Platão e os Totalitarismos: a crítica de Popper

Platão e os Totalitarismos: a crítica de Popper

O livro A Sociedade Aberta e seus Inimigos, do filósofo austríaco Karl Popper, é sem dúvida um dos textos de filosofia política mais influentes do Século XX[i].

De ascendência judaica e naturalizado britânico, Popper publicou por primeira vez em Londres e em inglês The Open Society and its Enemies em uma data sugestiva: 1945. Tendo sobrevivido às Grandes Guerras na condição de intelectual e de exilado, a aguda inteligência de Popper, conhecida fartamente pela reflexão em torno à lógica da ciência, condensou reflexões finíssimas sobre os acontecimentos recentes em dois grossos volumes, o primeiro dos quais está dedicado inteiramente a Platão.

O Volume I se intitula de fato Plato´s Spell: “O feitiço de Platão”, traduzido às vezes como “O fascínio de Platão”.

O noveno capítulo desse volume se denomina “Esteticismo, perfeccionismo, utopismo”.

Nesse capítulo, Popper apresenta Platão como um “engenheiro social utópico” e critica a proposta, em particular a da República  [ii], alegando que ela constitui um convite ao totalitarismo, com todas as aberrações que isso implica, entre elas várias observadas no Século XX.

O engenheiro é tal na medida em que projeta uma determinada estrutura social e oferece uma série de  medidas e ações práticas para levantar o edifício. Ele é utópico na medida em que concebe o projeto como o ideal, como o melhor possível em certas dadas condições.

Ironiza Popper: realizar o ideal significa “alcançar a felicidade e a perfeição na terra”.

Popper observa, em primeiro lugar, o fato de que a instauração do regime “salvador” exige um movimento revolucionário selvagem, cujo objetivo é reformar toda a ordem existente “sem deixar pedra por virar”.

 

“Tanto Platão quanto Marx sonharam com uma revolução apocalíptica que transfiguraria radicalmente todo o mundo social” *

A Sociedade Aberta e seus inimigosP. 180

 

Popper critica esse afã de transfiguração principalmente por causa da evidente violência que ele implica: a completa subversão da ordem estabelecida não pode evitar se utilizar da censura, da opressão e da sentença tirânica, entre outras.

Além do mais, Popper observa que a realidade não é no geral um objeto passível de tabula rasa. Toda pretensão de uma mudança cabal é, além de violenta, ineficiente e ingênua, e o câmbio, particularmente no que toca aos modos de organização humanos, é sempre relativamente lento e gradativo.

“O político [utópico] clama, como Arquimedes, por um lugar fora do mundo social em que possa fincar pé a fim de erguê-lo sobre seus gonzos. Mas tal lugar não existe e o mundo deve continuar a funcionar durante qualquer reconstrução”

A Sociedade Aberta e seus inimigosp. 183

 

Ainda no contexto do utopismo, Popper critica Platão, enquanto artista, de esteticista: Platão quer que o legislador da República obre qual um pintor a começar do zero, limpando o que possa haver na tela para imprimir logo nela a sua visão inspirada no esplendor mais diáfano possível (ad Cit.).

Popper reconhece em Platão o poeta, e sugere que ele escreve sob o influxo das musas, vendo-se por isso levado a criar um “sonho de beleza”, um “idílio da justiça”. Eis o esteticismo da utopia platônica.

Mas a bela fantasia do engenheiro inspirado, alerta Popper, não é de modo algum inofensiva: ela faz com que a exaltação literária se misture com o exercício especulativo e que, assim, a razão retroceda, inflamado o ânimo com os humores da imaginação. O ideal utópico pode fazer, em certo sentido, com que fins atrozes justifiquem os meios. Eis o cerne da crítica:

“[Platão] era um artista e, como muitos dos melhores artistas, tentava visualizar um modelo, um “original divino” de sua obra e “copiá-lo” […] Seus filósofos adestrados são homens que viram a verdade do que é belo e justo e bom e podem trazê-lo do céu à terra […] O político platônico compõe cidades por amor à beleza […] Este amplo alcance, este extremo radicalismo de Platão liga-se ao esteticismo, isto é, ao desejo de construir um mundo que não só seja um pouco melhor e mais racional do que o nosso mas que seja livre de toda a feiura deste (…) Este esteticismo é uma atitude muito compreensível; de fato, acredito que a maior parte de nós sofre um pouco com tais sonhos de perfeição. Mas esse entusiasmo estético só se torna valioso quando refreado pela razão […] de outro modo, será um entusiasmo perigoso, passível de desenvolver-se em alguma forma de neurose ou histeria”

A Sociedade Aberta e seus inimigosP. 180

 

Ou de tirania, dirá com urgência Popper.

E há ainda outro risco fatal.Uma vez fundada a Kallipolis, o Estado constituído deverá ser preservado a todo custo: todas as instituições, organismos e normas do regime funcionarão para tal fim. A proposta de República[ii] [i], diz Popper, pretende ser final e absoluta, e por tanto deve cuidar de excluir qualquer mudança.

A educação, por exemplo, será quase castrense na Kallipolis. As qualidades humanas serão identificadas e divididas desde a mais tenra idade durante o processo pedagógico e sob direção das autoridades, que se esforçarão, ao mesmo tempo, por convencer o cidadão com uma “Mentira Nobre” (ad Cit.) do lugar (de obreiro, soldado, hierarca) que lhe toca ocupar “por natureza” na construção social (ad. Ref).

A arte também estará monitorada na Kallipolis. Na famosa “expulsão dos poetas” (e fora extremismos hermenêuticos) Platão oferece pautas detalhadas para a arte, proíbe o criador de se apresentar em público sem prévia autorização (Rep., L. III e X) e o convida a retirar-se caso manifeste ou divulgue ideias ou costumes divergentes das estabelecidas (ad. Cit).

Por estes motivos, Popper acusa Platão de perfeccionismo. Se trata de um “radicalismo intransigente”, diz ele, do qual nem um hipotético (embora pouco provável) “ditador benévolo” poderia prescindir.

Popper sugere, por fim, que a tarefa do legislador não deve jamais misturar-se à do artista nem à do utópico, muito menos à do perfeccionista. O objetivo do político deve ser propor ações capazes de aliviar, gradualmente, as dificuldades existentes, e não subverter o mundo dado com o fim de elaborar um “objeto estético” para a contemplação.

Nem o mais fiel devoto das musas poderá desconsiderar levianamente a crítica.

Também ele conhece o poder da palavra e o alcance da perversidade humana.


[i] Modern Library, 1999

[ii]República (em grego: Πολιτεία, transl. Politeía) é o escrito político mais importante de Platão, onde por exemplo se encontra a alegoria da caverna (Livro VII), se trata da Teoria das Ideias e se propõe um estado político e psicológico ideal. A obra tem um duplo caráter literário e filosófico, e é tão rica em inquisições teóricas e conceitos abstratos como em elementos poéticos e mitológicos. A cena dramática se constrói em torno do relato, narrado em primeira pessoa, de uma conversa sobre a justiça que Sócrates tivera com seus amigos. No decorrer do diálogo é imaginada uma cidade perfeita, a Kallipolis, em grego: καλλίπολις, que significa literalmente Cidade Bela.

A tradução estândar da República em português pode ser encontrada aqui em PDF.

Para ver em inglês e o original grego acesse aqui.

 

PODCAST: Melissa Lane on “Plato on Totalitarianism” (Philosophybites.com)

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7 thoughts on “Platão e os Totalitarismos: a crítica de Popper

  1. Muchas gracias por el interesante análisis.

    El gran problema que salta a la vista de la crítica de Popper es el anacronismo histórico. Sólo unos ejemplos: i) La Kallipolis de República (de hecho, una polis=ciudad) es más parecida en dimensiones a la Ginebra de Calvino que a un estado totalitario como el Nazi o el Soviético. ii) Popper supone que Platón critica una poesía como la de “su” tiempo, cuando, a diferencia de la poesía moderna, la poesía de tiempos de Platón cumplía una función pedagógica y formativa innegable. iii) Platón sí valora la “libertad política”, pero no la “libertad de elección”, entendiendo esta como la autonomía del acto de elección con respecto a la bondad o maldad del objeto elegido. Antes del liberalismo de la Modernidad no se encuentran prácticamente defensores de la “autonomía de la voluntad” en este sentido. La crítica de Popper es en este sentido una crítica que atañe al mundo pre-liberal y no exclusivamente a Platón.

    *Una interesante y resumida explicación de los problemas de la interpretación de Popper puede encontrarse en “Platon” de H. Görgemanns, Heidelberg 1994, pp. 155-159. Este libro fue traducido al español hace unos años por la Colección IES en Santiago de Chile.

    1. La observación a respecto del anacronismo es adecuada en todos los sentidos: la Kallipolis de República es una ciudad, limitada cuidadosamente en territorio y habitantes, y no un imperio; la “poesía” y la “libertad” que entran en juego allí son completamente diferentes a las de la modernidad, y una transposición al pie de la letra de los conceptos no puede sino resultar en equívocos.

      Sin embargo, al menos en cierto sentido el problema parece no ser de Popper, sino de los lectores que realizan la “lectura tendenciosa”. De hecho, el anacronismo más peligroso es el llevado a cabo por los propios regímenes totalitarios, es decir, por la “inteligencia” tiránica que, limitada en su egocentrismo al estrecho horizonte del tiempo presente y a causa de su desconocimiento del significado profundo de la palabra platónica, se la apropia livianamente y a su conveniencia y edifica sobre ella un edificio grotesco que la hunde y la deforma. Popper ofrece una descripción del desdoblamiento hermenéutico de la República. Desde esta perspectiva el problema se perpetúa – y es un problema terrible. La pregunta es: ¿hasta dónde cabe, si de alguna manera cabe, responsabilizar al filósofo por las conclusiones que la estupidez humana extrae de sus escritos? ¿Hasta dónde es justo o conveniente limitar la potencia creativa intrínseca al impulso filosófico?

      La crítica de Popper al “esteticismo” es más difícil de contestar. Se trata, según él, de “dar al César lo que es del César”: especulación y poesía, máxime cuando el contenido es político, no deben mezclarse. Antes de acceder a las capas más hondas de la propuesta platónica, el ánimo del lector promedio, esto es: del lector inculto y desatento, se inflama ante la promesa de una realización completa y absoluta de todo. El carácter utópico de la República desvía fácilmente al transeúnte apresurado del camino que lleva al subsuelo pesimista de la obra. Después de Auschwitz, esto parece ser suficiente para exigir a la filosofía política que se abstenga de embellecerse y de vestirse de género literario.

  2. Apenas algumas reflexões de alguém que não é da área de filosofia, mas que gosta bastante de ler sobre o assunto….Eu acho complicado quando um autor critica outro, ainda mais com grande distância histórica, no sentido de culpabilizá-lo por algum movimento ideológico ou político. Os autores, escritores e ideólogos são frutos de seu tempo e de seu ambiente intelectual. O conteúdo de suas obras é datado e anacrônico, quando aplicado em outras épocas ou ressurgimentos. Tratam-se de escolhas e interpretações de líderes e homens de vanguarda de seus movimentos. Eles colhem do passado ideias e reelaboram conforme seus interesses e capacidades. Acho impróprio culpar um homem do passado pelas ações dos homens de um tempo futuro. Por exemplo, será que Marx teria concordado com as revoluções que foram feitas em seu nome, ou em nome de suas obras?

    1. Pois é: o anacronismo é manifesto. Contudo, me parece que o anacronismo mais importante não é tanto o de Popper, quanto o dos totalitarismos do século XX que ele está a observar. O problema, digamos, é mais Hitler lendo Platão (ou Nietzsche, ou Stalin lendo Marx) do que, no caso, Popper lendo Platão. De fato, provavelmente nem Marx nem Platão nem Nietzsche teriam concordado com as revoluções feitas em seus nomes. O problema é sobre tudo a inteligência tendenciosa que fundamenta nas grandes obras do pensamento suas barbaridades.

      Isso nos leva a uma pergunta bastante desconfortável, mas inevitável: até onde cabe, se de alguma maneira cabe, exigir ao intelectual que leve em consideração as má-interpretações que a estupidez e a perversidade humanas podem extrair do seu discurso?

      1. Realmente, acho difícil um autor ou pensador deduzir todos os desdobramentos possíveis de sua obra, ainda mais que existe sempre uma margem de interpretação, período histórico e intenção daquele que se utiliza de um texto ou fala. Podemos ver isso claramente em certas religiões, que criam um canon e depois usam seus trechos conforme a conveniência e interesses.

  3. Evidentemente é exagerado pretender que um autor seja capaz de deduzir todos os desdobramentos possíveis da sua obra. No entanto, isso não significa que o esforço por estabelecer uma ética do trabalho intelectual atualizada que de alguma maneira considere a problemática seja dispensável.

    A exigência de máxima objetividade e clareza está suficientemente estabelecida no contexto dessa ética. Mas para além dela parece apropriado insistir em que o escritor tenha uma consciência e um domínio
    amplo do leque de interpretações mais óbvias das suas teorias e ditames, em especial quando esses comunicam um significado complexo e ainda mais quando implicam não apenas conteúdos argumentais, mas recursos poéticos ou fortes cargas hermenêuticas.

    O escritor que torna público seus pensamentos deve sempre estar ciente de que eles serão recebidos, além de por especialistas com um conhecimento semelhante ao seu, também pelo grande público. Ele deve estar ciente e ter uma reação ativa e crítica na máxima medida do possível. Nisso consiste, de fato, grande parte disso que chamamos “responsabilidade intelectual”.

    É uma limitação chata, não há dúvida: considerar a estupidez e a perversidade da maioria forçará o pesquisador a descer das altas esferas da cultura, para dedicar-se a cuidar da forma do discurso. A forma do discurso, que deveria ser uma coisa supérflua, secundária, deve ser tão trabalhada quanto o conteúdo. Mas de novo: principalmente após Auschwitz, não parece haver melhor alternativa.

  4. Acredito que Popper está certo ao analisar Platão e identificá-lo como um engenheiro social utópico e, mais ainda, ao ler a República como uma obra que convida ao totalitarismo.
    É arriscado, porém, colocar Platão lado a lado com algumas ideologias totalitárias do século XX como o nazismo. Contudo, e embora esse nome não existisse na época de Platão, parece que Popper considera Platão de fato como um “nazista”.
    Nesse sentido, acredito sim que Platão pode ser interpretado como um tanto totalitário, mas é necessário considerar que a realidade de seu tempo contribuíra para a formação das suas posições políticas. Também vejo, no entanto, que o modo em que os totalitaristas do século XX leram Platão é uma questão que pode e deve ser analisada.

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