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A rainha das “cobras-cegas”

Pesquisadores brasileiros em parceria com colegas australianos descreveram recentemente, o f√≥ssil de uma esp√©cie de “cobra-cega”, que viveu no Sudeste do Brasil h√° mais de 85 milh√Ķes de anos. Al√©m de o f√≥ssil ser muito importante para o entendimento da evolu√ß√£o do grupo, a esp√©cie √© a maior j√° encontrada entre as cobras-cegas vivas ou extintas. Boipeba tayasuensis, como foi batizada, tinha cerca de 1 metro de comprimento, e sua descoberta preenche uma grande lacuna na hist√≥ria evolutiva das serpentes Scolecophidia.

Boipeba tayasuensis, uma grande cobra-cega do Cret√°ceo do Brasil. Arte de Jorge Blanco.

O fóssil de Boipeba foi encontrado no município de Taiaçu no Oeste do Estado de São Paulo, próximo à Monte Alto, localidade já conhecida pela ampla ocorrência de fósseis do Período Cretáceo. O principal responsável pelo estudo foi Thiago S. Fachini, estudante de doutorado, orientado pela Professora Annie S. Hsiou, ambos da USP de Ribeirão Preto. O estudo ainda contou com a participação de outros dois colegas brasileiros, Silvio Onary e Mário Bronzati, e dois pesquisadores australianos.

O trabalho foi publicado dia 19 de novembro na revista iScience e baseia-se na descri√ß√£o de uma v√©rtebra bem distinta, grande, para uma “cobra-cega”, e com um formato notavelmente achatado. Da√≠ o nome Boipeba, que significa “cobra-achatada” em Tupi-Guarani. O ep√≠teto espec√≠fico, “tayasuensis”, faz refer√™ncia ao munic√≠pio de Taia√ßu, assim, a combina√ß√£o do nome da nova esp√©cie f√≥ssil significa “cobra-achatada de Taia√ßu”.

A distinta vértebra de Boipeba tayasuensis (Fachini et al. 2020).

Boipeba tayasuensis era uma serpente de m√©dio porte, com comprimento estimado em 1 metro, tamanho bastante semelhante ao de outras cobras f√≥sseis do mesmo per√≠odo. O interessante, todavia, √© o fato de Boipeba ser uma serpente Scolecophidia, ou seja, um tipo de “cobra-cega”. Atualmente, as cobras-cegas s√£o pequenas serpentes escavadoras, de h√°bitos essencialmente subterr√Ęneos, que tem os seus olhos bastante reduzidos. As esp√©cies atuais de Scolecophidia n√£o ultrapassam 30 cm de comprimento, o que torna Boipeba uma gigante das cobras-cegas. Mesmo as outras formas f√≥sseis conhecidas n√£o t√™m tamanho compar√°vel ao da “cobra-achatada de Taia√ßu”. O fato de ela ser t√£o grande d√° uma pista aos pesquisadores sobre as tend√™ncias evolutivas do grupo. A “miniaturiza√ß√£o” em Scolecophidia pode ter sido uma tend√™ncia mais recente, acompanhando fatores ambientais e ecol√≥gicos.

Mas não é só o tamanho que torna Boipeba importante. Fósseis de serpentes são muito raros no Cretáceo, ainda mais na Bacia Bauru, unidade geológica na qual ela foi encontrada. Outros fósseis associados à serpentes já haviam sido descobertos, mas este é o primeiro descrito formalmente como espécie. Boipeba, portanto, amplia o nosso conhecimento sobre a diversidade de organismos do Cretáceo da Bacia Bauru e torna a rede ecológica deste antigo paleoambiente mais complexa.

No Cret√°ceo brasileiro, o √ļnico outro registro inequ√≠voco de uma esp√©cie de serpente √© de Seismophis septentrionalis, do Cenomaniano do Maranh√£o (Bacia de S√£o Lu√≠s-Graja√ļ). Tetrapodophis amplectus, comumente referida como a “cobra com patas” do Aptiano-Albiano da Bacia do Araripe, √© questionada por muitos autores e tem uma hist√≥ria bastante complexa (leia mais sobre isso aqui).

Outro aspecto que destaca a descoberta de Boipeba para a Ci√™ncia √© a idade do seu f√≥ssil. Ela √© a esp√©cie mais antiga de cobra-cega j√° descoberta. Os registros mais antigos de Scolecophidia at√© ent√£o encontrados, eram datados do final do Paleoceno e in√≠cio do Eoceno da Europa e √Āfrica (cerca de 56 milh√Ķes de anos atr√°s). Contudo, an√°lises moleculares estimavam o surgimento do grupo para o Cret√°ceo. Boipeba confirma essa hip√≥tese. A diversifica√ß√£o inicial das cobras-cegas pode ter acontecido na Am√©rica do Sul e o Brasil pode ter sido um dos palcos principais deste evento evolutivo.

Boipeba estende o registro de Scolecophidia para o Cret√°ceo Superior do Brasil, preenchendo uma lacuna no espa√ßo e no tempo para a compreens√£o evolutiva do grupo. As previs√Ķes moleculares agora ganharam sustento de evid√™ncias paleontol√≥gicas.

Boipeba √© mais uma descoberta recente que demonstra como o territ√≥rio brasileiro √© importante para a Paleontologia mundial. As contribui√ß√Ķes que o artigo de Boipeba traz s√£o fundamentais para os estudiosos de evolu√ß√£o de serpentes e, com certeza, atrair√£o a aten√ß√£o de paleont√≥logos do mundo para os estratos rochosos do interior de S√£o Paulo.

NOTA: o grupo mais popularmente conhecido como “cobra-cega” s√£o as cec√≠lias, ou gimnofionas, que s√£o um tipo de anf√≠bio. As Scolecophidia, um grupo de serpente, todavia, tamb√©m podem ser chamadas de “cobras-cegas” por conta de seus olhos reduzidos.

Referência:

Fachini, T. S., Onary, S., Palci, A., Lee, M. S. Y., Bronzati, M., Hsiou, A. S. CRETACEOUS BLINDSNAKE FROM BRAZIL FILLS MAJOR GAP IN SNAKE EVOLUTION. iScience, 1-40. doi: https://doi.org/10.101 /j.isci.2020.101834