DNA não é só o “segredo da vida”, diz cientista

Gosto dos conselhos que alguns cientistas dão para a plateia, geralmente ao final de suas palestras. Em um dos primeiríssimos eventos de que participei no MIT, ouvi o que talvez tenha sido uma das dicas (acadêmicas) mais importantes que recebi até hoje. Frank Wilczek, prêmio Nobel em física, disse: “saiba a história da sua área”. Embora pareça óbvio, muita gente acaba não colocando em prática. Vale pregar na parede para não esquecer. Talvez a busca frenética pelo novo faça com que o tão importante resgate histórico fique de lado. “Ele está sendo ahistorical”, me disse certa vez Susan Silbey, professora de antropologia e sociologia do MIT, ao criticar as conclusões do trabalho de um colega.

Depth, 1955; Fonte: site oficial M. C. Escher 

Hoje ouvi outro conselho precioso: “não se esqueça da arte; há ideias formidáveis por lá”. Adivinhe de quem partiu tal conselho? Do bioquímico Nadrian (Ned) C. Seeman, o inventor da nanotecnologia de DNA. Ele falou hoje para o colóquio da Biologia, evento realizado semanalmente no MIT, e que conta com a participação de cientistas do mundo todo, das mais diversas áreas das ciências biológicas.

Seeman disse que sempre começa suas palestras pedindo para que as pessoas esqueçam o conceito biológico de DNA, e todas as imagens de plantas e bichos com as quais relacionamos a “molécula da vida”. Logo no início deixou claro que usa materiais naturais (DNA) para criar coisas não-naturais (DNAs malucos). A ideia é afastar o DNA fonte de informação genética e usá-lo como uma espécie de aparato, aproveitando sua importante característica de reconhecer trechos específicos de DNA e de se montar sozinho (self-assembly).

Um dos grandes feitos de Seeman foi criar moléculas ramificadas de DNA. Refrescando a memória, o DNA é uma cadeia linear, com duas fitas entrelaçadas, formando uma dupla hélice. O bioquímico, inspirado pela obra Depth, de E. C. Escher, quebrou o paradigma da linearidade e desenhou moléculas com vários galhos. Usando extremidades coesivas do DNA (com informação exata de onde se ligam), Seeman e seu grupo montaram um cubo que foi o primeiro objeto tridimensional construído em escala nanométrica. Não sei se ele foi inspirado por ou se apenas usou o exemplo dos tijolos das tumbas da dinastia Ming, em Nanjing, na China, que contêm pequenas letras que representam instruções para montagem. Ele usa o mesmo princípio de instrução ao desenhar seus minúsculos objetos feitos de DNA.

Usar tais objetos de DNA – que incluem nanotubos e cristais tridimensionais – ligados a biomoléculas e a componentes nanoelétricos é um dos objetivos de Seeman em suas variadas pesquisas. Foram criados instrumentos nanomecânicos, incluindo nano-robôs. Segundo ele, a ideia é sair cada vez mais do desenho de objetos estáticos e partir para uma combinação de diversos componentes. 

Vou ficar de olho nele, principalmente no movimento “de genes para máquinas”. Ganhador de inúmeros prêmios, Seeman atualmente é professor do Departamento de Química da Universidade de Nova Iorque (NYU).

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