Docência: uma contínua rotina sobre o impermanente

Zaratustra, o mestre protagonista do livro Assim Falou Zaratustra (Nietzsche), vai afirmar a importância de nos tornarmos independentes dos ensinamentos recebidos.

Como discípulos devemos lutar pela autonomia, pelas nossas ideias. Nas palavras dele: “Paga-se mal a um mestre, quando se continua sempre a ser apenas o aluno”. Com isso, mestre Zaratustra nos aponta que não devemos permanecer seguidores daqueles que nos ensinam, não é essa a expectativa dos educadores.

Mas, como assim? Ensinamos para não seguirem o que dizemos???

Exato! Para Zaratustra, ensinar é possibilitar caminhar sua própria história. Os discípulos que Zaratustra quer são aqueles que buscam seu trajeto, buscam-se a si mesmos. (Em Gaia Ciência, Nietzsche aponta uma ideia clássica “torna-te quem tu és”, originalmente de Píndaro, mas que tem uma conotação experimental e de constituição de nós mesmos ao longo do processo).

Todos os anos, pessoas das mesmas idades (só nós, numa sala de aula, envelhecemos!). Todos os anos, pessoas com as mesmas idades, mas personalidades diferentes (e nós, sozinhos, olhando a diversidade pululando em nossa frente).

Em tempos de desvalorização da carreira docente, em um ano de trabalho tão virtual com ideais de engajamento e número de seguidores, aliado a acusações estapafúrdias sobre doutrinamento, a ideia de Zaratustra (que muitos tomam como arrogante) é uma força motriz de nossa inspiração e trabalho: não queremos, nem trabalhamos, para termos seguidores. Assim, reafirmo, o trabalho da docência é, continuamente, o desafio do novo, aliado à permanência constante.

Sobre pontos de partida

Como professores, desenvolvemos nosso trabalho no sentido de propiciar sujeitos-alunos, sujeitos-leitores-de-mundo que tomem nossos dizeres como ponto de partida e não de ancoragem (a ancoragem que, sim, é o espaço seguro, mas sem capacidade de criação).

Larrosa, pedagogo espanhol (citado muitas vezes neste blog! hahaha), fala do exercício da docência e da Lição como um presente que damos às pessoas. Dessa forma, preparar uma aula é dar algo a alguém, como um presente, remeter um texto, uma lição, a alguém.

Assim, esta ideia da lição como um presente, é tido como o espaço de criação para o outro. Algo que fazemos, a partir do que nos é mais precioso – o conhecimento e o encantamento pelo conhecimento – para outras pessoas. E aí, reside a meu ver, todo o mistério e beleza da docência.

Tornar-se docente é, em muitas medidas, ser encantado pelo conhecer – a ponto de querer encantar outras pessoas! E isso é desafiador, cotidianamente.

“Uma vez que só se presenteia o que se ama, o professor gostaria que seu amor fosse também amado por aqueles aos quais ele o remete (…) O professor gostaria que essa parte de si mesmo, que dá a ler, também despertasse o amor dos que a receberão e suscitasse suas respostas” (Larrosa, 2003, p.140)

Ao tomar uma lição conjuntamente, no entanto, não abrimos uma porta à uniformidade e conformismo às respostas, mas convocamos às perguntas que as lições nos possibilitam. Uma lição, um conjunto de conhecimentos, este amontoado de encantamentos que trabalhamos com as pessoas, não é para resolver uma questão, mas levar a pensar novas questões, novas indagações e inquietações.

(Incon)formações

Ser docente é trabalhar com formas de ser: tornar forma uma ação. Neste processo, não se ater à uma formatação final, mas ser parte de um processo de não tornar formação em algo conformado.

Eu gosto da palavra inconforme, aquilo que se nega a permanecer na mesma forma. Pensar a formação das pessoas como algo que muda a forma para algo que desacomoda, por querer mais e mais conhecimento, ação, pensamento – para si e para os outros.

A empatia pelo saber que é, também, empatia pelo outro – uma vez que pensa e luta para que este encantamento se prolifere e seja contagioso.

Por fim…

Em suma, o texto de hoje é um texto sobre a inconformidade, uma luta por esta palavra como ato cotidiano, para todos aqueles que, como eu, acreditam (e se encantam e se emocionam) ao pensar no potencial humano ao usar as palavras, como lições, para viver e lutar por distopias mais justas e empáticas, pelo conhecimento compartilhado. Todos e todas aqueles que, como eu, veem na docência, razão – e também emoção – pelo impermanente constante.

Parabéns, colegas, pelo nosso dia.

Para Saber Mais

Larrosa. A lição. Pedagogia Profana.

Nietzsche. Assim Falou Zaratustra

Nietzsche. Gaia Ciência

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Sobre a paixão pelo conhecimento

Sobre Ana Arnt 41 Artigos
Bióloga, Mestre e Doutora em Educação. Professora do Departamento de Genética, Evolução, Microbiologia e Imunologia, do Instituto de Biologia (DGEMI/IB) da UNICAMP e do Programa de Pós-Graduação em Ensino de Ciências e Matemática (PECIM). Pesquisa e da aula sobre História, Filosofia e Educação em Ciências, e é uma voraz interessada em cultura, poesia, fotografia, música, ficção científica e... ciência! ;-)

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