Novas reflex√Ķes sobre o caso da ex-invis√≠vel e atual fedida Lagoa da Turfeira.

por Luciano Moreira Lima

NOTA IMPORTANTE: para quem está acompanhando o caso a partir de agora é bom ler o texto anterior também publicado aqui no Caapora (scienceblogs.com.br/caapora) para se situar melhor. 

Sexta-feira est√° a√≠, √© hora de recapitular os fatos…

Brejos, p√Ęntanos, manguezais e ecossistemas correlatos sempre foram alvo de um certo preconceito por parte da popula√ß√£o geral. Al√©m do Shrek, que -embora simp√°tico- n√£o deixa de ser um ogro, outras coisas n√£o muito desej√°veis s√£o comumente associadas √†s √°rea √ļmidas, mesmo que injustamente. A mal√°ria, por exemplo, tem origem no express√£o “mal are”, pois se acreditava que s√≥ do sujeito respirar o “mal ar” dos brejos era tiro e queda pra tombar na cama.

Ogros pantanosos, doen√ßas olfativas e outras injusti√ßas cometidas contra as √°reas √ļmidas √† parte, √© dif√≠cil deixar de lado uma caracter√≠stica¬†que faz com que certas pessoas “tor√ßam o nariz” para esses ecossistemas, e que acomete principalmente os manguezais, um caracter√≠stico cheirinho de enxofre. Quem j√° desbravou √°reas de mangue sabe bem do que eu estou falando. √Č s√≥ afundar um pouco na lama que logo sobe aquele cheirinho mais forte. N√£o adianta olhar com cara feia para o amigo que vai caminhando na frente, a real causa cheiro √© a decomposi√ß√£o intensa de mat√©ria org√Ęnica por uma mir√≠ade de bact√©rias que durante o processo acabam liberando enxofre.

Da Ilha de Maraj√≥, no PA, √† regi√£o de Guaraque√ßaba, no PR, j√° percorri muitas √°reas √ļmidas no encal√ßo da passarada, mas nem os manguezais dos fundos da Ba√≠a de Guanabara superam o “mal are” que est√° exalando das √°reas √ļmidas aterradas nas imedia√ß√Ķes da Lagoa da Turfeira. Dessa vez, no entanto, a culpa n√£o √© das bact√©rias, o mau cheiro √© “daquilo mesmo que voc√™s est√£o pensando” que fizeram ali. Cheguei √† conclus√£o que o “mal ar” ¬†est√° t√£o forte que tem levado a uma desbaratiniza√ß√£o completa de algumas pessoas que visitaram a √°rea a ponto destas afirmarem veementemente que havia sim sido detectado uma redu√ß√£o do espelho d’√°gua e depois tentarem justificar o injustific√°vel argumentando coisas do tipo: ¬†“n√£o n√£o, n√£o matamos ningu√©m s√≥ amputamos um bra√ßo e uma perna, mas agora vamos monitorar o estado do paciente, vai morrer n√£o, pode ficar tranquilo”.

Oooooh catinga!!!

N√£o vou entrar em detalhes sobre o disse-me-disse, mas muito tem se falado e algumas perguntas importantes ainda n√£o foram respondidas:

Afinal, há ou não há um estudo de impacto ambiental sobre a malfadada obra? Se há, cadê?

Se não há, por que não há? Só estão dispensadas de apresentarem tal relatório empreendimentos considerados de baixo impacto, o que nos leva a outra pergunta importante: obras às margens de uma lagoa de quase 70 hectares são de baixo impacto?

Uma outra questão básica pode ser levantada aqui: se não houve estudo de impacto ambiental, não houve uma caracterização da lagoa, se não houve caracterização da lagoa como se sabe o nível que ela atinge durante a época da cheia. Sem saber isso, como estipular então onde começa o limite de proximidade a que a obra pode chegar (sendo ela 0,1 ou 1000 metros)? Essa fedeu muito, não?

Tem também a questão da licença de instalação, mas primeiro vamos esperar a resposta a essas perguntas mais básicas.

Desde a minha ida na lagoa na fat√≠dica tarde do √ļltimo s√°bado (21/04) fiquei imaginando que uma foto a√©rea atual seria perfeita para demonstrar o estrago. E n√£o √© que ontem a foto apareceu? Aproveito para agradecer ao Celso Dutra que gentilmente postou a imagem no meu FaceBook, e tamb√©m ao Andr√© Pol que produziu o esquema abaixo mostrando que de fato houve sim o aterro de √°reas alagas, pelo menos 5, tamb√©m de acordo com o Andr√©. Na foto √© poss√≠vel ver ainda o qu√£o colado na lagoa est√° o empreendimento, pelo visto as capivaras v√£o ter que se adaptar e passar a pastar as algas do fundo do espelho d’√°gua.

Vista aérea do estrago. Repare nos diversos espelhos d'água aterrados pela obra e na proximidade com a lagoa, especialmente no canto superior direito da obra. Foto gentimente encaminhada por Celso Dutra.

Detalhe da foto a√©rea mostrando o aterramento de diversas √°reas √ļmidas junto a Lagoa da Turfeira. Esquema gentilmente encaminhado por Andr√© Poll.

Detalhe da foto a√©rea mostrando o aterramento de diversas √°reas √ļmidas junto a Lagoa da Turfeira. Esquema gentilmente encaminhado por Andr√© Poll.

A √ļnica d√ļvida que faz tempo j√° deixou de existir √© sobre a import√Ęncia conservacionista da Lagoa da Turfeira e √°reas √ļmidas adjacentes, fato apontado diversas vezes at√© mesmo por aqueles que querem destruir a √°rea. Paradoxal n√£o? Fica mais uma pergunta: se j√° estava todo mundo careca de saber que a √°rea √© importante, por que n√£o criaram a reserva antes? Mas tudo bem, pensemos no “antes tarde do que nunca”. J√° que a reserva ser√° criada, que tal ser tranformada em uma op√ß√£o de lazer, com visita√ß√£o controlada, que vai completamente ao encontro da voca√ß√£o ambiental do munic√≠pio de Resende?

Abaixo seguem duas fotos para servirem como exemplo de parques em √°reas √ļmidas que al√©m de conservarem a biodiversidade, promovem a eduac√£o ambiental e geram recursos. Qualquer um que admire a natureza e tenha tido a chance de passear um pouco fora do pa√≠s sabe que mundo afora, especialmente em paises como o Jap√£o da Nissan, existem in√ļmeras reservas como essas da foto, grande parte delas inclusive como uma diversidade de aves muito MENOR que a da Lagoa da Turfeira.

Uma das muitas reservas mundo afora que unem conservação, educação ambiental e geração de recursos. Será que em um ano conseguimos ver a Lagoa da Turfeira assim?

Uma das muitas reservas mundo afora que unem conservação, educação ambiental e geração de recursos. Será que em um ano conseguimos ver a Lagoa da Turfeira assim?

Uma das muitas reservas mundo afora que unem conservação, educação ambiental e geração de recursos. Será que em um ano conseguimos ver a Lagoa da Turfeira assim?

Falando em Nissan e Jap√£o, o famoso jornalista Ricardo Boechat (que literalmente mandou a prefeitura de Resende pra PQP – duvida?! eu tamb√©m duvidei… ou√ßa aqui) fez mais uma excelente e mal cheirosa pergunta: Ser√° que o governo japon√™s autorizaria a constru√ß√£o de uma f√°brica da Nissan em um local equivalente √† nossa Lagoa da Turfeira? Ser√°? Ser√°? N√£o precisa assistir Globo Rep√≥rter e ouvir o S√©rgio Chapellin falando “depois do intervalo, os segredos da longevidade dos japoneses” para saber que a resposta para a pergunta do Boechat. Afinal n√£o √© √† toa que no Jap√£o se vive mais, se sabe mais e trapalhadas pol√≠ticas s√£o motivo de como√ß√£o nacional, e isso tudo passa claramente pela rela√ß√£o do povo japon√™s com a natureza.

Fica ent√£o a pergunta final endere√ßada para a Nissan e seu presidente no Brasil Sr. Carlos Goshn: com tanta √°rea de pasto abandonada Resende afora voc√™s v√£o mesmo querer construir a f√°brica em um local que a coloca como uma s√©ria amea√ßa a √ļltima grande √°rea √ļmida remanescente da regi√£o Sul Fluminense? Pois se for o caso e essa importante empresa multinacional n√£o der a m√≠nima para um termo t√£o em moda quanto responsabilidade s√≥cio-ambiental, √© bom voc√™s irem se acostumando com o cheiro, porque com certeza, vez ou outra o neg√≥cio vai feder.

Depois da vergonha do Código Florestal, mais uma vez a sanidade ambiental do governo brasileiro está sendo colocada à prova. Agora é esperar e ver o que o que o laudo oriundo da visita do INEA irá concluir.

Aproveito para agradecer em meu nome e em nome da Lagoa da Turfeira e sua biodiversidade a todos que de alguma forma est√£o acompanhando, compartilhando, e lutando, especialmente o vereador Dr. Gl√°ucio Julianelli e a jornalista Ana L√ļcia Corr√™a de Souza que assumiram posi√ß√Ķes no pelot√£o de frente.

 

A invis√≠vel Lagoa da Turfeira, uma trag√©dia ambiental anunciada…

por Luciano Moreira Lima

Uma das √ļltimas grandes √°reas √ļmidas da regi√£o sul fluminense corre s√©rio risco de desaparecer ¬†

Das milhares de pessoas que diariamente passam pelo km 299 da Rod. Presidente Dutra (BR 116), poucas devem notar que contornada a oeste por uma abrupta curva do rio Para√≠ba do Sul est√° uma das √ļltimas grandes √°reas √ļmidas naturais da regi√£o sul fluminense, a Lagoa da Turfeira (tamb√©m conhecida como Lagoa da Kodak devido a proximidade com uma antiga f√°brica da referida empresa). Essa situa√ß√£o, no entanto, causa pouco espanto j√° que a grande lagoa parece n√£o ser invis√≠vel apenas para os motoristas concentrados na estrada. N√£o adianta procurar pelos seus cerca de 700.000 metros2 em um detalhado mapa hidrogr√°fico do munic√≠pio de Resende produzido em parceria com a prefeitura municipal –dispon√≠vel aqui ‚Äď. Voc√™ n√£o ver√° a indica√ß√£o de nem um pingo d‚Äô√°gua em seu local. Fato no m√≠nimo inusitado, uma vez que lagoas at√© 10 vezes menores s√£o corretamente indicadas no mapa e se dos dermos conta que a Lagoa da Turfeira pode ser claramente observada a mais de 10.000 metros de altitude via Google Earth.

Vista panor√Ęmica da Lagoa da Turfeira onde √© poss√≠vel ver o Rio Para√≠ba do Sul a direita. Resende, RJ. Fonte: GoogleEarth

Se uma √°rea equivalente a mais de 70 campos de futebol pode passar desapercebida, imagine aqueles que a habitam, como o diminuto tricolino (Pseudocolopteryx sclateri) de topete invocado e m√≠seros 9,5 cms. N√£o bastasse o tamanho, esse bonito passarinho vive apenas no meio de densas moitas de taboa (Typha domingensis), uma das plantas mais caracter√≠sticas de √°reas alagadas no Brasil. ¬†Ornit√≥logos e observadores de aves sabem que para poder observ√°-lo n√£o basta apenas vontade √© preciso se embrenhar-se no taboal, muitas vezes afundar com √°gua acima do joelho e ficar de ouvidos atentos ao seu discret√≠ssimo canto ‚Äď ou√ßa aqui – .

O pequeno e simpático tricolino (Pseudocolopteryx sclateri). Foto: Bruno Rennó.

Mais de 11 anos de visitas regulares a Lagoa da Turfeira e seu entorno imediato realizadas em parceria com o amigo e tamb√©m ornit√≥logo Bruno Renn√≥, resultaram no registro n√£o apenas do discreto tricolino mas tamb√©m de pelo menos outras 169 esp√©cies de aves silvestres no local. Nesse total, que representa cerca de 20% das aves do Estado do Rio de Janeiro, est√£o inclu√≠das esp√©cies amea√ßadas de extin√ß√£o em √Ęmbito estadual e diversas aves migrat√≥rias paras quais a lagoa representa um importante ref√ļgio.

Os resultados desse estudo ‚Äď parcialmente apresentados no XVI Congresso Brasileiro de Ornitologia – tornaram evidente a import√Ęncia da Lagoa da Turfeira para conserva√ß√£o da biodiversidade fluminense e auxiliaram na sensibiliza√ß√£o do poder p√ļblico municipal para que algo fosse feito em prol da sua preserva√ß√£o . Dessa forma, em 2010 a Ag√™ncia do Meio Ambiente do Munic√≠pio de Resende elaborou o documento ‚ÄúEstudo T√©cnico Preliminar para Constitui√ß√£o de √Ārea Protegida no Banhado da Kodak‚ÄĚ, e entre as principais conclus√Ķes estavam:

“A criação e implantação de unidade de conservação no Banhado da Kodak alinha-se aos compromissos internacionais do Brasil de proteger o ambiente, conforme metas estabelecidas pela ONU, em se tratando do Ano Internacional da Biodiversidade.

A criação e implantação da unidade acarretará ainda um aumento do ICMS do município, conforme prevê a Lei no 5.100 de 04 de outubro de 2007 e o Decreto no 41.101 de 27 de dezembro de 2007.

Constata-se, portanto, que a unidade trar√° grandes benef√≠cios para o munic√≠pio [‚Ķ]‚ÄĚ

Dois anos se passaram ap√≥s finaliza√ß√£o desse documento e aos poucos a Lagoa foi novamente caindo no esquecimento dos √≥rg√£o governamentais, at√© a semana passada. Na √ļltima quinta-feira (19/04), alertado por amigos, descobri que a prefeitura Municipal de Resende ¬†havia orgulhosamente publicado uma imagem da Lagoa invis√≠vel em sua p√°gina do Facebook acompanhada de alguns par√°grafos de not√≠cia. No entanto, ao inv√©s do t√≠tulo fazer qualquer men√ß√£o a alguma a√ß√£o visando a conserva√ß√£o da √°rea l√° estava: ‚ÄúAs obras da Nissan‚ÄĚ. Meio sem rumo e sem querer acreditar no que eu havia lido me dei conta que n√£o apenas n√£o seria feito nada para conservar a Lagoa como tamb√©m estava sendo orgulhosamente anunciada o que poderia se tornar em uma das maiores trag√©dias ambientais recentes da regi√£o sul fluminense. Esperei o final de semana chegar e fui para casa em Resende ver com meus pr√≥prios olhos a situa√ß√£o da √°rea.

Lagoa da Turfeira na p√°gina do FaceBook da Prefeitura Municipal de Resende.

Era por volta de 14:00 do √ļltimo s√°bado (21/04). Da Dutra j√° era poss√≠vel ver uma gigantesca √°rea de terra exposta meio enevoada pela poeira levantada pelo ir e vir constante de uma verdadeira frota de m√°quinas escavadeiras e caminh√Ķes. Segui pela estrada de ch√£o paralela a lagoa e encarado pelo olhar apreensivo das pessoas que l√° trabalhavam fui desviando das escavadeira e caminh√Ķes. O barulho constante dos motores e a poeira contribu√≠am deixando o cen√°rio de destrui√ß√£o ainda mais desolado e logo me dei conta que eu n√£o era o √ļnico perdido por ali, uma gar√ßa-branca-grande (Ardea alba) e duas gar√ßas-brancas-pequenas (Egretta thula) voavam sem rumo entre duas po√ßas j√° lamacentas sendo¬† repetidamente espantadas pelas m√°quinas.

Procurei em v√£o pela √°rea onde em 2001 havia feito o primeiro registro documentado da triste-pia (Dolichonyx oryzivorus) no Estado do Rio de Janeiro ‚Äď veja a publica√ß√£o cient√≠fica aqui – e onde tamb√©m observ√°vamos com frequ√™ncia o amea√ßado coleiro-do-brejo (Sporophila collaris). Tarde demais, a passarada havia simplesmente virado terra nua. Um pouco mais para frente em uma √°rea que ainda mantinha um pouco de vegeta√ß√£o uma concentra√ß√£o impressionante de aves, onde chamava aten√ß√£o o colorido dos chopim-do-brejo (Pseudoleistes guirahuro) e da pol√≠cia-inglesa-do-sul (Leistes superciliaris), lembravam refugiados aglomerando-se as centenas e fugindo de um verdadeiro massacre.

Coleiro-do-brejo (Sporophila collaris) fotografado na Lagoa da Turfeira. Foto: Ciro Albano.

Polícia-inglesa-do-sul (Sturnella superciliaris), fotografado na Lagoa da Turfeira. Foto: Luiz Ribenboim

Um pouco mais pra frente na estrada dirigi at√© o alto de uma colina e de l√° pude avaliar melhor o estrago. A extens√£o da √°rea aterrada era impressionante¬† e embora at√© aquele momento tenha sido poupado o espelho d‚Äô√°gua principal diversas √°reas √ļmidas existentes ao seu redor foram completamente aterradas. De l√° tamb√©m pude rever tamb√©m algo que sempre me causou especial press√°gio. Um antigo canal localizado no canto nordeste ligando-a ao Rio Para√≠ba do Sul, embora hoje esteja parcialmente assoreado j√° funcionou como sangradouro de suas √°guas podendo novamente ser utilizado para extingu√≠-la. No caminho de volta, entrei por uma estrada que acabava de ser aberta e estranhamente terminava no espelho d‚Äô √°gua, fiquei ainda mais apreensivo me perguntando a fun√ß√£o daquele caminho.

Cenário de destruição junto a Lagoa da Turfeira. Foto: Luciano Lima

Cenário de destruição junto a Lagoa da Turfeira. Foto: Luciano Moreira Lima

Cenário de destruição junto a Lagoa da Turfeira. Foto: Luciano Moreira Lima

Por conta do mestrado sou obrigado a morar em São Paulo e aos poucos vou me acostumando com os engarrafamentos, poluição e violência urbana. Por isso, nada contra a montadora de carros, tampouco contra o dito progresso que prevê que a população de Resende aumente cerca de 50.000 pessoas nos próximos 5 anos. Mas, vale lembrar que lagoas são caracterizadas como áreas de preservação permanente, por isso são áreas intocáveis.

Al√©m disso, certamente deve ter sido produzido um estudo de impacto ambiental para uma obra dessa magnitude, o qual certamente tamb√©m deve ter identificado que qualquer atividade que afete a lagoa poder√° resultar em uma trag√©dia irrevers√≠vel para biodiversidade da regi√£o. Sendo assim, gostaria tamb√©m de ter tido a oportunidade de participar de alguma audi√™ncia p√ļblica onde o destino da Lagoa da Turfeira pudesse ser seriamente debatido.

Embora seu entorno j√° tenha sido bastante impactado ainda h√° tempo de salvar o que restou da √ļltima grande √°rea √ļmida natural da regi√£o meridional do vale do Rio Para√≠ba do Sul. A implementa√ß√£o de uma unidade de conserva√ß√£o no local, em √Ęmbito municipal ou estadual, seria n√£o apenas uma forma de garantir a exist√™ncia a longo prazo da Lagoa da Turfeira e sua rica biodiversidade, mas tamb√©m a oportunidade de cria√ß√£o de um espa√ßo onde atrav√©s de trilhas interpretativas e um centro de visita√ß√£o a popula√ß√£o resendense conquistasse uma nova op√ß√£o de lazer que vai totalmente de encontro a voca√ß√£o ambiental do munic√≠pio. Vale lembrar o grande potencial da √°rea para pr√°tica de uma das atividades ao ar livre que mais crescem no pa√≠s a observa√ß√£o de aves. N√£o por acaso, a Lagoa da Turfeira ocupa tr√™s p√°ginas do livro ‚ÄúA Birdwatching guide to South-East Brazil‚ÄĚ, o qual traz informa√ß√Ķes detalhadas sobre alguns dos principais locais para observa√ß√£o de aves no sudeste do pa√≠s. Sem contar nas in√ļmeras fotos clicadas no local e dispon√≠veis no site WikiAves ‚Äď veja aqui ‚Äď e que demonstram que os ambientes da lagoa s√£o frequentemente procurados por observadores de aves.

Por volta das 16:30 o c√©u nublado evolui para uma chuva fraca que ajudou a esconder os olhos cheios. De fato a ignor√Ęncia √© o melhor caminho para felicidade. Minha tristeza maior n√£o era por ser testemunha ocular de tamanha agress√£o a natureza, mas principalmente por saber a import√Ęncia daquele lugar para a vida e conhecer pelo nome e sobrenome todos aqueles fadados a buscar em v√£o um novo lar. Voltei para casa desolado mas disposto a fazer todo o poss√≠vel para mostrar que as cores e os sons das milhares de vida que dependem da Lagoa da Turfeira fazem que ela seja considerada qualquer coisa, menos invis√≠vel. Cientes que a trag√©dia estava anunciada depende de n√≥s deixar ou n√£o que ela aconte√ßa.

Tinha um jo√£o-porca no meio do caminho…

por Luciano Moreira Lima

Poucos lugares podem ser tão produtivos para o ornitólogo ou observador de aves quanto pequenas estradas que se embrenham floresta a dentro, especialmente as abandonadas. Quando comparadas as estreitas e escuras trilhas, o chão geralmente mais limpo e o campo de visão expandido tornam o caminhar nesses locais mais silencioso e atento, em horários propícios a cada dez passos se topa com um ou outro ser emplumado.

Para aqueles com equipamento fotográfico a tiracolo a situação é ainda mais proveitosa. A luz, sempre escassa no sub-bosque sombrio da mata, é mais abundante próximo as bordas permitindo uma abertura mais fechada e um ISO mais baixo, resultando em imagens mais nítidas e com menos ruído, o que pode fazer toda diferença na hora de um bom click.

J√° era meio de tarde e a passarada meio quieta permitiu que algumas borboletas e lib√©lulas diminu√≠ssem meu passo em uma caminhada por uma estrada abandonada nas proximidades do centro de visitantes no Parque Nacional do Itatiaia. Depois de alguns clicks retomei o curso e alguns passos a frente l√° estava o amigo Bruno Renn√≥ com o olho atento pra dentro do mato. Dava dois passos para direita, dois para esquerda, botava o olho no visor da c√Ęmera e assim que me viu pelo canto do olho acenou para que eu me aproximasse em sil√™ncio.

Repare no sorriso. Odonata, Parque Nacional do Itatiaia - RJ, (c) Luciano Moreira Lima. Caso voc√™ saiba deixo nos coment√°rios sugest√Ķes sobre a identifica√ß√£o do g√™nero ou esp√©cie. Canon 300mm f/4 + extender 1.4x, ISO 600, f/9, 1/125, flash de preenchimento.

Lepidoptera, Parque Nacional do Itatiaia - RJ, (c) Luciano Moreira Lima. Sugest√Ķes sobre a identifica√ß√£o do g√™nero ou esp√©cie s√£o bem vindas, deixe nos coment√°rios. Canon 300mm f/4 + extender 1.4x, ISO 1600, f/8, 1/160, flash de preenchimento.

Repare nos olhos azuis estilo Ana Paula Arósio, clique na imagem para ver ampliada. Lepidoptera, Parque Nacional do Itatiaia - RJ, (c) Luciano Moreira Lima. Canon 300mm f/4 + extender 1.4x, ISO 800, f/9, 1/80, flash de preenchimento.

Perguntei curioso ainda a certa dist√Ęncia:

– Que t√™m a√≠ Bruno Carlos? –

Me respondeu com o olho grudado no visor da c√Ęmera enquanto mirava pra dentro da mata:

– Chega a√≠! T√™m um Lochmias “dando mole” –

Para aqueles que ainda n√£o foram apresentados, Lochmias nematura, √© o √ļnico representante do seu g√™nero e um parente n√£o muito distante do famoso jo√£o-de-barro, Furnarius rufus. No entanto, talvez pelo comportamento mais arredio, n√£o teve o merecido reconhecimento de seu primo, cujo nome popular faz alus√£o a incr√≠vel habilidade de construir ninhos de barro que mais parecem verdadeiras casas (algumas vezes at√© mesmo pr√©dios – veja no WikiAves – ) e acabou sendo batizado pelo povo de jo√£o-porca, um nome vulgar, no m√≠nimo vulgar.

A voz do povo é a voz de Deus, mas para aqueles indignados com um nome tão ultrajante segue a explicação extraída do livro sagrado dos ornitólogos tupiniquins, Ornitologia Brasileira, de Helmut Sick:

¬†“Habita as margens de c√≥rregos de densa vegeta√ß√£o, onde pula no solo ou vai de pedra em pedra entrando mesmo na √°gua rasa √† ca√ßa de insetos e larvas; √†s vezes apanha folhas inteiras ca√≠das na √°gua √† cata de presas, inspeciona a lama de chiqueiros e esgotos (da√≠ a s√©rie de nomes vernaculares pouco airosos de que √© objeto), vira folhas e torr√Ķes de terra com o bico.”¬†

Pessoalmente acho seu nome injusto, pois foram poucas as vezes que vi o joão-porca forrageando próximo a áreas mal cheirosas que lhe justificassem tal adjetivação. Ao contrário, a espécie pode quase sempre ser observada buscando animalejos entre as pedras de córregos limpíssimos que serpenteiam pela mata e onde sua voz Рouça no WikiAves Р geralmente se mistura ao chuá incessante de alguma cachoeira próxima.

Cachoeira na parte baixa do Parque Nacional do Itatiaia, h√°bitat do jo√£o-porca fotografado a pouco metros dali. (c) Luciano Moreira Lima. Canon 300mm f/4, ISO 800, f22, 0.6.

Nesse cen√°rio, Lochmias parece comporta-se como um equivalente ecol√≥gico das aves do g√™nero Cinclus, fam√≠lia Cinclidae, esp√©cies de p√°ssaros semi-aqu√°ticos que habitam rios em diversas regi√Ķes do mundo, mas que n√£o ocorrem no Brasil. No entanto, at√© onde se sabe, Lochmias n√£o √© capaz de mergulhar como fazem os Cinclus. Falar em Cinclus e Lochmias nos remete ao misterioso¬†Thamnophilus aquaticus, supostamente descoberto por J. T. Descourtilz e mencionado por Silva Maia (1851) em um par√°grafo sobre uma “Especie nova e curiosa de passaro brasileiro” – veja aqui -. Embora o g√™nero Thamnophilus perten√ßa a fam√≠lia Thamnophilidae, ou seja, diferente do Lochmias, n√£o vejo explica√ß√£o melhor para as observa√ß√Ķes de Descourtilz do que um jo√£o-porca que se atreveu explorar atr√°s da cortina d’√°gua de uma cachoeira ou situa√ß√£o parecida.

Mas voltemos a estrada abandonada no Itatiaia… Lochmias que se preze raramente “d√° mole” pra foto e nas poucas vezes que presenciei essa situa√ß√£o, n√£o durou mais que 30 segundos. Por isso apressei o passo ao ouvir a resposta do Bruno, mas me aproximei sem muita confian√ßa, pois duvidava que o p√°ssaro estivesse ainda ao alcance da minha lente. Dito e feito, s√≥ deu tempo de ver o bicho adentrar na brenha.

No entanto, um ou outro galho mais exposto no meio da ramaria me diziam que aquela podia ser uma chance muito boa de conseguir um registro fotogr√°fico do jo√£o-porca, objetivo que v√°rias vezes j√° havia perseguido sem conseguir sucesso. Ipod na m√£o, reproduzi baixo por poucos segundos seu chamado caracter√≠stico e quase imediatamente o p√°ssaro se aproximou pousando em um galho ca√≠do cuja uma das pontas era justamente um dos lugares que eu havia previsto que daria uma boa foto. Com olhar curioso foi ao poucos se movendo at√© chegar justamente na posi√ß√£o onde eu havia idealizado, enquanto isso o dedo permaneceu grudado no disparador da c√Ęmera.

Olhar curioso do joão-porca, Lochmias nematura, observando através da ramaria. Parque Nacional do Itatiaia - RJ. (c) Luciano Moreira Lima. Canon 7D, Canon 300mm f/4 + extender 1.4x, ISO 600, f/5.6, 1/60, flash de preenchimento.

Jo√£o-porca, Lochmias nematura, fazendo pose no "limpo". Parque Nacional do Itatiaia - RJ. (c) Luciano Moreira Lima. Canon 300mm f/4 + extender 1.4x, ISO 600, f/5.6, 1/60, flash de preenchimento.

As duas fotos acima foram as melhores da sequ√™ncia que eu consegui. No final, acho que a foto do jo√£o-porca com o olhar curioso entre os vultos da folhagem ilustra muito bem o comportamento t√≠mido da esp√©cie e por isso gostei mais dessa do que daquela em que o passarinho faz pose no lugar que eu havia ansiosamente desejado. Fotografia de natureza, especialmente de aves, pode ser um pouco frustrante √†s vezes, mas em outras o que voc√™ achava que estava bom pode fica ainda melhor…

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