Primeira quiz do Caapora!

 

Para os bons entendedores de primatas, aqui está o primeiro quiz do Caapora! Digam o nome científico das duas espécies de primatas do Novo Mundo representadas no detalhe dessa pintura E o nome e o autor do quadro a qual esse detalhe pertence. Daremos a resposta em 48 horas.

 

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UPDATE

Parab√©ns a todos que deram a sua opini√£o ! Sim o Saguinus oedipus tava f√°cil. Para a identifica√ß√£o do “desbotado” eu concordo com o artigo que a Carla citou, do Dante Teixeira e Nelson Papavero (O tr√°fico de primatas brasileiros nos s√©culos XVI e XVII), onde os autores identificam a esp√©cie como Leontopithecus rosalia, o mico-le√£o dourado. A morfologia denuncia: as orelhas cobertas por uma juba, como a Carla disse, s√≥ ocorrem nos micos le√Ķes (Leontopithecus) e no Callimico, que √© inteiro negro. Os micos-le√Ķes tamb√©m apresentam d√≠gitos alongados em compara√ß√£o aos outros micos e saguis. A colora√ß√£o desbotada pode ser proveniente de algum indiv√≠duo que tenha perdido a colora√ß√£o devido aos nada f√°ceis meses passados a bordo de um navio j√° que, como o j√° mencionado artigo de Teixeira e Papavero cita, “quase todos [os micos-le√Ķes] morriam no mar”.

Saguinus oedipus. Um sagui end√™mico da Col√īmbia e rec√©m ingresso na lista dos 25 primatas mais amea√ßados do mundo.

Meus argumentos a favor da imagem representar um L. rosalia são dois: o primeiro é que a espécie mais parecida, Saguinus melanoleucus, só foi descrita no século XX, pois ela ocorre em um território praticamente inexplorado na época em que o quadro foi feito (a espécie ocorre no oeste do Acre e leste do Peru).

Saguinus melanoleucus. Notem as orelhas visíveis.

O outro argumento, talvez o mais legal, √© que o pintor escolheu essas esp√©cies para colocar na m√£o da infanta Isabella Clara Eug√™nia (que era filha do Felipe II rei de Espanha) justamente para representar a uni√£o ib√©rica, que foi o longo per√≠odo em que Portugal e suas col√īnias ficaram sob dom√≠nio espanhol (de 1580 at√© 1640).¬†Saguinus oedipus¬†√© uma esp√©cie end√™mica da Col√īmbia, e¬†Leontopithecus rosalia¬†√© um mam√≠fero end√™mico da Mata Atl√Ęntica do sudeste brasileiro. Logo, se unirmos isso ao gosto da fam√≠lia real espanhola por saguis e micos, parece sensato colocar um dos pequenos primatas que na √©poca mais bem representava o Brasil, o mico-le√£o. √Č surpreendente que ainda hoje essa esp√©cie bandeira (e aparentemente muito exportada no passado) represente a nossa fauna, estando presente at√© nas notas de 20 reais.

Leontopithecus rosalia, o famoso mico-le√£o dourado.

Para finalizar, aí vai uma imagem do quadro inteiro:

“Infanta Isabella Clara Eug√™nia com a an√£ Magdalena Ruiz”. Pintado por Alonso S√°nchez Coello (ca. 1585), em exibi√ß√£o no Museo del Prado, Madrid

Bichos do Brasil: Atretochoana eiselti

Atretochoana eiselti, mas pode chamar de bicho-feio-da-p****. Foto por Juliano Tupan.

As cecílias são os mais esquecidos dos vertebrados. A maioria das cerca de 200 espécies deste estranho grupo, de existência absolutamente desconhecida pela maioria dos seres humanos, se assemelha superficialmente muito mais a minhocas do que a outros vertebrados. Pequenos, sem membros, alongados e muitas vezes fossoriais, esses animais constituem a ordem Gymnophiona. Ao lado dos mais populares anuros (sapos, rãs e pererecas) e salamandras, formam a classe Amphibia.

Uma esp√©cie de gimnofiona era para mim um dos maiores s√≠mbolos do quanto o Brasil ainda desconhece sua fauna. Essa esp√©cie, Atretochoana eiselti, foi descrita em 1968 com base em um √ļnico e antigo exemplar depositado no museu de hist√≥ria natural de Viena.¬† Trata-se da maior cec√≠lia do mundo, com quase um metro de comprimento e at√© dez cent√≠metros de circunfer√™ncia.

O mais surpreendente, no entanto, √© que a Atretochoana simplesmente n√£o possui pulm√Ķes. Essa caracter√≠stica n√£o √© √ļnica entre os tetr√°podes: pulm√Ķes tamb√©m est√£o ausentes muitas em muitas esp√©cies de salamandras (inclusive no √ļnico g√™nero que ocorre no Brasil, Bolitoglossa), mas estas t√™m no m√°ximo poucos cent√≠metros de comprimento, fazendo da Atretochoana n√£o s√≥ a maior cec√≠lia mas tamb√©m, de longe, o maior tetr√°pode sem pulm√£o conhecido.

O frustrante √© que esse esp√©cime do museu de Viena, possivelmente coletado pelo naturalista austr√≠aco Johann Natterer em suas viagens pelo Brasil no in√≠cio do s√©culo 19, n√£o possui qualquer informa√ß√£o associada, exceto que prov√©m da Am√©rica do Sul. Em 1998, um segundo exemplar foi descoberto, na cole√ß√£o da Universidade de Bras√≠lia (UnB), mas sem quaisquer informa√ß√Ķes sobre a localidade de coleta. A Atretochoana possui uma morfologia consistente com h√°bitos aqu√°ticos, e devido √† aus√™ncia de pulm√Ķes e a seu grande tamanho, especulou-se que viveria em riachos frios e com corredeiras do Brasil central, condi√ß√Ķes em que a √°gua √© bastante oxigenada, favorecendo a respira√ß√£o cut√Ęnea.

Portanto essa era a absurda situa√ß√£o at√© 2011: a maior gimnofiona do planeta, o maior tetr√°pode apulmonado do planeta, um animal enorme de quase um metro de comprimento, e pod√≠amos apenas especular sobre qual seria seu h√°bitat e at√© distribui√ß√£o geogr√°fica! Quem sabe os dois √ļnicos exemplares coletados seriam para sempre os √ļltimos e √ļnicos testemunhos de uma esp√©cie que j√° se fora…

O mistério da Atretochoana começou a ser finalmente resolvido em 2011, quando herpetólogos do Museu Paraense Emílio Goeldi, em Belém (PA), receberam fotos de um grande animal capturado num matapi, uma armadilha para captura de camarão colocada em águas rasas. O animal não foi capturado, mas com base nas fotografias os cientistas o identificaram como um exemplar de Atretochoana eiselti. Surpreendentemente, as fotografias não foram realizadas num riacho frio e rápido do Brasil central, mas sim numa praia na ilha de Mosqueiro, logo ao norte de Belém, no estuário do rio Amazonas.

A Atretochoana em comparação com uma cecília de tamanho mais usual para a ordem (Boulengerula niedeni). Fotos, respectivamente, de Hogmooed et al. e daqui

Pouco mais de um m√™s depois, os mesmos herpet√≥logos receberam novas fotos de Atretochoana, e desta vez exemplares foram coletados. A coleta ocorreu a 2500 km de Bel√©m, numa piscina formada no leito seco do rio Madeira dias ap√≥s o represamento do rio para a constru√ß√£o de hidroel√©trica de Santo Ant√īnio, em Rond√īnia. Subsequentemente, os herpet√≥logos do Museu Goeldi conseguiram obter esp√©cimes tamb√©m da regi√£o da ilha de Mosqueiro, possibilitando a publica√ß√£o das primeiras informa√ß√Ķes sobre a esp√©cie em seu ambiente natural e a an√°lise de esp√©cimes rec√©m-coletados. Esse estudo foi publicado no Boletim do Museu Paraense Em√≠lio Goeldi por Marinus Hoogmoed, Adriano Maciel e Juliano Coragem, e dele tiro todas as informa√ß√Ķes desse post.

A primeira conclus√£o permitida pela redescoberta √© que, al√©m de j√° deter os pr√™mios de maior cec√≠lia e maior tetr√°pode sem pulm√Ķes, a Atretochoana √© s√©ria concorrente ao t√≠tulo de animal mais nojento do planeta. Cinza, lisa e comprida, n√£o d√° para saber se parece mais uma sanguessuga anabolizada ou uma cobra deformada… E para piorar, dependendo do √Ęngulo, ainda tem um leve aspecto f√°lico, o que levou parte da m√≠dia a apelida-la de ‚Äúpenis snake‚ÄĚ… (Falando nesse assunto, as gimnofionas s√£o os √ļnicos anf√≠bios que possuem um √≥rg√£o copulat√≥rio especializado, chamado falodeu. Aposto que essa informa√ß√£o mudou sua vida, heim?)

A segunda conclus√£o √© que as especula√ß√Ķes sobre seu h√°bitat estavam totalmente erradas. Ambas as localidade conhecidas s√£o de √°guas quentes e turvas. Na regi√£o do rio Madeira em que foi coletada, ainda h√° v√°rias corredeiras, que aumentam a oxigena√ß√£o da √°gua, mas no estu√°rio do Amazonas as √°guas s√£o lentas. De modo geral, n√£o √© um ambiente em que se esperaria encontrar um animal que depende de respira√ß√£o somente atrav√©s da pele.

Os capilares sangu√≠neos da Atretochoana s√£o muito pr√≥ximos da pele, confirmando que ela muito provavelmente realiza respira√ß√£o cut√Ęnea. No entanto, devido a seu grande tamanho corporal, muitas vezes maior que outros tetr√°podes apulmonados, deve haver outras superf√≠cies de troca gasosa. Hoogmoed e seus colegas especulam que essa respira√ß√£o complementar pode ocorrer na cavidade bucofar√≠ngea e n√£o excluem a possibilidade de respira√ß√£o intestinal ou at√© cloacal, como ocorre em algumas tartarugas (e aumentando as chances da Atretochoana no concurso de animal mais repugnante do mundo).

Vista em close da cara (?) de uma Atretochoana. Figura modificada de Hoogmooed et al.

A presen√ßa da Atretochoana em duas localidades t√£o distantes sugere que ela deve ser amplamente distribu√≠da (ainda que talvez rara) na Amaz√īnia brasileira e que seu desaparecimento por tantos anos foi devido simplesmente √† falta de procurar no lugar certo. Seu mist√©rio come√ßou a ser desvendado, mas muito ainda resta para se descobrir sobre esse peculiar animal. A maior d√ļvida √© fisiol√≥gica (como respira um animal deste tamanho, sem pulm√Ķes e em √°guas n√£o particularmente ricas em oxig√™nio?), mas virtualmente nada se sabe ainda sobre sua hist√≥ria natural, h√°bitos e rela√ß√Ķes filogen√©ticas.

Como escreveram seus redescobridores: ‚ÄúAinda temos um longo caminho a percorrer antes de considerar esta esp√©cie ‚Äėconhecida‚Äô‚ÄĚ. E, pensando assim, quantas esp√©cies ser√° que podemos dizer que s√£o realmente conhecidas?

Bichos do Brasil: urutaus e m√£es-da-lua

 

Uma m√£e-da-lua (Nyctibius griseus) mostrando todo seu charme. Foto por Carlos Gussoni no site Wikiaves.

O nome popular j√° diz muito sobre essas aves: ‚Äúurutau‚ÄĚ vem do guarani guyra (ave) e tau (fantasma). Tratam-se dos membros da fam√≠lia Nyctibiidae, conhecidos como urutaus ou m√£es-da-lua, um dos grupos mais fascinantes (e bizarros) de aves brasileiras. Essa pequena fam√≠lia inclui sete esp√©cies de aves noturnas, cinco das quais ocorrem no Brasil. Todas s√£o inclu√≠das no g√™nero Nyctibius e exclusivas dos neotr√≥picos (regi√£o biogeogr√°fica que inclui a Am√©rica do Sul, Central, partes do M√©xico e do extremo sul dos Estados Unidos).

Muita gente chama os urutaus de feios, mas eu prefiro dizer que eles s√£o apenas estranhos. Os membros dessa fam√≠lia t√™m uma cabe√ßa enorme e a boca descomunal, mas o bico √© min√ļsculo. E ainda por cima seus enormes olhos s√£o esbugalhados e amarelos. As p√°lpebras possuem uma engenhosa adapta√ß√£o: duas pequenas incis√Ķes que permitem √† ave enxergar mesmo com o olho fechado.

A plumagem √© cinza ou amarronzada. Essas cores, em conjun√ß√£o com o h√°bito de pousar em postura ereta na ponta de galhos verticais, conferem aos urutaus uma das melhores camuflagens dentre todas as aves do mundo. Essa postura √© assumida at√© mesmo pelos filhotes mal sa√≠dos do ovo. Podem ter seus poleiros de descanso diurno em mour√Ķes de cerca ou outros troncos totalmente expostos, em plena luz do dia, tal √© a excel√™ncia de sua camuflagem. Com certa freq√ľ√™ncia s√£o surpreendidos nesses poleiros, e, de t√£o estranhos que s√£o, acabam virando at√© not√≠cia de jornal, como foi o caso at√© mesmo em plena capital paulista.

Uma m√£e-da-lua em sua postura de camuflagem. Observe os entalhes na margem da p√°lpebra que permitem que o animal enxergue mesmo o com os olhos fechados. Foto por Ricardo Q. T. Rodrigues no site Wikiaves.

Como se esses h√°bitos cr√≠pticos j√° n√£o bastassem para dar um ar fantasmag√≥rico aos urutaus, suas vocaliza√ß√Ķes podem ser ainda mais estranhas. Variam desde o melanc√≥lico lamento da m√£e-da-lua (Nyctbius griseus) – citado diversas vezes por Guimar√£es Rosa em seu Grande Sert√£o: Veredas – at√© o aterrorizante berro da m√£e-da-lua-gigante (Nyctibius grandis). Imagine o que os primeiros europeus a chegar a nossas terras n√£o devem ter pensado ao ouvir essas vozes sinistras ecoando na noite…

Tudo isso levou o urutau a ser figura popular no folclore brasileiro. Uma das hist√≥rias mais difundidas conta que a m√£e-da-lua seria uma jovem que perdeu seu amor. Era uma menina do sert√£o muito feia, mas muito inteligente. Certa noite, encontrou um belo pr√≠ncipe nas redondezas e conseguiu impression√°-lo com sua intelig√™ncia. Quando o pr√≠ncipe estava prestes a pedi-la em casamento, a lua cheia surgiu por detr√°s das montanhas, iluminando o rosto da jovem. Assustado com sua fei√ļra, o pr√≠ncipe fugiu para nunca mais voltar. Desolada, a garota procurou uma feiticeira e pediu para ser transformada em uma ave, para buscar o pr√≠ncipe onde quer que ele estivesse. A feiticeira consentiu, e assim nasceu a m√£e-da-lua. No entanto, mesmo ap√≥s longa procura, a garota em forma de ave n√£o conseguiu encontrar o pr√≠ncipe. Voltou √† feiticeira e pediu para ser transformada de volta em gente, mas isso estava fora dos poderes da bruxa. Desde ent√£o, a garota vaga pela noite como uma ave feia e triste, e sempre que aparece a lua, solta seu pio melanc√≥lico ‚Äúfoi, foi, foi…‚ÄĚ, lembrando do pr√≠ncipe que a deixou.

Uma mãe-da-lua gigante (Nyctibius grandis), a maior espécie da família e dona de aterrorizante vocalização. Foto por Celuta Machado.

Voltando agora ao aspecto mais cient√≠fico, a fam√≠lia Nyctibiidae √© parte da ordem Caprimulgiformes, que inclui outras aves noturnas, como os igualmente bizarros ‚Äúfrogmouths‚ÄĚ (fam√≠lia Podargidae) da √Āsia e Oceania e os mais familiares bacuraus e curiangos (Caprimulgidae). Suas caracter√≠sticas √ļnicas, no entanto, e a exist√™ncia de um urutau f√≥ssil datado de 25 milh√Ķes de anos (Euronyctibius kurochnikii) n√£o deixam d√ļvidas que se trata de um grupo muito antigo e distinto. Este f√≥ssil prov√©m da Fran√ßa, sugerindo que a fam√≠lia j√° teve uma distribui√ß√£o bem mais ampla que a atual. A pr√≥pria separa√ß√£o entre as esp√©cies da fam√≠lia aparentemente √© bastante antiga, j√° que, apesar de sua morfologia externa bastante homog√™nea, possuem enorme diverg√™ncia gen√©tica e diversas diferen√ßas no esqueleto, sugerindo que possam no futuro ser separados em g√™neros distintos.

A fam√≠lia dos urutaus guarda ainda uma das esp√©cies de aves brasileiras ‚Äúperdidas e achadas‚ÄĚ nas √ļltimas d√©cadas: o urutau-de-asa-branca (Nyctibius leucopterus), que ficou incr√≠veis 168 anos desaparecido para a ci√™ncia. Essa esp√©cie foi descoberta em 1821 no litoral da Bahia pelo naturalista Maximiliano de Wied-Neuwied. Desde sua descri√ß√£o n√£o se teve mais not√≠cias dela at√© 1989, quando ela foi reencontrada nos arredores de Manaus, em plena Amaz√īnia, a mais de 2500 km do litoral da Bahia. Os h√°bitos cr√≠pticos dos urutaus certamente contribu√≠ram para essa esp√©cie passar tanto tempo sumida. Mas, felizmente, quando ocorreu essa redescoberta a vocaliza√ß√£o do urutau-de-asa-branca (um l√≠mpido assobio), at√© ent√£o desconhecida, p√īde ser gravada. Munidos dessa grava√ß√£o, ornit√≥logos utilizando a t√©cnica do playback (em que aves, altamente territoriais, s√£o atra√≠das pela reprodu√ß√£o do canto de sua pr√≥pria esp√©cie) localizaram a esp√©cie em diversas localidades amaz√īnicas, do Peru √†s Guianas, e, em 2003, de novo no litoral da Bahia.

O raro urutau-de-asa-branca (Nyctibius leucopterus). Foto por Andrew Whittaker.

Para saber mais: meu amigo e especialista em urutaus e bacuraus Thiago V. V. Costa estudou a anatomia dos urutaus. Seu trabalho pode ser conferido em Costa & Donatelli (2009). Cestari et al. (2011) estudaram o cuidado parental de Nyctibius griseus. O artigo inclui uma interessante foto do filhote j√° em posi√ß√£o ereta no ‚Äúninho‚ÄĚ –¬† se √© que podemos chamar assim. Sobre as redescobertas de N. leucopterus, confira Cohn-Haft (1993) e Whitney et al. (2003). Para uma introdu√ß√£o popular a esses bichos bizarros, veja o texto de Fernando Straube na revista Atualidades Ornitol√≥gicas: Straube (2004).

Primatofobia e quest√Ķes existenciais…

por Guilherme Garbino

Foi na primeira metade s√©culo XVI que Cop√©rnico retirou a terra do centro do universo, trocando-a pelo Sol. Ap√≥s correr um s√©rio risco de ser queimado vivo, o cientista retirou suas alega√ß√Ķes. Anos depois, Galileu Galilei, considerado um dos pais do m√©todo cient√≠fico, fez a mesma afirma√ß√£o e foi condenado a pris√£o domiciliar.

Incrivelmente, s√≥ dois s√©culos depois de Galileu ter jogado o planeta Terra para escanteio √© que surgiram os primeiros ind√≠cios de um outro reposicionamento universal, o do lugar do ser humano no universo, assumindo nossa esp√©cie a posi√ß√£o de ¬†‚Äúapenas outro grande s√≠mio‚ÄĚ. Mais estranho ainda √© pensar que o ‚ÄúPr√≠ncipe dos Bot√Ęnicos‚ÄĚ, Carl Linnaeus, o grande classificador do s√©culo XVIII e indubitavelmente um n√£o-evolucionista, colocou o Homo sapiens dentro da ordem Primates.

Na d√©cima edi√ß√£o de seu Systema Naturae, Linnaeus criou o g√™nero Homo. Originalmente, o g√™nero inclu√≠a duas esp√©cies: Homo sapiens e Homo troglodytes. Como de praxe, o autor oferece uma diagnose de suas esp√©cies. A descri√ß√£o de H. sapiens s√£o apenas tr√™s palavras: Nosce te ipsum (Conhe√ßa a ti mesmo).¬† A segunda esp√©cie de Homo, entretanto, claramente refere-se a uma criatura mitol√≥gica que, pelas fontes citadas por Linnaeus, seriam seres albinos habitantes de cavernas. H√° tamb√©m um relato do viajante holand√™s Jakob de Bondt que se refere a uma criatura que pode ser uma orangotango f√™mea ou uma mulher com hipertricose. O Homo troglodytes de Linnaeus n√£o tem nada a ver com o Simia troglodytes de Blumenbach, este √ļltimo o nome cient√≠fico do chimpanz√© (hoje Pan troglodytes). O sistema binomial de nomenclatura admite o mesmo ep√≠teto espec√≠fico em g√™neros diferentes.

Figura de Jacob de Bondt, uma das fontes de Linnaeus, retratando um dos human√≥ides por ele observado durante duas viagens √†s col√īnias holandesas nas ilhas do sudeste asi√°tico.

A √ļltima esp√©cie de Homo descrita por Linnaeus, o Homo Lar, tamb√©m √© uma criatura real, nesse caso gib√£o de lar (hoje Hylobates lar), que foi descrito, assim como outros primatas, em seu Mantissa Plantarum, embora, at√© onde sei, n√£o se trate de uma esp√©cie de planta. Tr√™s novas esp√©cies de ‚Äús√≠mios‚ÄĚ foram ainda posteriormente descritas por Linnaeus, em 1760, na disserta√ß√£o de seu aluno, Hoppius, entitulada Anthropomorpha (at√© meados do s√©culo XIX era costume na Su√©cia que o professor escrevesse a tese e o aluno apenas arcasse com os custos!): Simia Satyrus, Simia Lucifer e Simia Pygmaeus; Todas baseadas em ilustra√ß√Ķes das quais a √ļnica que se refere a uma criatura real √© Simia Pygmaeus, o orangotango de Born√©u que o classificador sueco nomeou pygmaeus por pensar ser esse um membro da ra√ßa de pigmeus mencionada por Homero.

Ilustra√ß√Ķes dos ‚ÄúAnthropomorpha‚ÄĚ de Linnaeus, presentes no livro de Hoppius. Da esquerda para a direita: Simia Troglodyta, S√≠mia L√ļcifer, S√≠mia Satyrus e Simia Pygmaeus.

Embora essa primeira classifica√ß√£o tenha um teor otimista e de justi√ßa filogen√©tica (ao menos para mim, que leio isso em 2012), colocando os humanos firmemente na Ordem que inclu√≠a os outros macacos, l√™mures, t√°rsios, colugos e morcegos, a classifica√ß√£o de Linnaeus, vale lembrar, tinha um car√°ter pr√°tico e artificial, agrupando os seres vivos, por vezes, com base em um √ļnico car√°ter similar compartilhado (no caso de Primates, o n√ļmero de incisivos). Para termos alguma no√ß√£o de como essa classifica√ß√£o do homem foi recebida numa Europa antropoc√™ntria, o alem√£o Blumenbach, em 1775, apontou que o grande erro de Linnaeus foi misturar atributos dos s√≠mios com os do homem.

A escola francesa p√≥s-revolu√ß√£o e os alem√£es, no entanto, insistiram em dar um lugar especial ao homem; nesse sentido, nomes muito conhecidos como Georges Cuvier, √Čtienne Geoffroy Saint-Hilaire e Johann Blumenbach separaram o Homo sapiens em uma ordem exclusiva de mam√≠feros, Bimana (“duas m√£os”), e os outros primatas na ordem Quadrumana (“quatro m√£os”). Sir Richard Owen, diretor do Museu Brit√Ęnico, foi al√©m e classificou o homem como √ļnico representante de Archencephala (ou c√©rebros dominantes) uma de suas quatro subclasses de Mammalia, com base em caracter√≠sticas supostamente √ļnicas de nosso enc√©falo. ¬†Na √©poca essa id√©ia foi veementemente contestada, principalmente por Thomas H. Huxley.

O extremo talvez tenha sido atingido, em pleno s√©culo XX, por Julian Huxley, neto de T. H. Huxley, que em 1942 prop√īs separar o homem em um Reino a parte, o “Psicozoa”, argumentando que possu√≠mos o car√°ter √ļnico de cultura e “dom√≠nio do mundo” (o que quer que isso queira dizer). Os homens, principalmente os do sexo masculino da Europa e dos EUA, simplesmente se recusavam a aceitar nosso passado simiesco.

Somente um s√©culo ap√≥s Linnaeus outros naturalistas voltaram a incluir o homem em Primates. Ningu√©m menos que Charles Darwin, em seu livro de 1871, “The Descent of Man and selection in relation to Sex” (A Descend√™ncia do Homem e Sele√ß√£o em Rela√ß√£o ao Sexo), prop√īs, depois desse enorme hiato, que “o homem, sob um ponto de vista geneal√≥gico, pertence aos Catarhini (sic)”. Ao saber disso, a mulher do bispo de Worcester exclamou a famosa frase: “descendente de s√≠mios! Querido, vamos rezar para que isso n√£o seja verdade, mas se for rezemos para que isso n√£o se espalhe!”.

Charge do s√©culo XIX, onde o gorila diz ‚ÄúAquele homem quer meu pedigree. Ele diz que √© um de meus descendentes‚ÄĚ. Sr. Bergh (um dos fundadores da sociedade protetora dos animais) responde ‚ÄúSr. Darwin, como voc√™ p√īde insulta-lo dessa maneira?‚ÄĚ. (Fonte: http://claesjohnsonmathscience.wordpress.com/2011/12/15/scientists-and-science-in-cartoons/)

Essa avers√£o ao ‚Äúrebaixamento‚ÄĚ do homem fez com que mesmo os anatomistas mais experientes do ocidente ignorassem a evid√™ncia diante dos seus olhos. De fato, W.K. Gregory, em artigo publicado na Science, criou o termo ‚Äúpitecofobia”, que fica perfeitamente definido nas pr√≥prias palavras do autor (em tradu√ß√£o livre minha): “Esse novo tipo de fobia pode, portanto, ser chamada de pitecofobia, ou o medo de s√≠mios, especialmente o medo de s√≠mios como parentes pr√≥ximos ou ancestrais”. E depois adiciona, com sarcasmo: “Durante os √ļltimos anos essa fobia se tornou quase pand√™mica; especialmente nas comunidades rurais”.

William King Gregory (1876-1970), mastozoólogo e antropólogo do American Museum of Natural History em Nova Iorque.

Hoje o homem √© classificado (pela maioria dos autores) como membro da fam√≠la Hominidae, que tamb√©m inclui os chimpanz√©s e bonobos (g√™nero Pan), gorilas (g√™nero Gorilla) e os orangotangos (Pongo), sendo que nosso g√™nero teria se separado de Pan h√° mais ou menos 6 milh√Ķes de anos. Existe ainda o que seria impens√°vel pelos vitorianos do s√©culo XIX: a proposta da cria√ß√£o de um “direito dos grandes-s√≠mios”, de maneira similar aos Direitos Humanos, mas distinta dos Direitos Animais, o ‚ÄúGreat Ape Project‚ÄĚ.

Filogenia dos Hominoidea vivente, com alguns fósseis-chave incluídos (Fonte: Scientific American, 16:4-13. Junho de 2006)

Esse exemplo serve para nos mostrar como preconcep√ß√Ķes err√īneas e fortemente enviesadas fazem com que um corpo enorme de evid√™ncia seja ignorado, ou que haja uma “for√ßada de barra” para garantir nossa exclusividade, como fez J. Huxley. Como respons√°vel por tantas outras mudan√ßas de paradigma na biologia, a evolu√ß√£o de Darwin e Wallace cimentou o pedestal humano junto aos outros grandes s√≠mios e de lambuja respondeu duas das grandes perguntas existenciais que sempre acompanharam a humanidade: “quem somos e de onde viemos”. Para saber para onde vamos “ligue dj√°”¬†para o seu vidente de confian√ßa…

Resgates de fauna e suas verdades ocultas

por Rafael Marcondes, Luciano Moreira Lima & Guilherme Garbino

Recentemente foi amplamente noticiado a morte em massa de animais silvestres afogados devido ao enchimento da represa da Usina Hidrel√©trica de Santo Ant√īnio, que est√° sendo constru√≠da no Rio Madeira, pr√≥ximo √† cidade de Porto Velho – RO. De acordo com uma pessoa que trabalhou nas atividades de¬† resgate de fauna durante o enchimento do lago da usina, o resgate foi ineficaz e houve um verdadeiro exterm√≠nio de animais na regi√£o. Antas, tatus, pacas, cotias e diversos outros bichos se afogaram, morreram e apodreceram nas √°guas do Madeira. O cons√≥rcio Santo Ant√īnio Energia, respons√°vel pela constru√ß√£o da usina respondeu que realmente ocorreram mortes, mas elas teriam sido m√≠seros “1,8%‚ÄĚ do total de animais resgatados, 25.517, e que desses, 97,7% haviam sido devolvidos “saud√°veis” a natureza.

Um dos milh√Ķes de animais afogados pelo enchimento do lago da Usina Hidrel√©trica de Santo Ant√īnio, Rio Madeira, Rond√īnia. Fonte - aqui -

Um pequeno exerc√≠cio matem√°tico revela uma verdade oculta e macabra por traz s√£o desses n√ļmeros. Vamos raciocinar um pouco… Uma esp√©cie t√≠pica de ave passeriforme possui uma densidade populacional de 1 casal a cada 5 hectares, ou 1 indiv√≠duo a cada 2,5 hectares (Terborgh et al. 1990). Segundo a pr√≥pria Santo Ant√īnio Energia, a √°rea a ser alagada √© de 16.400 hectares. Essa √°rea comporta, portanto, cerca de 6.560 indiv√≠duos de uma esp√©cie t√≠pica de p√°ssaro. Numa estimativa, conservadora, 200 esp√©cies de passeriformes ocorrem na regi√£o do alto Rio Madeira. Multiplicando 6.560 por 200, chegamos a outra estimativa, tamb√©m conservadora, de mais de 1 milh√£o de p√°ssaros na √°rea a ser inundada! Apenas de aves passeriformes! N√£o estamos contando as demais aves, nem r√©pteis, anf√≠bios, mam√≠feros, borboletas e a m√≠riade de outros invertebrados. Se os cont√°ssemos, facilmente a conta chegaria a bilh√Ķes de animais. Nesse contexto, a afirma√ß√£o da empresa de que teriam sido 459, ou melhor, 459,306 para ser mais exato, os animais mortos pelo alagamento dispensa mais coment√°rios.

Usina Hidrel√©trica de Santo Ant√īnio, Rio Madeira, Rond√īnia, ainda em fase de constru√ß√£o. Com as obras completamente conclu√≠das mais de 16.000 hectares de florestas estar√£o para sempre submersos.

Vamos deixar um pouco de lado os infortunados que n√£o conseguiram embarcar na Arca de No√© e nos concentrar em analisar o destino desses quase 25 mil animais resgatados e devolvidos “saud√°veis” a natureza. Um √≥timo ponto de partida para nos enveredarmos nessa quest√£o √© um elucidativo artigo do Professor Marcos Rodrigues, da UFMG, publicado em 2006 na revista Natureza & Conserva√ß√£o. Nessa publica√ß√£o o autor levanta uma s√©rie de quest√Ķes sobre o destino dos animais realocados, compartilhadas abaixo.

O objetivo declarado dos resgates de fauna é salvar animais que de outra maneira se afogariam. Para isso, equipes de biólogos e veterinários capturam animais, principalmente vertebrados, durante o enchimento da represa. Os animais capturados passam um breve período em centros de reabilitação e em seguida são liberados em áreas que, teoricamente, possuem características semelhantes àquelas de onde foram retirados, mas onde, obviamente, não haverá alagamento.

Embora l√≥gico a primeira vista, esse procedimento parece ignorar o fato que muitas das esp√©cies inclu√≠das nesse bolo s√£o territorialistas. Nesses casos, cada indiv√≠duo, casal ou bando, dependendo da esp√©cie, defende uma √°rea da floresta (ou cerrado, caatinga, etc.), mantendo um territ√≥rio geralmente com fronteiras muito bem delimitadas. As vantagens do animal manter um territ√≥rio est√£o relacionadas principalmente com competi√ß√£o por recursos, incluindo alimento, abrigo e parceiros reprodutivos. Por isso, muitas esp√©cies defendem exaustivamente seus territ√≥rios, n√£o tolerando indiv√≠duos da mesma, ou, por vezes, at√© de outras esp√©cies. Em um ecossistema em equil√≠brio, geralmente a maior parte do espa√ßo est√° ocupada por territ√≥rios de uma dada esp√©cie, imediatamente onde termina o territ√≥rio de um indiv√≠duo, j√° come√ßa o de outro. √Āreas “desocupadas” geralmente n√£o apresentam recursos necess√°rios para aquela esp√©cie.

O leitor provavelmente j√° entendeu onde acabaremos chegando. Ora pois, os animais resgatados s√£o soltos em √°reas onde geralmente n√£o h√° territ√≥rios vagos, o que, consequentemente, resultar√° em uma superpopula√ß√£o local da esp√©cie. O que acontecer√° ent√£o com esses indiv√≠duos? As op√ß√Ķes n√£o s√£o muitas e, possivelmente, eles tentar√£o tomar o territ√≥rio de um indiv√≠duo j√° estabelecido. No entanto, as chances de sucesso s√£o baixas, pois o rec√©m-chegado, al√©m de n√£o conhecer o novo local, provavelmente estar√° em m√°-forma e estressado, ap√≥s fugir da inunda√ß√£o, ser mantido em gaiolas, transportado etc., diminuindo ainda mais suas chances.

Caso n√£o morra por motivos resultantes de disputas territoriais, o “invasor” poder√° tornar-se um ‚Äúsat√©lite‚ÄĚ: indiv√≠duos que vagam em busca de um territ√≥rio desocupado. As chances de sobreviv√™ncia de um sat√©lite, no entanto, s√£o baixas, pois ele tem menor acesso a recursos e constantemente tem que se envolver em disputas com indiv√≠duos cujos territ√≥rios ele invade. Al√©m disso, quanto maior o n√ļmero de sat√©lites, mais tempo os indiv√≠duos territoriais tem que passar se defendendo, diminuindo assim o tempo dedicado a atividades como alimenta√ß√£o e reprodu√ß√£o. Ou seja, a introdu√ß√£o dos indiv√≠duos translocados pode impactar seriamente as popula√ß√Ķes naturais j√° estabelecidas

Assim, fica claro que resgates de fauna s√£o muito pouco efetivos frente ao n√ļmero de animais afetados no alagamento causado por uma usina hidrel√©trica de grandes propor√ß√Ķes, ou pior, podem funcionar como um ‚Äútiro no p√©‚ÄĚ. No entanto, √© uma atividade com grande repercuss√£o na m√≠dia (quem nunca viu na televis√£o cenas de animais sendo resgatados por helic√≥pteros e depois saindo de gaiolas para a ‚Äúliberdade‚ÄĚ da floresta?) e popular frente √† opini√£o p√ļblica, que acredita que os animais est√£o realmente sendo ‚Äúsalvos‚ÄĚ e ignoram que outros centenas de milh√Ķes foram, literalmente, por √°gua abaixo ou sentenciados a vagar sem rumo nem dire√ß√£o pela floresta tal qual refugiados de um verdadeiro massacre. Problema? Nenhum… Afinal, o que os olhos n√£o veem o cora√ß√£o n√£o sente.

Post scriptum: Reproduzo aqui um pertinente comentário sobre o texto acima feito no FaceBook por Vitor de Queiroz Piacentini, o qual lança luz sobre mais um grave problema associado a resgates de fauna e não abordado diretamente no nosso texto.

O texto t√° muito bom, e poderia ir at√© mais longe: os resgates em rios divisores de fauna (= esp√©cies ou subesp√©cies aparentadas substituindo-se em margens opostas dos rios) simplesmente ignoram o papel biogeogr√°fico desses rios. O bicho-pregui√ßa da margem direita t√° h√° 694.750 anos sem contato com a popula√ß√£o da margem esquerda? N√£o faz mal, solta tudo no mesmo buraco! Danem-se os padr√Ķes filogeogr√°ficos que a evolu√ß√£o levou anos construindo (os n√ļmeros do exemplo s√£o hipot√©ticos, mas sei de fonte segura que mais de 200 pregui√ßas de uma margem foram soltas na outra!)

O que os olhos n√£o veem...

Fontes:

Rodrigues, M. 2006. Hidrel√©tricas, Ecologia Comportamental, Resgate de Fauna: uma Fal√°cia. Natureza & Conserva√ß√£o, vol. 4, n. 1, p. 29-38. (A maior parte das informa√ß√Ķes, racioc√≠nio e conclus√Ķes desse post foi adaptada deste excelente artigo.)

Terborgh, J. et al. 1990. Structure and organization of an Amazonian forest bird community. Ecological Monographs, vol. 60, p. 213-238.

Novas reflex√Ķes sobre o caso da ex-invis√≠vel e atual fedida Lagoa da Turfeira.

por Luciano Moreira Lima

NOTA IMPORTANTE: para quem está acompanhando o caso a partir de agora é bom ler o texto anterior também publicado aqui no Caapora (scienceblogs.com.br/caapora) para se situar melhor. 

Sexta-feira est√° a√≠, √© hora de recapitular os fatos…

Brejos, p√Ęntanos, manguezais e ecossistemas correlatos sempre foram alvo de um certo preconceito por parte da popula√ß√£o geral. Al√©m do Shrek, que -embora simp√°tico- n√£o deixa de ser um ogro, outras coisas n√£o muito desej√°veis s√£o comumente associadas √†s √°rea √ļmidas, mesmo que injustamente. A mal√°ria, por exemplo, tem origem no express√£o “mal are”, pois se acreditava que s√≥ do sujeito respirar o “mal ar” dos brejos era tiro e queda pra tombar na cama.

Ogros pantanosos, doen√ßas olfativas e outras injusti√ßas cometidas contra as √°reas √ļmidas √† parte, √© dif√≠cil deixar de lado uma caracter√≠stica¬†que faz com que certas pessoas “tor√ßam o nariz” para esses ecossistemas, e que acomete principalmente os manguezais, um caracter√≠stico cheirinho de enxofre. Quem j√° desbravou √°reas de mangue sabe bem do que eu estou falando. √Č s√≥ afundar um pouco na lama que logo sobe aquele cheirinho mais forte. N√£o adianta olhar com cara feia para o amigo que vai caminhando na frente, a real causa cheiro √© a decomposi√ß√£o intensa de mat√©ria org√Ęnica por uma mir√≠ade de bact√©rias que durante o processo acabam liberando enxofre.

Da Ilha de Maraj√≥, no PA, √† regi√£o de Guaraque√ßaba, no PR, j√° percorri muitas √°reas √ļmidas no encal√ßo da passarada, mas nem os manguezais dos fundos da Ba√≠a de Guanabara superam o “mal are” que est√° exalando das √°reas √ļmidas aterradas nas imedia√ß√Ķes da Lagoa da Turfeira. Dessa vez, no entanto, a culpa n√£o √© das bact√©rias, o mau cheiro √© “daquilo mesmo que voc√™s est√£o pensando” que fizeram ali. Cheguei √† conclus√£o que o “mal ar” ¬†est√° t√£o forte que tem levado a uma desbaratiniza√ß√£o completa de algumas pessoas que visitaram a √°rea a ponto destas afirmarem veementemente que havia sim sido detectado uma redu√ß√£o do espelho d’√°gua e depois tentarem justificar o injustific√°vel argumentando coisas do tipo: ¬†“n√£o n√£o, n√£o matamos ningu√©m s√≥ amputamos um bra√ßo e uma perna, mas agora vamos monitorar o estado do paciente, vai morrer n√£o, pode ficar tranquilo”.

Oooooh catinga!!!

N√£o vou entrar em detalhes sobre o disse-me-disse, mas muito tem se falado e algumas perguntas importantes ainda n√£o foram respondidas:

Afinal, há ou não há um estudo de impacto ambiental sobre a malfadada obra? Se há, cadê?

Se não há, por que não há? Só estão dispensadas de apresentarem tal relatório empreendimentos considerados de baixo impacto, o que nos leva a outra pergunta importante: obras às margens de uma lagoa de quase 70 hectares são de baixo impacto?

Uma outra questão básica pode ser levantada aqui: se não houve estudo de impacto ambiental, não houve uma caracterização da lagoa, se não houve caracterização da lagoa como se sabe o nível que ela atinge durante a época da cheia. Sem saber isso, como estipular então onde começa o limite de proximidade a que a obra pode chegar (sendo ela 0,1 ou 1000 metros)? Essa fedeu muito, não?

Tem também a questão da licença de instalação, mas primeiro vamos esperar a resposta a essas perguntas mais básicas.

Desde a minha ida na lagoa na fat√≠dica tarde do √ļltimo s√°bado (21/04) fiquei imaginando que uma foto a√©rea atual seria perfeita para demonstrar o estrago. E n√£o √© que ontem a foto apareceu? Aproveito para agradecer ao Celso Dutra que gentilmente postou a imagem no meu FaceBook, e tamb√©m ao Andr√© Pol que produziu o esquema abaixo mostrando que de fato houve sim o aterro de √°reas alagas, pelo menos 5, tamb√©m de acordo com o Andr√©. Na foto √© poss√≠vel ver ainda o qu√£o colado na lagoa est√° o empreendimento, pelo visto as capivaras v√£o ter que se adaptar e passar a pastar as algas do fundo do espelho d’√°gua.

Vista aérea do estrago. Repare nos diversos espelhos d'água aterrados pela obra e na proximidade com a lagoa, especialmente no canto superior direito da obra. Foto gentimente encaminhada por Celso Dutra.

Detalhe da foto a√©rea mostrando o aterramento de diversas √°reas √ļmidas junto a Lagoa da Turfeira. Esquema gentilmente encaminhado por Andr√© Poll.

Detalhe da foto a√©rea mostrando o aterramento de diversas √°reas √ļmidas junto a Lagoa da Turfeira. Esquema gentilmente encaminhado por Andr√© Poll.

A √ļnica d√ļvida que faz tempo j√° deixou de existir √© sobre a import√Ęncia conservacionista da Lagoa da Turfeira e √°reas √ļmidas adjacentes, fato apontado diversas vezes at√© mesmo por aqueles que querem destruir a √°rea. Paradoxal n√£o? Fica mais uma pergunta: se j√° estava todo mundo careca de saber que a √°rea √© importante, por que n√£o criaram a reserva antes? Mas tudo bem, pensemos no “antes tarde do que nunca”. J√° que a reserva ser√° criada, que tal ser tranformada em uma op√ß√£o de lazer, com visita√ß√£o controlada, que vai completamente ao encontro da voca√ß√£o ambiental do munic√≠pio de Resende?

Abaixo seguem duas fotos para servirem como exemplo de parques em √°reas √ļmidas que al√©m de conservarem a biodiversidade, promovem a eduac√£o ambiental e geram recursos. Qualquer um que admire a natureza e tenha tido a chance de passear um pouco fora do pa√≠s sabe que mundo afora, especialmente em paises como o Jap√£o da Nissan, existem in√ļmeras reservas como essas da foto, grande parte delas inclusive como uma diversidade de aves muito MENOR que a da Lagoa da Turfeira.

Uma das muitas reservas mundo afora que unem conservação, educação ambiental e geração de recursos. Será que em um ano conseguimos ver a Lagoa da Turfeira assim?

Uma das muitas reservas mundo afora que unem conservação, educação ambiental e geração de recursos. Será que em um ano conseguimos ver a Lagoa da Turfeira assim?

Uma das muitas reservas mundo afora que unem conservação, educação ambiental e geração de recursos. Será que em um ano conseguimos ver a Lagoa da Turfeira assim?

Falando em Nissan e Jap√£o, o famoso jornalista Ricardo Boechat (que literalmente mandou a prefeitura de Resende pra PQP – duvida?! eu tamb√©m duvidei… ou√ßa aqui) fez mais uma excelente e mal cheirosa pergunta: Ser√° que o governo japon√™s autorizaria a constru√ß√£o de uma f√°brica da Nissan em um local equivalente √† nossa Lagoa da Turfeira? Ser√°? Ser√°? N√£o precisa assistir Globo Rep√≥rter e ouvir o S√©rgio Chapellin falando “depois do intervalo, os segredos da longevidade dos japoneses” para saber que a resposta para a pergunta do Boechat. Afinal n√£o √© √† toa que no Jap√£o se vive mais, se sabe mais e trapalhadas pol√≠ticas s√£o motivo de como√ß√£o nacional, e isso tudo passa claramente pela rela√ß√£o do povo japon√™s com a natureza.

Fica ent√£o a pergunta final endere√ßada para a Nissan e seu presidente no Brasil Sr. Carlos Goshn: com tanta √°rea de pasto abandonada Resende afora voc√™s v√£o mesmo querer construir a f√°brica em um local que a coloca como uma s√©ria amea√ßa a √ļltima grande √°rea √ļmida remanescente da regi√£o Sul Fluminense? Pois se for o caso e essa importante empresa multinacional n√£o der a m√≠nima para um termo t√£o em moda quanto responsabilidade s√≥cio-ambiental, √© bom voc√™s irem se acostumando com o cheiro, porque com certeza, vez ou outra o neg√≥cio vai feder.

Depois da vergonha do Código Florestal, mais uma vez a sanidade ambiental do governo brasileiro está sendo colocada à prova. Agora é esperar e ver o que o que o laudo oriundo da visita do INEA irá concluir.

Aproveito para agradecer em meu nome e em nome da Lagoa da Turfeira e sua biodiversidade a todos que de alguma forma est√£o acompanhando, compartilhando, e lutando, especialmente o vereador Dr. Gl√°ucio Julianelli e a jornalista Ana L√ļcia Corr√™a de Souza que assumiram posi√ß√Ķes no pelot√£o de frente.

 

A invis√≠vel Lagoa da Turfeira, uma trag√©dia ambiental anunciada…

por Luciano Moreira Lima

Uma das √ļltimas grandes √°reas √ļmidas da regi√£o sul fluminense corre s√©rio risco de desaparecer ¬†

Das milhares de pessoas que diariamente passam pelo km 299 da Rod. Presidente Dutra (BR 116), poucas devem notar que contornada a oeste por uma abrupta curva do rio Para√≠ba do Sul est√° uma das √ļltimas grandes √°reas √ļmidas naturais da regi√£o sul fluminense, a Lagoa da Turfeira (tamb√©m conhecida como Lagoa da Kodak devido a proximidade com uma antiga f√°brica da referida empresa). Essa situa√ß√£o, no entanto, causa pouco espanto j√° que a grande lagoa parece n√£o ser invis√≠vel apenas para os motoristas concentrados na estrada. N√£o adianta procurar pelos seus cerca de 700.000 metros2 em um detalhado mapa hidrogr√°fico do munic√≠pio de Resende produzido em parceria com a prefeitura municipal –dispon√≠vel aqui ‚Äď. Voc√™ n√£o ver√° a indica√ß√£o de nem um pingo d‚Äô√°gua em seu local. Fato no m√≠nimo inusitado, uma vez que lagoas at√© 10 vezes menores s√£o corretamente indicadas no mapa e se dos dermos conta que a Lagoa da Turfeira pode ser claramente observada a mais de 10.000 metros de altitude via Google Earth.

Vista panor√Ęmica da Lagoa da Turfeira onde √© poss√≠vel ver o Rio Para√≠ba do Sul a direita. Resende, RJ. Fonte: GoogleEarth

Se uma √°rea equivalente a mais de 70 campos de futebol pode passar desapercebida, imagine aqueles que a habitam, como o diminuto tricolino (Pseudocolopteryx sclateri) de topete invocado e m√≠seros 9,5 cms. N√£o bastasse o tamanho, esse bonito passarinho vive apenas no meio de densas moitas de taboa (Typha domingensis), uma das plantas mais caracter√≠sticas de √°reas alagadas no Brasil. ¬†Ornit√≥logos e observadores de aves sabem que para poder observ√°-lo n√£o basta apenas vontade √© preciso se embrenhar-se no taboal, muitas vezes afundar com √°gua acima do joelho e ficar de ouvidos atentos ao seu discret√≠ssimo canto ‚Äď ou√ßa aqui – .

O pequeno e simpático tricolino (Pseudocolopteryx sclateri). Foto: Bruno Rennó.

Mais de 11 anos de visitas regulares a Lagoa da Turfeira e seu entorno imediato realizadas em parceria com o amigo e tamb√©m ornit√≥logo Bruno Renn√≥, resultaram no registro n√£o apenas do discreto tricolino mas tamb√©m de pelo menos outras 169 esp√©cies de aves silvestres no local. Nesse total, que representa cerca de 20% das aves do Estado do Rio de Janeiro, est√£o inclu√≠das esp√©cies amea√ßadas de extin√ß√£o em √Ęmbito estadual e diversas aves migrat√≥rias paras quais a lagoa representa um importante ref√ļgio.

Os resultados desse estudo ‚Äď parcialmente apresentados no XVI Congresso Brasileiro de Ornitologia – tornaram evidente a import√Ęncia da Lagoa da Turfeira para conserva√ß√£o da biodiversidade fluminense e auxiliaram na sensibiliza√ß√£o do poder p√ļblico municipal para que algo fosse feito em prol da sua preserva√ß√£o . Dessa forma, em 2010 a Ag√™ncia do Meio Ambiente do Munic√≠pio de Resende elaborou o documento ‚ÄúEstudo T√©cnico Preliminar para Constitui√ß√£o de √Ārea Protegida no Banhado da Kodak‚ÄĚ, e entre as principais conclus√Ķes estavam:

“A criação e implantação de unidade de conservação no Banhado da Kodak alinha-se aos compromissos internacionais do Brasil de proteger o ambiente, conforme metas estabelecidas pela ONU, em se tratando do Ano Internacional da Biodiversidade.

A criação e implantação da unidade acarretará ainda um aumento do ICMS do município, conforme prevê a Lei no 5.100 de 04 de outubro de 2007 e o Decreto no 41.101 de 27 de dezembro de 2007.

Constata-se, portanto, que a unidade trar√° grandes benef√≠cios para o munic√≠pio [‚Ķ]‚ÄĚ

Dois anos se passaram ap√≥s finaliza√ß√£o desse documento e aos poucos a Lagoa foi novamente caindo no esquecimento dos √≥rg√£o governamentais, at√© a semana passada. Na √ļltima quinta-feira (19/04), alertado por amigos, descobri que a prefeitura Municipal de Resende ¬†havia orgulhosamente publicado uma imagem da Lagoa invis√≠vel em sua p√°gina do Facebook acompanhada de alguns par√°grafos de not√≠cia. No entanto, ao inv√©s do t√≠tulo fazer qualquer men√ß√£o a alguma a√ß√£o visando a conserva√ß√£o da √°rea l√° estava: ‚ÄúAs obras da Nissan‚ÄĚ. Meio sem rumo e sem querer acreditar no que eu havia lido me dei conta que n√£o apenas n√£o seria feito nada para conservar a Lagoa como tamb√©m estava sendo orgulhosamente anunciada o que poderia se tornar em uma das maiores trag√©dias ambientais recentes da regi√£o sul fluminense. Esperei o final de semana chegar e fui para casa em Resende ver com meus pr√≥prios olhos a situa√ß√£o da √°rea.

Lagoa da Turfeira na p√°gina do FaceBook da Prefeitura Municipal de Resende.

Era por volta de 14:00 do √ļltimo s√°bado (21/04). Da Dutra j√° era poss√≠vel ver uma gigantesca √°rea de terra exposta meio enevoada pela poeira levantada pelo ir e vir constante de uma verdadeira frota de m√°quinas escavadeiras e caminh√Ķes. Segui pela estrada de ch√£o paralela a lagoa e encarado pelo olhar apreensivo das pessoas que l√° trabalhavam fui desviando das escavadeira e caminh√Ķes. O barulho constante dos motores e a poeira contribu√≠am deixando o cen√°rio de destrui√ß√£o ainda mais desolado e logo me dei conta que eu n√£o era o √ļnico perdido por ali, uma gar√ßa-branca-grande (Ardea alba) e duas gar√ßas-brancas-pequenas (Egretta thula) voavam sem rumo entre duas po√ßas j√° lamacentas sendo¬† repetidamente espantadas pelas m√°quinas.

Procurei em v√£o pela √°rea onde em 2001 havia feito o primeiro registro documentado da triste-pia (Dolichonyx oryzivorus) no Estado do Rio de Janeiro ‚Äď veja a publica√ß√£o cient√≠fica aqui – e onde tamb√©m observ√°vamos com frequ√™ncia o amea√ßado coleiro-do-brejo (Sporophila collaris). Tarde demais, a passarada havia simplesmente virado terra nua. Um pouco mais para frente em uma √°rea que ainda mantinha um pouco de vegeta√ß√£o uma concentra√ß√£o impressionante de aves, onde chamava aten√ß√£o o colorido dos chopim-do-brejo (Pseudoleistes guirahuro) e da pol√≠cia-inglesa-do-sul (Leistes superciliaris), lembravam refugiados aglomerando-se as centenas e fugindo de um verdadeiro massacre.

Coleiro-do-brejo (Sporophila collaris) fotografado na Lagoa da Turfeira. Foto: Ciro Albano.

Polícia-inglesa-do-sul (Sturnella superciliaris), fotografado na Lagoa da Turfeira. Foto: Luiz Ribenboim

Um pouco mais pra frente na estrada dirigi at√© o alto de uma colina e de l√° pude avaliar melhor o estrago. A extens√£o da √°rea aterrada era impressionante¬† e embora at√© aquele momento tenha sido poupado o espelho d‚Äô√°gua principal diversas √°reas √ļmidas existentes ao seu redor foram completamente aterradas. De l√° tamb√©m pude rever tamb√©m algo que sempre me causou especial press√°gio. Um antigo canal localizado no canto nordeste ligando-a ao Rio Para√≠ba do Sul, embora hoje esteja parcialmente assoreado j√° funcionou como sangradouro de suas √°guas podendo novamente ser utilizado para extingu√≠-la. No caminho de volta, entrei por uma estrada que acabava de ser aberta e estranhamente terminava no espelho d‚Äô √°gua, fiquei ainda mais apreensivo me perguntando a fun√ß√£o daquele caminho.

Cenário de destruição junto a Lagoa da Turfeira. Foto: Luciano Lima

Cenário de destruição junto a Lagoa da Turfeira. Foto: Luciano Moreira Lima

Cenário de destruição junto a Lagoa da Turfeira. Foto: Luciano Moreira Lima

Por conta do mestrado sou obrigado a morar em São Paulo e aos poucos vou me acostumando com os engarrafamentos, poluição e violência urbana. Por isso, nada contra a montadora de carros, tampouco contra o dito progresso que prevê que a população de Resende aumente cerca de 50.000 pessoas nos próximos 5 anos. Mas, vale lembrar que lagoas são caracterizadas como áreas de preservação permanente, por isso são áreas intocáveis.

Al√©m disso, certamente deve ter sido produzido um estudo de impacto ambiental para uma obra dessa magnitude, o qual certamente tamb√©m deve ter identificado que qualquer atividade que afete a lagoa poder√° resultar em uma trag√©dia irrevers√≠vel para biodiversidade da regi√£o. Sendo assim, gostaria tamb√©m de ter tido a oportunidade de participar de alguma audi√™ncia p√ļblica onde o destino da Lagoa da Turfeira pudesse ser seriamente debatido.

Embora seu entorno j√° tenha sido bastante impactado ainda h√° tempo de salvar o que restou da √ļltima grande √°rea √ļmida natural da regi√£o meridional do vale do Rio Para√≠ba do Sul. A implementa√ß√£o de uma unidade de conserva√ß√£o no local, em √Ęmbito municipal ou estadual, seria n√£o apenas uma forma de garantir a exist√™ncia a longo prazo da Lagoa da Turfeira e sua rica biodiversidade, mas tamb√©m a oportunidade de cria√ß√£o de um espa√ßo onde atrav√©s de trilhas interpretativas e um centro de visita√ß√£o a popula√ß√£o resendense conquistasse uma nova op√ß√£o de lazer que vai totalmente de encontro a voca√ß√£o ambiental do munic√≠pio. Vale lembrar o grande potencial da √°rea para pr√°tica de uma das atividades ao ar livre que mais crescem no pa√≠s a observa√ß√£o de aves. N√£o por acaso, a Lagoa da Turfeira ocupa tr√™s p√°ginas do livro ‚ÄúA Birdwatching guide to South-East Brazil‚ÄĚ, o qual traz informa√ß√Ķes detalhadas sobre alguns dos principais locais para observa√ß√£o de aves no sudeste do pa√≠s. Sem contar nas in√ļmeras fotos clicadas no local e dispon√≠veis no site WikiAves ‚Äď veja aqui ‚Äď e que demonstram que os ambientes da lagoa s√£o frequentemente procurados por observadores de aves.

Por volta das 16:30 o c√©u nublado evolui para uma chuva fraca que ajudou a esconder os olhos cheios. De fato a ignor√Ęncia √© o melhor caminho para felicidade. Minha tristeza maior n√£o era por ser testemunha ocular de tamanha agress√£o a natureza, mas principalmente por saber a import√Ęncia daquele lugar para a vida e conhecer pelo nome e sobrenome todos aqueles fadados a buscar em v√£o um novo lar. Voltei para casa desolado mas disposto a fazer todo o poss√≠vel para mostrar que as cores e os sons das milhares de vida que dependem da Lagoa da Turfeira fazem que ela seja considerada qualquer coisa, menos invis√≠vel. Cientes que a trag√©dia estava anunciada depende de n√≥s deixar ou n√£o que ela aconte√ßa.

Tinha um jo√£o-porca no meio do caminho…

por Luciano Moreira Lima

Poucos lugares podem ser tão produtivos para o ornitólogo ou observador de aves quanto pequenas estradas que se embrenham floresta a dentro, especialmente as abandonadas. Quando comparadas as estreitas e escuras trilhas, o chão geralmente mais limpo e o campo de visão expandido tornam o caminhar nesses locais mais silencioso e atento, em horários propícios a cada dez passos se topa com um ou outro ser emplumado.

Para aqueles com equipamento fotográfico a tiracolo a situação é ainda mais proveitosa. A luz, sempre escassa no sub-bosque sombrio da mata, é mais abundante próximo as bordas permitindo uma abertura mais fechada e um ISO mais baixo, resultando em imagens mais nítidas e com menos ruído, o que pode fazer toda diferença na hora de um bom click.

J√° era meio de tarde e a passarada meio quieta permitiu que algumas borboletas e lib√©lulas diminu√≠ssem meu passo em uma caminhada por uma estrada abandonada nas proximidades do centro de visitantes no Parque Nacional do Itatiaia. Depois de alguns clicks retomei o curso e alguns passos a frente l√° estava o amigo Bruno Renn√≥ com o olho atento pra dentro do mato. Dava dois passos para direita, dois para esquerda, botava o olho no visor da c√Ęmera e assim que me viu pelo canto do olho acenou para que eu me aproximasse em sil√™ncio.

Repare no sorriso. Odonata, Parque Nacional do Itatiaia - RJ, (c) Luciano Moreira Lima. Caso voc√™ saiba deixo nos coment√°rios sugest√Ķes sobre a identifica√ß√£o do g√™nero ou esp√©cie. Canon 300mm f/4 + extender 1.4x, ISO 600, f/9, 1/125, flash de preenchimento.

Lepidoptera, Parque Nacional do Itatiaia - RJ, (c) Luciano Moreira Lima. Sugest√Ķes sobre a identifica√ß√£o do g√™nero ou esp√©cie s√£o bem vindas, deixe nos coment√°rios. Canon 300mm f/4 + extender 1.4x, ISO 1600, f/8, 1/160, flash de preenchimento.

Repare nos olhos azuis estilo Ana Paula Arósio, clique na imagem para ver ampliada. Lepidoptera, Parque Nacional do Itatiaia - RJ, (c) Luciano Moreira Lima. Canon 300mm f/4 + extender 1.4x, ISO 800, f/9, 1/80, flash de preenchimento.

Perguntei curioso ainda a certa dist√Ęncia:

– Que t√™m a√≠ Bruno Carlos? –

Me respondeu com o olho grudado no visor da c√Ęmera enquanto mirava pra dentro da mata:

– Chega a√≠! T√™m um Lochmias “dando mole” –

Para aqueles que ainda n√£o foram apresentados, Lochmias nematura, √© o √ļnico representante do seu g√™nero e um parente n√£o muito distante do famoso jo√£o-de-barro, Furnarius rufus. No entanto, talvez pelo comportamento mais arredio, n√£o teve o merecido reconhecimento de seu primo, cujo nome popular faz alus√£o a incr√≠vel habilidade de construir ninhos de barro que mais parecem verdadeiras casas (algumas vezes at√© mesmo pr√©dios – veja no WikiAves – ) e acabou sendo batizado pelo povo de jo√£o-porca, um nome vulgar, no m√≠nimo vulgar.

A voz do povo é a voz de Deus, mas para aqueles indignados com um nome tão ultrajante segue a explicação extraída do livro sagrado dos ornitólogos tupiniquins, Ornitologia Brasileira, de Helmut Sick:

¬†“Habita as margens de c√≥rregos de densa vegeta√ß√£o, onde pula no solo ou vai de pedra em pedra entrando mesmo na √°gua rasa √† ca√ßa de insetos e larvas; √†s vezes apanha folhas inteiras ca√≠das na √°gua √† cata de presas, inspeciona a lama de chiqueiros e esgotos (da√≠ a s√©rie de nomes vernaculares pouco airosos de que √© objeto), vira folhas e torr√Ķes de terra com o bico.”¬†

Pessoalmente acho seu nome injusto, pois foram poucas as vezes que vi o joão-porca forrageando próximo a áreas mal cheirosas que lhe justificassem tal adjetivação. Ao contrário, a espécie pode quase sempre ser observada buscando animalejos entre as pedras de córregos limpíssimos que serpenteiam pela mata e onde sua voz Рouça no WikiAves Р geralmente se mistura ao chuá incessante de alguma cachoeira próxima.

Cachoeira na parte baixa do Parque Nacional do Itatiaia, h√°bitat do jo√£o-porca fotografado a pouco metros dali. (c) Luciano Moreira Lima. Canon 300mm f/4, ISO 800, f22, 0.6.

Nesse cen√°rio, Lochmias parece comporta-se como um equivalente ecol√≥gico das aves do g√™nero Cinclus, fam√≠lia Cinclidae, esp√©cies de p√°ssaros semi-aqu√°ticos que habitam rios em diversas regi√Ķes do mundo, mas que n√£o ocorrem no Brasil. No entanto, at√© onde se sabe, Lochmias n√£o √© capaz de mergulhar como fazem os Cinclus. Falar em Cinclus e Lochmias nos remete ao misterioso¬†Thamnophilus aquaticus, supostamente descoberto por J. T. Descourtilz e mencionado por Silva Maia (1851) em um par√°grafo sobre uma “Especie nova e curiosa de passaro brasileiro” – veja aqui -. Embora o g√™nero Thamnophilus perten√ßa a fam√≠lia Thamnophilidae, ou seja, diferente do Lochmias, n√£o vejo explica√ß√£o melhor para as observa√ß√Ķes de Descourtilz do que um jo√£o-porca que se atreveu explorar atr√°s da cortina d’√°gua de uma cachoeira ou situa√ß√£o parecida.

Mas voltemos a estrada abandonada no Itatiaia… Lochmias que se preze raramente “d√° mole” pra foto e nas poucas vezes que presenciei essa situa√ß√£o, n√£o durou mais que 30 segundos. Por isso apressei o passo ao ouvir a resposta do Bruno, mas me aproximei sem muita confian√ßa, pois duvidava que o p√°ssaro estivesse ainda ao alcance da minha lente. Dito e feito, s√≥ deu tempo de ver o bicho adentrar na brenha.

No entanto, um ou outro galho mais exposto no meio da ramaria me diziam que aquela podia ser uma chance muito boa de conseguir um registro fotogr√°fico do jo√£o-porca, objetivo que v√°rias vezes j√° havia perseguido sem conseguir sucesso. Ipod na m√£o, reproduzi baixo por poucos segundos seu chamado caracter√≠stico e quase imediatamente o p√°ssaro se aproximou pousando em um galho ca√≠do cuja uma das pontas era justamente um dos lugares que eu havia previsto que daria uma boa foto. Com olhar curioso foi ao poucos se movendo at√© chegar justamente na posi√ß√£o onde eu havia idealizado, enquanto isso o dedo permaneceu grudado no disparador da c√Ęmera.

Olhar curioso do joão-porca, Lochmias nematura, observando através da ramaria. Parque Nacional do Itatiaia - RJ. (c) Luciano Moreira Lima. Canon 7D, Canon 300mm f/4 + extender 1.4x, ISO 600, f/5.6, 1/60, flash de preenchimento.

Jo√£o-porca, Lochmias nematura, fazendo pose no "limpo". Parque Nacional do Itatiaia - RJ. (c) Luciano Moreira Lima. Canon 300mm f/4 + extender 1.4x, ISO 600, f/5.6, 1/60, flash de preenchimento.

As duas fotos acima foram as melhores da sequ√™ncia que eu consegui. No final, acho que a foto do jo√£o-porca com o olhar curioso entre os vultos da folhagem ilustra muito bem o comportamento t√≠mido da esp√©cie e por isso gostei mais dessa do que daquela em que o passarinho faz pose no lugar que eu havia ansiosamente desejado. Fotografia de natureza, especialmente de aves, pode ser um pouco frustrante √†s vezes, mas em outras o que voc√™ achava que estava bom pode fica ainda melhor…

Morcego Chupacabra Peruano? Não, o vampiro gigante é nosso!

por Guilherme Garbino

Suposto chupacabra encontrado no Peru. A foto tem sido divulgada em redes sociais e em sites diversos.

Recentemente, espalhou-se pela internet a foto acima, um famigerado ‚Äúmorcego gigante‚ÄĚ que teria sido encontrado no Peru. O interessante √© que ao inv√©s de ser confundido com o Batman, como seria de se esperar, a pobre criatura foi logo tida como um prova irrefut√°vel que o chupacabra ainda est√° entre n√≥s.

O fot√≥grafo, intencionalmente ou n√£o, utilizou um truque √≥ptico que j√° foi usado inclusive para propagar viralmente outro caso criptozool√≥gico; o famoso sol√≠fugo (ou ‚Äúsun-spider‚ÄĚ do vernacular em ingl√™s) gigante do Iraque (http://www.brownreclusespider.org/camel-spider/giant-camel-spider.htm). No caso do ‚Äúmorcego gigante‚ÄĚ, o ‚Äútruque‚ÄĚ, de colocar o animal em primeiro plano com os soldados em segundo fica facilmente evidenciado ao olharmos o tamanho da “faquinha” fincada acima do arcabou√ßo de bambu que suspende o animal.

Embora estejam entre os maiores morcegos do mundo, as esp√©cies do g√™nero Pteropus (que em latim quer dizer ‚Äúp√©s com asas‚ÄĚ), e da qual faz parte o nosso ‚Äúmorcego gigante‚ÄĚ n√£o ultrapassam os 1,2 metros de envergadura de asa. Como n√£o encontrei a fonte original da foto, imagino, a partir da distribui√ß√£o geral dos Pteropus maiores (P. neohibernicus e P. vampyrus ou o Acerodon jubatus), que ela tenha sido tirada em algum lugar do sudeste Asi√°tico ou no arquip√©lago Malaio, ou seja, muiiiito longe das selvas peruanas.

Esse caso criptozológico, me lembrou dos relatos sobre o suposto morcego vampiro gigante da América do Sul. Um mito moderno cujos fundamentos se estendem até a mitologia Maia, na forma do deus Camazotz, um monstro com cabeça de morcego associado à morte e a noite.

Camazotz, o Deus Maia da escurid√£o, viol√™ncia e sacrif√≠cio. Clique na imagem para ser redirecionado ao site fonte da foto e obter mais informa√ß√Ķes sobre a criatura.

Todas as três espécies de morcegos hematófagos viventes ocorrem no Brasil e, dentre elas, a maior e mais comum, Desmodus rotundus, atinge uma envergadura de aproximadamente 20 centímetros. Os morcegos hematófagos fósseis, no entanto, evidenciam que algumas espécies poderiam ser até 25% maiores que o Desmodus rotundus. Não é a toa que esses morcegos hematófagos extintos receberam nomes muito criativos como Desmodus stockii (em homenagem ao autor de Drácula, Bram Stocker) e Desmodus draculae.

No Brasil, um cr√Ęnio (subf√≥ssil) de D. draculae foi encontrado em uma caverna do Parque Estadual Tur√≠stico do Alto Ribeira (PETAR). O trabalho da profa. Eleonora Trajano e do Mario de Vivo de 1991 descreve esse registro e vai um pouco al√©m ao suspeitar que a idade do subf√≥ssil seja relativamente recente e que a esp√©cie pode ainda estar presente na regi√£o! Acho improv√°vel, no entanto, que uma esp√©cie de morcego relativamente grande n√£o tenha sido capturada em uma das regi√Ķes c√°rsticas mais bem amostradas para morcegos do pa√≠s.

Quando o assunto √© tamanho, entre os morcegos brasileiros, a maior esp√©cie de morcego, com aproximadamente 80 cent√≠meros de envergadura, √© Vampyrum spectrum que, apesar desse nome, n√£o tem nada de vampiro. De fato, os g√™neros Vampyriscus, Vampyrops (= Platyrrhinus), Vampyrodes e o simp√°tico Vampyressa s√£o todos frug√≠voros, enquanto que os g√™neros verdadeiramente hemat√≥fagos (Desmodus, Diphylla e Diaemus) foram, pode ser dizer, injusti√ßados em seu batismo. Desmodus significa algo como ‚Äúdentes amarrados juntos‚ÄĚ e Diphylla quer dizer ‚Äúduas folhas‚ÄĚ. Apenas o √ļltimo g√™nero a ser descrito, Diaemus tem a ver com o h√°bito que lhes d√° fama: Diaemus vem do grego diaimos, que significa ‚Äúmanchado de sangue‚ÄĚ.

No excelente artigo de G.G. Simpson (1984) (que escrevia bem sobre muitas coisas), o autor ataca a criptozoologia como ciência, argumentando que nós humanos somos os animais mais crédulos, ingênuos e enganosos que existem. Por isso (segundo ele) acreditamos também no criacionismo e em UFOs, além da criptozoologia. Finalizando com chave de ouro, o autor cita magistralmente o cristão Tertuliano para ilustrar a condição da mente humana: Credo quia impossibile (acredito porque é impossível).

 

Fontes de conhecimento:

Simpson, G. G. 1984. Mammals and Cryptozoology.¬†Proceedings of the American Philosophical Society,¬†128(1): 1‚Äď19

Trajano, E. ; Vivo, M. 1991. Desmodus draculae Morgan, Linares & Ray, 1988, reported for southeastern Brazil, with paleoecological comments (Phyllostomidae, Desmodontinae). Mammalia, 55(3): 456-459.

sugerido sobre morcegos e criptozoologia:

Schutt,B. 2008. Dark Banquet: blood and the curious lives of blood-feeding creatures.Crown. 336p.

Perdido e achado: o tiê-bicudo, Conothraupis mesoleuca

por Rafael Marcondes

Muita gente costuma achar que a maioria dos animais e plantas j√° s√£o bem conhecidos e n√£o falta muito a se descobrir. Um dos objetivos do Caapora √© revelar que essa cren√ßa est√° muito longe da realidade: nossa fauna √© t√£o diversa e o Brasil √© t√£o grande e relativamente pouco explorado cientificamente que todo ano s√£o descritas dezenas de novas esp√©cies de animais no nosso pa√≠s, incluindo at√© mesmo aves, que supostamente est√£o entre os grupos de animais mais bem estudados. Mas talvez mais interessante e surpreendente do que a descri√ß√£o de novas esp√©cies √© o fato de que h√° diversos casos de aves que foram descritas h√° d√©cadas ou √†s vezes quase um s√©culo atr√°s e nunca mais foram vistas! Os √ļltimos anos, felizmente, t√™m visto uma s√©rie de redescobertas destas esp√©cies conhecidas apenas de sua descri√ß√£o. Como minha primeira contribui√ß√£o nessa empreitada do Caapora para revelar as camadas mais obscuras da fauna brasileira, o tema desse post √© uma dessas aves ‚Äúperdidas e achadas‚ÄĚ: o ti√™-bicudo, Conothraupis mesoleuca.

O ti√™-bicudo foi descrito pelo zo√≥logo franc√™s Jacques Berlioz em 1939 com base em um √ļnico macho coletado no ano anterior por J. A. Vellard, um especialista em aranhas que era o naturalista de uma expedi√ß√£o pelo Brasil do famoso antrop√≥logo Claude L√©vi-Strauss. Esse esp√©cime, o hol√≥tipo da esp√©cie (principal indiv√≠duo no qual se baseia a descri√ß√£o de uma esp√©cie nova), encontra-se at√© hoje no Mus√©um National d‚ÄôHistoire Naturelle, em Paris e, segundo Berlioz, foi coletado em ‚ÄúJuruena, northeast of Cuyaba‚ÄĚ.

Por mais de seis d√©cadas que seguiram √† sua descoberta o ti√™-bicudo jamais voltou a ser encontrado, tornando-se uma das maiores inc√≥gnitas da ornitologia neotropical. Por praticamente 64 anos tudo que se sabia sobre a esp√©cies resumia-se ao esp√©cime coletado por Vellard e as poucas informa√ß√Ķes fornecidas em sua descri√ß√£o. Informa√ß√Ķes b√°sicas permaneceram completamente ignoradas por todo esse tempo, como por exemplo a morfologia da f√™mea, vocaliza√ß√£o, alimenta√ß√£o e demais aspectos sobre sua biologia. N√£o por acaso o ti√™-bicudo chegou praticamente a ser considerado extinto.

Lévi-Strauss acampado à beira do rio Machado, onde ficou quinze dias entre outubro e novembro de 1938, com alguns índios tupi-cavaíba. Agarrando-se à bota dele, está a macaquinha Lucinda, que o antropólogo adotou durante a viagem. Clique na imagem para ser direcionado a reportagem da revista Leituras da História sobre esse famoso antropólogo que chefiou a expedição em que foi descoberto o tiê-bicudo.

Os poucos ornit√≥logos que se empenharam em redescobrir a esp√©cie esbarravam em uma outra dificuldade al√©m de sua raridade: o rio Juruena fica a noroeste de Cuiab√°, n√£o a nordeste, como mencionado por Berlioz, o que levantava certa suspeita sobre o real local de coleta da esp√©cie. Essa hist√≥ria s√≥ come√ßou a mudar em 2003, quando o ti√™-bicudo foi encontrado no Parque Nacional das Emas, no estado de Goi√°s, surpreendentemente a 750 km de dist√Ęncia do rio Juruena! (Buzzeti & Carlos, 2005) Desde ent√£o, o ti√™-bicudo, inclusive f√™meas, tem sido regularmente observado nessa localidade.

Mas a virada mesmo para o ti√™-bicudo s√≥ veio tr√™s anos depois, em 2006, quando o ornit√≥logo Carlos Ernesto Candia-Gallardo, da Universidade de S√£o Paulo, gravou e fotografou um macho da esp√©cie √†s margens do rio Juruena, na regi√£o da Chapada dos Parecis, estado do Mato Grosso. Esse registro acabou levando ao primeiro estudo da esp√©cie desde sua descri√ß√£o, publicado por Candia-Gallardo em 2010 na revista Bird Conservation International, em parceria com Lu√≠s F√°bio Silveira e Adriana Akeni Kuniy. √Č desse artigo que retiro a maior parte da informa√ß√£o nesse post.

Tiê-bicudo, Conothraupis mesoleuca. Fotografado por Carlos Candia-Gallardo no local de sua descoberta original. Clique na imagem para ver mais fotos da espécie no Wikiaves.

A grava√ß√£o do canto da esp√©cie nesse primeiro encontro permitiu, atrav√©s da t√©cnica do play-back (em que aves, altamente territoriais, s√£o atra√≠das pela reprodu√ß√£o do canto de sua pr√≥pria esp√©cie), a localiza√ß√£o de mais indiv√≠duos em diversas localidades na mesma regi√£o. Descobriu-se que o h√°bitat preferencial da esp√©cie s√£o matas ou campinas alagadas ao longo de rios, contrariando a descri√ß√£o original da esp√©cie, que dava o h√°bitat como ‚Äúarid forest or scrub‚ÄĚ. Isso talvez ajude a explicar por que o ti√™-bicudo passou tantos anos desaparecido: os ornit√≥logos estavam simplesmente procurando no h√°bitat errado!

Clique para ouvir a vocalização da espécie gravada por Bruno Salaroli e disponível no site Wikiaves.

A redescoberta também levou à primeira descrição detalhada da fêmea do tiê-bicudo, com base em um espécime coletado e depositado no Museu de Zoologia da USP, onde ficará para sempre disponível a todos os pesquisadores interessados em estudar a espécie.

Os pesquisadores que redescobriram o ti√™-bicudo tamb√©m esclareceram com precis√£o a localidade-tipo da esp√©cie (localidade onde foi coletado o hol√≥tipo). Pesquisando nos di√°rios de Castro Faria, um antrop√≥logo brasileiro que tamb√©m acompanhava a expedi√ß√£o de L√©vi-Strauss, descobriram que na data em que o ti√™-bicudo foi coletado, Vellard estava acampado na Esta√ß√£o Telegr√°fica de Juruena (a noroeste de Cuiab√°, confirmando o erro na descri√ß√£o original). Essa esta√ß√£o era parte da linha telegr√°fica completada em 1915 pela comiss√£o liderada pelo marechal C√Ęndido Rondon, e que at√© a d√©cada de 1960 era o √ļnico acesso √†quela regi√£o.

Observou-se que o ti√™-bicudo vive geralmente solit√°rio ou em casais, e alimenta-se de insetos e principalmente sementes. Esse h√°bito alimentar n√£o √© comum dentre os Thraupidae, a fam√≠lia em que o ti√™-bicudo tem sido classificado e que tamb√©m inclui os demais tipos de ti√™s, as sa√≠ras, sa√≠s e sanha√ßos. Isso nos leva a um dos aspectos mais surpreendentes sobre o ti√™-bicudo: ele talvez sequer seja um ti√™! O comportamento em geral da esp√©cie, incluindo h√°bitos alimentares e a vocaliza√ß√£o, e os padr√Ķes de plumagem assemelham-se mais aos de esp√©cies de outra fam√≠lia, os Emberizidae, que inclui aves como os tico-ticos, os cardeais e os papa-capins. Especificamente, a plumagem, formato do bico e h√°bitat do ti√™-bicudo s√£o muito semelhantes aos do papa-capim-de-coleira, Dolospingus fringilloides, uma esp√©cie pouco conhecida da fam√≠lia Emberizidae que vive no norte do Brasil, Venezuela e Col√īmbia. Estudos do esqueleto e moleculares (lembrando que apesar da redescoberta, o ti√™-bicudo ainda √© absolutamente desconhecido do ponto de vista gen√©tico e da anatomia interna) poder√£o revelar o verdadeiro parentesco do ti√™(?)-bicudo.

O cap√≠tulo mais recente na hist√≥ria do ti√™-bicudo veio em 2010, quando o ornit√≥logo Guilherme R. R. Brito e colegas, do Museu Nacional da UFRJ, descobriram na Serra do Cachimbo, no Par√°, mais uma nova popula√ß√£o da esp√©cie. Essa popula√ß√£o est√° a 400km do alto Juruena e a 1000km do Parque Nacional das Emas. Para uma esp√©cie que passou d√©cadas desaparecida, a distribui√ß√£o do ti√™-bicudo est√° se revelando mais ampla do se imaginava, ressaltando que uma das principais raz√Ķes para o “sumi√ßo” foi a simples falta de explora√ß√£o cient√≠fica. Sabendo onde e como procurar, aos poucos o ti√™-bicudo est√° se revelando. Quantas esp√©cies desaparecidas ou novas ser√° que n√£o est√£o por a√≠ nesse Brasil, esperando serem (re)descobertas?

Infelizmente, esse post tem que terminar com um par√°grafo sombrio. O ti√™-bicudo est√° criticamente amea√ßado de extin√ß√£o, e estima-se que existam apenas entre 50 e 250 indiv√≠duos vivos da esp√©cie, somando as popula√ß√Ķes do Parque Nacional das Emas e do alto rio Juruena (BirdLife, 2011) – a nova popula√ß√£o, na Serra do Cachimbo, ainda n√£o entrou nesse c√°lculo. Seu h√°bitat, √°reas alag√°veis √†s margens de rios, √© naturalmente fragmentado e vulner√°vel, e toda a regi√£o do Centro-Oeste brasileiro est√° sob forte expans√£o agr√≠cola, principalmente da soja. Para piorar a situa√ß√£o, a regi√£o do alto Juruena √© alvo de projetos de nada menos do que doze usinas hidrel√©tricas, sendo duas de grande porte. Pelo menos cinco j√° est√£o em constru√ß√£o (http://www.oeco.com.br/reportagens/37-reportagens/23761-o-bicudo-e-as-barragens). Os alagamentos causados por essas usinas podem suprimir grande parte do h√°bitat da esp√©cie. Talvez o ti√™-bicudo tenha sido redescoberto apenas para logo ser perdido de novo, dessa vez para sempre. Ou bem a tempo de ser salvo.

Referências:

BirdLife, 2011. Species factsheet: Conothraupis mesoleuca.

Brito, G. R. R. et al. 2011. First record of the Cone-Billed Tanager (Conothraupis mesoleuca) in Par√° state, Brazil, with inferences about its potential distribution. Libro de Resumenes – IX Congresso de Ornitologia Neotropical.

Buzzeti, D. e Carlos, B. A. 2005. A redescoberta do ti√™-bicudo (Conothraupis mesoleuca) (Berlioz, 1939). Atualidades Ornitol√≥gicas, vol. 127, p. 4‚Äď5.

Candia-Gallardo, C. E., et al. 2010. A new population of the Cone-billed Tanager Conothraupis mesoleuca, with information on the biology, behaviour and type locality of the species. Bird Conservation International. vol. 20, n. 2, p. 149-160.

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