Bichos do Brasil: Atretochoana eiselti

Atretochoana eiselti, mas pode chamar de bicho-feio-da-p****. Foto por Juliano Tupan.

As cecílias são os mais esquecidos dos vertebrados. A maioria das cerca de 200 espécies deste estranho grupo, de existência absolutamente desconhecida pela maioria dos seres humanos, se assemelha superficialmente muito mais a minhocas do que a outros vertebrados. Pequenos, sem membros, alongados e muitas vezes fossoriais, esses animais constituem a ordem Gymnophiona. Ao lado dos mais populares anuros (sapos, rãs e pererecas) e salamandras, formam a classe Amphibia.

Uma esp√©cie de gimnofiona era para mim um dos maiores s√≠mbolos do quanto o Brasil ainda desconhece sua fauna. Essa esp√©cie, Atretochoana eiselti, foi descrita em 1968 com base em um √ļnico e antigo exemplar depositado no museu de hist√≥ria natural de Viena.¬† Trata-se da maior cec√≠lia do mundo, com quase um metro de comprimento e at√© dez cent√≠metros de circunfer√™ncia.

O mais surpreendente, no entanto, √© que a Atretochoana simplesmente n√£o possui pulm√Ķes. Essa caracter√≠stica n√£o √© √ļnica entre os tetr√°podes: pulm√Ķes tamb√©m est√£o ausentes muitas em muitas esp√©cies de salamandras (inclusive no √ļnico g√™nero que ocorre no Brasil, Bolitoglossa), mas estas t√™m no m√°ximo poucos cent√≠metros de comprimento, fazendo da Atretochoana n√£o s√≥ a maior cec√≠lia mas tamb√©m, de longe, o maior tetr√°pode sem pulm√£o conhecido.

O frustrante √© que esse esp√©cime do museu de Viena, possivelmente coletado pelo naturalista austr√≠aco Johann Natterer em suas viagens pelo Brasil no in√≠cio do s√©culo 19, n√£o possui qualquer informa√ß√£o associada, exceto que prov√©m da Am√©rica do Sul. Em 1998, um segundo exemplar foi descoberto, na cole√ß√£o da Universidade de Bras√≠lia (UnB), mas sem quaisquer informa√ß√Ķes sobre a localidade de coleta. A Atretochoana possui uma morfologia consistente com h√°bitos aqu√°ticos, e devido √† aus√™ncia de pulm√Ķes e a seu grande tamanho, especulou-se que viveria em riachos frios e com corredeiras do Brasil central, condi√ß√Ķes em que a √°gua √© bastante oxigenada, favorecendo a respira√ß√£o cut√Ęnea.

Portanto essa era a absurda situa√ß√£o at√© 2011: a maior gimnofiona do planeta, o maior tetr√°pode apulmonado do planeta, um animal enorme de quase um metro de comprimento, e pod√≠amos apenas especular sobre qual seria seu h√°bitat e at√© distribui√ß√£o geogr√°fica! Quem sabe os dois √ļnicos exemplares coletados seriam para sempre os √ļltimos e √ļnicos testemunhos de uma esp√©cie que j√° se fora…

O mistério da Atretochoana começou a ser finalmente resolvido em 2011, quando herpetólogos do Museu Paraense Emílio Goeldi, em Belém (PA), receberam fotos de um grande animal capturado num matapi, uma armadilha para captura de camarão colocada em águas rasas. O animal não foi capturado, mas com base nas fotografias os cientistas o identificaram como um exemplar de Atretochoana eiselti. Surpreendentemente, as fotografias não foram realizadas num riacho frio e rápido do Brasil central, mas sim numa praia na ilha de Mosqueiro, logo ao norte de Belém, no estuário do rio Amazonas.

A Atretochoana em comparação com uma cecília de tamanho mais usual para a ordem (Boulengerula niedeni). Fotos, respectivamente, de Hogmooed et al. e daqui

Pouco mais de um m√™s depois, os mesmos herpet√≥logos receberam novas fotos de Atretochoana, e desta vez exemplares foram coletados. A coleta ocorreu a 2500 km de Bel√©m, numa piscina formada no leito seco do rio Madeira dias ap√≥s o represamento do rio para a constru√ß√£o de hidroel√©trica de Santo Ant√īnio, em Rond√īnia. Subsequentemente, os herpet√≥logos do Museu Goeldi conseguiram obter esp√©cimes tamb√©m da regi√£o da ilha de Mosqueiro, possibilitando a publica√ß√£o das primeiras informa√ß√Ķes sobre a esp√©cie em seu ambiente natural e a an√°lise de esp√©cimes rec√©m-coletados. Esse estudo foi publicado no Boletim do Museu Paraense Em√≠lio Goeldi por Marinus Hoogmoed, Adriano Maciel e Juliano Coragem, e dele tiro todas as informa√ß√Ķes desse post.

A primeira conclus√£o permitida pela redescoberta √© que, al√©m de j√° deter os pr√™mios de maior cec√≠lia e maior tetr√°pode sem pulm√Ķes, a Atretochoana √© s√©ria concorrente ao t√≠tulo de animal mais nojento do planeta. Cinza, lisa e comprida, n√£o d√° para saber se parece mais uma sanguessuga anabolizada ou uma cobra deformada… E para piorar, dependendo do √Ęngulo, ainda tem um leve aspecto f√°lico, o que levou parte da m√≠dia a apelida-la de ‚Äúpenis snake‚ÄĚ… (Falando nesse assunto, as gimnofionas s√£o os √ļnicos anf√≠bios que possuem um √≥rg√£o copulat√≥rio especializado, chamado falodeu. Aposto que essa informa√ß√£o mudou sua vida, heim?)

A segunda conclus√£o √© que as especula√ß√Ķes sobre seu h√°bitat estavam totalmente erradas. Ambas as localidade conhecidas s√£o de √°guas quentes e turvas. Na regi√£o do rio Madeira em que foi coletada, ainda h√° v√°rias corredeiras, que aumentam a oxigena√ß√£o da √°gua, mas no estu√°rio do Amazonas as √°guas s√£o lentas. De modo geral, n√£o √© um ambiente em que se esperaria encontrar um animal que depende de respira√ß√£o somente atrav√©s da pele.

Os capilares sangu√≠neos da Atretochoana s√£o muito pr√≥ximos da pele, confirmando que ela muito provavelmente realiza respira√ß√£o cut√Ęnea. No entanto, devido a seu grande tamanho corporal, muitas vezes maior que outros tetr√°podes apulmonados, deve haver outras superf√≠cies de troca gasosa. Hoogmoed e seus colegas especulam que essa respira√ß√£o complementar pode ocorrer na cavidade bucofar√≠ngea e n√£o excluem a possibilidade de respira√ß√£o intestinal ou at√© cloacal, como ocorre em algumas tartarugas (e aumentando as chances da Atretochoana no concurso de animal mais repugnante do mundo).

Vista em close da cara (?) de uma Atretochoana. Figura modificada de Hoogmooed et al.

A presen√ßa da Atretochoana em duas localidades t√£o distantes sugere que ela deve ser amplamente distribu√≠da (ainda que talvez rara) na Amaz√īnia brasileira e que seu desaparecimento por tantos anos foi devido simplesmente √† falta de procurar no lugar certo. Seu mist√©rio come√ßou a ser desvendado, mas muito ainda resta para se descobrir sobre esse peculiar animal. A maior d√ļvida √© fisiol√≥gica (como respira um animal deste tamanho, sem pulm√Ķes e em √°guas n√£o particularmente ricas em oxig√™nio?), mas virtualmente nada se sabe ainda sobre sua hist√≥ria natural, h√°bitos e rela√ß√Ķes filogen√©ticas.

Como escreveram seus redescobridores: ‚ÄúAinda temos um longo caminho a percorrer antes de considerar esta esp√©cie ‚Äėconhecida‚Äô‚ÄĚ. E, pensando assim, quantas esp√©cies ser√° que podemos dizer que s√£o realmente conhecidas?

Primatofobia e quest√Ķes existenciais…

por Guilherme Garbino

Foi na primeira metade s√©culo XVI que Cop√©rnico retirou a terra do centro do universo, trocando-a pelo Sol. Ap√≥s correr um s√©rio risco de ser queimado vivo, o cientista retirou suas alega√ß√Ķes. Anos depois, Galileu Galilei, considerado um dos pais do m√©todo cient√≠fico, fez a mesma afirma√ß√£o e foi condenado a pris√£o domiciliar.

Incrivelmente, s√≥ dois s√©culos depois de Galileu ter jogado o planeta Terra para escanteio √© que surgiram os primeiros ind√≠cios de um outro reposicionamento universal, o do lugar do ser humano no universo, assumindo nossa esp√©cie a posi√ß√£o de ¬†‚Äúapenas outro grande s√≠mio‚ÄĚ. Mais estranho ainda √© pensar que o ‚ÄúPr√≠ncipe dos Bot√Ęnicos‚ÄĚ, Carl Linnaeus, o grande classificador do s√©culo XVIII e indubitavelmente um n√£o-evolucionista, colocou o Homo sapiens dentro da ordem Primates.

Na d√©cima edi√ß√£o de seu Systema Naturae, Linnaeus criou o g√™nero Homo. Originalmente, o g√™nero inclu√≠a duas esp√©cies: Homo sapiens e Homo troglodytes. Como de praxe, o autor oferece uma diagnose de suas esp√©cies. A descri√ß√£o de H. sapiens s√£o apenas tr√™s palavras: Nosce te ipsum (Conhe√ßa a ti mesmo).¬† A segunda esp√©cie de Homo, entretanto, claramente refere-se a uma criatura mitol√≥gica que, pelas fontes citadas por Linnaeus, seriam seres albinos habitantes de cavernas. H√° tamb√©m um relato do viajante holand√™s Jakob de Bondt que se refere a uma criatura que pode ser uma orangotango f√™mea ou uma mulher com hipertricose. O Homo troglodytes de Linnaeus n√£o tem nada a ver com o Simia troglodytes de Blumenbach, este √ļltimo o nome cient√≠fico do chimpanz√© (hoje Pan troglodytes). O sistema binomial de nomenclatura admite o mesmo ep√≠teto espec√≠fico em g√™neros diferentes.

Figura de Jacob de Bondt, uma das fontes de Linnaeus, retratando um dos human√≥ides por ele observado durante duas viagens √†s col√īnias holandesas nas ilhas do sudeste asi√°tico.

A √ļltima esp√©cie de Homo descrita por Linnaeus, o Homo Lar, tamb√©m √© uma criatura real, nesse caso gib√£o de lar (hoje Hylobates lar), que foi descrito, assim como outros primatas, em seu Mantissa Plantarum, embora, at√© onde sei, n√£o se trate de uma esp√©cie de planta. Tr√™s novas esp√©cies de ‚Äús√≠mios‚ÄĚ foram ainda posteriormente descritas por Linnaeus, em 1760, na disserta√ß√£o de seu aluno, Hoppius, entitulada Anthropomorpha (at√© meados do s√©culo XIX era costume na Su√©cia que o professor escrevesse a tese e o aluno apenas arcasse com os custos!): Simia Satyrus, Simia Lucifer e Simia Pygmaeus; Todas baseadas em ilustra√ß√Ķes das quais a √ļnica que se refere a uma criatura real √© Simia Pygmaeus, o orangotango de Born√©u que o classificador sueco nomeou pygmaeus por pensar ser esse um membro da ra√ßa de pigmeus mencionada por Homero.

Ilustra√ß√Ķes dos ‚ÄúAnthropomorpha‚ÄĚ de Linnaeus, presentes no livro de Hoppius. Da esquerda para a direita: Simia Troglodyta, S√≠mia L√ļcifer, S√≠mia Satyrus e Simia Pygmaeus.

Embora essa primeira classifica√ß√£o tenha um teor otimista e de justi√ßa filogen√©tica (ao menos para mim, que leio isso em 2012), colocando os humanos firmemente na Ordem que inclu√≠a os outros macacos, l√™mures, t√°rsios, colugos e morcegos, a classifica√ß√£o de Linnaeus, vale lembrar, tinha um car√°ter pr√°tico e artificial, agrupando os seres vivos, por vezes, com base em um √ļnico car√°ter similar compartilhado (no caso de Primates, o n√ļmero de incisivos). Para termos alguma no√ß√£o de como essa classifica√ß√£o do homem foi recebida numa Europa antropoc√™ntria, o alem√£o Blumenbach, em 1775, apontou que o grande erro de Linnaeus foi misturar atributos dos s√≠mios com os do homem.

A escola francesa p√≥s-revolu√ß√£o e os alem√£es, no entanto, insistiram em dar um lugar especial ao homem; nesse sentido, nomes muito conhecidos como Georges Cuvier, √Čtienne Geoffroy Saint-Hilaire e Johann Blumenbach separaram o Homo sapiens em uma ordem exclusiva de mam√≠feros, Bimana (“duas m√£os”), e os outros primatas na ordem Quadrumana (“quatro m√£os”). Sir Richard Owen, diretor do Museu Brit√Ęnico, foi al√©m e classificou o homem como √ļnico representante de Archencephala (ou c√©rebros dominantes) uma de suas quatro subclasses de Mammalia, com base em caracter√≠sticas supostamente √ļnicas de nosso enc√©falo. ¬†Na √©poca essa id√©ia foi veementemente contestada, principalmente por Thomas H. Huxley.

O extremo talvez tenha sido atingido, em pleno s√©culo XX, por Julian Huxley, neto de T. H. Huxley, que em 1942 prop√īs separar o homem em um Reino a parte, o “Psicozoa”, argumentando que possu√≠mos o car√°ter √ļnico de cultura e “dom√≠nio do mundo” (o que quer que isso queira dizer). Os homens, principalmente os do sexo masculino da Europa e dos EUA, simplesmente se recusavam a aceitar nosso passado simiesco.

Somente um s√©culo ap√≥s Linnaeus outros naturalistas voltaram a incluir o homem em Primates. Ningu√©m menos que Charles Darwin, em seu livro de 1871, “The Descent of Man and selection in relation to Sex” (A Descend√™ncia do Homem e Sele√ß√£o em Rela√ß√£o ao Sexo), prop√īs, depois desse enorme hiato, que “o homem, sob um ponto de vista geneal√≥gico, pertence aos Catarhini (sic)”. Ao saber disso, a mulher do bispo de Worcester exclamou a famosa frase: “descendente de s√≠mios! Querido, vamos rezar para que isso n√£o seja verdade, mas se for rezemos para que isso n√£o se espalhe!”.

Charge do s√©culo XIX, onde o gorila diz ‚ÄúAquele homem quer meu pedigree. Ele diz que √© um de meus descendentes‚ÄĚ. Sr. Bergh (um dos fundadores da sociedade protetora dos animais) responde ‚ÄúSr. Darwin, como voc√™ p√īde insulta-lo dessa maneira?‚ÄĚ. (Fonte: http://claesjohnsonmathscience.wordpress.com/2011/12/15/scientists-and-science-in-cartoons/)

Essa avers√£o ao ‚Äúrebaixamento‚ÄĚ do homem fez com que mesmo os anatomistas mais experientes do ocidente ignorassem a evid√™ncia diante dos seus olhos. De fato, W.K. Gregory, em artigo publicado na Science, criou o termo ‚Äúpitecofobia”, que fica perfeitamente definido nas pr√≥prias palavras do autor (em tradu√ß√£o livre minha): “Esse novo tipo de fobia pode, portanto, ser chamada de pitecofobia, ou o medo de s√≠mios, especialmente o medo de s√≠mios como parentes pr√≥ximos ou ancestrais”. E depois adiciona, com sarcasmo: “Durante os √ļltimos anos essa fobia se tornou quase pand√™mica; especialmente nas comunidades rurais”.

William King Gregory (1876-1970), mastozoólogo e antropólogo do American Museum of Natural History em Nova Iorque.

Hoje o homem √© classificado (pela maioria dos autores) como membro da fam√≠la Hominidae, que tamb√©m inclui os chimpanz√©s e bonobos (g√™nero Pan), gorilas (g√™nero Gorilla) e os orangotangos (Pongo), sendo que nosso g√™nero teria se separado de Pan h√° mais ou menos 6 milh√Ķes de anos. Existe ainda o que seria impens√°vel pelos vitorianos do s√©culo XIX: a proposta da cria√ß√£o de um “direito dos grandes-s√≠mios”, de maneira similar aos Direitos Humanos, mas distinta dos Direitos Animais, o ‚ÄúGreat Ape Project‚ÄĚ.

Filogenia dos Hominoidea vivente, com alguns fósseis-chave incluídos (Fonte: Scientific American, 16:4-13. Junho de 2006)

Esse exemplo serve para nos mostrar como preconcep√ß√Ķes err√īneas e fortemente enviesadas fazem com que um corpo enorme de evid√™ncia seja ignorado, ou que haja uma “for√ßada de barra” para garantir nossa exclusividade, como fez J. Huxley. Como respons√°vel por tantas outras mudan√ßas de paradigma na biologia, a evolu√ß√£o de Darwin e Wallace cimentou o pedestal humano junto aos outros grandes s√≠mios e de lambuja respondeu duas das grandes perguntas existenciais que sempre acompanharam a humanidade: “quem somos e de onde viemos”. Para saber para onde vamos “ligue dj√°”¬†para o seu vidente de confian√ßa…

Perdido e achado: o tiê-bicudo, Conothraupis mesoleuca

por Rafael Marcondes

Muita gente costuma achar que a maioria dos animais e plantas j√° s√£o bem conhecidos e n√£o falta muito a se descobrir. Um dos objetivos do Caapora √© revelar que essa cren√ßa est√° muito longe da realidade: nossa fauna √© t√£o diversa e o Brasil √© t√£o grande e relativamente pouco explorado cientificamente que todo ano s√£o descritas dezenas de novas esp√©cies de animais no nosso pa√≠s, incluindo at√© mesmo aves, que supostamente est√£o entre os grupos de animais mais bem estudados. Mas talvez mais interessante e surpreendente do que a descri√ß√£o de novas esp√©cies √© o fato de que h√° diversos casos de aves que foram descritas h√° d√©cadas ou √†s vezes quase um s√©culo atr√°s e nunca mais foram vistas! Os √ļltimos anos, felizmente, t√™m visto uma s√©rie de redescobertas destas esp√©cies conhecidas apenas de sua descri√ß√£o. Como minha primeira contribui√ß√£o nessa empreitada do Caapora para revelar as camadas mais obscuras da fauna brasileira, o tema desse post √© uma dessas aves ‚Äúperdidas e achadas‚ÄĚ: o ti√™-bicudo, Conothraupis mesoleuca.

O ti√™-bicudo foi descrito pelo zo√≥logo franc√™s Jacques Berlioz em 1939 com base em um √ļnico macho coletado no ano anterior por J. A. Vellard, um especialista em aranhas que era o naturalista de uma expedi√ß√£o pelo Brasil do famoso antrop√≥logo Claude L√©vi-Strauss. Esse esp√©cime, o hol√≥tipo da esp√©cie (principal indiv√≠duo no qual se baseia a descri√ß√£o de uma esp√©cie nova), encontra-se at√© hoje no Mus√©um National d‚ÄôHistoire Naturelle, em Paris e, segundo Berlioz, foi coletado em ‚ÄúJuruena, northeast of Cuyaba‚ÄĚ.

Por mais de seis d√©cadas que seguiram √† sua descoberta o ti√™-bicudo jamais voltou a ser encontrado, tornando-se uma das maiores inc√≥gnitas da ornitologia neotropical. Por praticamente 64 anos tudo que se sabia sobre a esp√©cies resumia-se ao esp√©cime coletado por Vellard e as poucas informa√ß√Ķes fornecidas em sua descri√ß√£o. Informa√ß√Ķes b√°sicas permaneceram completamente ignoradas por todo esse tempo, como por exemplo a morfologia da f√™mea, vocaliza√ß√£o, alimenta√ß√£o e demais aspectos sobre sua biologia. N√£o por acaso o ti√™-bicudo chegou praticamente a ser considerado extinto.

Lévi-Strauss acampado à beira do rio Machado, onde ficou quinze dias entre outubro e novembro de 1938, com alguns índios tupi-cavaíba. Agarrando-se à bota dele, está a macaquinha Lucinda, que o antropólogo adotou durante a viagem. Clique na imagem para ser direcionado a reportagem da revista Leituras da História sobre esse famoso antropólogo que chefiou a expedição em que foi descoberto o tiê-bicudo.

Os poucos ornit√≥logos que se empenharam em redescobrir a esp√©cie esbarravam em uma outra dificuldade al√©m de sua raridade: o rio Juruena fica a noroeste de Cuiab√°, n√£o a nordeste, como mencionado por Berlioz, o que levantava certa suspeita sobre o real local de coleta da esp√©cie. Essa hist√≥ria s√≥ come√ßou a mudar em 2003, quando o ti√™-bicudo foi encontrado no Parque Nacional das Emas, no estado de Goi√°s, surpreendentemente a 750 km de dist√Ęncia do rio Juruena! (Buzzeti & Carlos, 2005) Desde ent√£o, o ti√™-bicudo, inclusive f√™meas, tem sido regularmente observado nessa localidade.

Mas a virada mesmo para o ti√™-bicudo s√≥ veio tr√™s anos depois, em 2006, quando o ornit√≥logo Carlos Ernesto Candia-Gallardo, da Universidade de S√£o Paulo, gravou e fotografou um macho da esp√©cie √†s margens do rio Juruena, na regi√£o da Chapada dos Parecis, estado do Mato Grosso. Esse registro acabou levando ao primeiro estudo da esp√©cie desde sua descri√ß√£o, publicado por Candia-Gallardo em 2010 na revista Bird Conservation International, em parceria com Lu√≠s F√°bio Silveira e Adriana Akeni Kuniy. √Č desse artigo que retiro a maior parte da informa√ß√£o nesse post.

Tiê-bicudo, Conothraupis mesoleuca. Fotografado por Carlos Candia-Gallardo no local de sua descoberta original. Clique na imagem para ver mais fotos da espécie no Wikiaves.

A grava√ß√£o do canto da esp√©cie nesse primeiro encontro permitiu, atrav√©s da t√©cnica do play-back (em que aves, altamente territoriais, s√£o atra√≠das pela reprodu√ß√£o do canto de sua pr√≥pria esp√©cie), a localiza√ß√£o de mais indiv√≠duos em diversas localidades na mesma regi√£o. Descobriu-se que o h√°bitat preferencial da esp√©cie s√£o matas ou campinas alagadas ao longo de rios, contrariando a descri√ß√£o original da esp√©cie, que dava o h√°bitat como ‚Äúarid forest or scrub‚ÄĚ. Isso talvez ajude a explicar por que o ti√™-bicudo passou tantos anos desaparecido: os ornit√≥logos estavam simplesmente procurando no h√°bitat errado!

Clique para ouvir a vocalização da espécie gravada por Bruno Salaroli e disponível no site Wikiaves.

A redescoberta também levou à primeira descrição detalhada da fêmea do tiê-bicudo, com base em um espécime coletado e depositado no Museu de Zoologia da USP, onde ficará para sempre disponível a todos os pesquisadores interessados em estudar a espécie.

Os pesquisadores que redescobriram o ti√™-bicudo tamb√©m esclareceram com precis√£o a localidade-tipo da esp√©cie (localidade onde foi coletado o hol√≥tipo). Pesquisando nos di√°rios de Castro Faria, um antrop√≥logo brasileiro que tamb√©m acompanhava a expedi√ß√£o de L√©vi-Strauss, descobriram que na data em que o ti√™-bicudo foi coletado, Vellard estava acampado na Esta√ß√£o Telegr√°fica de Juruena (a noroeste de Cuiab√°, confirmando o erro na descri√ß√£o original). Essa esta√ß√£o era parte da linha telegr√°fica completada em 1915 pela comiss√£o liderada pelo marechal C√Ęndido Rondon, e que at√© a d√©cada de 1960 era o √ļnico acesso √†quela regi√£o.

Observou-se que o ti√™-bicudo vive geralmente solit√°rio ou em casais, e alimenta-se de insetos e principalmente sementes. Esse h√°bito alimentar n√£o √© comum dentre os Thraupidae, a fam√≠lia em que o ti√™-bicudo tem sido classificado e que tamb√©m inclui os demais tipos de ti√™s, as sa√≠ras, sa√≠s e sanha√ßos. Isso nos leva a um dos aspectos mais surpreendentes sobre o ti√™-bicudo: ele talvez sequer seja um ti√™! O comportamento em geral da esp√©cie, incluindo h√°bitos alimentares e a vocaliza√ß√£o, e os padr√Ķes de plumagem assemelham-se mais aos de esp√©cies de outra fam√≠lia, os Emberizidae, que inclui aves como os tico-ticos, os cardeais e os papa-capins. Especificamente, a plumagem, formato do bico e h√°bitat do ti√™-bicudo s√£o muito semelhantes aos do papa-capim-de-coleira, Dolospingus fringilloides, uma esp√©cie pouco conhecida da fam√≠lia Emberizidae que vive no norte do Brasil, Venezuela e Col√īmbia. Estudos do esqueleto e moleculares (lembrando que apesar da redescoberta, o ti√™-bicudo ainda √© absolutamente desconhecido do ponto de vista gen√©tico e da anatomia interna) poder√£o revelar o verdadeiro parentesco do ti√™(?)-bicudo.

O cap√≠tulo mais recente na hist√≥ria do ti√™-bicudo veio em 2010, quando o ornit√≥logo Guilherme R. R. Brito e colegas, do Museu Nacional da UFRJ, descobriram na Serra do Cachimbo, no Par√°, mais uma nova popula√ß√£o da esp√©cie. Essa popula√ß√£o est√° a 400km do alto Juruena e a 1000km do Parque Nacional das Emas. Para uma esp√©cie que passou d√©cadas desaparecida, a distribui√ß√£o do ti√™-bicudo est√° se revelando mais ampla do se imaginava, ressaltando que uma das principais raz√Ķes para o “sumi√ßo” foi a simples falta de explora√ß√£o cient√≠fica. Sabendo onde e como procurar, aos poucos o ti√™-bicudo est√° se revelando. Quantas esp√©cies desaparecidas ou novas ser√° que n√£o est√£o por a√≠ nesse Brasil, esperando serem (re)descobertas?

Infelizmente, esse post tem que terminar com um par√°grafo sombrio. O ti√™-bicudo est√° criticamente amea√ßado de extin√ß√£o, e estima-se que existam apenas entre 50 e 250 indiv√≠duos vivos da esp√©cie, somando as popula√ß√Ķes do Parque Nacional das Emas e do alto rio Juruena (BirdLife, 2011) – a nova popula√ß√£o, na Serra do Cachimbo, ainda n√£o entrou nesse c√°lculo. Seu h√°bitat, √°reas alag√°veis √†s margens de rios, √© naturalmente fragmentado e vulner√°vel, e toda a regi√£o do Centro-Oeste brasileiro est√° sob forte expans√£o agr√≠cola, principalmente da soja. Para piorar a situa√ß√£o, a regi√£o do alto Juruena √© alvo de projetos de nada menos do que doze usinas hidrel√©tricas, sendo duas de grande porte. Pelo menos cinco j√° est√£o em constru√ß√£o (http://www.oeco.com.br/reportagens/37-reportagens/23761-o-bicudo-e-as-barragens). Os alagamentos causados por essas usinas podem suprimir grande parte do h√°bitat da esp√©cie. Talvez o ti√™-bicudo tenha sido redescoberto apenas para logo ser perdido de novo, dessa vez para sempre. Ou bem a tempo de ser salvo.

Referências:

BirdLife, 2011. Species factsheet: Conothraupis mesoleuca.

Brito, G. R. R. et al. 2011. First record of the Cone-Billed Tanager (Conothraupis mesoleuca) in Par√° state, Brazil, with inferences about its potential distribution. Libro de Resumenes – IX Congresso de Ornitologia Neotropical.

Buzzeti, D. e Carlos, B. A. 2005. A redescoberta do ti√™-bicudo (Conothraupis mesoleuca) (Berlioz, 1939). Atualidades Ornitol√≥gicas, vol. 127, p. 4‚Äď5.

Candia-Gallardo, C. E., et al. 2010. A new population of the Cone-billed Tanager Conothraupis mesoleuca, with information on the biology, behaviour and type locality of the species. Bird Conservation International. vol. 20, n. 2, p. 149-160.

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