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Cara de Mamífero

Texto por Pedro H. Morais e Maurício Rodrigo Schmitt

Voc√™ j√° se perguntou ‚Äúcomo era a cara dos nossos ancestrais, antes deles serem o que somos‚ÄĚ? Por exemplo, que cara teria o primeiro homin√≠deo? Ou o primeiro primata?

Essa pergunta habita o nosso imaginário, principalmente quando diz respeito aos nosso ancestrais e, na maioria das vezes, quem pode nos ajudar a obter essas respostas são os pesquisadores que trabalham com o passado, como os paleontólogos.

Onde sua imagina√ß√£o te levaria se eu te perguntasse: que cara tinha o primeiro mam√≠fero? Muitos talvez tenham pensado nos grandes mam√≠feros do passado, como os mastodontes (como Stegomastodon waringi), ou os poderosos tigres-dentes-de-sabre (como Smilodon), ou ainda nas pregui√ßas enormes (como Eremotherium laurillardi) e tatus gigantes (como Glyptodon clavipes). Por√©m, sinto lhe informar, que voc√™ viajou pouco no tempo. 

Uma pregui√ßa gigante (Scelidodon sp.) e um tatu gigante (Doedicurus sp.), ambos encontrados na Am√©rica do Sul em rochas datadas do Pleistoceno, entre 2,5 milh√Ķes e 11,7 mil anos atr√°s. Artes de Jorge Blanco (Forasiepi, Martinelli, 2007).

Quando pensamos em um mam√≠fero, o grande grupo de animais ao qual n√≥s, os seres humanos, pertencemos, fica dif√≠cil escolher um modelo que represente o todo. Vemos hoje em dia, a enorme diversidade do grupo, que foi capaz de ocupar praticamente todos os ambientes do nosso planeta, das savanas quentes do Brasil e da √Āfrica, √†s geleiras mais frias do p√≥lo-norte, das montanhas mais altas do Himalaia, √†s profundezas do oceano, dos c√©us, ao interior de cavernas e do solo. Em todos esses ambientes voc√™ encontra um exemplo diferente de mam√≠fero. Este grupo de animais se diversificou de tal forma e foi t√£o moldado pelos ambientes que colonizaram, que √© dif√≠cil considerar que um elefante, um morcego e um golfinho perten√ßam ao mesmo grupo e sejam parentes. Talvez, isso se deva ao fato de que a diversidade de formas dos mam√≠feros hoje √© maior em rela√ß√£o aos outros grupos de tetr√°podes viventes. Pense nas aves ou nos lagartos ou nos crocodilos, que apresentam, na atualidade, uma variedade bem menor de formas e tamanhos do que os mam√≠feros (no passado n√£o foi assim, mas esta √© outra hist√≥ria). Pensando em tudo isso, qual animal voc√™ escolheria para representar os mam√≠feros? Que mam√≠fero vivo hoje voc√™ diria que se assemelha mais ao ancestral de todos os mam√≠feros, ao primeiro mam√≠fero?

Temos certeza que sua imagina√ß√£o te deu v√°rias op√ß√Ķes, mas, sem querer te decepcionar, a cara do primeiro mam√≠fero seria mais parecida com a de um musaranho ou de uma cu√≠ca (n√£o, n√£o estamos falando do instrumento! Estamos falando do marsupial… Colocamos uma foto abaixo pra ajudar). 

Filhote de cuíca (Didelphimorphia) РFoto dos autores.

O primeiro mamífero era um bicho pequeno, mais ou menos do tamanho de um pequeno gambá, correndo por entre as folhagens de uma floresta, durante uma noite quente do Jurássico (sim, a história dos mamíferos começa no Jurássico).

Atualmente, por consenso, o t√°xon apontado como o ‘primeiro mam√≠fero’ √© Morganucodon, um organismo f√≥ssil encontrado nos EUA, Europa e China. Queremos chamar a aten√ß√£o aqui para a express√£o ‚Äúatualmente apontado‚ÄĚ, porque estes consensos taxon√īmicos podem mudar a luz de novos estudos, f√≥sseis e evid√™ncias.

Reconstrução artísitica de Morganucodon. Seus fósseis são encontrados principalmente em Wales (Reino Unido) e na China, além de outras partes da Europa e América do Norte, em afloramentos Jurássicos. Imagem de FunkMonk (Michael B. H.).

O grupo chamado de ‘Mammalia’ (ou ‚Äúmam√≠feros‚ÄĚ, em bom portugu√™s), √© definido por um conjunto de caracter√≠sticas morfol√≥gicas compartilhadas por todos os seus membros. Colocando de forma mais simples: pra voc√™ ser um mam√≠fero, voc√™ tem que ter, ou ter tido, um conjunto de caracter√≠sticas f√≠sicas apontadas como ‚Äúcoisa de mam√≠feros‚ÄĚ. Mas tem um problema aqui. V√°rios organismos f√≥sseis, muito pr√≥ximos dos mam√≠feros j√° tinham algumas dessas “caracter√≠sticas t√≠picas de mam√≠feros”. Isso √© um pesadelo para muitos pesquisadores, que acabam por discutir e rediscutir defini√ß√Ķes…

A defini√ß√£o mais atual e com maior consenso, √© a defini√ß√£o filogen√©tica de mam√≠fero, que englobaria Morganucodon e todas as esp√©cies viventes de mam√≠feros (placent√°rios, marsupiais e monotremados). Nessa defini√ß√£o, varias esp√©cies de mam√≠feros extintos, que viveram durante a era Mesozoica, est√£o inclusas no grupo. Basicamente, isso significa que todos os animais que s√£o agrupados numa √°rvore filogen√©tica entre Morganucodon e os mam√≠feros atuais, s√£o considerados mam√≠feros (calma, calma, a gente coloca uma figura, s√≥ olhar a√≠ embaixo). Mas, essa defini√ß√£o tamb√©m √© bastante discutida, principalmente porque Morganucodon foi “eleito” como o primeiro mam√≠fero, ou seja, essa √© uma escolha arbitr√°ria. Essa problem√°tica de “eleger um primeiro” n√£o √© exclusiva dos mam√≠feros, esse √© um conflito constante nos estudos sistem√°ticos e evolutivos, j√° que as formas biol√≥gicas formam um cont√≠nuo, quem tenta classific√°-las em grupos artificiais somos n√≥s.

No fim, cada novo achado acrescenta uma nova pe√ßa a esse quebra cabe√ßa da evolu√ß√£o e as defini√ß√Ķes se atualizam com o tempo.

Filogenia simplificada dos cinodontes. Aqui estão apenas algumas poucas espécies da grande diversidade de cinodontes. Note que o grupo que Morganucodon é considerado o início do grupo dos mamíferos, portanto, todos que vierem depois deste grupo na árvore filogenética são considerados mamíferos. E um destaque para Brasilitherium, um fóssil brasileiro que é hoje tido como o fóssil mais relacionado ao grupo dos mamíferos. Modificado de Lautenschlager et al. 2016.

Quais s√£o caracter√≠sticas presentes hoje nos mam√≠feros que definem o grupo como tal? Certamente voc√™ j√° ouviu que s√£o as gl√Ęndulas mam√°rias, os tr√™s oss√≠culos do ouvido, entre outras. Mas para saber mais sobre elas, precisamos voltar no tempo. Mais precisamente, at√© os per√≠odos Permiano e Tri√°ssico (entre cerca de 298 a 201 milh√Ķes de anos atr√°s), quando tais “caracter√≠sticas de mam√≠fero” come√ßam a ser observadas, gradualmente, em formas mais basais de animais aparentados dos mam√≠feros.

Durante a transi√ß√£o entre o Permiano e o Tri√°ssico, a Terra passou pelo seu maior evento de extin√ß√£o, conhecido como a Extin√ß√£o Permo-Tri√°ssica. Este evento foi bem maior do que a famosa extin√ß√£o que dizimou os dinossauros. Essa tal Extin√ß√£o Permo-Tri√°ssica foi t√£o grande, que causou um ‚Äúreset‚ÄĚ na fauna e na flora do planeta. Durante o final do Permiano (cerca de 255 milh√Ķes de anos atr√°s), os primeiros f√≥sseis de criaturas conhecidas como cinodontes s√£o registrados. Por√©m, √© durante o Tri√°ssico que esses animais come√ßam a brilhar no cen√°rio biol√≥gico. Infelizmente, todos os holofotes acabam por se voltar para os dinossauros no final deste per√≠odo, mas, o mundo d√° voltas, como voc√™s ver√£o.

Os cinodontes apresentavam uma grande diversidade de formas e tamanhos durante o Tri√°ssico e alguns j√° apresentavam algumas das tais “caracter√≠sticas mamalianas”. O curioso √© que essas caracter√≠sticas n√£o estavam presentes somente na linhagem que deu origem aos mam√≠feros. Alguns grupos de cinodontes completamente extintos, de uma linhagem paralela a nossa (mammaliana), tamb√©m apresentavam algumas dessas caracter√≠sticas, que hoje, s√£o consideradas como ‚Äúcoisa de mam√≠fero‚ÄĚ. Essa √© a raz√£o pela qual o debate sobre a origem dos mam√≠feros est√° sempre se modificando atualmente… Uma vez que v√°rios grupos paralelos apresentam caracter√≠sticas mamalianas, √© dif√≠cil associar com seguran√ßa, que determinado grupo de cinodontes deu origem aos mam√≠feros ou n√£o. 

Voltando para o assunto “que cara teria o primeiro mam√≠fero?”, voc√™ deve estar se perguntando agora ‚Äúque cara teriam os cinodontes?‚ÄĚ. Se voc√™ pensou no musaranho ali em cima… voc√™ n√£o est√° de todo errado, por√©m se voc√™ prestou aten√ß√£o neste texto, voc√™ j√° sacou que eles t√™m uma grande diversidade de formas, e pasmem, em termos f√≥sseis, o Brasil √© um dos pa√≠ses que apresentam a maior diversidade de cinodontes do mundo! Todos eles provenientes do Rio Grande do Sul, o local que apresenta as forma√ß√Ķes de idade tri√°ssica mais fossil√≠feras do pa√≠s. O Brasil trouxe ao mundo, por exemplo, os Brasilodontideos, o atual grupo apontado como o clado de origem dos mam√≠feros. 

A Diversidade de Cinodontes Brasileiros

Antes de tudo, a gente precisa entender como s√£o separados os cinodontes. Basicamente, existem dois grandes grupos dentro do grande grupo Cynodontia, os Cynognathia e os Probainognathia. Calma, a gente vai explicar um pouquinho de cada grupo abaixo: 

Cynognathia inclui organismos completamente extintos. Eles eram em sua maioria herb√≠voros/on√≠voros, com exce√ß√£o de apenas uma esp√©cie, que era carn√≠vora. Eram bichos relativamente grandes, variando do tamanho de um cachorro pequeno at√© o maior de todos, que podia ter mais de 2 metros de comprimento e pesar cerca de 200kg. Neste grupo existem organismos que j√° apresentavam algumas caracter√≠sticas que podem ser interpretadas como ‚Äúcoisa de mam√≠fero‚ÄĚ, por exemplo, uma das principais caracter√≠sticas do grupo (e que pode ser compar√°vel a mam√≠feros), √© a enorme complexidade dos dentes p√≥s-caninos. Os mam√≠feros possuem um padr√£o dent√°rio altamente especializado, chamado de tribosf√™nico. Os Cynognathia, embora n√£o tivessem padr√£o tribosf√™nico, possu√≠am especializa√ß√Ķes dent√°ria at√© ent√£o n√£o encontradas em outros grupos de Synapsidas. Al√©m da grande especializa√ß√£o dos dentes, recentemente foi encontrado em um cinodonte Cynognathia, chamado de Menadon, com um padr√£o de dente hipsodonte, de crescimento cont√≠nuo, tipo os encontrado hoje em mam√≠feros como o cavalo e roedores (se voc√™ n√£o sabia disso, aqui vai mais uma curiosidade, o dente do seu ratinho cresce pra sempre…por isso ele est√° sempre roendo algo. N√£o s√≥ ele, como v√°rios outros animais). Essa ocorr√™ncia de dente hipsodonte no Menadon √© √ļnica, e este √© o √ļnico g√™nero al√©m dos mam√≠feros com esse padr√£o de dente. O mais interessante, √© que o grupo de Menadon foi completamente extinto, ent√£o a caracter√≠stica que era tida como exclusiva de mam√≠feros, j√° tinha aparecido na hist√≥ria dos cinodontes muito tempo antes! Infelizmente, toda a linhagem de Cynognathia foi extinta, ent√£o nunca teremos a oportunidade de ver um vivo e verificar como eles realmente seriam. 

Cynognathia, os f√≥sseis desse grupo s√£o muito abundantes na Argentina, como o Massetognathus pascuali, e no Brasil, onde encontramos v√°rias esp√©cies em abund√Ęncia, como Menadon e Santacruzodon. Abaixo a reconstru√ß√£o de duas esp√©cies de Cynognathia em um t√≠pico ambiente do Tri√°ssico, com destaque pra apar√™ncia que j√° lembraria muito a de um mam√≠fero atual. Imagens: Massetognathus (foto do autor) Menadon (Melo et al. 2019) e a reconstru√ß√£o art√≠stica por Voltaire D. P. Neto.

O segundo grupo, Probainognathia, abrange uma variedade de formas gigantesca, j√° que Mammalia est√° inclusa neste grupo. Mas, levando apenas os f√≥sseis em considera√ß√£o, o grupo apresentava mesmo assim uma diversidade de tamanho e de h√°bitos enorme, variando de um bicho com o tamanho de um cachorro grande (como o Aleodon, que podia ter mais de 1,5 metros), at√© os Brasilodont√≠deos (que tinham o tamanho de um pequeno gamb√°, com cerca de 15cm). Os animais desse grupo s√£o, em sua maioria, classificados como inset√≠voros ou seja, eles comiam insetos, por√©m, alguns pesquisadores apontam que eles poderiam ser oportunistas (on√≠voros, assim como os gamb√°s atualmente), com alguns exclusivamente carn√≠voros, como o Trucidocynodon. Neste grupo est√£o inclu√≠dos os Brasilodontidae, atualmente tido como grupo irm√£o de mam√≠feros, mas que pode ter sido o grupo de cinodontes que deu origem a n√≥s, os mam√≠feros. 

Probainognathia. Artes de Jorge Blanco (Martinelli et al. 2016; Guignard et al. 2019).

A parte mais fant√°stica disso tudo, √© que muitos desses bichos faziam parte da fauna tri√°ssica do Brasil. Eles est√£o entre os achados f√≥sseis do Rio Grande do Sul, onde √© encontrada a maior diversidade de Cynognathia do mundo, al√©m de alguns dos registros mais importantes de Probainognathia, como os j√° mencionados Brasilodontideos. Talvez, devido ao pequeno tamanho, os cinodontes acabem por perder espa√ßo para os grandes dinossauros na m√≠dia e tamb√©m no imagin√°rio das pessoas… Apesar disso, imaginar um “pequeno musaranho”, correndo de um dinossauro, numa noite quente do Tri√°ssico, est√° carregado de informa√ß√Ķes sobre como n√≥s, os mam√≠feros, conseguimos nos tornar o que somos hoje. Enfim, agora voc√™ sabe como era “a cara dos primeiros mam√≠feros” e tamb√©m como os f√≥sseis do Brasil s√£o importantes para contar essa hist√≥ria.

Referências

Forasiepi A, Martinelli A. Bestiario fósil: mamíferos del pleistoceno de la Argentina. Albatros; 2007.

Guignard ML, Martinelli AG, Soares MB. The postcranial anatomy of Brasilodon quadrangularis and the acquisition of mammaliaform traits among non-mammaliaform cynodonts. PloS one. 2019 May 10;14(5):e0216672.

Lautenschlager S, Gill PG, Luo ZX, Fagan MJ, Rayfield EJ. The role of miniaturization in the evolution of the mammalian jaw and middle ear. Nature. 2018 Sep;561(7724):533-7.

Martinelli AG, Soares MB, Schwanke C. Two new cynodonts (Therapsida) from the Middle-Early Late Triassic of Brazil and comments on South American probainognathians. PloS one. 2016 Oct 5;11(10):e0162945.

Melo TP, Ribeiro AM, Martinelli AG, Soares MB. Early evidence of molariform hypsodonty in a Triassic stem-mammal. Nature communications. 2019 Jun 28;10(1):1-8.

Uma fauna muito, muito grande, que chamamos de Mega

Texto por Thaís Pansani

Quando se fala de Paleontologia, muitos associam na sua imagina√ß√£o automaticamente os dinossauros ‚Äď n√£o os culpo, pois muitas das ind√ļstrias (especialmente a cinematogr√°fica) apostam, tradicionalmente, na imagem do T. Rex e dos pesco√ßudos pra vender seus produtos e conquistar o p√ļblico. Quantas hist√≥rias contadas voc√™s j√° ouviram sobre dinos na televis√£o? Quantos desenhos com alguns mais coloridos, outros mais assustadores, nos cinemas? Quantas camisetas, canecas e at√© mesmo bichinhos de pel√ļcia? At√© o nome estegossauro √© familiar. Agora, tente se lembrar de quantos filmes sobre pregui√ßas-gigantes voc√™ j√° viu no cinema? Essa √© mais f√°cil, porque temos o ‚ÄúEra do Gelo‚ÄĚ (pra alegria dos pesquisadores). Mas e se eu te perguntar quantas pessoas na rua voc√™ j√° viu com uma camiseta de tigre-dentes-de-sabre ou quantos bichinhos de pel√ļcias de gliptodontes (um tipo de tatu gigante com armadura) voc√™ j√° viu? Aposto que n√£o vai ser t√£o f√°cil agora. E se eu disser que o nome toxodonte n√£o √© t√£o familiar assim (voc√™ provavelmente nunca ouviu falar nele, n√£o √© mesmo?). Acontece que h√° uma hist√≥ria cheia de animais incr√≠veis que existiram (e infelizmente hoje n√£o existem mais), que vai muito al√©m dos dinossauros. Nossos queridos dinos, t√£o popularmente conhecidos, viveram apenas uma fra√ß√£ozinha de tempo no nosso registro geol√≥gico da Terra, ocupando a Era Mesoz√≥ica, apenas. Eles viveram durante os per√≠odos Tri√°ssico, Jur√°ssico (esse √© famoso!) e Cret√°ceo, entre aproximadamente 230 e 66 milh√Ķes de anos atr√°s. Antes e depois desse per√≠odo de tempo, temos outras eras, divididas entre muitos outros per√≠odos, os quais tinham as mais diversas esp√©cies e em que ocorreram os mais diversos eventos ecol√≥gicos, geogr√°ficos, geol√≥gicos e ambientais. Sinto que o que falta na Ci√™ncia, s√£o mais pesquisadores com desejo de difundir informa√ß√Ķes sobre as esp√©cies que estudam para o p√ļblico geral. Quem sabe assim, quando se falasse de Paleontologia, aqueles (ainda uma por√ß√£o pequena) que conhecem essa ci√™ncia passariam a ter uma vis√£o mais ampla sobre diversidade e evolu√ß√£o da vida ao longo do tempo geol√≥gico. N√£o desmerecendo a import√Ęncia dos dinos ‚Äď nem paleontol√≥gica nem na divulga√ß√£o cient√≠fica ‚Äď , mas quero falar aqui de uma outra fauna. Com alguns animais t√£o grandes e impressionantes quanto os dinossauros e, o mais fascinante, t√£o recentes, que alguns co-existiram com as primeiras popula√ß√Ķes humanas.

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Na Era Cenozoica (era atual em que vivemos), a linhagem dos mam√≠feros se diversificou. Muito do seu sucesso evolutivo se deu devido √† extin√ß√£o dos dinossauros, no final do per√≠odo Cret√°ceo (per√≠odo que encerra a era anterior, a Mesozoica). Os animais que vamos tratar aqui, s√£o especificamente do per√≠odo Quatern√°rio, a √ļltima subdivis√£o da Era Cenoz√≥ica, que se estende at√© a atualidade. Por√©m, essa fauna incr√≠vel, que voc√™s est√£o para conhecer, apenas permaneceu viva at√© o final do Pleistoceno (cerca de 11 mil anos atr√°s), extinta por alguns¬†fatores que vamos apresentar no desenrolar dessa hist√≥ria.

Considera-se megafauna todo conjunto de grandes animais. E quando digo grande, são grandes mesmo! Animais com mais de 50 kg, 100 kg, alguns com mais de 1000 kg. Ao longo da Era Cenozóica, uma distinta megafauna de mamíferos evoluiu independentemente em vários cantos do planeta, ocupando os espaços ecológicos deixados vagos pelos dinossauros. São centenas de organismos fascinantes, mas dessa vez, eu vou apresentar um pouco sobre a  fantástica megafauna sul-americana:

1-smithsoniansA Am√©rica do Sul permaneceu muito tempo isolada ao longo da Era Cenozoica, e isso permitiu com que animais muito estranhos e √ļnicos evolu√≠ssem por aqui nesse intervalo de tempo. A megafauna end√™mica de mam√≠feros da America do Sul √© muito espec√≠fica e alguns dos seus principais representantes foram as pregui√ßas-gigantes, os litopternos, os gliptodontes e os pampater√≠deos (vamos conhecer mais sobre eles j√° j√°). Assim que o √ćstimo do Panam√° foi formado, houve um interc√Ęmbio de animais entre Am√©rica do Norte e do Sul, evento conhecido como ‚ÄúO Grande Interc√Ęmbio Bi√≥tico Americano‚ÄĚ ou GIBA, para os √≠ntimos. Durante o GIBA, alguns animais t√≠picos da megafauna de mam√≠feros end√™mica norte-americana como os tigres-dente-de-sabre, os ursos, os cavalos e os poderosos probosc√≠deos vieram parar por aqui. Assim como alguns dos nossos megamam√≠feros migraram para l√°. Terminou, que no Pleistoceno estavam todos juntos… e algumas esp√©cies se perderam nesse contexto, mas isso √© hist√≥ria para outra postagem. Vamos nos ater √† megafauna end√™mica da Am√©rica do Sul:

As maiores esp√©cies de pregui√ßa-gigante que existiram na Am√©rica do Sul podiam chegar a ter 6 metros de comprimento e alcan√ßar at√© 4 metros de altura, quando sobre duas patas. Elas tinham garras enormes que, entre outras coisas, ajudavam na sua prote√ß√£o. Al√©m disso, apresentavam uma pelagem espessa com pequenos oss√≠culos embebidos na pele, formando uma esp√©cie de armadura. O tamanho e o peso das pregui√ßas-gigantes variava muito entre os g√™neros. Nothrotherium, por exemplo, podia ser considerada uma pregui√ßa-gigante ‚Äúnanica‚ÄĚ, mas te garanto que eram muito grandes se comparadas as ‚Äėpreguicinhas‚Äô atuais, que vemos em cima das √°rvores. Falando nisso, as pregui√ßas gigantes eram todas terr√≠colas, n√£o arbor√≠colas! Nada de ficar de galho em galho descansando (conseguem imaginar o tamanho de uma √°rvore pra conseguir isso?). As pregui√ßas-gigantes perambulavam pelas vegeta√ß√Ķes abertas e podiam at√© fazer tocas com suas garras, seja pra descanso tempor√°rio ou habita√ß√£o. As pregui√ßas-gigantes foram os mam√≠feros mais diversificados da Am√©rica do Sul (considerando tamanho, peso, prefer√™ncias alimentares, etc.), al√©m de o grupo mais amplamente distribu√≠do geograficamente. Uma esp√©cie espec√≠fica, Eremotherium laurillardi, conseguiu alcan√ßar do sul da Am√©rica do Sul ao norte da Am√©rica do Norte, sendo considerada uma esp√©cie ‚Äúpan-americana‚ÄĚ. Pensa no sucesso para se estabelecer em todo canto das Am√©ricas!

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Eremotherium, arte de Jorge Blanco.

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Algumas preguiças-gigante em escala.

Os Litopternos são bem menos conhecidos, mas não menos interessantes. Eles eram de tamanho semelhante ao de um camelo e pesavam cerca de 1 tonelada. Tinham o pescoço comprido, pernas longas com três dedos e uma estranha narina entre os olhos, que levou pesquisadores à sugerirem a existência de uma tromba, semelhante à da anta.

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Macrauchenia, um litopterno, arte de Kobrina Olga.

Sabe aquele fusca azul, que a gente não resiste e dá um soco no coleguinha por conta de uma brincadeira clássica? (espero que ainda conheçam essa brincadeira e eu não esteja ficando tão velha). Ele é do tamanho de um glitptodonte, um bicho parecido com um tatu, com uma carapaça alta, cheias de osteodermos ornamentados, caudas robustas e garras capazes de cavar tocas que podiam servir como abrigo, proteção contra o frio ou até mesmo esconderijo de predadores. Na verdade, assim como as pregiças-gigantes, existiram diversas espécies de gliptodontes!

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Dois gliptodontes lutando. Arte de Peter Schouten.

Toxodontes, por sua vez, possu√≠am um tamanho semelhante ao de um hipop√≥tamo, podendo chegar a 2 metros de altura. Tinham um cr√Ęnio grande, pesco√ßo achatado, pernas curtas, com patas dianteiras menores que as posteriores e ouvidos na regi√£o acima da cabe√ßa. Viviam por vezes associados a cursos de √°gua e, supostamente, tinham h√°bito semi-aqu√°tico. Pelo que se sabe por meio do registro fossil√≠fero, n√£o chegaram na Am√©rica do Norte, mas conseguiam sobreviver gra√ßas a seu h√°bito generalista, alimentando-se de acordo com a sua localiza√ß√£o geogr√°fica.

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Toxodonte. Arte de Jorge Blanco.

√Č incr√≠vel imaginar como a evolu√ß√£o selecionou organismos t√£o grandes e √© t√£o incr√≠vel que ainda se discute na academia o que os levaram √† extin√ß√£o. Algumas das sugest√Ķes s√£o: doen√ßas; altera√ß√Ķes clim√°ticas e ambientais; a rela√ß√£o com os seres humanos primitivos, afetando direta (ex: pela ca√ßa) ou indiretamente (ex: queimada e derrubada de √°rvores afetando seus habitats) suas popula√ß√Ķes; ou jun√ß√£o de um ou mais desses fatores. Para cada continente, atribui-se um motivo mais prov√°vel para a extin√ß√£o desses animais. No caso do sul-americano, por falta de evid√™ncias substanciais da intera√ß√£o entre ser humano/megafauna no registro paleontol√≥gico (diferente de na Am√©rica do Norte, que esses ind√≠cios s√£o bem mais comuns), √© pressuposto que varia√ß√Ķes clim√°ticas e na din√Ęmica da vegeta√ß√£o tenham sido os principais fatores que levaram esses organismos √† extin√ß√£o. Entretanto, vale salientar que a Paleontologia √© uma ci√™ncia relativamente nova, principalmente no continente sul-americano. H√° a possibilidade de que existam evid√™ncias que ainda n√£o investigamos ou encontramos, por falta de cientistas trabalhando com o tema ou por falta de explora√ß√£o de novas √°reas, coletas e/ou organiza√ß√£o de dados.

Estudar a megafauna pleistoc√™nica possui uma s√©rie de import√Ęncias. A come√ßar pela compreens√£o da grandiosidade que esse termo ‚Äúmegafauna‚ÄĚ carrega. Estamos falando de animais de grande porte que viveram espalhados pelo mundo todo at√© muito recentemente. Esses organismos passaram por evento de extin√ß√£o significativo, que concentrou os seus √ļnicos remanescentes atuais nas savanas africanas. Atualmente estamos passando por um processo muito semelhante de perda de esp√©cies, o que significa, que estudar os efeitos da extin√ß√£o desses animais no passado pode ser muito importante. Al√©m disso, entender a diversidade e como eles se organizavam em comunidades pode nos ajudar a reconstruir todo um cen√°rio ambiental de uma determinada √©poca e/ou de um determinado local. Tente fechar os olhos e imaginar como era a sua cidade h√° 30 anos atr√°s. Agora, volte um pouco mais no tempo e tente imaginar h√° 300 anos atr√°s. 3 mil anos atr√°s. 30 mil anos atr√°s. Expanda sua imagina√ß√£o para todo seu estado ou a regi√£o. Ser√° que o Brasil era desse exato jeitinho, caracterizado pelas mesmas florestas e cursos de rios e sensa√ß√£o t√©rmica h√° 40 mil anos atr√°s? Um dos maiores desafios dos paleoec√≥logos √© reconstituir um ambiente do passado com as informa√ß√Ķes presenteadas pelos f√≥sseis. A partir da dieta inferida pela an√°lise dos dentes da maioria dos animais da megafauna, por exemplo, conseguimos deduzir qual o tipo de vegeta√ß√£o que predominava no ambiente em que este animal viveu, do que ele se alimentava, qu√£o generalista ele era, etc. Fechamos os olhos e conseguimos imaginar um palco em que as cortinas se abrem e temos campos de matas abertas e clima muito mais seco do que o atual, algo completamente diferente do que existe hoje na Mata Atl√Ęntica, por exemplo. Onde pregui√ßas terr√≠colas andavam tranquilamente por uma vegeta√ß√£o mais aberta e menos √ļmidas e alguns tatus-gigantes migravam em busca de comida e temperaturas mais amenas. Conseguimos tamb√©m imaginar a din√Ęmica das popula√ß√Ķes desses animais, como se reproduziam ou interagiam com as outras esp√©cies. Al√©m disso, conseguimos associar fatores que tenham contribu√≠do para com que o espet√°culo de diversidade deste palco imagin√°rio tenha sido encerrado e estabelecer associa√ß√Ķes com o que ocorre atualmente em nossa biodiversidade, nossas taxas de extin√ß√Ķes e as consequ√™ncias ambientais e ecol√≥gicas que o nosso modo de vida pode e j√° est√° acarretando. Afinal, vivemos em um constante conflito de uma nova √©poca, que alguns cientistas j√° denominam como ‚ÄúAntropoceno‚ÄĚ. E que talvez possa ter um desfecho diferente, se conseguirmos aprender com o passado.

H√° muito a ser descoberto em nossas cavernas mineiras, nossos tanques nordestinos e demais sitios fossil√≠feros espalhados pelo Brasil ‚Äď muitos ainda desconhecidos. Acredito que h√° ainda muitas esp√©cies a serem descritas, muitos paradigmas a serem derrubados e conclus√Ķes que nem sequer come√ßamos a imaginar. N√£o √© preciso uma dist√Ęncia de 100 ou mais milh√Ķes de anos para nos sensibilizarmos com a maravilha que √© um mundo que n√£o existe mais. Parece que foi ontem (em escalas de tempo geol√≥gico), mas o panorama que configurava a megafauna sul-americana h√° pouco mais de 10 mil anos atr√°s foi completamente diferente do que temos hoje. E isso n√£o √© t√£o apaixonante quanto imaginar grandes dinossauros? Espero que, ao final deste texto, a resposta seja sim, e que s√≥ n√£o se tinha esse sentimento ainda por culpa nossa ‚Äď de n√≥s, paleont√≥logos, que nos esquecemos de enaltecer as outras facetas da Paleontologia.

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Sobre a autora:

Tha√≠s Pansani √© bi√≥loga formada pela UFSCar Sorocaba, atualmente √© mestranda em Ecologia e Recursos Naturais pela UFSCar S√£o Carlos e trabalha com megafauna pleistoc√™nica sul-americana e suas rela√ß√Ķes ecol√≥gicas e paleobiogeogr√°ficas.


Referências:

Cartelle, 1994. Tempo Passado.

Cartelle, 2000. Preguiças terrícolas, essas desconhecidas.

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O mastodonte e a macrauquênia