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Filosofia e Divulgação Científica

Prisão imposta por si mesmo.

No texto O Influencer como Corpo Dócil, falei um pouco sobre como o disciplinamento do digital tem moldado nossa vida e nosso corpo, nessa breve análise, a partir das ideias de Michel Foucault, pretendi demonstrar a gravidade da submissão as regras digitais, principalmente quando feita sem nenhum critério e questionamento.

Hoje, a partir das ideias de Byung-Chul Han e Guy Debord, pretendo mostrar que esse disciplinamento não se detém ao corpo, mas se expande, a ponto de mudar a nossa concepção de vida profissional, aliada a espetacularização de um discurso motivacional da autonomia, o trabalho acaba por se tornar um aprisionamento imposto pelo próprio trabalhador.

Sociedade cansada de Byung-Chul Han

O filósofo Byung-Chul Han, aborda essa questão em suas obras como uma forma de escravidão. Segundo ele, antes dos smartphones e do Wi-Fi disponível 24 horas, o trabalho estabelecia limites de tempo, demandas e relacionamentos.

Já na atual realidade o trabalho nos alcança a qualquer hora e em qualquer lugar. E vem carregado de discursos motivacionais que nos culpabilizam por não darmos conta de atendermos todas as demandas.

A sociedade do trabalho e a sociedade do desempenho não são sociedades livres. Elas geram novas coerções. A dialética do senhor e escravo está, não em última instância, para aquela sociedade na qual cada um é livre e que seria capaz também de ter tempo livre para o lazer.

Leva, ao contrário, a uma sociedade do trabalho, na qual o próprio senhor se transformou num escravo do trabalho. Nessa sociedade coercitiva, cada um, carrega consigo seu campo de trabalho.

A especificidade desse campo de trabalho é que somos ao mesmo tempo, prisioneiro e vigia, vítima e agressor. Assim, acabamos explorando a nós mesmos. Com isso, a exploração é possível mesmo sem senhorio.

Exaustos-e-correndo-e-dopados – El País

Serei meu próprio patrão

A crescente narrativa promocional, disfarçada de motivacional, sobre as vantagens do profissional autônomo, advindas, principalmente das empresas tecnológicas, reconfiguram os modelos de trabalho.

Impulsionadas pela falta de ofertas de emprego, das medidas sanitárias em função da pandemia da Covid-19 e das crises econômicas sofridas nos últimos anos, muitos profissionais brasileiros optaram por abandonar a CLT (Consolidação das Leis do Trabalho) e adotar o trabalho informal, alguns desses, ainda sim, procuraram regularização, a partir da adoção do MEI, garantindo assim alguns dos direitos trabalhistas, como a aposentadoria, por exemplo.

Dirija pelo app da Uber. Você escolhe quando quer ganhar.

Para se ter uma ideia dessa mudança, em 2020, conforme o Mapa de Empresas, do Ministério da Economia, “o número de Microempreendedores Individuais (MEI) teve um crescimento de 8,4% em relação a 2019. Do total de 3.359.750 empresas abertas no período, 2.663.309 eram MEIs”. Já em 2021, foram mais de 3,9 milhões de empreendimentos, um aumento de 19,8% em relação a 2020.

A Espetacularização da autonomia de Guy Debord

Sem as obrigações financeiras trabalhistas impostas pela CLT, os custos de manutenção (como alimentação e transporte, por exemplo) e de alocação física desses funcionários, as empresas perceberam a oportunidade de reduzir suas despesas, já que o real custo de um funcionário pode chegar até 3 vezes o valor do salário pago ao trabalhador.

Mas, para que essa operação financeira funcionasse, era preciso que o trabalhador também visse vantagens nessa troca, assim a espetacularização da autonomia se tornou interessante para esse modelo de negócio.

A venda da qualidade de vida em troca do tempo é a base dessa espetacularização, feita por propagandas que demonstram a ideia de autonomia de horas trabalhadas, visto que não há obrigação de estar em determinados locais e horários, logo há tempo para outros afazeres particulares, como lazer, família, estudos, etc.

Para levar os trabalhadores ao status de produtores e consumidores “livres” do tempo-mercadoria, a condição prévia foi a expropriação violenta do tempo deles. O retorno espetacular do tempo só se tornou possível a partir dessa primeira despossessão do produtor (…) O mundo já possui o sonho de um tempo. Para vivê-lo de fato, deve agora possuir consciência dele.

Sociedade do espetáculo – Guy Debord
Lalamove

O trabalho como hobbie

Você carrega uma estação de trabalho com você o tempo todo. No começo a gente se sente livre, a comunicação é possível em qualquer lugar. Então, essa liberdade se transforma em compulsão (…)

Simplesmente não faz sentido definir horas de trabalho. (…) Com certeza posso colocar horas de trabalho e recusar qualquer trabalho fora deste horário, mas não é tão simples. O fato de podemos dispor livremente de nosso tempo cria, como você diz, compulsões. Porque a hora de descansar sempre pode acabar se tornando hora de trabalho.

Conversa entre Byung-Chul Han e Park Chan – Documentário Sociedade do Cansaço – no 11º Festival des deutschen Films.

A espetacularização da autonomia aliada ao disciplinamento do digital aumenta a nossa confusão sobre quando acaba nosso trabalho e começa o lazer. Quer ver um exemplo disso?

No último dia 02/06 a influenciadora digital Bianca Andrade do canal Boca Rosa apresentou sua estratégia de marketing como dica de planejamento estratégico para que seus seguidores.

A estratégia não é novidade para quem trabalha com marketing digital, inclusive sendo tratada e largamente incentivada como se uma receita para o sucesso.

Contudo, o que essa “receita de bolo” não discute é a transformação de uma vida privada em pública e tudo isso em troca do “like“.

(Se você não viu a discussão recomendo a matéria do Nexo).

Bianca Andrade cria roteiros para mostrar rotina nos Stories

Observe na foto, como a estratégia utilizada pela influencer não está muito longe de sua rotina!

Você visita os lugares através da câmera do celular, fotografa diariamente suas xícaras de café e seus pratos de comida, compartilha conteúdos repulsivos como forma de protesto, confere sua timeline em cada micro segundo de ócio?

E quem foi que decidiu abrir o celular e fazer a postagem? Quem decidiu tirar a foto? Quem decidiu compartilhar o conteúdo? Quem decidiu gastar esse tempo?

O que se gasta é o tempo de vida. Quando compro algo. Não pagamos com dinheiro. Compramos com o tempo de vida que tivemos que gastar para ter aquele dinheiro. Mas tem um detalhe: tudo se compra, menos a vida.

HUMAN o filme – José Mujica

A Divulgação Científica e seu eterno voluntariado

A falta de consciência da precarização do trabalho, da espetacularização da autonomia e da venda do tempo são muito presentes na divulgação científica. É comum encontrarmos divulgadores científicos que equilibram essa atividade junto de seus estudos, pesquisa e trabalhos formais.

Tomo como exemplo a produção dessa postagem:

Este é o terceiro texto que estou produzindo após passar 4 meses estudando o livro a Sociedade do Espetáculo na disciplina de doutorado que minha orientadora ministrou. Mas observe que somente neste texto eu utilizei mais que um pensador.

Além do estudo da bibliografia passei mais algumas horas, escrevendo e revisando o conteúdo, escolhendo imagens que contextualizassem o texto e respeitassem as normas de direitos autoriais.

Mas não para por aí, após a publicação do texto ainda precisarei aplicar estratégias de comunicação para sugerir o conteúdo ao meu público alvo, que já foi pensado e definido. Afinal esse é um texto de divulgação científica e para cumprir seu objetivo é preciso que chegue as pessoas.

É claro que precisamos considerar aqui nesta contagem do tempo que estou publicando em um blog que já é estabelecido e trabalhado desde abril de 2019, dentro de um projeto de divulgação científica que está trabalhando desde novembro de 2015.

Isso sem incluir nesta contagem, o tempo de vida de aprendizagem, o acompanhamento de notícias e outros estudos relacionados da área, o tempo de profissão, etc.

Ou seja, como diz Ana Arnt: “esse texto levou toda a minha vida para ficar pronto”.

Como sempre militamos aqui no Blogs de Ciência da Unicamp, fazer divulgação cientifica vai muito além do postar algo nas redes sociais, exige estudo, planejamento e reflexão. E, infelizmente a grande maioria dos profissionais desta área a fazem de forma voluntária, quando muito recebem bolsas que não possuem nem os direitos do MEI quanto mais os garantidos pela CLT

Entender a divulgação científica como profissão é urgente e necessária, exigir sua remuneração, direitos trabalhistas e reconhecimento não é exagerado. Continuar trabalhando de graça é que está errado.

Referências:

  • Sociedade do cansaço – Byung-Chul Han
  • No enxame: Perspectivas do digital – Byung-Chul Han
  • A Sociedade do Espetáculo – Guy Debord

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