De ‘Caminhando com Dinossauros’ até ‘Prehistoric Planet’

por Juan Vitor Ruiz

Com a nova série da Apple TV+ chegando, que tal voltar no tempo e percorrer os caminhos traçados até a nova produção?

Foi numa noite de outono em 1999 que espectadores britânicos do canal BBC One tiveram uma experiência que, até então, era o mais próximo possível de entrar numa máquina do tempo. Uma paisagem rural tipicamente inglesa se transformava conforme o narrador descrevia uma viagem ao passado, para então, subitamente, presenciarmos uma disputa entre dois tiranossauros em carne e osso. Seis anos antes, Jurassic Park já havia apresentado os dinossauros mais palpáveis e realistas que o mundo já vira, mas dessa vez era diferente. O que estava sendo exibido na TV não era um filme hollywoodiano, uma obra claramente fictícia: era um documentário de natureza como qualquer outro, mas ambientado há centenas de milhões de anos.

O documentário em questão, a minissérie em 6 episódios Caminhando com Dinossauros (Walking with Dinosaurs), foi mais uma joia na coroa da BBC, que possui até hoje a fama de produzir o que há de melhor no gênero de documentários de história natural. Os avanços tecnológicos nos anos 1990 permitiram inserir as criaturas mesozóicas digitais (e alguns closes de bonecões animatrônicos bem trabalhados) em tomadas de paisagens naturais sem soar artificial ou exagerado.

A cabeçona animatrônica de um Utahraptor. Se envelheceu melhor ou pior que os dinos de CGI, é um ponto a ser discutido

Some isso a um roteiro elaborado, uma trilha sonora que remete a filmes de terror clássicos da Hammer, as locações absurdamente sensacionais (incluindo campos de basalto no Chile, florestas pluviais na Tasmânia e montanhas na Nova Zelândia) e uma narração dramática feita pelo shakespeariano Kenneth Branagh, e temos um épico que bateu recordes de audiência, levou 3 Emmys (incluindo o de melhores efeitos visuais) e, mais importante, estabeleceu um novo gênero. Sim, os efeitos visuais podem ter envelhecido mal aos nossos olhos treinados de 2022, mas uma coisa é certa: Caminhando com Dinossauros mostrou que é possível assumir computação gráfica como real, aliar ficção à nãoficção e trazer dinossauros não-avianos e outros seres pré-históricos para a TV de forma completamente crível.

Uma das locações mais impressionantes de toda a série são os recifes e florestas de coníferas da Nova Caledônia vistos no episódio 3, A Cruel Sea

Mais de 20 anos depois, porém, o alto nível de Caminhando com Dinossauros não foi batido por nenhum outro documentário. O criador da série, Tim Haines, seguiu produzindo documentários derivados que, mesmo com certo apreço da crítica e público, acabaram tornando-se reféns da própria genialidade do original, repetindo a mesma fórmula, mas sem aquele gás de inovação. Fora do nicho da BBC, foram produzidas um monte de cópias descaradas (um monte mesmo), algumas até com o seu valor de entretenimento, mas a maioria descartável (do ponto de vista de científico/paleontológico, claro), meras paródias sem muito valor criativo e científico.

O tiranossauro tipicamente estressadinho de Dinosaur Revolution (2011): apenas mais uma tentativa de criar um mundo mesozoico através de CGI (uma das piores, em minha opinião)

Talvez Planet Dinosaur (2011), também da BBC, tenha sido a última reencenação mesozoica de calibre, ainda que bem limitada dentro de suas próprias premissas. Diferentemente de Caminhando com Dinossauros, essa série foi inteiramente reconstruída através de computação gráfica. Sendo uma animação completa, e aliada ao seu estilo de fotografia frenético e trilha sonora com pegada eletrônica, Planet Dinosaurs parece mais um videogame do que um documentário. Nada daquela atmosfera palpável e sombria que havíamos visto 12 anos antes.

Planet Dinosaur possui bastante embasamento científico e uma diversidade notável de dinossauros, mas o climão de game não tornou essa série tão memorável
De 2015 pra cá, porém, tivemos mudanças, e os documentários de natureza estão vivendo uma nova era de ouro, impulsionados pelos avanças tecnológicos, pelos serviços de streaming e, claro, pelas redes sociais. E, de novo, a BBC está no centro de tudo: a famosa e viral sequência a la Mad Max de um bebê iguana sendo perseguido por dezenas de cobras é de um de seus documentários, Planet Earth II (2016). Um ano depois, Blue Planet II (2017) se tornou o programa mais assistido na Grã Bretanha (mais do que o reality The X Factor, acreditem) e foi tão assistido na China que bugou a internet por lá. Narrativas mais elaboradas e uma grande ênfase na fotografia e trilha sonora estão tornando os documentários cada vez mais cinematográficos, atraindo um público crescente que não mede esforços em compartilhar os melhores momentos nas redes. Nessa toada, uma hora ou outra alguém ia trazer um novo documentário sobre dinossauros.
É aqui que pediram um Deinocheirus?

Eis que, nas últimas semanas, a Apple TV+ nos presenteou com o teaser, sneak peek, trailer, sinopse e data de estreia do que está prometendo ser a maior produção do tipo desde Caminhando com Dinossauros (finalmente!)

WTF?! Especulações são parte importante de qualquer reconstrução paleoartística, desde que muito bem embasadas no que já sabemos. O time de paleontólogos consultores, incluindo o tetrapodólogo Darren Naish (ele mesmo historicamente bem crítico e criterioso), garante que nada muito viajado apareça no produto final. Inclusive, muito do livro All Yesterdays parece estar na série, incluindo o display de bracinhos dos abelissaurídeos.

Anunciada há cerca de 3 anos, Prehistoric Planet traz um time que vai fazer qualquer dinonerd se arrepiar: David Attenborough na narração (segundo uma fonte, ele foi convidado para narrar Caminhando com Dinossauros mas negou, alegando que seria um falso-documentário, hmm…), Hans Zimmer assinando a trilha sonora, Mike Gunton (Life, Planet Earth II, The Green Planet) como co-produtor executivo e, o que acho mais interessante, o absurdamente prolífico Jon Favreau também assumindo a produção executiva. Não é coincidência, então, que os efeitos visuais (lindos, pelo que já foi exibido) foram realizados pela Moving Picture Company, responsável pelo visual dos recentes Mogli e O Rei Leão, ambos dirigidos por Favreau.

O homem que quis fazer um pouco de tudo.

Além disso, nada foi muito divulgado a respeito dos episódios em si, mas tenho alguns palpites. A série, que se passa durante o Cretáceo, segue a fórmula comum dessas grandes produções com o título “Alguma Coisa Planet”, com (provavelmente) cada um dos cinco episódios focando num ecossistema (litorais, desertos, água doce, florestas e “mundos congelados” são indicados no site da Apple TV+ e, agora, no novo trailer). Será uma oportunidade interessante de ver os bichões interagindo não apenas entre si, mas com o meio, trazendo uma perspectiva mais ecológica (e que não é muito retratada nesses documentários).

Um Qianzhousaurus (?) chinês é mais um indicativo de que, contrário à maioria das produções do tipo, a série vai viajar ao redor do mundo ao invés de se centrar unicamente na América do Norte.

Mas, talvez o mais importante, é que Prehistoric Planet está sendo lançado num momento perfeito para atualizar nossa visão dos dinossauros. Desde Caminhando com Dinossauros, na virada do milênio, foram tantas descobertas e reinterpretações publicadas em artigos científicos, debatidas por pesquisadores e trazidas à vida por paleoartistas (e me refiro à paleofauna em geral) que soa meio estranho que dinossauros e afins permaneçam sendo representados pela maioria dos veículos de mídia mais de acordo com nossa visão noventista do que com o que sabemos hoje.

Um documentário com o escopo e alcance de Prehistoric Planet poderá realmente surtir mudanças em como esses animais são representados mundo afora a partir de então. Digo, tivemos que esperar até 2022 para vermos um tiranossauro emplumado numa grande produção!

Como uma visão pessoal, não espero que essa nova série supere Caminhando…, um divisor de águas que possui um enorme valor sentimental para mim e, suspeito, milhares de outras pessoas mundo afora. Mas Prehistoric Planet chegou, e estamos diante da oportunidade de repaginar e atualizar a tão clássica Caminhando com Dinossauros, com grande potencial de que, no futuro, Prehistoric Planet seja vista com o mesmo ar de admiração e soberania.

Aqui está um react recente que o Tito publicou no canal dos Colecionadores de Ossos:

Mais indicações de leitura e vídeo:

Sobre o(a) autor(a):

Juan Vitor Ruiz
Laboratório de Paleontologia e Evolução de Ilha Solteira, FEIS-UNESP

É biólogo pela UNESP de Ilha Solteira, Mestre em Biologia Animal e doutorando em Biodiversidade pela UNESP de São José do Rio Preto. Sommelier de documentários em tempo livre, realiza sua pesquisa com sistemática e evolução de Notosuchia e Carnivora.

3 comentários em “De ‘Caminhando com Dinossauros’ até ‘Prehistoric Planet’”

  1. É incrível a capacidade de Caminhando com Dinossauros tem de marcar toda uma geração. Eu tinha apenas uns 5 anos, quando começou nem sabia o título mas por se tratar de dinossauros já fiquei animado. Depois que assisti… meu fascínio por animais pré-históricos cresceu de maneira avassaladora, como o artigo disse, graças a WWD eu pude ter uma perspectiva dos dinossauros como animais reais, agindo como animais reais, e isso JP não me deu. Desde então, sempre que imaginava dinos e outros animais pré-históricos, imaginava os de WWD.

    Muitos anos se passaram e novas descobertas foram ocorrendo… ficava triste que nenhum documentário chegava próximo do WWD em representar um tanto mais de fidelidade. Dinosaur Planet era minha esperança mas…

    Pois bem, só que agora Pré-Historic Planet tem tudo para dar certo! É O MEU CONTEÚDO MIDIÁTICO DOS SONHOS! Um documentários estilo WWD com os dinos atualizados, mal posso esperar!

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