cerca de 6.560 indiv√≠duos de uma esp√©cie t√≠pica de p√°ssaro. Numa estimativa, conservadora, 200 esp√©cies de passeriformes ocorrem na regi√£o do alto Rio Madeira. Multiplicando 6.560 por 200, chegamos a outra estimativa, tamb√©m conservadora, de mais de 1 milh√£o de p√°ssaros na √°rea a ser inundada! Apenas de aves passeriformes! N√£o estamos contando as demais aves, nem r√©pteis, anf√≠bios, mam√≠feros, borboletas e a m√≠riade de outros invertebrados. Se os cont√°ssemos, facilmente a conta chegaria a bilh√Ķes de animais. Nesse contexto, a afirma√ß√£o da empresa de que teriam sido 459, ou melhor, 459,306 para ser mais exato, os animais mortos pelo alagamento dispensa mais coment√°rios.

Usina Hidrel√©trica de Santo Ant√īnio, Rio Madeira, Rond√īnia, ainda em fase de constru√ß√£o. Com as obras completamente conclu√≠das mais de 16.000 hectares de florestas estar√£o para sempre submersos.

Vamos deixar um pouco de lado os infortunados que n√£o conseguiram embarcar na Arca de No√© e nos concentrar em analisar o destino desses quase 25 mil animais resgatados e devolvidos “saud√°veis” a natureza. Um √≥timo ponto de partida para nos enveredarmos nessa quest√£o √© um elucidativo artigo do Professor Marcos Rodrigues, da UFMG, publicado em 2006 na revista Natureza & Conserva√ß√£o. Nessa publica√ß√£o o autor levanta uma s√©rie de quest√Ķes sobre o destino dos animais realocados, compartilhadas abaixo.

O objetivo declarado dos resgates de fauna é salvar animais que de outra maneira se afogariam. Para isso, equipes de biólogos e veterinários capturam animais, principalmente vertebrados, durante o enchimento da represa. Os animais capturados passam um breve período em centros de reabilitação e em seguida são liberados em áreas que, teoricamente, possuem características semelhantes àquelas de onde foram retirados, mas onde, obviamente, não haverá alagamento.

Embora l√≥gico a primeira vista, esse procedimento parece ignorar o fato que muitas das esp√©cies inclu√≠das nesse bolo s√£o territorialistas. Nesses casos, cada indiv√≠duo, casal ou bando, dependendo da esp√©cie, defende uma √°rea da floresta (ou cerrado, caatinga, etc.), mantendo um territ√≥rio geralmente com fronteiras muito bem delimitadas. As vantagens do animal manter um territ√≥rio est√£o relacionadas principalmente com competi√ß√£o por recursos, incluindo alimento, abrigo e parceiros reprodutivos. Por isso, muitas esp√©cies defendem exaustivamente seus territ√≥rios, n√£o tolerando indiv√≠duos da mesma, ou, por vezes, at√© de outras esp√©cies. Em um ecossistema em equil√≠brio, geralmente a maior parte do espa√ßo est√° ocupada por territ√≥rios de uma dada esp√©cie, imediatamente onde termina o territ√≥rio de um indiv√≠duo, j√° come√ßa o de outro. √Āreas “desocupadas” geralmente n√£o apresentam recursos necess√°rios para aquela esp√©cie.

O leitor provavelmente j√° entendeu onde acabaremos chegando. Ora pois, os animais resgatados s√£o soltos em √°reas onde geralmente n√£o h√° territ√≥rios vagos, o que, consequentemente, resultar√° em uma superpopula√ß√£o local da esp√©cie. O que acontecer√° ent√£o com esses indiv√≠duos? As op√ß√Ķes n√£o s√£o muitas e, possivelmente, eles tentar√£o tomar o territ√≥rio de um indiv√≠duo j√° estabelecido. No entanto, as chances de sucesso s√£o baixas, pois o rec√©m-chegado, al√©m de n√£o conhecer o novo local, provavelmente estar√° em m√°-forma e estressado, ap√≥s fugir da inunda√ß√£o, ser mantido em gaiolas, transportado etc., diminuindo ainda mais suas chances.

Caso n√£o morra por motivos resultantes de disputas territoriais, o “invasor” poder√° tornar-se um ‚Äúsat√©lite‚ÄĚ: indiv√≠duos que vagam em busca de um territ√≥rio desocupado. As chances de sobreviv√™ncia de um sat√©lite, no entanto, s√£o baixas, pois ele tem menor acesso a recursos e constantemente tem que se envolver em disputas com indiv√≠duos cujos territ√≥rios ele invade. Al√©m disso, quanto maior o n√ļmero de sat√©lites, mais tempo os indiv√≠duos territoriais tem que passar se defendendo, diminuindo assim o tempo dedicado a atividades como alimenta√ß√£o e reprodu√ß√£o. Ou seja, a introdu√ß√£o dos indiv√≠duos translocados pode impactar seriamente as popula√ß√Ķes naturais j√° estabelecidas

Assim, fica claro que resgates de fauna s√£o muito pouco efetivos frente ao n√ļmero de animais afetados no alagamento causado por uma usina hidrel√©trica de grandes propor√ß√Ķes, ou pior, podem funcionar como um ‚Äútiro no p√©‚ÄĚ. No entanto, √© uma atividade com grande repercuss√£o na m√≠dia (quem nunca viu na televis√£o cenas de animais sendo resgatados por helic√≥pteros e depois saindo de gaiolas para a ‚Äúliberdade‚ÄĚ da floresta?) e popular frente √† opini√£o p√ļblica, que acredita que os animais est√£o realmente sendo ‚Äúsalvos‚ÄĚ e ignoram que outros centenas de milh√Ķes foram, literalmente, por √°gua abaixo ou sentenciados a vagar sem rumo nem dire√ß√£o pela floresta tal qual refugiados de um verdadeiro massacre. Problema? Nenhum… Afinal, o que os olhos n√£o veem o cora√ß√£o n√£o sente.

Post scriptum: Reproduzo aqui um pertinente comentário sobre o texto acima feito no FaceBook por Vitor de Queiroz Piacentini, o qual lança luz sobre mais um grave problema associado a resgates de fauna e não abordado diretamente no nosso texto.

O texto t√° muito bom, e poderia ir at√© mais longe: os resgates em rios divisores de fauna (= esp√©cies ou subesp√©cies aparentadas substituindo-se em margens opostas dos rios) simplesmente ignoram o papel biogeogr√°fico desses rios. O bicho-pregui√ßa da margem direita t√° h√° 694.750 anos sem contato com a popula√ß√£o da margem esquerda? N√£o faz mal, solta tudo no mesmo buraco! Danem-se os padr√Ķes filogeogr√°ficos que a evolu√ß√£o levou anos construindo (os n√ļmeros do exemplo s√£o hipot√©ticos, mas sei de fonte segura que mais de 200 pregui√ßas de uma margem foram soltas na outra!)

O que os olhos n√£o veem...

Fontes:

Rodrigues, M. 2006. Hidrel√©tricas, Ecologia Comportamental, Resgate de Fauna: uma Fal√°cia. Natureza & Conserva√ß√£o, vol. 4, n. 1, p. 29-38. (A maior parte das informa√ß√Ķes, racioc√≠nio e conclus√Ķes desse post foi adaptada deste excelente artigo.)

Terborgh, J. et al. 1990. Structure and organization of an Amazonian forest bird community. Ecological Monographs, vol. 60, p. 213-238.

Tinha um jo√£o-porca no meio do caminho…

por Luciano Moreira Lima

Poucos lugares podem ser tão produtivos para o ornitólogo ou observador de aves quanto pequenas estradas que se embrenham floresta a dentro, especialmente as abandonadas. Quando comparadas as estreitas e escuras trilhas, o chão geralmente mais limpo e o campo de visão expandido tornam o caminhar nesses locais mais silencioso e atento, em horários propícios a cada dez passos se topa com um ou outro ser emplumado.

Para aqueles com equipamento fotográfico a tiracolo a situação é ainda mais proveitosa. A luz, sempre escassa no sub-bosque sombrio da mata, é mais abundante próximo as bordas permitindo uma abertura mais fechada e um ISO mais baixo, resultando em imagens mais nítidas e com menos ruído, o que pode fazer toda diferença na hora de um bom click.

J√° era meio de tarde e a passarada meio quieta permitiu que algumas borboletas e lib√©lulas diminu√≠ssem meu passo em uma caminhada por uma estrada abandonada nas proximidades do centro de visitantes no Parque Nacional do Itatiaia. Depois de alguns clicks retomei o curso e alguns passos a frente l√° estava o amigo Bruno Renn√≥ com o olho atento pra dentro do mato. Dava dois passos para direita, dois para esquerda, botava o olho no visor da c√Ęmera e assim que me viu pelo canto do olho acenou para que eu me aproximasse em sil√™ncio.

Repare no sorriso. Odonata, Parque Nacional do Itatiaia - RJ, (c) Luciano Moreira Lima. Caso voc√™ saiba deixo nos coment√°rios sugest√Ķes sobre a identifica√ß√£o do g√™nero ou esp√©cie. Canon 300mm f/4 + extender 1.4x, ISO 600, f/9, 1/125, flash de preenchimento.

Lepidoptera, Parque Nacional do Itatiaia - RJ, (c) Luciano Moreira Lima. Sugest√Ķes sobre a identifica√ß√£o do g√™nero ou esp√©cie s√£o bem vindas, deixe nos coment√°rios. Canon 300mm f/4 + extender 1.4x, ISO 1600, f/8, 1/160, flash de preenchimento.

Repare nos olhos azuis estilo Ana Paula Arósio, clique na imagem para ver ampliada. Lepidoptera, Parque Nacional do Itatiaia - RJ, (c) Luciano Moreira Lima. Canon 300mm f/4 + extender 1.4x, ISO 800, f/9, 1/80, flash de preenchimento.

Perguntei curioso ainda a certa dist√Ęncia:

– Que t√™m a√≠ Bruno Carlos? –

Me respondeu com o olho grudado no visor da c√Ęmera enquanto mirava pra dentro da mata:

– Chega a√≠! T√™m um Lochmias “dando mole” –

Para aqueles que ainda n√£o foram apresentados, Lochmias nematura, √© o √ļnico representante do seu g√™nero e um parente n√£o muito distante do famoso jo√£o-de-barro, Furnarius rufus. No entanto, talvez pelo comportamento mais arredio, n√£o teve o merecido reconhecimento de seu primo, cujo nome popular faz alus√£o a incr√≠vel habilidade de construir ninhos de barro que mais parecem verdadeiras casas (algumas vezes at√© mesmo pr√©dios – veja no WikiAves – ) e acabou sendo batizado pelo povo de jo√£o-porca, um nome vulgar, no m√≠nimo vulgar.

A voz do povo é a voz de Deus, mas para aqueles indignados com um nome tão ultrajante segue a explicação extraída do livro sagrado dos ornitólogos tupiniquins, Ornitologia Brasileira, de Helmut Sick:

¬†“Habita as margens de c√≥rregos de densa vegeta√ß√£o, onde pula no solo ou vai de pedra em pedra entrando mesmo na √°gua rasa √† ca√ßa de insetos e larvas; √†s vezes apanha folhas inteiras ca√≠das na √°gua √† cata de presas, inspeciona a lama de chiqueiros e esgotos (da√≠ a s√©rie de nomes vernaculares pouco airosos de que √© objeto), vira folhas e torr√Ķes de terra com o bico.”¬†

Pessoalmente acho seu nome injusto, pois foram poucas as vezes que vi o joão-porca forrageando próximo a áreas mal cheirosas que lhe justificassem tal adjetivação. Ao contrário, a espécie pode quase sempre ser observada buscando animalejos entre as pedras de córregos limpíssimos que serpenteiam pela mata e onde sua voz Рouça no WikiAves Р geralmente se mistura ao chuá incessante de alguma cachoeira próxima.

Cachoeira na parte baixa do Parque Nacional do Itatiaia, h√°bitat do jo√£o-porca fotografado a pouco metros dali. (c) Luciano Moreira Lima. Canon 300mm f/4, ISO 800, f22, 0.6.

Nesse cen√°rio, Lochmias parece comporta-se como um equivalente ecol√≥gico das aves do g√™nero Cinclus, fam√≠lia Cinclidae, esp√©cies de p√°ssaros semi-aqu√°ticos que habitam rios em diversas regi√Ķes do mundo, mas que n√£o ocorrem no Brasil. No entanto, at√© onde se sabe, Lochmias n√£o √© capaz de mergulhar como fazem os Cinclus. Falar em Cinclus e Lochmias nos remete ao misterioso¬†Thamnophilus aquaticus, supostamente descoberto por J. T. Descourtilz e mencionado por Silva Maia (1851) em um par√°grafo sobre uma “Especie nova e curiosa de passaro brasileiro” – veja aqui -. Embora o g√™nero Thamnophilus perten√ßa a fam√≠lia Thamnophilidae, ou seja, diferente do Lochmias, n√£o vejo explica√ß√£o melhor para as observa√ß√Ķes de Descourtilz do que um jo√£o-porca que se atreveu explorar atr√°s da cortina d’√°gua de uma cachoeira ou situa√ß√£o parecida.

Mas voltemos a estrada abandonada no Itatiaia… Lochmias que se preze raramente “d√° mole” pra foto e nas poucas vezes que presenciei essa situa√ß√£o, n√£o durou mais que 30 segundos. Por isso apressei o passo ao ouvir a resposta do Bruno, mas me aproximei sem muita confian√ßa, pois duvidava que o p√°ssaro estivesse ainda ao alcance da minha lente. Dito e feito, s√≥ deu tempo de ver o bicho adentrar na brenha.

No entanto, um ou outro galho mais exposto no meio da ramaria me diziam que aquela podia ser uma chance muito boa de conseguir um registro fotogr√°fico do jo√£o-porca, objetivo que v√°rias vezes j√° havia perseguido sem conseguir sucesso. Ipod na m√£o, reproduzi baixo por poucos segundos seu chamado caracter√≠stico e quase imediatamente o p√°ssaro se aproximou pousando em um galho ca√≠do cuja uma das pontas era justamente um dos lugares que eu havia previsto que daria uma boa foto. Com olhar curioso foi ao poucos se movendo at√© chegar justamente na posi√ß√£o onde eu havia idealizado, enquanto isso o dedo permaneceu grudado no disparador da c√Ęmera.

Olhar curioso do joão-porca, Lochmias nematura, observando através da ramaria. Parque Nacional do Itatiaia - RJ. (c) Luciano Moreira Lima. Canon 7D, Canon 300mm f/4 + extender 1.4x, ISO 600, f/5.6, 1/60, flash de preenchimento.

Jo√£o-porca, Lochmias nematura, fazendo pose no "limpo". Parque Nacional do Itatiaia - RJ. (c) Luciano Moreira Lima. Canon 300mm f/4 + extender 1.4x, ISO 600, f/5.6, 1/60, flash de preenchimento.

As duas fotos acima foram as melhores da sequ√™ncia que eu consegui. No final, acho que a foto do jo√£o-porca com o olhar curioso entre os vultos da folhagem ilustra muito bem o comportamento t√≠mido da esp√©cie e por isso gostei mais dessa do que daquela em que o passarinho faz pose no lugar que eu havia ansiosamente desejado. Fotografia de natureza, especialmente de aves, pode ser um pouco frustrante √†s vezes, mas em outras o que voc√™ achava que estava bom pode fica ainda melhor…

Perdido e achado: o tiê-bicudo, Conothraupis mesoleuca

por Rafael Marcondes

Muita gente costuma achar que a maioria dos animais e plantas j√° s√£o bem conhecidos e n√£o falta muito a se descobrir. Um dos objetivos do Caapora √© revelar que essa cren√ßa est√° muito longe da realidade: nossa fauna √© t√£o diversa e o Brasil √© t√£o grande e relativamente pouco explorado cientificamente que todo ano s√£o descritas dezenas de novas esp√©cies de animais no nosso pa√≠s, incluindo at√© mesmo aves, que supostamente est√£o entre os grupos de animais mais bem estudados. Mas talvez mais interessante e surpreendente do que a descri√ß√£o de novas esp√©cies √© o fato de que h√° diversos casos de aves que foram descritas h√° d√©cadas ou √†s vezes quase um s√©culo atr√°s e nunca mais foram vistas! Os √ļltimos anos, felizmente, t√™m visto uma s√©rie de redescobertas destas esp√©cies conhecidas apenas de sua descri√ß√£o. Como minha primeira contribui√ß√£o nessa empreitada do Caapora para revelar as camadas mais obscuras da fauna brasileira, o tema desse post √© uma dessas aves ‚Äúperdidas e achadas‚ÄĚ: o ti√™-bicudo, Conothraupis mesoleuca.

O ti√™-bicudo foi descrito pelo zo√≥logo franc√™s Jacques Berlioz em 1939 com base em um √ļnico macho coletado no ano anterior por J. A. Vellard, um especialista em aranhas que era o naturalista de uma expedi√ß√£o pelo Brasil do famoso antrop√≥logo Claude L√©vi-Strauss. Esse esp√©cime, o hol√≥tipo da esp√©cie (principal indiv√≠duo no qual se baseia a descri√ß√£o de uma esp√©cie nova), encontra-se at√© hoje no Mus√©um National d‚ÄôHistoire Naturelle, em Paris e, segundo Berlioz, foi coletado em ‚ÄúJuruena, northeast of Cuyaba‚ÄĚ.

Por mais de seis d√©cadas que seguiram √† sua descoberta o ti√™-bicudo jamais voltou a ser encontrado, tornando-se uma das maiores inc√≥gnitas da ornitologia neotropical. Por praticamente 64 anos tudo que se sabia sobre a esp√©cies resumia-se ao esp√©cime coletado por Vellard e as poucas informa√ß√Ķes fornecidas em sua descri√ß√£o. Informa√ß√Ķes b√°sicas permaneceram completamente ignoradas por todo esse tempo, como por exemplo a morfologia da f√™mea, vocaliza√ß√£o, alimenta√ß√£o e demais aspectos sobre sua biologia. N√£o por acaso o ti√™-bicudo chegou praticamente a ser considerado extinto.

Lévi-Strauss acampado à beira do rio Machado, onde ficou quinze dias entre outubro e novembro de 1938, com alguns índios tupi-cavaíba. Agarrando-se à bota dele, está a macaquinha Lucinda, que o antropólogo adotou durante a viagem. Clique na imagem para ser direcionado a reportagem da revista Leituras da História sobre esse famoso antropólogo que chefiou a expedição em que foi descoberto o tiê-bicudo.

Os poucos ornit√≥logos que se empenharam em redescobrir a esp√©cie esbarravam em uma outra dificuldade al√©m de sua raridade: o rio Juruena fica a noroeste de Cuiab√°, n√£o a nordeste, como mencionado por Berlioz, o que levantava certa suspeita sobre o real local de coleta da esp√©cie. Essa hist√≥ria s√≥ come√ßou a mudar em 2003, quando o ti√™-bicudo foi encontrado no Parque Nacional das Emas, no estado de Goi√°s, surpreendentemente a 750 km de dist√Ęncia do rio Juruena! (Buzzeti & Carlos, 2005) Desde ent√£o, o ti√™-bicudo, inclusive f√™meas, tem sido regularmente observado nessa localidade.

Mas a virada mesmo para o ti√™-bicudo s√≥ veio tr√™s anos depois, em 2006, quando o ornit√≥logo Carlos Ernesto Candia-Gallardo, da Universidade de S√£o Paulo, gravou e fotografou um macho da esp√©cie √†s margens do rio Juruena, na regi√£o da Chapada dos Parecis, estado do Mato Grosso. Esse registro acabou levando ao primeiro estudo da esp√©cie desde sua descri√ß√£o, publicado por Candia-Gallardo em 2010 na revista Bird Conservation International, em parceria com Lu√≠s F√°bio Silveira e Adriana Akeni Kuniy. √Č desse artigo que retiro a maior parte da informa√ß√£o nesse post.

Tiê-bicudo, Conothraupis mesoleuca. Fotografado por Carlos Candia-Gallardo no local de sua descoberta original. Clique na imagem para ver mais fotos da espécie no Wikiaves.

A grava√ß√£o do canto da esp√©cie nesse primeiro encontro permitiu, atrav√©s da t√©cnica do play-back (em que aves, altamente territoriais, s√£o atra√≠das pela reprodu√ß√£o do canto de sua pr√≥pria esp√©cie), a localiza√ß√£o de mais indiv√≠duos em diversas localidades na mesma regi√£o. Descobriu-se que o h√°bitat preferencial da esp√©cie s√£o matas ou campinas alagadas ao longo de rios, contrariando a descri√ß√£o original da esp√©cie, que dava o h√°bitat como ‚Äúarid forest or scrub‚ÄĚ. Isso talvez ajude a explicar por que o ti√™-bicudo passou tantos anos desaparecido: os ornit√≥logos estavam simplesmente procurando no h√°bitat errado!

Clique para ouvir a vocalização da espécie gravada por Bruno Salaroli e disponível no site Wikiaves.

A redescoberta também levou à primeira descrição detalhada da fêmea do tiê-bicudo, com base em um espécime coletado e depositado no Museu de Zoologia da USP, onde ficará para sempre disponível a todos os pesquisadores interessados em estudar a espécie.

Os pesquisadores que redescobriram o ti√™-bicudo tamb√©m esclareceram com precis√£o a localidade-tipo da esp√©cie (localidade onde foi coletado o hol√≥tipo). Pesquisando nos di√°rios de Castro Faria, um antrop√≥logo brasileiro que tamb√©m acompanhava a expedi√ß√£o de L√©vi-Strauss, descobriram que na data em que o ti√™-bicudo foi coletado, Vellard estava acampado na Esta√ß√£o Telegr√°fica de Juruena (a noroeste de Cuiab√°, confirmando o erro na descri√ß√£o original). Essa esta√ß√£o era parte da linha telegr√°fica completada em 1915 pela comiss√£o liderada pelo marechal C√Ęndido Rondon, e que at√© a d√©cada de 1960 era o √ļnico acesso √†quela regi√£o.

Observou-se que o ti√™-bicudo vive geralmente solit√°rio ou em casais, e alimenta-se de insetos e principalmente sementes. Esse h√°bito alimentar n√£o √© comum dentre os Thraupidae, a fam√≠lia em que o ti√™-bicudo tem sido classificado e que tamb√©m inclui os demais tipos de ti√™s, as sa√≠ras, sa√≠s e sanha√ßos. Isso nos leva a um dos aspectos mais surpreendentes sobre o ti√™-bicudo: ele talvez sequer seja um ti√™! O comportamento em geral da esp√©cie, incluindo h√°bitos alimentares e a vocaliza√ß√£o, e os padr√Ķes de plumagem assemelham-se mais aos de esp√©cies de outra fam√≠lia, os Emberizidae, que inclui aves como os tico-ticos, os cardeais e os papa-capins. Especificamente, a plumagem, formato do bico e h√°bitat do ti√™-bicudo s√£o muito semelhantes aos do papa-capim-de-coleira, Dolospingus fringilloides, uma esp√©cie pouco conhecida da fam√≠lia Emberizidae que vive no norte do Brasil, Venezuela e Col√īmbia. Estudos do esqueleto e moleculares (lembrando que apesar da redescoberta, o ti√™-bicudo ainda √© absolutamente desconhecido do ponto de vista gen√©tico e da anatomia interna) poder√£o revelar o verdadeiro parentesco do ti√™(?)-bicudo.

O cap√≠tulo mais recente na hist√≥ria do ti√™-bicudo veio em 2010, quando o ornit√≥logo Guilherme R. R. Brito e colegas, do Museu Nacional da UFRJ, descobriram na Serra do Cachimbo, no Par√°, mais uma nova popula√ß√£o da esp√©cie. Essa popula√ß√£o est√° a 400km do alto Juruena e a 1000km do Parque Nacional das Emas. Para uma esp√©cie que passou d√©cadas desaparecida, a distribui√ß√£o do ti√™-bicudo est√° se revelando mais ampla do se imaginava, ressaltando que uma das principais raz√Ķes para o “sumi√ßo” foi a simples falta de explora√ß√£o cient√≠fica. Sabendo onde e como procurar, aos poucos o ti√™-bicudo est√° se revelando. Quantas esp√©cies desaparecidas ou novas ser√° que n√£o est√£o por a√≠ nesse Brasil, esperando serem (re)descobertas?

Infelizmente, esse post tem que terminar com um par√°grafo sombrio. O ti√™-bicudo est√° criticamente amea√ßado de extin√ß√£o, e estima-se que existam apenas entre 50 e 250 indiv√≠duos vivos da esp√©cie, somando as popula√ß√Ķes do Parque Nacional das Emas e do alto rio Juruena (BirdLife, 2011) – a nova popula√ß√£o, na Serra do Cachimbo, ainda n√£o entrou nesse c√°lculo. Seu h√°bitat, √°reas alag√°veis √†s margens de rios, √© naturalmente fragmentado e vulner√°vel, e toda a regi√£o do Centro-Oeste brasileiro est√° sob forte expans√£o agr√≠cola, principalmente da soja. Para piorar a situa√ß√£o, a regi√£o do alto Juruena √© alvo de projetos de nada menos do que doze usinas hidrel√©tricas, sendo duas de grande porte. Pelo menos cinco j√° est√£o em constru√ß√£o (http://www.oeco.com.br/reportagens/37-reportagens/23761-o-bicudo-e-as-barragens). Os alagamentos causados por essas usinas podem suprimir grande parte do h√°bitat da esp√©cie. Talvez o ti√™-bicudo tenha sido redescoberto apenas para logo ser perdido de novo, dessa vez para sempre. Ou bem a tempo de ser salvo.

Referências:

BirdLife, 2011. Species factsheet: Conothraupis mesoleuca.

Brito, G. R. R. et al. 2011. First record of the Cone-Billed Tanager (Conothraupis mesoleuca) in Par√° state, Brazil, with inferences about its potential distribution. Libro de Resumenes – IX Congresso de Ornitologia Neotropical.

Buzzeti, D. e Carlos, B. A. 2005. A redescoberta do ti√™-bicudo (Conothraupis mesoleuca) (Berlioz, 1939). Atualidades Ornitol√≥gicas, vol. 127, p. 4‚Äď5.

Candia-Gallardo, C. E., et al. 2010. A new population of the Cone-billed Tanager Conothraupis mesoleuca, with information on the biology, behaviour and type locality of the species. Bird Conservation International. vol. 20, n. 2, p. 149-160.

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