Preocupações em torno à edição genética 

Preocupações em torno à edição genética 

Coloquemos primeiramente o senso comum para funcionar. De imediato surgem uma série de perguntas básicas:

Quais são os efeitos de larga escala das manobras de interferência genética? Consideremos, por exemplo, a questão do ZIKA/DENGUE. A proposta é editar a informação do DNA e gerar no laboratório populações de mosquitos sem a doença que, ao misturar-se e reproduzir-se com indivíduos contaminados, cheguem finalmente a substituí-los por completo. A ideia de insetos “produzidos” no laboratório e liberados massivamente não é em absoluto atrativa – contudo, a pandemia é menos atrativa ainda. Então: como definir as prioridades em casos como este? Quanto conhecemos da “ordem do cosmos”, da intrincada engrenagem que subjaz às condições de vida no planeta e dos efeitos remotos da alteração de “pequenos detalhes” desta classe? Existe algum tipo de consenso a respeito do “conhecimento fundamental” que devemos possuir para arriscar manobras deste tipo? E, sobre tudo: até que ponto é pertinente pensar nos “efeitos remotos” quando a problemática atual é tão grave e premente?

No que toca aos usos terapêuticos das técnicas de edição, e levando a hipótese ao extremo: como seria um mundo “sem doença”? A edição genética na sua vertente terapêutica promete aliviar doenças como o câncer e a AIDS. Qualquer pessoa sensata apreciará o significado e o valor dessa promessa. Contudo, há uma pergunta dura, mas necessária: são o sofrimento e a doença fenômenos que devemos buscar erradicar a todo e qualquer custo?

Há um casal jovem. Ela está grávida e ambos estão felizes. No decorrer da gravidez, eles descobrem que a criatura apresenta claras características do síndrome de down. O médico é claro: propõe abortar o quanto antes. Passado o pavor inicial, o casal investiga e descobre que há diferentes graus da síndrome; nos mais baixos, o indivíduo é capaz de se desenvolver com autonomia suficiente como para, por exemplo, se desempenhar satisfatoriamente em um emprego, construir laços de amizade e inclusive formar a própria família. Porventura, este é o caso do filho do casal. Eles decidem então, e para a surpresa do médico, continuar com a gestação.  Com o passar dos anos, e apesar das dificuldades, eles se doam ao filho e acabam por desenvolver um sentimento delicado: uma tolerância especial, uma paciência aguda e desinteressada e, em fim, um tipo refinado de amor.

Esta é uma história verdadeira – uma história passível de adquirir um viés bem diferente no futuro próximo: a edição do genoma permitirá “corrigir” “desviações” desta classe desde o momento mesmo da gestação. Mas então se suscita o seguinte dilema: como  afetaria o exílio das “falhas” as nossas emoções? De quais fontes disporíamos para nutrir sentimentos do tipo, digamos, da compaixão ou da empatia? Seriam essas fontes suficientes? Caso não o sejam e venhamos a enfraquecer uma parte importante do repertório emocional que nos caracteriza: como isso influiria, no fim das contas, sobre a nossa já frágil “capacidade moral”?

Do ponto de vista subjetivo, há ainda outro problema não menor. Quais seriam as consequências da perpetuação de si mesmo para o indivíduo? Na extended life adviria a sabedoria ou o tédio? Despontaria finalmente o conhecimento de si, a irmandade entre os homens, ou a contradição, a barbárie e o vício continuariam a açoitar sob novas formas? Como vemos, há uma fronteira muito tênue entre utopia e distopia no que toca à “evolução” da espécie.

Dispomos de recursos e infraestrutura para dar conta de uma humanidade centenária? Ainda no que diz respeito à diminuição do sofrimento, mas agora a partir de um ponto de vista prático, cabe anotar que a aplicação terapêutica da engenharia genética resultaria em um notável aumento na expectativa de vida. Sem nos elevar ao campo da “espiritualidade” ou da “cultura”, perguntemos: temos recursos, sistemas econômicos, políticos e sociais capazes de sustentar uma humanidade cada vez mais longeva, ou pelo menos de transformar-se suficientemente rápido para dar conta de tal circunstância?

No que toca aos usos eugenésicos das técnicas de edição: Quem decide o que é “melhor” para a espécie? Os problemas em torno dos usos eugenésicos das tecnologias de edição são os mais fascinantes. O mesmo sujeito sensato que admite quase sem dificuldade e inclusive se mantém confiante em relação aos usos terapêuticos, chegado este ponto da discussão hesita e não se decide.

Quem estaria nas condições de determinar quais características podem ou devem ser modificadas para criar um ser humano “melhor”? E se aquele que decidir “errar”, há um caminho de volta? Até que ponto as consequências se estenderiam geográfica e intergeracionalmente de um modo controlável? Quão real é a ameaça de um Fürer do século XXI?

A edição genética com fins eugenéticos: não implica uma violação da liberdade do sujeito? E também da sua autonomia, pois desde o momento que os pais “escolhem” ou “descartam” o material genético que constituirá o substrato fisiológico do filho estão determinando suas características mais fundamentais sem o seu consentimento. Há aqui, evidentemente, uma questão de justiça intergeracional.

Como acontece a relação entre eugenia, Estado e mercado? O problema da intersecção entre economia e revolução genética é claro e alarmante. O surgimento de um “mercado eugenésico de seres humanos projetados” é iminente.

Mas: quem teria acesso às aplicações das novas tecnologias? O que ocorreria se os países do terceiro mundo não conseguissem ter esse acesso? E ainda: dentro dos próprios Estados com grandes desigualdades sociais: acaso estas desigualdades não se tornariam mais agudas? Trata-se, enfim, de um problema de justiça social.

 

“Não é necessária muita capacidade imaginativa e de especulação para dar-se conta de que o uso de técnicas de melhoramento do genoma levará, se não for regulada de forma justa, a um aprofundamento das desigualdades sociais não apenas entre países que permitirem tais técnicas e os que eventualmente não permitirão, mas também entre aqueles Estados que as utilizarem sem dar condições para que as pessoas que necessitem das técnicas possam ter acesso a elas.”

“Se forem adotadas essas técnicas para fins terapêuticos, tanto reprodutivos quanto de terapia, políticas públicas claras e um sistema de saúde universal serão condições para o agravamento das desigualdades sociais existentes.”

Dall´Agnol em: Coluna ANPOF

 

 

 

 

3 thoughts on “Preocupações em torno à edição genética 

  1. Você colocou uma série de questões que abarcam a discussão ética em relação à edição genética. Todas difíceis de responder e que demandam um debate longo e complicado. Mas no que tange à questão do homem tentar alterar sua “evolução”, é a mesma coisa que dizer que o homem pode tentar dar saltos adaptativos. Evolução é isto, adaptação ao meio, para continuidade da espécie e sobrevivência aprimorada. Quando ele intervém nesse processo, ele está tirando o fator seleção natural da jogada. Se pensarmos por este lado, ele já vem fazendo isso há tempos. Todas as ferramentas, artefatos, remédios e métodos que ele desenvolveu para isso caem nessa categoria. Será que a edição genética não é apenas mais uma delas?

    1. Pois é: ferramentas, artefatos, remédios e métodos contam como intervenções em prol de uma adaptação aprimorada da espécie. A edição do genoma, em certo sentido, também cai nessa categoria. Por isso é importante evitar o dogmatismo e estar aberto às descobertas. Mas em outro sentido, no entanto, trata-se de um assunto muito mais delicado: como vimos, o uso das novas tecnologias não se limita a fins terapêuticos, mas há também por exemplo, e fundamentalmente, a questão eugenésica; junto com ela vêm a relação entre tecnologia e mercado, entre mercado e sociedade, etc. A ideia de um “melhoramento” da espécie, embora também venha sendo considerada desde os primórdios (Cf. PLATÃO, República V 456d-460c), carrega a partir do século XX conotações preocupantes.

      Há uma enorme série de riscos associados à experimentação em embriões humanos: esse é o motivo pelo qual, como vimos, a própria comunidade científica responsável pelas novas técnicas tem chamado a uma pausa global nos experimentos. As consequências da manipulação do genoma, além de radicais, podem vir a ser irreversíveis. E isto não apenas a nível físico, mas, indo além, a nível moral, social, político.

      Como sempre, voltamos à questão da estupidez, perversidade e tendenciosidade do homem. Será que a edição genética não é “apenas mais uma” estratégia evolutiva? Ao que parece devemos, como mínimo, responder essa pergunta com cautela.

  2. É bem verdade que a discussão sobre a edição do genoma humano levanta uma série de questões que precisam ser cuidadosamente pensadas. Todavia, certos procedimentos já estão sendo aplicados, por exemplo com o uso de técnicas como o CRISPR-cas9 em animais não-humanos não apenas para fins de tratamento, mas também de “aprimoramento”. Nesse sentido, um equívoco no debate é pressupor uma natureza humana imutável, de essência, que não poderia ser tocada ou aperfeiçoada no sentido de favorecer nossa evolução. Alguns argumentam que somos moralmente inadequados para o futuro e que técnicas não convencionais de aperfeiçoamento podem acelerar nossa adaptação evolutiva.

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