Charpentier e Doudna ganham o Nobel de Química 2020

©Johan Jarnestad/The Royal Swedish Academy of Sciences Imagem retirada de: https://s3.eu-de.cloud-object-storage.appdomain.cloud/kva-image-pdf/2021/10/fig1_ke_20.pdf

Todo o ano, o mundo voltam sua atenção para os laureados pelo Prêmio Nobel, aguardando os nomes, isto porque, teoricamente, são grandes personalidades que modificaram ou marcaram nossa história nas artes (literatura), economia, paz e ciências (Física, Química e Fisiologia e Medicina). Desde 1901, o prêmio foi concedido 606 vezes.

No total, foram 957 prêmios, distribuídos entre 926 pessoas e 24 instituições (que foram laureadas na categoria “Paz”). Para fechar esta conta, é preciso considerar que há duas instituições e 4 pessoas que ganharam mais de uma vez o prêmio…

No entanto, neste total de laureados pelo prêmio Nobel, temos 5% de mulheres em todas as categorias.

(ai, lá vem ela falar de quantidade de mulheres na ciência…)

Mas, e nas áreas científicas?

Um total de 623 prêmios concedidos – 619 pessoas premiadas. 23 mulheres foram laureadas em áreas científicas (Física, Química, Fisiologia e Medicina), sendo que foram 24 premiações para mulheres, ao todo (considerando que a Marie Curie ganhou duas vezes). Isto dá cerca de 3,7% de mulheres premiadas.

Sempre quando falamos de ciência e representatividade feminina – e sempre que falamos de mulheres que ganharam o Nobel, nos lembramos de Marie Curie. Isto porque ela foi, realmente, a pioneira! Em 1903 recebeu o Prêmio Nobel em Física, junto a seu marido Pierre Curie e Henri Becquerel, por suas pesquisas com Radioatividade.

A pesquisadora, no entanto, recebeu o Prêmio Nobel em Química e, desta vez, seu nome constava sozinha, pela descoberta do Rádio.

Isto é, assim, tão relevante?

Olha… Não que a gente queira insistir neste ponto… Todavia não é todo dia que alguém ganha dois Prêmios desta magnitude né? Curie foi a primeira a ganhar dois Prêmios Nobel, um em cada categoria.

Além disso, nas áreas científicas, somente duas outras mulheres não compartilharam seus prêmios em conjunto com homens: Dorothy Crowfoot Hodgkin, Nobel de Química em 1964 e Barbara McClintock, Nobel de Fisiologia e Medicina em 1983 (ao que parece, na literatura e na paz são mais afeitos a nos permitirem ocupar este espaço sozinhas…). Isto até este ano!

Em 2020 há três nomes de mulheres entre laureados. Andrea Ghez, laureada por seus estudos relativos à constatação de um buraco negro no centro de nossa galáxia. O estudo foi feito em conjunto com Reinhard Genzel.

– Mas Ana! Como isto funciona?

– Gente não sei. Eu sou bióloga, e de humanas ainda. Mas vai sair algo sobre isso aqui no Blogs! Vou dizer que li que tem a ver com a singularidade, que é o ponto exatamente antes de o buraco negro se fazer presente e o ponto em que o tempo e o espaço passam a não mais existir. Eu não entendo isso, mas acho um conceito lindo, lindo – vou deixar para a galera da física falar melhor 🙂

Tá, mas a Ghez repartiu o prêmio!!!

Sim, sim. Verdade. E muito embora seja incrível vermos pela 4ª vez uma mulher ganhar este prêmio, e com um tema tão instigante!

Entretanto, na Química tivemos, este ano, duas mulheres compartilhando o Nobel!

Emmanuelle Charpentier, bioquímica, microbiologista e imunologista, e Jennifer Doudna, bioquímica e bióloga molecular, revolucionaram a ciência ao desenvolver um método de edição do genoma. Qual método?

CRISPR!

O queridinho da edição genômica contemporânea, em comparação com técnicas anteriores, é mais rápido e preciso na edição.

Em um artigo de 1987, pesquisadores da Universidade de Osaka, no Japão, relataram uma descoberta aparentemente pequena. Enquanto investigavam a sequência de um gene bacteriano que codifica a enzima fosfatase alcalina, eles descobriram um segmento incomum de DNA próximo que consistia em sequências de nucleotídeos curtas e repetitivas cercadas por segmentos curtos únicos [Nucleotídeos são partes componentes do DNA, que é uma macromolécula. Isto é, são um conjunto composto por três grupamentos – um açúcar (pentose); um grupamento fosfato e uma base nitrogenada, que são (as famosas “letras” do DNA, que são os nucleotídeos – A, T, C, G, ou mais conhecidas como Adenina, Timina, Citosina e Guanina]. Eles observaram que “o significado biológico dessas sequências não é conhecido” (1).

Eu, particularmente, acho muito legal este trecho do artigo das pesquisadoras Charpentier e Doudna. Primeiro, por apontar um “desconhecimento” a partir de uma outra publicação científica. Ou seja, o quanto muitas vezes quando publicamos nossos resultados, também apontamos incertezas e o que aparentemente não faz sentido existir em um primeiro momento – mas pode abrir portas para novas descobertas.

E é sobre isso que é a ciência.

Fazer perguntas para o que não se entende e tentar entender o fenômeno e, neste caso, intervir. Assim, é interessante, a meu ver, para apresentar a relação histórica de uma inovação científica como a edição genética. Algo que parece sem sentido e não temos condições de compreender se há relevância ou não. No entanto, as vezes o que está lá “quietinho” e parece ser um amontoado de nadas…

Avançando quase três décadas, o que inicialmente parecia ser uma observação obscura agora está sendo usado para abrir a porta para a fácil manipulação dos genomas de uma infinidade de organismos. Cinco artigos publicados com um mês de intervalo, na Science e na Nature Biotechnology relatam a aplicação de tais sequências bacterianas – agora denominadas sistemas CRISPR-Cas – como uma ferramenta simples e versátil para edição genômica (1).

Em outro artigo (2), as pesquisadoras apontam o quanto a tecnologia de edição genética nos possibilitaria não somente analisar as funções dos genes, mas estudar rearranjos, progressão de doenças como o câncer e outras mutações genéticas que são responsáveis por doenças e condições hereditárias.

Entretanto, tudo são flores?

As promessas são inúmeras, tanto para a saúde humana, quanto para produção alimentar. Recentemente, por exemplo, o Especial Covid-19 do Blogs de Ciência da Unicamp publicou um estudo de um teste diagnóstico de coronavírus com leveduras cujo DNA foi editado com a tecnologia CRISPR também!

Mas, existem questões éticas envolvidas no desenvolvimento da técnica de edição genômica? Sem sombra de dúvidas. Isto é, pairam, sempre, as sombras de um ideal eugênico, tantas vezes (e até hoje) presente na prática e nos discursos sociais, que buscam na ciência a legitimidade para delimitar modos de ser humano válidos (3).

E este é um embate que temos sempre que trazer à tona e deve caminhar junto com quaisquer produção científica vinculada à biologia de seres humanos. Entretanto, buscar formas socialmente responsáveis e justas no uso de tecnologias científicas é, antes de tudo, promover debate, compreender como o conhecimento é produzido e cobrar, sempre, para que a ética seja parte fundamental da produção e uso do conhecimento científico – por todos nós e para todos nós.

Por fim…

Foi uma semana feliz, para um ano tão difícil. Ver uma técnica tão importante ser laureada pelo Prêmio Nobel, levando à frente duas mulheres incríveis, para quem é cientista e mulher, nos enche, sim, de orgulho e admiração. Ainda estamos longe de qualquer condições de paridade.

Há muito chão pela frente, para diminuirmos o abismo da desigualdade de mulheres e homens no meio científico. Mas, depois de 56 anos ver o nome de duas mulheres à frente de algo tão revolucionário na ciência é, sem qualquer sombra de dúvidas, sensacional.

Em suma, é com um grande sorriso que termino esta postagem, agradecendo Charpentier e Doudna por sua contribuição à ciência, por sua contribuição às mulheres na ciência e por nos representarem com um conhecimento tão incrível produzido.

Artigos Citados

(1) Charpentier, E, Doudna, J 2013) Rewriting a genome. Nature 495, 50–51 (2013).

(2) Doudna, J, Charpentier, E (2014) The new frontier of genome engineering with CRISPR-Cas9 Science, this issue

(3) Arnt, A (2019) Ser humano: determinações biológicas e culturais (parte 1) Blog PEmCie, Blogs de Ciência da Unicamp

Para Saber mais

The Nobel in Prize Chemestry 2020

Jinek, M, Chylinski, K, Fonfara, I, Hauer, M, Doudna, J, Charpentier, E (2012) A Programmable Dual-RNA–Guided DNA Endonuclease in Adaptive Bacterial Immunity Science 17, Vol337, Issue 6096, pp 816-821

Manera, C (2020) CRISPR-Cas9, a ferramenta da hora Ciência em Série, Episódio #09, Planteia.

Blogs de Ciência da Unicamp

Arnt, A (2019) Mulheres na ciência: alguns números do Brasil Blog PEmCie, Blogs de Ciência da Unicamp

Mello, F, Maneira, C, Arnt, A (2020) Sabia que leveduras podem fazer diagnóstico de Covid-19? Blogs de Ciência da Unicamp, Especial Covid-19

Martins, P (2016) Nas ondas do sistema CRISPR: edição de genoma Descascando a Ciência, Blogs de Ciência da Unicamp

Sobre Ana Arnt 41 Artigos
Bióloga, Mestre e Doutora em Educação. Professora do Departamento de Genética, Evolução, Microbiologia e Imunologia, do Instituto de Biologia (DGEMI/IB) da UNICAMP e do Programa de Pós-Graduação em Ensino de Ciências e Matemática (PECIM). Pesquisa e da aula sobre História, Filosofia e Educação em Ciências, e é uma voraz interessada em cultura, poesia, fotografia, música, ficção científica e... ciência! ;-)

Seja o primeiro a comentar

Faça um comentário

Seu e-mail não será publicado.


*