Bichos do Brasil: urutaus e m√£es-da-lua

 

Uma m√£e-da-lua (Nyctibius griseus) mostrando todo seu charme. Foto por Carlos Gussoni no site Wikiaves.

O nome popular j√° diz muito sobre essas aves: ‚Äúurutau‚ÄĚ vem do guarani guyra (ave) e tau (fantasma). Tratam-se dos membros da fam√≠lia Nyctibiidae, conhecidos como urutaus ou m√£es-da-lua, um dos grupos mais fascinantes (e bizarros) de aves brasileiras. Essa pequena fam√≠lia inclui sete esp√©cies de aves noturnas, cinco das quais ocorrem no Brasil. Todas s√£o inclu√≠das no g√™nero Nyctibius e exclusivas dos neotr√≥picos (regi√£o biogeogr√°fica que inclui a Am√©rica do Sul, Central, partes do M√©xico e do extremo sul dos Estados Unidos).

Muita gente chama os urutaus de feios, mas eu prefiro dizer que eles s√£o apenas estranhos. Os membros dessa fam√≠lia t√™m uma cabe√ßa enorme e a boca descomunal, mas o bico √© min√ļsculo. E ainda por cima seus enormes olhos s√£o esbugalhados e amarelos. As p√°lpebras possuem uma engenhosa adapta√ß√£o: duas pequenas incis√Ķes que permitem √† ave enxergar mesmo com o olho fechado.

A plumagem √© cinza ou amarronzada. Essas cores, em conjun√ß√£o com o h√°bito de pousar em postura ereta na ponta de galhos verticais, conferem aos urutaus uma das melhores camuflagens dentre todas as aves do mundo. Essa postura √© assumida at√© mesmo pelos filhotes mal sa√≠dos do ovo. Podem ter seus poleiros de descanso diurno em mour√Ķes de cerca ou outros troncos totalmente expostos, em plena luz do dia, tal √© a excel√™ncia de sua camuflagem. Com certa freq√ľ√™ncia s√£o surpreendidos nesses poleiros, e, de t√£o estranhos que s√£o, acabam virando at√© not√≠cia de jornal, como foi o caso at√© mesmo em plena capital paulista.

Uma m√£e-da-lua em sua postura de camuflagem. Observe os entalhes na margem da p√°lpebra que permitem que o animal enxergue mesmo o com os olhos fechados. Foto por Ricardo Q. T. Rodrigues no site Wikiaves.

Como se esses h√°bitos cr√≠pticos j√° n√£o bastassem para dar um ar fantasmag√≥rico aos urutaus, suas vocaliza√ß√Ķes podem ser ainda mais estranhas. Variam desde o melanc√≥lico lamento da m√£e-da-lua (Nyctbius griseus) – citado diversas vezes por Guimar√£es Rosa em seu Grande Sert√£o: Veredas – at√© o aterrorizante berro da m√£e-da-lua-gigante (Nyctibius grandis). Imagine o que os primeiros europeus a chegar a nossas terras n√£o devem ter pensado ao ouvir essas vozes sinistras ecoando na noite…

Tudo isso levou o urutau a ser figura popular no folclore brasileiro. Uma das hist√≥rias mais difundidas conta que a m√£e-da-lua seria uma jovem que perdeu seu amor. Era uma menina do sert√£o muito feia, mas muito inteligente. Certa noite, encontrou um belo pr√≠ncipe nas redondezas e conseguiu impression√°-lo com sua intelig√™ncia. Quando o pr√≠ncipe estava prestes a pedi-la em casamento, a lua cheia surgiu por detr√°s das montanhas, iluminando o rosto da jovem. Assustado com sua fei√ļra, o pr√≠ncipe fugiu para nunca mais voltar. Desolada, a garota procurou uma feiticeira e pediu para ser transformada em uma ave, para buscar o pr√≠ncipe onde quer que ele estivesse. A feiticeira consentiu, e assim nasceu a m√£e-da-lua. No entanto, mesmo ap√≥s longa procura, a garota em forma de ave n√£o conseguiu encontrar o pr√≠ncipe. Voltou √† feiticeira e pediu para ser transformada de volta em gente, mas isso estava fora dos poderes da bruxa. Desde ent√£o, a garota vaga pela noite como uma ave feia e triste, e sempre que aparece a lua, solta seu pio melanc√≥lico ‚Äúfoi, foi, foi…‚ÄĚ, lembrando do pr√≠ncipe que a deixou.

Uma mãe-da-lua gigante (Nyctibius grandis), a maior espécie da família e dona de aterrorizante vocalização. Foto por Celuta Machado.

Voltando agora ao aspecto mais cient√≠fico, a fam√≠lia Nyctibiidae √© parte da ordem Caprimulgiformes, que inclui outras aves noturnas, como os igualmente bizarros ‚Äúfrogmouths‚ÄĚ (fam√≠lia Podargidae) da √Āsia e Oceania e os mais familiares bacuraus e curiangos (Caprimulgidae). Suas caracter√≠sticas √ļnicas, no entanto, e a exist√™ncia de um urutau f√≥ssil datado de 25 milh√Ķes de anos (Euronyctibius kurochnikii) n√£o deixam d√ļvidas que se trata de um grupo muito antigo e distinto. Este f√≥ssil prov√©m da Fran√ßa, sugerindo que a fam√≠lia j√° teve uma distribui√ß√£o bem mais ampla que a atual. A pr√≥pria separa√ß√£o entre as esp√©cies da fam√≠lia aparentemente √© bastante antiga, j√° que, apesar de sua morfologia externa bastante homog√™nea, possuem enorme diverg√™ncia gen√©tica e diversas diferen√ßas no esqueleto, sugerindo que possam no futuro ser separados em g√™neros distintos.

A fam√≠lia dos urutaus guarda ainda uma das esp√©cies de aves brasileiras ‚Äúperdidas e achadas‚ÄĚ nas √ļltimas d√©cadas: o urutau-de-asa-branca (Nyctibius leucopterus), que ficou incr√≠veis 168 anos desaparecido para a ci√™ncia. Essa esp√©cie foi descoberta em 1821 no litoral da Bahia pelo naturalista Maximiliano de Wied-Neuwied. Desde sua descri√ß√£o n√£o se teve mais not√≠cias dela at√© 1989, quando ela foi reencontrada nos arredores de Manaus, em plena Amaz√īnia, a mais de 2500 km do litoral da Bahia. Os h√°bitos cr√≠pticos dos urutaus certamente contribu√≠ram para essa esp√©cie passar tanto tempo sumida. Mas, felizmente, quando ocorreu essa redescoberta a vocaliza√ß√£o do urutau-de-asa-branca (um l√≠mpido assobio), at√© ent√£o desconhecida, p√īde ser gravada. Munidos dessa grava√ß√£o, ornit√≥logos utilizando a t√©cnica do playback (em que aves, altamente territoriais, s√£o atra√≠das pela reprodu√ß√£o do canto de sua pr√≥pria esp√©cie) localizaram a esp√©cie em diversas localidades amaz√īnicas, do Peru √†s Guianas, e, em 2003, de novo no litoral da Bahia.

O raro urutau-de-asa-branca (Nyctibius leucopterus). Foto por Andrew Whittaker.

Para saber mais: meu amigo e especialista em urutaus e bacuraus Thiago V. V. Costa estudou a anatomia dos urutaus. Seu trabalho pode ser conferido em Costa & Donatelli (2009). Cestari et al. (2011) estudaram o cuidado parental de Nyctibius griseus. O artigo inclui uma interessante foto do filhote j√° em posi√ß√£o ereta no ‚Äúninho‚ÄĚ –¬† se √© que podemos chamar assim. Sobre as redescobertas de N. leucopterus, confira Cohn-Haft (1993) e Whitney et al. (2003). Para uma introdu√ß√£o popular a esses bichos bizarros, veja o texto de Fernando Straube na revista Atualidades Ornitol√≥gicas: Straube (2004).

Novas reflex√Ķes sobre o caso da ex-invis√≠vel e atual fedida Lagoa da Turfeira.

por Luciano Moreira Lima

NOTA IMPORTANTE: para quem está acompanhando o caso a partir de agora é bom ler o texto anterior também publicado aqui no Caapora (scienceblogs.com.br/caapora) para se situar melhor. 

Sexta-feira est√° a√≠, √© hora de recapitular os fatos…

Brejos, p√Ęntanos, manguezais e ecossistemas correlatos sempre foram alvo de um certo preconceito por parte da popula√ß√£o geral. Al√©m do Shrek, que -embora simp√°tico- n√£o deixa de ser um ogro, outras coisas n√£o muito desej√°veis s√£o comumente associadas √†s √°rea √ļmidas, mesmo que injustamente. A mal√°ria, por exemplo, tem origem no express√£o “mal are”, pois se acreditava que s√≥ do sujeito respirar o “mal ar” dos brejos era tiro e queda pra tombar na cama.

Ogros pantanosos, doen√ßas olfativas e outras injusti√ßas cometidas contra as √°reas √ļmidas √† parte, √© dif√≠cil deixar de lado uma caracter√≠stica¬†que faz com que certas pessoas “tor√ßam o nariz” para esses ecossistemas, e que acomete principalmente os manguezais, um caracter√≠stico cheirinho de enxofre. Quem j√° desbravou √°reas de mangue sabe bem do que eu estou falando. √Č s√≥ afundar um pouco na lama que logo sobe aquele cheirinho mais forte. N√£o adianta olhar com cara feia para o amigo que vai caminhando na frente, a real causa cheiro √© a decomposi√ß√£o intensa de mat√©ria org√Ęnica por uma mir√≠ade de bact√©rias que durante o processo acabam liberando enxofre.

Da Ilha de Maraj√≥, no PA, √† regi√£o de Guaraque√ßaba, no PR, j√° percorri muitas √°reas √ļmidas no encal√ßo da passarada, mas nem os manguezais dos fundos da Ba√≠a de Guanabara superam o “mal are” que est√° exalando das √°reas √ļmidas aterradas nas imedia√ß√Ķes da Lagoa da Turfeira. Dessa vez, no entanto, a culpa n√£o √© das bact√©rias, o mau cheiro √© “daquilo mesmo que voc√™s est√£o pensando” que fizeram ali. Cheguei √† conclus√£o que o “mal ar” ¬†est√° t√£o forte que tem levado a uma desbaratiniza√ß√£o completa de algumas pessoas que visitaram a √°rea a ponto destas afirmarem veementemente que havia sim sido detectado uma redu√ß√£o do espelho d’√°gua e depois tentarem justificar o injustific√°vel argumentando coisas do tipo: ¬†“n√£o n√£o, n√£o matamos ningu√©m s√≥ amputamos um bra√ßo e uma perna, mas agora vamos monitorar o estado do paciente, vai morrer n√£o, pode ficar tranquilo”.

Oooooh catinga!!!

N√£o vou entrar em detalhes sobre o disse-me-disse, mas muito tem se falado e algumas perguntas importantes ainda n√£o foram respondidas:

Afinal, há ou não há um estudo de impacto ambiental sobre a malfadada obra? Se há, cadê?

Se não há, por que não há? Só estão dispensadas de apresentarem tal relatório empreendimentos considerados de baixo impacto, o que nos leva a outra pergunta importante: obras às margens de uma lagoa de quase 70 hectares são de baixo impacto?

Uma outra questão básica pode ser levantada aqui: se não houve estudo de impacto ambiental, não houve uma caracterização da lagoa, se não houve caracterização da lagoa como se sabe o nível que ela atinge durante a época da cheia. Sem saber isso, como estipular então onde começa o limite de proximidade a que a obra pode chegar (sendo ela 0,1 ou 1000 metros)? Essa fedeu muito, não?

Tem também a questão da licença de instalação, mas primeiro vamos esperar a resposta a essas perguntas mais básicas.

Desde a minha ida na lagoa na fat√≠dica tarde do √ļltimo s√°bado (21/04) fiquei imaginando que uma foto a√©rea atual seria perfeita para demonstrar o estrago. E n√£o √© que ontem a foto apareceu? Aproveito para agradecer ao Celso Dutra que gentilmente postou a imagem no meu FaceBook, e tamb√©m ao Andr√© Pol que produziu o esquema abaixo mostrando que de fato houve sim o aterro de √°reas alagas, pelo menos 5, tamb√©m de acordo com o Andr√©. Na foto √© poss√≠vel ver ainda o qu√£o colado na lagoa est√° o empreendimento, pelo visto as capivaras v√£o ter que se adaptar e passar a pastar as algas do fundo do espelho d’√°gua.

Vista aérea do estrago. Repare nos diversos espelhos d'água aterrados pela obra e na proximidade com a lagoa, especialmente no canto superior direito da obra. Foto gentimente encaminhada por Celso Dutra.

Detalhe da foto a√©rea mostrando o aterramento de diversas √°reas √ļmidas junto a Lagoa da Turfeira. Esquema gentilmente encaminhado por Andr√© Poll.

Detalhe da foto a√©rea mostrando o aterramento de diversas √°reas √ļmidas junto a Lagoa da Turfeira. Esquema gentilmente encaminhado por Andr√© Poll.

A √ļnica d√ļvida que faz tempo j√° deixou de existir √© sobre a import√Ęncia conservacionista da Lagoa da Turfeira e √°reas √ļmidas adjacentes, fato apontado diversas vezes at√© mesmo por aqueles que querem destruir a √°rea. Paradoxal n√£o? Fica mais uma pergunta: se j√° estava todo mundo careca de saber que a √°rea √© importante, por que n√£o criaram a reserva antes? Mas tudo bem, pensemos no “antes tarde do que nunca”. J√° que a reserva ser√° criada, que tal ser tranformada em uma op√ß√£o de lazer, com visita√ß√£o controlada, que vai completamente ao encontro da voca√ß√£o ambiental do munic√≠pio de Resende?

Abaixo seguem duas fotos para servirem como exemplo de parques em √°reas √ļmidas que al√©m de conservarem a biodiversidade, promovem a eduac√£o ambiental e geram recursos. Qualquer um que admire a natureza e tenha tido a chance de passear um pouco fora do pa√≠s sabe que mundo afora, especialmente em paises como o Jap√£o da Nissan, existem in√ļmeras reservas como essas da foto, grande parte delas inclusive como uma diversidade de aves muito MENOR que a da Lagoa da Turfeira.

Uma das muitas reservas mundo afora que unem conservação, educação ambiental e geração de recursos. Será que em um ano conseguimos ver a Lagoa da Turfeira assim?

Uma das muitas reservas mundo afora que unem conservação, educação ambiental e geração de recursos. Será que em um ano conseguimos ver a Lagoa da Turfeira assim?

Uma das muitas reservas mundo afora que unem conservação, educação ambiental e geração de recursos. Será que em um ano conseguimos ver a Lagoa da Turfeira assim?

Falando em Nissan e Jap√£o, o famoso jornalista Ricardo Boechat (que literalmente mandou a prefeitura de Resende pra PQP – duvida?! eu tamb√©m duvidei… ou√ßa aqui) fez mais uma excelente e mal cheirosa pergunta: Ser√° que o governo japon√™s autorizaria a constru√ß√£o de uma f√°brica da Nissan em um local equivalente √† nossa Lagoa da Turfeira? Ser√°? Ser√°? N√£o precisa assistir Globo Rep√≥rter e ouvir o S√©rgio Chapellin falando “depois do intervalo, os segredos da longevidade dos japoneses” para saber que a resposta para a pergunta do Boechat. Afinal n√£o √© √† toa que no Jap√£o se vive mais, se sabe mais e trapalhadas pol√≠ticas s√£o motivo de como√ß√£o nacional, e isso tudo passa claramente pela rela√ß√£o do povo japon√™s com a natureza.

Fica ent√£o a pergunta final endere√ßada para a Nissan e seu presidente no Brasil Sr. Carlos Goshn: com tanta √°rea de pasto abandonada Resende afora voc√™s v√£o mesmo querer construir a f√°brica em um local que a coloca como uma s√©ria amea√ßa a √ļltima grande √°rea √ļmida remanescente da regi√£o Sul Fluminense? Pois se for o caso e essa importante empresa multinacional n√£o der a m√≠nima para um termo t√£o em moda quanto responsabilidade s√≥cio-ambiental, √© bom voc√™s irem se acostumando com o cheiro, porque com certeza, vez ou outra o neg√≥cio vai feder.

Depois da vergonha do Código Florestal, mais uma vez a sanidade ambiental do governo brasileiro está sendo colocada à prova. Agora é esperar e ver o que o que o laudo oriundo da visita do INEA irá concluir.

Aproveito para agradecer em meu nome e em nome da Lagoa da Turfeira e sua biodiversidade a todos que de alguma forma est√£o acompanhando, compartilhando, e lutando, especialmente o vereador Dr. Gl√°ucio Julianelli e a jornalista Ana L√ļcia Corr√™a de Souza que assumiram posi√ß√Ķes no pelot√£o de frente.

 

A invis√≠vel Lagoa da Turfeira, uma trag√©dia ambiental anunciada…

por Luciano Moreira Lima

Uma das √ļltimas grandes √°reas √ļmidas da regi√£o sul fluminense corre s√©rio risco de desaparecer ¬†

Das milhares de pessoas que diariamente passam pelo km 299 da Rod. Presidente Dutra (BR 116), poucas devem notar que contornada a oeste por uma abrupta curva do rio Para√≠ba do Sul est√° uma das √ļltimas grandes √°reas √ļmidas naturais da regi√£o sul fluminense, a Lagoa da Turfeira (tamb√©m conhecida como Lagoa da Kodak devido a proximidade com uma antiga f√°brica da referida empresa). Essa situa√ß√£o, no entanto, causa pouco espanto j√° que a grande lagoa parece n√£o ser invis√≠vel apenas para os motoristas concentrados na estrada. N√£o adianta procurar pelos seus cerca de 700.000 metros2 em um detalhado mapa hidrogr√°fico do munic√≠pio de Resende produzido em parceria com a prefeitura municipal –dispon√≠vel aqui ‚Äď. Voc√™ n√£o ver√° a indica√ß√£o de nem um pingo d‚Äô√°gua em seu local. Fato no m√≠nimo inusitado, uma vez que lagoas at√© 10 vezes menores s√£o corretamente indicadas no mapa e se dos dermos conta que a Lagoa da Turfeira pode ser claramente observada a mais de 10.000 metros de altitude via Google Earth.

Vista panor√Ęmica da Lagoa da Turfeira onde √© poss√≠vel ver o Rio Para√≠ba do Sul a direita. Resende, RJ. Fonte: GoogleEarth

Se uma √°rea equivalente a mais de 70 campos de futebol pode passar desapercebida, imagine aqueles que a habitam, como o diminuto tricolino (Pseudocolopteryx sclateri) de topete invocado e m√≠seros 9,5 cms. N√£o bastasse o tamanho, esse bonito passarinho vive apenas no meio de densas moitas de taboa (Typha domingensis), uma das plantas mais caracter√≠sticas de √°reas alagadas no Brasil. ¬†Ornit√≥logos e observadores de aves sabem que para poder observ√°-lo n√£o basta apenas vontade √© preciso se embrenhar-se no taboal, muitas vezes afundar com √°gua acima do joelho e ficar de ouvidos atentos ao seu discret√≠ssimo canto ‚Äď ou√ßa aqui – .

O pequeno e simpático tricolino (Pseudocolopteryx sclateri). Foto: Bruno Rennó.

Mais de 11 anos de visitas regulares a Lagoa da Turfeira e seu entorno imediato realizadas em parceria com o amigo e tamb√©m ornit√≥logo Bruno Renn√≥, resultaram no registro n√£o apenas do discreto tricolino mas tamb√©m de pelo menos outras 169 esp√©cies de aves silvestres no local. Nesse total, que representa cerca de 20% das aves do Estado do Rio de Janeiro, est√£o inclu√≠das esp√©cies amea√ßadas de extin√ß√£o em √Ęmbito estadual e diversas aves migrat√≥rias paras quais a lagoa representa um importante ref√ļgio.

Os resultados desse estudo ‚Äď parcialmente apresentados no XVI Congresso Brasileiro de Ornitologia – tornaram evidente a import√Ęncia da Lagoa da Turfeira para conserva√ß√£o da biodiversidade fluminense e auxiliaram na sensibiliza√ß√£o do poder p√ļblico municipal para que algo fosse feito em prol da sua preserva√ß√£o . Dessa forma, em 2010 a Ag√™ncia do Meio Ambiente do Munic√≠pio de Resende elaborou o documento ‚ÄúEstudo T√©cnico Preliminar para Constitui√ß√£o de √Ārea Protegida no Banhado da Kodak‚ÄĚ, e entre as principais conclus√Ķes estavam:

“A criação e implantação de unidade de conservação no Banhado da Kodak alinha-se aos compromissos internacionais do Brasil de proteger o ambiente, conforme metas estabelecidas pela ONU, em se tratando do Ano Internacional da Biodiversidade.

A criação e implantação da unidade acarretará ainda um aumento do ICMS do município, conforme prevê a Lei no 5.100 de 04 de outubro de 2007 e o Decreto no 41.101 de 27 de dezembro de 2007.

Constata-se, portanto, que a unidade trar√° grandes benef√≠cios para o munic√≠pio [‚Ķ]‚ÄĚ

Dois anos se passaram ap√≥s finaliza√ß√£o desse documento e aos poucos a Lagoa foi novamente caindo no esquecimento dos √≥rg√£o governamentais, at√© a semana passada. Na √ļltima quinta-feira (19/04), alertado por amigos, descobri que a prefeitura Municipal de Resende ¬†havia orgulhosamente publicado uma imagem da Lagoa invis√≠vel em sua p√°gina do Facebook acompanhada de alguns par√°grafos de not√≠cia. No entanto, ao inv√©s do t√≠tulo fazer qualquer men√ß√£o a alguma a√ß√£o visando a conserva√ß√£o da √°rea l√° estava: ‚ÄúAs obras da Nissan‚ÄĚ. Meio sem rumo e sem querer acreditar no que eu havia lido me dei conta que n√£o apenas n√£o seria feito nada para conservar a Lagoa como tamb√©m estava sendo orgulhosamente anunciada o que poderia se tornar em uma das maiores trag√©dias ambientais recentes da regi√£o sul fluminense. Esperei o final de semana chegar e fui para casa em Resende ver com meus pr√≥prios olhos a situa√ß√£o da √°rea.

Lagoa da Turfeira na p√°gina do FaceBook da Prefeitura Municipal de Resende.

Era por volta de 14:00 do √ļltimo s√°bado (21/04). Da Dutra j√° era poss√≠vel ver uma gigantesca √°rea de terra exposta meio enevoada pela poeira levantada pelo ir e vir constante de uma verdadeira frota de m√°quinas escavadeiras e caminh√Ķes. Segui pela estrada de ch√£o paralela a lagoa e encarado pelo olhar apreensivo das pessoas que l√° trabalhavam fui desviando das escavadeira e caminh√Ķes. O barulho constante dos motores e a poeira contribu√≠am deixando o cen√°rio de destrui√ß√£o ainda mais desolado e logo me dei conta que eu n√£o era o √ļnico perdido por ali, uma gar√ßa-branca-grande (Ardea alba) e duas gar√ßas-brancas-pequenas (Egretta thula) voavam sem rumo entre duas po√ßas j√° lamacentas sendo¬† repetidamente espantadas pelas m√°quinas.

Procurei em v√£o pela √°rea onde em 2001 havia feito o primeiro registro documentado da triste-pia (Dolichonyx oryzivorus) no Estado do Rio de Janeiro ‚Äď veja a publica√ß√£o cient√≠fica aqui – e onde tamb√©m observ√°vamos com frequ√™ncia o amea√ßado coleiro-do-brejo (Sporophila collaris). Tarde demais, a passarada havia simplesmente virado terra nua. Um pouco mais para frente em uma √°rea que ainda mantinha um pouco de vegeta√ß√£o uma concentra√ß√£o impressionante de aves, onde chamava aten√ß√£o o colorido dos chopim-do-brejo (Pseudoleistes guirahuro) e da pol√≠cia-inglesa-do-sul (Leistes superciliaris), lembravam refugiados aglomerando-se as centenas e fugindo de um verdadeiro massacre.

Coleiro-do-brejo (Sporophila collaris) fotografado na Lagoa da Turfeira. Foto: Ciro Albano.

Polícia-inglesa-do-sul (Sturnella superciliaris), fotografado na Lagoa da Turfeira. Foto: Luiz Ribenboim

Um pouco mais pra frente na estrada dirigi at√© o alto de uma colina e de l√° pude avaliar melhor o estrago. A extens√£o da √°rea aterrada era impressionante¬† e embora at√© aquele momento tenha sido poupado o espelho d‚Äô√°gua principal diversas √°reas √ļmidas existentes ao seu redor foram completamente aterradas. De l√° tamb√©m pude rever tamb√©m algo que sempre me causou especial press√°gio. Um antigo canal localizado no canto nordeste ligando-a ao Rio Para√≠ba do Sul, embora hoje esteja parcialmente assoreado j√° funcionou como sangradouro de suas √°guas podendo novamente ser utilizado para extingu√≠-la. No caminho de volta, entrei por uma estrada que acabava de ser aberta e estranhamente terminava no espelho d‚Äô √°gua, fiquei ainda mais apreensivo me perguntando a fun√ß√£o daquele caminho.

Cenário de destruição junto a Lagoa da Turfeira. Foto: Luciano Lima

Cenário de destruição junto a Lagoa da Turfeira. Foto: Luciano Moreira Lima

Cenário de destruição junto a Lagoa da Turfeira. Foto: Luciano Moreira Lima

Por conta do mestrado sou obrigado a morar em São Paulo e aos poucos vou me acostumando com os engarrafamentos, poluição e violência urbana. Por isso, nada contra a montadora de carros, tampouco contra o dito progresso que prevê que a população de Resende aumente cerca de 50.000 pessoas nos próximos 5 anos. Mas, vale lembrar que lagoas são caracterizadas como áreas de preservação permanente, por isso são áreas intocáveis.

Al√©m disso, certamente deve ter sido produzido um estudo de impacto ambiental para uma obra dessa magnitude, o qual certamente tamb√©m deve ter identificado que qualquer atividade que afete a lagoa poder√° resultar em uma trag√©dia irrevers√≠vel para biodiversidade da regi√£o. Sendo assim, gostaria tamb√©m de ter tido a oportunidade de participar de alguma audi√™ncia p√ļblica onde o destino da Lagoa da Turfeira pudesse ser seriamente debatido.

Embora seu entorno j√° tenha sido bastante impactado ainda h√° tempo de salvar o que restou da √ļltima grande √°rea √ļmida natural da regi√£o meridional do vale do Rio Para√≠ba do Sul. A implementa√ß√£o de uma unidade de conserva√ß√£o no local, em √Ęmbito municipal ou estadual, seria n√£o apenas uma forma de garantir a exist√™ncia a longo prazo da Lagoa da Turfeira e sua rica biodiversidade, mas tamb√©m a oportunidade de cria√ß√£o de um espa√ßo onde atrav√©s de trilhas interpretativas e um centro de visita√ß√£o a popula√ß√£o resendense conquistasse uma nova op√ß√£o de lazer que vai totalmente de encontro a voca√ß√£o ambiental do munic√≠pio. Vale lembrar o grande potencial da √°rea para pr√°tica de uma das atividades ao ar livre que mais crescem no pa√≠s a observa√ß√£o de aves. N√£o por acaso, a Lagoa da Turfeira ocupa tr√™s p√°ginas do livro ‚ÄúA Birdwatching guide to South-East Brazil‚ÄĚ, o qual traz informa√ß√Ķes detalhadas sobre alguns dos principais locais para observa√ß√£o de aves no sudeste do pa√≠s. Sem contar nas in√ļmeras fotos clicadas no local e dispon√≠veis no site WikiAves ‚Äď veja aqui ‚Äď e que demonstram que os ambientes da lagoa s√£o frequentemente procurados por observadores de aves.

Por volta das 16:30 o c√©u nublado evolui para uma chuva fraca que ajudou a esconder os olhos cheios. De fato a ignor√Ęncia √© o melhor caminho para felicidade. Minha tristeza maior n√£o era por ser testemunha ocular de tamanha agress√£o a natureza, mas principalmente por saber a import√Ęncia daquele lugar para a vida e conhecer pelo nome e sobrenome todos aqueles fadados a buscar em v√£o um novo lar. Voltei para casa desolado mas disposto a fazer todo o poss√≠vel para mostrar que as cores e os sons das milhares de vida que dependem da Lagoa da Turfeira fazem que ela seja considerada qualquer coisa, menos invis√≠vel. Cientes que a trag√©dia estava anunciada depende de n√≥s deixar ou n√£o que ela aconte√ßa.

Caapora, o retorno…

Hora de despertar! Flagrante de um bugio (Alouatta clamitans) tirando um cochilo no meio do dia no Jardim Bot√Ęnico de S√£o Paulo, que ali√°s e um excelente lugar encravado na selva de concreto para se fotografar vida selvagem. Foto: Luciano Moreira Lima

Ap√≥s um longo per√≠odo de hiberna√ß√£o o¬†Caapora¬†desperta. Os leitores antigos perceber√£o que as recentes mudan√ßas no visual do seu habitat natural aqui no Scienceblogs Brasil s√£o apenas uma das novidades dessa nova fase. Agora, al√©m deste que lhes escreve, Luciano Lima, fazem parte do ‚Äúcorpo editorial‚ÄĚ do¬†Caapora¬†os amigos e tamb√©m zo√≥logos Guilherme Garbino e Rafael Marcondes, os quais aproveito para agradecer por terem aceitado o convite para fazer parte desse projeto cujo √ļnico ressarcimento √© a oportunidade de aprender atrav√©s do compartilhamento de conhecimento.

O¬†Caapora¬†pretende continuar a fazer jus ao seu significado em tupi, ‚Äúaquele que vive no mato‚ÄĚ, levando seus leitores em jornadas pelas matas, cerrados, caatingas e brejos desse pa√≠s e cumprindo o seu papel s√≥cio-ambiental de divulgar informa√ß√Ķes sobre as camadas menos conhecidas da biodiversidade ofuscadas pela popular fauna carism√°tica. ¬†

Ao lado podem ser encontradas informa√ß√Ķes mais detalhadas sobre Rafael e Guilherme e sobre mim, j√° que minha vida deu um bom upgrade desde as √ļltimas palavras compartilhadas por aqui h√° mais de dois anos.¬†

Arquivo Z – Mustela africana, a doninha-amaz√īnica

Após alguns meses de silêncio forçado por conta de trabalho quase escravo Рespero que meu chefe não leia isso -, o Caapora volta a ativa.
Desde que migramos para o ScienceBlogs, estava pretendendo iniciar uma s√©rie de postagens sobre animais brasileiros desconhecidos do p√ļblico em geral, criaturas ofuscadas pela fama dos mico-le√Ķes, araras-azuis, tartarugas marinhas e demais integrantes da chamada “fauna carism√°tica”. Pois bem, nada melhor que retomar as coisas cumprindo promessas do passado. Para inaugurar a s√©rie apresento a voc√™s uma doninha que poderia muito bem sofrer de crise de identidade.
Em 1735, o bot√Ęnico sueco Carl Linn√© criou um novo sistema de classifica√ß√£o e nomenclatura dos seres vivos, o qual agrupava as esp√©cies em ordem hier√°rquica e dava a cada uma delas um bin√īmio exclusivo. Este engenhoso sistema foi capaz de colocar ordem no verdadeiro pandem√īnio que era a taxonomia e a sistem√°tica at√© o in√≠cio do s√©c. XVIII e acabou sendo t√£o bem aceito por zo√≥logos, bot√Ęnicos e demais estudiosos de tudo o que √© vivo, que mais de 200 anos ap√≥s sua cria√ß√£o continua em uso praticamente sem altera√ß√Ķes, uma impressionante fa√ßanha dentro da “metamorfose ambulante” que √© a ci√™ncia.
Embora muitos pesquisadores estudiosos da biodiversidade, especialmente os n√£o ligados diretamente a taxonomia, reclamem das mudan√ßas ocasionais na nomenclatura e classifica√ß√£o de algumas esp√©cies, um dos pilares do sistema criado por Linn√© √© justamente a imutabilidade. De acordo com o “Principio da Prioridade” (artigo 23 do C√≥digo Internacional de Nomenclatura Zool√≥gica), o nome v√°lido de um t√°xon √© o nome mais antigo dispon√≠vel atribu√≠do ao mesmo, ou seja, uma vez batizada uma esp√©cie seu nome jamais poder√° ser alterado. Os casos de mudan√ßas mencionados acima geralmente se referem a mudan√ßas ao n√≠vel de g√™nero e refletem avan√ßos no conhecimento sobre o relacionamento entre diferentes t√°xons. Jamais s√£o permitidas altera√ß√Ķes no nome cient√≠fico de uma esp√©cie por motivos outros que n√£o a mudan√ßa de g√™nero por conta de novos arranjos sistem√°ticos ou a aplica√ß√£o direta de alguma das regras do ICZN.
Imagine voc√™, um taxonomista do s√©culo XIX, funcion√°rio de um museu europeu e que recebe de uma das col√īnias de seu pa√≠s um carregamento de esp√©cimes incluindo algumas esp√©cies at√© ent√£o novas para ci√™ncia. A maioria dos exemplares n√£o possui qualquer etiqueta com informa√ß√Ķes m√≠nimas como local e data de coleta, e ao ver a palavra “√Āfrica”escrita do lado de fora da caixa, voc√™ √© tentado a acreditar que os animais provavelmente foram coletados em algum lugar do continente Africano, quando na verdade parte deles √© provenientes da Am√©rica do Sul. Situa√ß√Ķes aparentemente inusitadas como esta, ocorriam com certa freq√ľ√™ncia em muitos museus europeus at√© o final do s√©culo XIX e foram respons√°veis por in√ļmeras injusti√ßas nomenclaturais, como √© o caso do animal que inaugura a s√©rie de postagens sobre animais brasileiros pouco conhecidos.
A doninha-amaz√īnica (Mustela africana) √© uma das sete esp√©cies brasileiras da fam√≠lia Mustelidae, a maior fam√≠lia da Ordem Carn√≠vora com cerca de 55 esp√©cies, e que al√©m das doninhas, inclui animais como os fur√Ķes, a irara, a lontra e a ariranha. Como prova de qu√£o interessante s√£o esses animais transcrevo abaixo a frase da apresenta√ß√£o de um amigo, que ter√° sua identidade preservada, retirada de um site de relacionamentos: “Meu nome √© X, sou um humano como todos voc√™s que est√£o lendo este texto, mas o que eu queria mesmo era ser um mustel√≠deo”.
Com quase 50 cm da ponta da cauda, que corresponde a aproximadamente metade do tamanho do corpo, at√© a ponta do focinho a doninha-amaz√īnica pode ser considerada relativamente grande quando comparada a outros representantes do g√™nero. Vista por cima, parece ser toda marrom-avermelhado escuro, mas o queixo, as partes inferiores da pata e a barriga s√£o claras, esta √ļltima com uma extensa mancha castanha no meio. As solas das patas s√£o peladas e os dedos dos membros anteriores s√£o parcialmente unidos por membranas interdigitais demonstrando que a esp√©cie pode apresentar h√°bitos semiaqu√°ticos. At√© onde pude constatar, n√£o s√£o conhecidas imagens da doninha-amaz√īnica em seu ambiente natural ou mesmo de animais em cativeiro, apenas fotos de peles de museus como a do esp√©cime tipo exibido abaixo.
mustela africana.jpg
A doninha-amaz√īnica foi descrita em 1838 pelo zo√≥logo franc√™s Anselm Ga√ętan Desmarest, o exemplar tipo (foto acima) muito provavelmente deve ter sido coletado pelo famoso Alexandre Rodrigues Ferreira, o primeiro naturalista brasileiro, e foi um dos milhares de esp√©cimes saqueados do Museu da Ajuda de Portugal e levado para o Museu de Hist√≥ria Natural de Paris durante a Invas√£o Napole√īnica. Sem saber a proced√™ncia correta do exemplar que tinha em m√£os, Desmarest se limitou a indicar a localidade tipo como “d’Afrique” e tratou de batizar a nova doninha como Mustela africana.
Em 1897, Em√≠lio Goeldi, c√©lebre zo√≥logo cujo nome foi imortalizado no Museu Paraense Em√≠lio Goeldi, descreveu a partir de exemplares coletados no Par√° a doninha Mustela brasiliensis. Em 1913 Angel Cabrera demonstrou que a esp√©cie descrita por Goeldi era a mesma que havia sido batizada por Desmarest em 1838, evidenciando assim o erro do zo√≥logo franc√™s. Regra existe para ser cumprida, Mustela brasiliensis passou a ser tratado como sin√īnimo de uma esp√©cie que j√° havia sido descrita anteriormente, e Mustela africana passou a ser o nome das doninhas amaz√īnicas.
Passados mais de 150 anos de sua descri√ß√£o, Mustela africana √©, ainda hoje, considerado um dos mam√≠feros mais enigm√°ticos da Am√©rica do Sul e sua distribui√ß√£o ainda n√£o √© conhecida em detalhes. Os poucos dados existentes apontam para uma ocorr√™ncia restrita a Bacia Amaz√īnica, com registros conhecidos para o Brasil, Equador e Peru. Injusti√ßas nomenclaturais a parte, o caso da doninha-amaz√īnica nos mostra que n√£o apenas as apar√™ncias, mas tamb√©m os nomes e os zo√≥logos enganam e se enganam. Assim sendo, s√≥ nos resta aceitar a tirania do C√≥digo Internacional de Nomenclatura Zool√≥gica e nos conformar que a mais brasileira das doninhas ser√° sempre “africana”!
Referências
Desmarest, A. G. (1818) Nouv. Diction. d’Hist. Nat., 19:376
Goeldi, E. (1897) Ein erstes authentisches Exemplar eines echten Wiesels
aus Brasilien. Zool. Jahrb., Abt. f. systematik, geogr. u. Biol.,
10:556-562, pi. 21, September 15, 1897.
Cabrera, A. (1913) Sobre algunas formas del g√©nero “Mustela.” Bol. d. 1. Real Soc.
Espaiiol d. Hist. Nat., 13:429-435, November, 1913.

Foto da semana – Diga ahhhhhhh (Leptophis sp)

Ap√≥s uma semana explorando a selva de pedra carioca, nada melhor que estar de volta a B√ļzios e o que sobrou de sua Mata Atl√Ęntica. Embora j√° esteja morando h√° quase dois meses na minha nova resid√™ncia ainda n√£o tive tempo de conhecer todos os inquilinos que habitam o quintal ou os vizinhos que rondam pelas redondezas. No √ļltimo s√°bado, enquanto virava e desvirava o churrasco, me deparei com esta bel√≠ssima cobra-cip√≥ pendurada na bananeira ao lado da churrasqueira de onde me observava atentamente. De nada adiantou oferec√™-la churrasco e cerveja, ela n√£o estava de muito bom humor e tentou a todo custo me manter a dist√Ęncia com sua bocarra escancarada.

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O gênero Leptophis é composto por serpentes que são na sua maioria semi-arborícolas e de hábitos diurnos. Cerca de 90% da sua dieta é composta por pererecas que são capturadas por busca ativa entre folha e cavidade de árvores e bromélias. 

Foto da semana – Periquit√£o-maracan√£ (Aratinga leucophthalma)

Para fazer coro a foto do amigo Ciro Albano ganhadora do primeiro prêmio no concurso Avistar de fotografia de aves brasileiras deste ano, nada melhor que outra foto de Psittacídeo.

Aleucophtalmus.jpgApesar de muitíssimo mais comum que a raríssima arara-azul-de-lear (Anadorhynchus leari) ganhadora do concurso deste ano, o periquitão-maracanã (Aratinga leucophthalma), também popularmente conhecido como maritaca, pode ser facilmente observado nas áreas urbanas de muitas cidades brasileiras. Não obstante, a ubiquidade está longe de diminuir sua beleza, especialmente quando ilumidado por uma providencial luz de fim de tarde.

Resultados do 3¬į Concurso Avistar – Ita√ļ BBA de Fotografia “Aves Brasileiras”

Acabam de ser divulgados os ganhadores do 3¬į Concurso Avistar – Ita√ļ BBA de Fotografia – “Aves Brasileiras”. A bel√≠ssima foto abaixo,”Bal√© das Araras”, de autoria do amigo Ciro Albano, foi a grande ganhadora na categoria “Melhor Foto”. O restante das fotos premiadas podem ser conferidas no site do evento que este ano contou com mais de 6500 concorrentes. O Caapora aproveita ensejo para parabenizar Guto Carvalho, idealizador do concurso e do “Avistar – Encontro Brasileiro de Observa√ß√£o de Aves”, pelo indispens√°vel trabalha que vem realizando em prol da populariza√ß√£o da observa√ß√£o de aves no Brasil.

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Foto da Semana (o retorno) – Atob√°-pardo (Sula leucogaster)

tchhhhhhh c√Ęmbio, algu√©m na escuta…
Depois de um per√≠odo um tanto quanto lac√īnico o Caapora vai aos poucos voltando a ativa.
Para celebrar o retorno e colocar um pouco mais de cores no hábitat novo do Caapora aqui no Scienceblogs Brasil nada melhor que reinaugurar a série fotos da semana.
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As duas aves acima s√£o atob√°s-pardos (Sula leucogaster), foram clicadas na Praia Grande em Arraial do Cabo – RJ. Sempre achei “atob√°-pardo” um nome injusto para um bicho t√£o bonito, mas v√° l√°, existem injusti√ßas nomenclaturais bem maiores, falarei um pouco mais sobre isso em uma pr√≥xima postagem. Voltando ao atob√°s… os Sulidae s√£o aves interessant√≠ssimas, seu principal alimento s√£o peixes, os quais s√£o pescados atrav√©s de mergulhos kamikazes (assista esse v√≠deo no you tube para entende melhor). Por conta de sua maneira √ļnica de obter alimento estas aves possuem diversas adapta√ß√Ķes not√°veis, sendo a falta de narinas uma das mais incr√≠veis. Prometo dedicar uma postagem futura exclusiva a esses interessantes b√≠pedes emplumados.

Preguiças marinhas nadadoras!

Até hoje não consegui atingir o nirvana do zoólogo praticante, ou seja, descobrir e descrever uma nova espécie. Mas tudo bem, culpa minha ter escolhido a ornitologia e não outros campos menos explorados da zoologia. Certa vez ouvi a confissão de um ex-ornitólogo e, atualmente, influente ictiólogo do MZUSP, de que ele havia se convertido à ictiologia pois caso quisesse poderia descrever tantas espécies novas de peixes que sobraria homenagem até para a sogra.

Embora n√£o tenha batizado nenhuma esp√©cie desconhecida, quase diariamente, de mato em mato e livro em livro, experimento em doses homeop√°ticas o prazer de se deparar com uma criatura inc√≥gnita. Arrisco-me a dizer que entre os prazeres do intelecto poucos s√£o capazes de concorrer com a sensa√ß√£o arrebatadora de se descobrir sobre a exist√™ncia de uma criatura que at√© ent√£o se ocultava na vegeta√ß√£o cerrada da humilde ignor√Ęncia.

Embora enebriante, como todo novo achado, descobrir um animal j√° descoberto t√™m tamb√©m um qu√™ de frustra√ß√£o indagada, algo do tipo “como eu n√£o sabia nada sobre isso?”. Assim me aconteceu com o extinto gliptodonte, um tatu de tamanho de um fusca, a rar√≠ssima doninha-amaz√īnica (Mustela africana), que apesar do ep√≠teto “africana” √© uma esp√©cie restrita a bacia amaz√īnica, e muitas outras criaturas incr√≠veis. Poucas destas descobertas, no entanto, me renderam tamanha surpresa quanto quando soube pela primeira vez da exist√™ncia dos Thalassocnus.

Recentemente paleontólogos brasileiros divulgaram a descoberta de um fóssil quase completo de uma extinta preguiça terrestre que viveu há míseros 11 mil anos atrás na atual região da Chapada Diamantina, interior da Bahia. Embora ainda fosse um indivíduo jovem, o exemplar de Ahytherium aureum baiano possuía mais de três metros de comprimento e estima-se que pesava cerca de 500 quilos.

Como se n√£o bastasse a majestade bestial das pregui√ßas-gigantes, os ossos de Ahytherium aureum revelaram uma faceta incr√≠vel de sua biologia. Sua cauda era um pouco achatada, lembrando a das atuais lontras, o que levou seus descobridores a sugerirem que ela fosse uma √≥tima nadadora. Pregui√ßas-terrestres-gigantes j√° s√£o dignas de figurarem em qualquer enredo √©pico fabuloso ao lado de criaturas como as gigantescas √°rvores andantes de “O Senhor dos An√©is” e aquele mega-cachorro de “A Hist√≥ria sem Fim”, o que dizer ent√£o de pregui√ßas-nadadoras?

Mas, o poder criativo despretensioso da evolu√ß√£o √© capaz de quase qualquer coisa. Imagine voc√™ um paleont√≥logo escavando f√≥sseis em dep√≥sitos marinhos na costa sul-peruana. Entre os f√≥sseis de conchas, peixes, le√Ķes-marinhos e baleias voc√™ se depara com v√°rios ossos de pregui√ßas-terrestre. Hip√≥tese n√ļmero 1, algu√©m colocou isso aqui e est√° tirando uma com a minha cara; hip√≥tese n√ļmero 2, estou precisando dormir mais; hip√≥tese n√ļmero 3, descobri uma pregui√ßa-marinha e vou publicar na Nature. Adivinhe qual hip√≥tese Muizon e MCDonald escolheram? L√° est√°, edi√ß√£o n√ļmero 375 da Nature, p√°g. 224: “An aquatic sloth from de Pliocene of Peru”. Neste artigo foi batizado Thalassocnus natans, traduzindo do grego: “thalassa” = mar, “socnus” = pregui√ßa e “natans” = nadadora, ou seja, pregui√ßa marinha nadadora.

Thalassocnus natans. Imagem de Bill Parsons retirada daqui.
Thalassocnus natans. Imagem de Bill Parsons retirada daqui.

As justificativas que corroboram o tratamento de Thalassocnus natans como um verdadeiro mam√≠fero marinho, v√£o muito al√©m do simples fato de seus f√≥sseis terem sido encontrados em sedimentos marinhos. Diversas caracter√≠sticas em seu esqueleto demonstram que esta criatura surreal possuia v√°rias adapta√ß√Ķes que permitiam que ele se sentisse completamente √† vontade na √°gua.

A mais evidente destas adapta√ß√Ķes √© que, ao contr√°rio de todas as suas parentes terrestres, Thalassocnus possui os membros anteriores mais compridos que os membros posteriores. Uma adapta√ß√£o encontrada tamb√©m em diversos grupos de animais aqu√°ticos atuais que utilizam as patas anteriores como potentes remos, como os peixes-boi e as focas.

Esqueleto de Thalassocnus natans em exposição no Museu de História Natural de Paris. Repare na diferença de tamanho entre os membros anteriores e posterios. Imagem retirada da Wikipedia
Esqueleto de Thalassocnus natans em exposição no Museu de História Natural de Paris. Repare na diferença de tamanho entre os membros anteriores e posterios. Imagem retirada da Wikipedia

Outras adapta√ß√Ķes not√°veis de Thalassocnus √† vida aqu√°tica incluem as v√©rtebras da cauda, similares √†s das lontras e castores, e caracter√≠sticas do cr√Ęnio e da mand√≠bula que est√£o relacionadas com a capacidade de morder e arrancar algas do fundo do mar. Durante o Plioceno, √©poca em que viveram as pregui√ßas-marinhas, a costa peruana foi um √°rido deserto e dentro deste contexto n√£o √© dif√≠cil conceber que algas marinhas eram uma das poucas fontes de alimentos dispon√≠veis para um herb√≠voro de grande porte.

√Č muito prov√°vel que em um ambiente des√©rtico as algas marinhas funcionaram como verdadeiras sereias gastron√īmicas, estimulando os ancestrais do Thalassocnus a se lan√ßarem ao mar. Outra evid√™ncia que as pregui√ßas marinhas se alimentavam basicamente de algas pode ser encontrada nos seus dentes. Al√©m de apresentarem uma morfologia diferente de suas parentes terrestres, os dentes de Thalassocnus apresentam in√ļmeras marcas de desgaste causadas pela abras√£o dos dentes com a areia da praia. Se voc√™ j√° tentou comer aquele queijo-coalho na beira da praia que a peste do seu sobrinho meteu a m√£o cheia de areia, voc√™ ent√£o j√° experimentou algo parecido com os h√°bitos alimentares das pregui√ßas-marinhas.

Os representantes da família dos atuais peixes-bois, e outros grupos de animais aquáticos extintos, possuem os ossos muito mais espessos e pesados que o normal. Esta característica é conhecida como paquiostose e é uma adaptação que torna esses animais mais pesados, permitindo que eles afundem e se alimentem das algas no leito marinho. As preguiças marinhas não possuíam tal adaptação e o mais provável é que utilizassem suas longas garras para se agarrarem nas algas no fundo do mar semelhante ao que fazem as iguanas-marinhas das Ilhas Galápagos.

Iguana-marinha (Amblyrhynchus cristatus) das Ilhas Gal√°pagos. Repare nas unhas grandes utilizadas para se agarrar nas pedras onde nascem as algas das quais se alimenta. Imagem retirada da Wikipedia.

Desde a descrição de Thalassocnus natans, em 1995, quatro outras espécies de preguiças marinhas foram desenterradas na mesma formação da costa peruana. O mais interessante, no entanto, é que cada uma destas espécies viveu em um determinado período de tempo entre o Mioceono e o Plioceno e que seus fósseis demonstram uma transição incrível entre a vida terrestre e marinha. O desgaste causado nos dentes pela areia, por exemplo, diminuiu gradativamente entre as espécies mais antigas e as mais recentes, demonstrando que as preguiças marinhas estavam buscando seu alimento cada vez mais fundo e não mais se alimentando de algas trazidas pela maré.

Mandíbulas de cinco espécies de Thalassocnus, a esquerda a mais antinga a direita a mais jovem. Note o aumento progressivo da ponta da mandíbula, uma adaptação relacionada com o desenvolvimento de lábios grandes semelhantes aos dos peixes-boi que ajudam na hora de se alimentar de plantas aquáticas.
Mandíbulas de cinco espécies de Thalassocnus, a esquerda a mais antinga a direita a mais jovem. Note o aumento progressivo da ponta da mandíbula, uma adaptação relacionada com o desenvolvimento de lábios grandes semelhantes aos dos peixes-boi que ajudam na hora de se alimentar de plantas aquáticas.

√Č bastante poss√≠vel que Thalassocnus yuacensis, a esp√©cie mais recente de pegui√ßa-marinha, tenha sido t√£o adaptada √† vida aqu√°tica quanto os atuais pinipedes. No entanto, h√° cerca de 1,5 milh√Ķes de anos atr√°s as pregui√ßas-marinhas se extinguiram. Talvez a distribui√ß√£o aparentemente restrita tenha favorecido a extin√ß√£o por alguma doen√ßa, ou mudan√ßas clim√°ticas severas podem ter afetado as algas que eram seu principal alimento. Extintas ou n√£o, criaturas fabulosas como as pregui√ßas-marinhas est√£o longe de ser raridade e poder aprender um pouco mais sobre estes animais incr√≠veis √© um √≥timo motivo para celebrarmos a ignor√Ęncia.

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