Cultura do estupro, rotina e nossa existência cotidiana

Um texto central escrito "por um presente e uma cultura com iguais condições de existência" e a imagem de várias mulheres (rosto e ombros) de diferentes etnias

Sempre ficamos chocadas quando sabemos de histórias que envolvem pessoas queridas e situações ultrajantes que as envolveram. Há diferentes modos de respondermos a estes momentos. E hoje vou falar um pouco sobre como nos portarmos em relação a relatos de violência sexual.

  • Ah pronto. Lá vem ela falar de cultura de estupro novamente.

Sim! O texto de hoje é sobre cultura do estupro novamente. Em geral, pensamos sempre sobre isto frente a situações de extrema violência e como a sociedade responde a isto. O que é difícil de compreendermos é que cultura do estupro não é sempre sobre o estupro, mas como temos como rotina a condenação de vítimas por comportamentos violentos de culpados.

Como estamos falando de cultura do estupro, é importante ressaltar aqui que de modo geral, culpados são homens heterossexuais cisgênero. E as vítimas, em geral, independente da idade, homens transgêneros e mulheres independente de gênero ou sexualidade.

Como assim falar de cultura do estupro é falar de rotina?

Cultura do estupro não é um episódio de violência. Quando apontamos uma violência sexual como cultura, estamos afirmando que isto faz parte de uma prática de nossa sociedade que possibilita que o ato mais violento – o estupro, neste caso – seja reafirmado cotidianamente como parte do que nos constitui como sociedade.

O termo “cultura” não se refere à arte, ou a grandes obras realizadas por nomes renomados, ou “aquilo que foi de melhor produzido em nossa espécie”. O termo se refere às práticas cotidianas que constituem uma sociedade. Ou seja, às práticas que nos identificam, enquanto rotina, significados, símbolos, falas, atos, teorias, produções artísticas e científicas, como pertencentes a um determinado grupo e região – que pode ser país, estado, município.

Obviamente, falar que algo é uma cultura, não significa que todos nós agimos desta ou daquela forma. Todavia, significa que isso faz parte da nossa vida, só por termos nascido e crescido em determinados espaços sociais. E isso é um pedaço de nossos aprendizados – que podemos refutar, questionar, conviver ou aceitar como fato, por exemplo. Mesmo refutando e questionando, segue sendo um aprendizado social. Uma vez que estamos imersos nisso que, novamente, chamamos de cultura. Está acima de nós, faz parte de quem somos e do modo como vivemos no mundo.

E como a cultura do estupro se relaciona com isso?

Nossa sociedade é machista. Cotidianamente vemos cenas de violência, verbal ou física, contra pessoas que vivem fora do que chamamos de “padrão” ou “normatividade”. Basicamente, pessoas que não compõe o seleto grupo “homem, branco, heterossexual, cisgênero”, que situa-se dentro do que costumamos chamar “privilegiados”.

Eu nem vou responder a qualquer menção à frase “nem todo o ___”. Já passamos dessa fase, né?

A questão é como nossa sociedade tolera verborragias de homens sobre mulheres e, pior, ações de violência contra qualquer pessoa que destoe deste espaço de privilégio.

Voltando ao início do texto, quando mencionei relatos de violência, é importante compreender que normalmente, nos aterrorizamos com o relato de um estupro. No entanto, violências rotineiras são tomadas como parte da vida – e normalmente um problema menor. E é exatamente aí que reside a noção de cultura do estupro. Pois não relacionamos essa rotina com os atos de violência extrema.

Quer um exemplo?

Ser segurada com força, contra nossa vontade, para beijarmos alguém. Ao relatar isto, escutar:

  • Ué, mas se estás solteira, qual o problema de beijar o cara?
  • Devia ter beijado, assim te livravas mais rápido.
  • Mas o que custa beijar o cara?
  • Se tivesse beijado, ele não tinha te forçado.

Outro exemplo:

Negar-se a sair com uma pessoa reiteradas vezes e, em uma festa entre colegas escutar:

  • mas se és solteira e heterossexual, qual o motivo de não querer sair comigo?

Mais um exemplo:

Ser abordada por alguém na rua, de forma ofensiva (quem nunca escutou: “te como todinha?” enquanto caminhava em uma rua aleatória) e escutar:

– também, com esta roupa na rua, queria o quê?
– Mas como é que tu respondeste? Ficaste quieta?
– Essa hora andando sozinha, só podia acontecer isso!
– Veja bem se pode ficar andando na rua sem ninguém junto, dá nisso!

A cultura do estupro é sobre ser culpada por existir

Em absolutamente TODOS os relatos que são meramente fictícios (porém escutamos sempre), a culpa da violência é retirada instantaneamente do homem que violentou. A culpa é da pessoa que devia ter cedido aos caprichos (um beijo que não queria dar, uma volta – de cunho sexual – que não queria participar), ou que estava em um lugar inadequado, de forma inadequada.

A grande questão disso é que, no fundo, a culpa acaba sendo da existência da vítima. Não existe local adequado, não existe roupa adequada, não existe comportamento adequado, quando temos um agressor que, socialmente, é o ser humano correto para seguir existindo, não importa o que faça.

Somos um corpo

Costumo dizer que nós somos e temos um corpo. E isto torna-se mais e mais compreensível, quanto mais nos afastamos disto que chamei de padrão (homem, branco, heterossexual, cisgênero). Como assim?

Em geral, quando querem desmerecer alguém, é o corpo o alvo. Dessa forma, ataca-se pessoas pelo corpo que possuem, ou pelo modo como supostamente usam o corpo. Assim, seguidamente nos narram como vadias e putas, dentro desta cultura do estupro. Ou seja, como um corpo que deveria estar a serviço dos homens. E exatamente quando nos negamos a estar neste lugar, somos xingadas (e eu nem considero puta e vadia como xingamento – já falei sobre isso aqui e aqui).

Quando somos aviltades, em geral, temos nossa conduta condenada, pois devíamos (para não sermos violentades) ceder. É aqui que nos configuramos como sendo e tendo um corpo que é um objeto de pertencimento desta categoria de privilégio, o homem, branco, heterossexual, cisgênero.

– Ana, você não cansa de falar sempre isso do homem, branco, heterossexual, cisgênero?

Não sei. Vocês não cansam de nossa existência ser aviltada cotidianamente? Eu canso mais disso, e canso de ver reiteradamente pessoas sendo violentadas e a violência se repetir muitas vezes a cada menção que as culpabilizam.

Eu canso de ver que a violência sexual não se restringe ao ato de violência. Pois soma-se à vivência social que precisa confirmar muitas vezes que fomos violentadas. E, mesmo assim, ainda nos sentimos culpadas e escutamos que fizemos algo errado. Já diria Elis Regina, com a voz arrebentando nossas verdades do peito, que “minha dor é perceber que apesar de termos feito tudo o que fizemos, nós ainda somos os mesmos e vivemos como [ou pior que] nossos pais”.

A cultura do estupro nos promove, cotidianamente, violência. Violência contra nossos corpos, por eles existirem e se negarem a pertencer a um tipo de ser humano, que se pretende dono de tudo – inclusive de nós mesmas. E não são. Não podem ser.

E só deixarão de ser (corpos violados e pertencentes de outro ser) quando, cotidianamente, como prática reiterada, nossa existência não precisar resistir à violência e sobreviver à ela. Melhor dizendo: quando qualquer violência for um ato do sujeito violento e não da vítima aviltada; quando as vítimas não forem culpadas por sua existência, suas vestimentas, seu corpo presente. Melhor ainda, quando não houver sujeito violento, pelo fato simples e básico, cultural e rotineiro, de que pessoas compreendem que os corpos de outras pessoas não são objetos para se ter, mas pessoas a se respeitar.

Para saber mais

BUTLER, Judith (2018) Corpos em aliança e a política das ruas: notas para uma teoria performativa de assembléia, Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.

COSTA, Marisa Vorraber, SILVEIRA, Rosa Hessel, SOMMER, Luis Henrique (2003) Estudos culturais, educação e pedagogiaRevista Brasileira de Educação

FONSECA, PAA, ALVES, VL,  LIMA, LM (2017) Cultura do Estupro: uma análise de conteúdo sobre a percepção dos usuários via TwitterRevista Idealogando, v1, n1, p75-84.

SOUZA, RF (2017) Cultura do estupro: prática e incitação à violência sexual contra mulheresRevista Estudos Feministas25(1), 9-29

Outros textos do blogs com este tema

Sobre a Cultura do Estupro: senta aqui, vamos conversar…

Mulher: um ato político

Corpo da mulher: objetificação e posse de si

Sobre Ana Arnt 53 Artigos
Bióloga, Mestre e Doutora em Educação. Professora do Departamento de Genética, Evolução, Microbiologia e Imunologia, do Instituto de Biologia (DGEMI/IB) da UNICAMP e do Programa de Pós-Graduação em Ensino de Ciências e Matemática (PECIM). Pesquisa e da aula sobre História, Filosofia e Educação em Ciências, e é uma voraz interessada em cultura, poesia, fotografia, música, ficção científica e... ciência! ;-)

Seja o primeiro a comentar

Faça um comentário

Seu e-mail não será publicado.


*