Jerome Friedman, Prêmio Nobel em Física, discute a peça Copenhagen

Copenhagen, premiada peça do inglês Michael Frayn, conta a história do misterioso encontro entre os físicos Niels Bohr e Werner Heisenberg, ocorrido em 1941. Baseada em fatos reais, Frayn usa a ficção para criar diferentes cenários de como teria sido a visita de Heisenberg a Bohr, em Copenhagen. Antes parceiros, os então ícones da física atômica estavam agora em lados opostos durante a segunda guerra mundial e eram líderes de um domínio da ciência que poderia criar a arma mais perigosa da humanidade. Bohr colaborou com os Estados Unidos no projeto Manhattan e Heisenberg permaneceu na Alemanha tentando desenvolver sua própria bomba. Ainda hoje se discute o quê exatamente Heisenberg teria dito a Bohr, e qual teria sido o verdadeiro motivo da sua viagem à Dinamarca. 

Jerome I. Friedman, no MIT, discutindo Copenhagen (02/abril/2010)

Participei de uma discussão sobre Copenhagen, na última sexta-feira, que contou com a presença de Jerome I. Friedman, professor emérito do MIT e ganhador, juntamente com Henry W. Kendall e Richard E. Taylor, do Prêmio Nobel de Física em 1990. A discussão é parte de uma disciplina sobre liderança que se baseia na leitura de clássicos, oferecida aos alunos da escola de negócios do MIT (Sloan School of Management).

Friedman contou que encontrou Heisenberg duas vezes. A primeira foi em 1951, ainda quando estudante. “Heisenberg era considerado persona non grata”, disse. Já no segundo encontro, em 1970, a relação do físico alemão – pai da física quântica – com a sociedade científica norte-americana havia sido restabelecida, e o reconhecimento de que Heisenberg era um dos mais importantes físicos do século 20 dominava.

Segundo Friedman, Heisenberg não era nazista e sim nacionalista. Abalado com o sofrimento dos alemães após a primeira guerra mundial, ele preferiu ficar em seu país à época da segunda guerra, enquanto muitos físicos deixaram o país. “Ele não queria ver a Alemanha perder”. Para Friedman, embora os físicos alemães tivessem o conhecimento científico necessário para o desenvolvimento da bomba, a industrialização do processo não era apropriada. O reator construído por Heisenberg tinha um design ruim. Além disso, ao contrário dos cientistas envolvidos no Projeto Manhattan, os pesquisadores alemães não se comunicavam e trabalhavam isoladamente, o que para ele foi um dos principais motivos da Alemanha ter perdido a corrida pela bomba. Friedman destacou também que os físicos envolvidos no Projeto Manhattan, para ele, eram pessoas decentes e ao mesmo tempo receosos de que a Alemanha desenvolvesse a bomba e dominasse o mundo: “imagine o mundo tomado por Hitler”, disse.

Pelos comentários da plateia, deu para perceber que essa é a noção ensinada na escola aos norte-americanos: salvamos o mundo de Hitler. Por outro lado, segundo depoimento de uma das alunas, a costa oeste dos Estados Unidos e as ilhas do pacífico carregam um maior sentimento de culpa pela explosão das bombas atômicas, possivelmente pela proximidade com o Japão. Um dos alunos, que morou em Hiroshima por cinco anos, contou que o que se diz por lá é que as bombas faziam parte de experimentos, uma vez que três dias após as explosões, os norte-americanos voltaram ao local para fazer medidas.

A discussão em seguida foi sobre a conduta ética de cientistas trabalhando em áreas que possam vir a trazer algum risco para a sociedade. Friedman foi taxativo: “O objetivo da ciência é entender a natureza, e não há nada de errado ou mau nisso. Os cientistas, ao tentar entender a natureza, não têm ideia do que vão encontrar. Nunca sabemos, e por isso não podemos colocar restrições”, disse. Para ele, os cientistas têm sim a responsabilidade de alertar políticos e outros setores da sociedade sobre resultados de suas pesquisas que tenham impacto importante, como o que está acontecendo agora com o aquecimento global. 

Entendo quando Friedman fala em não criar restrições às pesquisas, principalmente depois de ouvir sua explicação sobre o fascínio que a física desperta nele. Ao falar sobre a dualidade do elétron, que ora se comporta como onda, e ora como partícula, mas nunca os dois simultaneamente, o físico lembrou que sempre que tentamos observar o elétron, ele se transforma em partícula. O fato de não conseguirmos medir exatamente onde um objeto está em um determinado momento, é fascinante. “Ficamos loucos por não conseguirmos entender“, disse. É o princípio da incerteza de Heisenberg. Aliás, Frayn me deu de presente a melhor explicação até hoje sobre o tópico. Em um dos diálogos de sua peça, Heisenberg pede que Margrethe, esposa de Bohr, fique parada representado o núcleo. A cidade de Copenhagen representa o átomo (proporção correta). Bohr, como elétron, fica caminhando ao redor do núcleo. Quando Heisenberg, o fóton, tenta observar o elétron com uma lanterna, o elétron diminui sua velocidade e pára. Não podemos observar nada sem introduzir um novo elemento à situação: o observador influenciando a observação. Com todo esse fascínio, claro que a vontade é de não parar as pesquisas. Mas penso que nem todos os cientistas são tão ingênuos/imaculados assim.

O assunto é sensível e interminável. Mesmo correndo o risco de tocar em temas já muito comentados, não queria deixar de compartilhar a experiência de ouvir a opinião de um renomado físico que despertou em mim a vontade de entender mais sobre a matéria, literalmente. Fiz um julgamento moral, na última frase do parágrafo anterior, exatamente o que Michael Frayn disse que não quis fazer com sua peça. “Antes de fazermos qualquer julgamento moral precisamos saber os reais motivos, eventos, mistérios que levaram a tomada de determinado caminho”, disse Frayn na apresentação do filme baseado na peça, produzido pela BBC. Fazendo um paralelo com o princípio da incerteza de Heisenberg, “não conseguimos ter conhecimento absoluto sobre as intenções de ninguém”. E é possível também que nem o próprio Heisenberg soubesse o motivo de sua visita a Bohr.

Ao final da manhã, em agradecimento por sua participação na discussão, Friedman ganhou do professor da disciplina o mais novo livro de Ian McEwan, Solar.

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