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Um dinossauro no exílio e a luta contra o colonialismo científico

Poucos imaginariam que um dinossauro do tamanho de um ganso desencadearia uma das maiores pol√™micas da Paleontologia nos √ļltimos anos. Para bem ou para mal, ‚ÄúUbirajara jubatus‚ÄĚ tem chamado a aten√ß√£o como poucos f√≥sseis na hist√≥ria da Paleontologia.

Arte de Saulo Daniel, publicada no Twitter.

Quando foi revelado ao mundo no dia 13 de dezembro de 2020, “Ubirajara jubatus” deveria ter sido visto como uma descoberta interessante do ponto de pista cient√≠fico, pois tratava-se do primeiro dinossauro n√£o-aviano com penas do Hemisf√©rio do Sul. Contudo, a sua import√Ęncia foi rapidamente ofuscada por um emaranhado de problemas √©ticos e legais. O estudo de “Ubirajara” representa um t√≠pico caso de colonialismo cient√≠fico: um f√≥ssil brasileiro que foi parar de maneira suspeita num museu alem√£o (Museu Estadual de Hist√≥ria Natural de Karlsruhe) e uma pesquisa feita exclusivamente por cientistas estrangeiros.

O conceito de colonialismo cient√≠fico foi definido em 1967 por Johann Galtung como ‚Äúo processo pelo qual o centro de adquisi√ß√£o do conhecimento sobre uma na√ß√£o est√° fora a pr√≥pria na√ß√£o‚ÄĚ. Isto se aplica ainda √† Paleontologia de v√°rios pa√≠ses, cujas pesquisas, em pleno s√©culo XXI, s√£o predominantemente feitas por estrangeiros.

Al√©m do Brasil, pa√≠ses como China, Mong√≥lia, Marrocos, Rep√ļblica Dominicana e Myanmar, t√™m estado na mira, tanto de traficantes de f√≥sseis, como de pesquisadores sem escr√ļpulos. Os f√≥sseis atraem a curiosidade do p√ļblico e s√£o um valioso recurso em muitos aspectos: cient√≠fico, educacional, cultural e at√© econ√īmico, gerando turismo e beneficiando o com√©rcio local. Por√©m, todos estes benef√≠cios ficam num pa√≠s estrangeiro, quando os f√≥sseis s√£o levados (legal ou ilegalmente) ao exterior e terminam estudados por equipes de outros pa√≠ses, o que cria depend√™ncia cient√≠fica e perpetua desigualdades sociais.

No Brasil, assim como em toda a Am√©rica Latina e na maior parte dos pa√≠ses do mundo, os f√≥sseis pertencem legalmente √† Na√ß√£o onde s√£o encontrados. Durante d√©cadas, contudo, milhares de f√≥sseis t√™m sa√≠do ilegalmente da regi√£o do Araripe, no Nordeste do Brasil, regi√£o muito rica em termos paleontol√≥gicos, mas com um baixo √≠ndice de desenvolvimento humano. Estes f√≥sseis s√£o adquiridos a pre√ßos irris√≥rios por estrangeiros, chegam ilegalmente a feiras e leil√Ķes na Europa e terminam em cole√ß√Ķes privadas ou em museus estrangeiros.

Centenas destes f√≥sseis no ex√≠lio t√™m sido estudados por cientistas estrangeiros de maneira impune nas √ļltimas d√©cadas. Este problema √© mais do que conhecido pela comunidade cient√≠fica brasileira, por√©m estamos acostumados a que as nossas vozes n√£o sejam escutadas no exterior. Problema que n√£o enfrentam, por exemplo, os autores do estudo de “Ubirajara ” e de v√°rios outros f√≥sseis extra√≠dos irregularmente do Brasil. Eberhard Frey (ex-curador da cole√ß√£o de vertebrados do museu onde ainda hoje est√° “Ubirajara”) era, at√© 2021, nada menos que o presidente da Associa√ß√£o Europeia de Paleontologia de Vertebrados (EAVP, sigla em ingl√™s), enquanto que David Martill, tamb√©m autor do estudo de “Ubirajara”, publicou um artigo defendendo abertamente que os paleont√≥logos desrrespeitem as leis locais.

√Č uma luta que sempre tem sido desigual. Por√©m, desta vez foi diferente. Estamos na era das redes sociais, da comunica√ß√£o cient√≠fica online e das hashtags. O uso de hashtags como #BlackLivesMatter e #MeToo t√™m mostrado que as redes sociais podem unir esfor√ßos em torno de uma causa. #UbirajaraBelongstoBR (Ubirajara pertence ao Brasil), criada no Twitter pela paleont√≥loga e divulgadora cient√≠fica Aline Ghilardi, se espalhou como fogo na internet, poucas horas ap√≥s a not√≠cia do novo dinossauro. No Youtube, foram feitas v√°rias lives denunciando o caso, uma delas, pediu ao p√ļblico pra desenhar “Ubirajara” e protestar nas redes usando a hashtag #UbirajaraBelongstoBR. Em poucos dias este era o dinossauro mais desenhado do mundo: artistas, crian√ßas e p√ļblico geral participavam da campanha. O ru√≠do produzido foi t√£o alto que em duas semanas a revista Cretaceous Research retirou a pesquisa do ar e anunciou que investigava o caso.

Em setembro de 2021, o museu de Karlsruhe contra-atacou, publicando no Instagram um comunicado no qual afirmavam que o dinossauro Ubirajara era ‚Äėpropriedade do estado de Baden-W√ľrttemberg‚Äô e que n√£o seria devolvido ao Brasil. Em poucos dias acumularam-se mais de 10 mil coment√°rios pouco amig√°veis de brasileiros usando a hashtag #UbirajaraBelongstoBR. O museu teve que desativar a sua conta no Instagram. Poucos dias depois, a revista Science revelou que “Ubirajara” foi importado pela Alemanha em 2006 por uma empresa privada e, ent√£o, comprado pelo Museu Estadual de Historia Natural de Karlsruhe, em 2009, o que contradizia a alega√ß√£o de Eberhard Frey, que afirmava tanto que ele mesmo tinha transportado o f√≥ssil para Alemanha em 1995, portando uma suposta autoriza√ß√£o do governo brasileiro.

No 15 de novembro de 2021, publicamos uma carta na revista Nature Ecology and Evolution, na qual explicamos os problemas legais e √©ticos envolvendo n√£o s√≥ “Ubirajara”, mas v√°rios outros f√≥sseis que encontravam-se no museu de Karlsruhe e em outros museus do pa√≠s. Enviamos essa carta √† ministra de Ci√™ncia e Cultura do estado alem√£o de Baden-W√ľrttemberg e, um m√™s depois, ela nos respondeu prometendo investigar o caso e tomar a√ß√Ķes contra os respons√°veis.

Em mar√ßo de 2022 publicamos, ent√£o, um amplo estudo onde denunciamos o colonialismo cient√≠fico em centenas de estudos sobre f√≥sseis do Brasil e do M√©xico. E, finalmente, em julho de 2022, o Minist√©rio de Ci√™ncia e Cultura de Baden-W√ľrttemberg anunciou que o Museu Estadual de Historia Natural de Karlsruhe tinha atuado de maneira desonesta e ordenou a devolu√ß√£o do f√≥ssil ao Brasil. Al√©m disso, solicitou ao museu que informasse sobre todos os f√≥sseis que se encontram irregularmente na sua cole√ß√£o.

Eberhard Frey aposentou-se prematuramente em 2022 e Norbert Lenz, também autor do estudo e diretor do museu, foi removido do seu cargo em julho de 2022.

Devido √† repercuss√£o gerada pelo caso, algumas revistas acad√™micas t√™m adaptado pol√≠ticas mais r√≠gidas sobre a origem legal dos f√≥sseis nas suas publica√ß√Ķes. Adicionalmente, alguns pa√≠ses come√ßaram a retornar voluntariamente f√≥sseis ao Brasil, como em outubro de 2021, quando uma universidade dos EUA entregou 36 aranhas f√≥sseis ao Museu de Paleontologia de Santana do Cariri, e em fevereiro de 2022, quando a B√©lgica devolveu ao Brasil um pterossauro.

No momento em que estas linhas s√£o escritas, seguimos esperando pela repatria√ß√£o, n√£o s√≥ do dinossauro “Ubirajara”, mas de centenas de outros f√≥sseis que se encontram irregularmente em Karlsruhe e em outros museus da Alemanha. Aconte√ßa o que acontecer, a Ci√™ncia n√£o ser√° a mesma ap√≥s este caso. “Ubirajara” est√° j√° no sal√£o da fama dos maus exemplos na Paleontologia, junto a Archaeoraptor e ao Homem de Piltdown.

*Este texto foi originalmente publicado em espanhol em http://saberesyciencias.com.mx/2023/02/10/dinosaurio-exilio-la-lucha-colonialismo-cientifico/

Referências:

Smyth, R.S.H. et al. 2020. WITHDRAWN: A maned theropod dinosaur from Gondwana with elaborate integumentary structures. Cretaceous Research.

Martill, D. 2018. Why palaeontologists must break the law: a polemic from an apologist. The Geological Curator 10: 641-649.

Padilha, P. K. 2020. ROUBARAM mais um DINOSSAURO DO BRASIL #UbirajarabelongstoBR. https://youtu.be/Uf_QjXwbEDU

P√©rez Ortega, R. 2021. Retraction is ‚Äėsecond extinction‚Äô for rare dinosaur. Science 374: 14-15.

Cisneros, J.C. 2021. The moral and legal imperative to return illegally exported fossils. Nature Ecology & Evolution, 6:2-3.

Cisneros, J.C. 2022. Digging deeper into colonial palaeontological practices in modern day Mexico and Brazil. Royal Society Open Science 9:210898.

Sacos a√©reos evolu√≠ram m√ļltiplas vezes!?

A esp√©cie humana est√° na Terra h√° apenas 300 mil anos. Somos jovens nesse pequena planeta azul e din√Ęmico. Os dinossauros, por sua vez, est√£o por aqui h√° pelo menos 233 milh√Ķes de anos, desde o Per√≠odo Tri√°ssico e, n√£o custa lembrar, permanecem vivos at√© hoje na forma das aves. Esse grupo de animais tolerou e se adaptou a uma grande variedade de climas e mudan√ßas dram√°ticas na configura√ß√£o dos continentes ao longo do tempo. Por isso s√£o um modelo excelente para estudarmos evolu√ß√£o biol√≥gica. Eles t√™m muito a nos ensinar sobre os segredos da sobreviv√™ncia.

Durante o auge do reinado dos dinossauros, na Era Mesozoica, o clima do nosso planeta era muito mais quente do que hoje. Uma das caracter√≠sticas que favoreceu este grupo de animais foi a evolu√ß√£o de sacos a√©reos, um tipo de upgrade do sistema respirat√≥rio. Os sacos a√©reos s√£o estruturas conectadas aos pulm√Ķes, que se espalham por toda cavidade tor√°xica e abdominal desses animais, penetrando inclusive os ossos. Est√£o presentes nas aves atuais e n√£o apenas tornam sua respira√ß√£o mais eficiente, mas tamb√©m ajudam a deixar os seus esqueletos mais leves, o que favorece, por exemplo, o voo. Apesar de muito caracter√≠sticos das aves, os sacos a√©reos n√£o s√£o uma exclusividade dos delas. Eles tamb√©m estavam presentes nos dinossauros n√£o-avianos (todos os outros dinossauros, que n√£o as aves) muito antes da evolu√ß√£o do voo.

Esquema mostrando os sacos aéreos em aves atuais. Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Sacos_a%C3%A9reos

Imagina-se que os sacos a√©reos originalmente favoreceram os dinossauros por funcionarem como um sistema eficiente de capta√ß√£o de oxig√™nio e tamb√©m por serem um sistema de refrigera√ß√£o natural. Se voc√™, hoje, fica ofegante fazendo exerc√≠cios no ver√£o quente, saiba que os dinossauros eram (e s√£o!) muito mais eficientes que voc√™ em captar oxig√™nio e se refrigerar. N√£o √© √† toa que eles sa√≠ram na frente na corrida evolutiva (enquanto nosso grupo, o dos mam√≠feros, ficou por quase 150 milh√Ķes de anos no banquinho de reservas evolutivo).

Já é bem sabido que dinossauros do Período Cretáceo, como o T. rex e alguns pescoçudos, como o Ibirania, tinham um extenso sistema de sacos aéreos pelo corpo. Inclusive, bem parecido com os das aves atuais. Só que a origem e evolução deste sistema tem sido um enigma por várias décadas. Será que os primeiros dinossauros, lá do período Triássico, já tinham sacos aéreos?

O que sabíamos era que a pneumaticidade do esqueleto relacionada a um sistema de sacos aéreos estava presente tanto em dinossauros derivados, ou seja, aqueles que viveram durante o Período Cretáceo, quanto em pterossauros, répteis voadores parentes próximos dos dinossauros. Ambos os grupos seguiram um caminho evolutivo independente a partir do Período Triássico. Uma explicação para a presença de sacos aéreos tanto em dinossauros quanto em pterossauros seria que a origem dessas estruturas se deu bem antes deles terem seguido seu caminho evolutivo independente, isto é, ainda em seus ancestrais.

Por√©m, a quest√£o permaneceu em aberto. Faltavam estudos avaliando a presen√ßa dessas estruturas tanto em dinossauros mais antigos quanto em ancestrais dos pterossauros e dinossauros…

Para nossa sorte, o Brasil têm os fósseis dos mais antigos dinossauros e é aí que entra o estudo publicado agora em Dezembro de 2022 pelo nosso grupo de pesquisa, na revista Scientific Reports:

Para tentar solucionar este enigma, um grupo de pesquisadores brasileiros da Unicamp, UFRN, UFSCar e UFSM e um colaborador da Western University of Health Sciences, dos E.U.A., analisaram tr√™s f√≥sseis de alguns dos mais antigos dinossauros do mundo, Buriolestes, Pampadromaeus e Gnathovorax, do Per√≠odo Tri√°ssico do Rio Grande do Sul. Estes s√£o alguns dos dinossauros mais antigos conhecidos at√© o momento, com 233 milh√Ķes de anos de idade!

Reconstrução do dinossauro herrerassaurídeo Gnathovorax. Arte por Márcio L. Castro.

Foi possível notar que os ossos da coluna vertebral (vértebras) desses animais apresentavam pequenos orifícios nas laterais. Sabemos que os sacos aéreos ingressam no esqueleto através de estruturas semelhantes a isso. Porém, os orifícios encontrados eram muito pequenos, o que talvez indicasse uma outra função.

Realizamos, ent√£o, tomografias de alta resolu√ß√£o (micro-tomografias) para investigar a estrutura interna dos f√≥sseis. A an√°lise revelou uma arquitetura bastante densa nas v√©rtebras desses animais, bem diferente do que conhecemos em esqueletos permeados por sacos a√©reos de dinossauros que viveram no Cret√°ceo ou mesmo as Aves. Por√©m, Buriolestes e Pampadromaeus mostraram uma vascularidade mais complexa no interior das v√©rtebras, do que Gnathovorax. Uma vascularidade mais desenvolvida pode ter servido de alicerce para o surgimento das estruturas pneum√°ticas conhecidas como c√Ęmaras e camelas, t√≠picas da invas√£o das v√©rtebras por sacos a√©reos.

Reconstrução do dinossauro Pampadromaeus. Arte por Márcio L. Castro.

A ausência de pneumaticidade no esqueleto pós-craniano desses dinossauros mais antigos contradiz a hipótese de que os sacos aéreos invasivos presentes em dinossauros e pterossauros são homólogos, ou seja, de que teriam surgido no ancestral comum desses animais. Isso indica que a pneumaticidade óssea associada à sacos aéreos evoluiu pelo menos três vezes independentemente em Avemetatarsalia, grupo que inclui dinossauros, pterossauros e seus parentes. Ou seja, evoluiu de forma independente em pterossauros, dinossauros terópodes (grupo dos dinossauros carnívoros) e sauropodomorfos (grupo dos dinossauros pescoçudos).

Uma árvore simplificada dos dinossauros e seus parentes mostrando a evolução independente dos sacos aéreos em pterossauros, dinossauros terópodes e sauropodomorfos.

Essa descoberta muda a forma como compreend√≠amos os dinossauros e seus parentes. Passo a passo estamos entendendo melhor a sua evolu√ß√£o e o segredo do seu sucesso. √Č poss√≠vel que algum fator ambiental tenha sido o gatilho para a evolu√ß√£o desse sistema sacos a√©reos em diferentes grupos de avemetatarsalianos, mas isso s√£o cenas para os pr√≥ximos cap√≠tulos!

Gostaríamos de agradecer as agências de fomento que tornaram possível esta pesquisa: o CNPq, a FAPESP e a FAPERGS.

Acesse o artigo completo: Aureliano et al. 2022. The absence of an invasive air sac system in the earliest dinosaurs suggests multiple origins of vertebral pneumaticity. Scientific Reports. https://www.nature.com/articles/s41598-022-25067-8

E assista o vídeo de divulgação: https://youtu.be/8XenPxROthY

Prehistoric Planet: um (baita) exercício de especulação

A semana é boa quando você acaba sendo agraciado com 40 minutos diários de Mesozóico. Agora que terminamos de ver Prehistoric Planet, a série mais do que hypada da Apple TV+, que tal refletirmos sobre a origem do estilo especulativo da série?

Quando sa√≠ram os primeiros sinais do que era Prehistoric Planet, escrevi um texto a respeito de como a nova s√©rie de documental viera para repaginar (e talvez at√© substituir) a cl√°ssica ‘Caminhando com Dinossauros’. Era uma aposta √≥bvia: em mais de 20 anos, nenhuma outra produ√ß√£o sobre dinossauros conseguiu atingir o mesmo n√≠vel e impacto, e Prehistoric Planet parecia estar aqui exatamente para isso. E, embora muita gente siga comparando as duas s√©ries, percebi que a grande inspira√ß√£o da produ√ß√£o da Apple TV+ n√£o era o cl√°ssico de 1999, mas sim um… livro.

Capa do livro “All Yesterdays” – A melhor dica de livro que voc√™ vai receber hoje.

All Yesterdays √© um livrinho simp√°tico e aparentemente inofensivo. Creditado aos paleoartistas John Conway e C.M. Kosemen e ao paleont√≥logo Darren Naish. A proposta da obra √© realizar uma releitura das representa√ß√Ķes paleoart√≠sticas do Mesozoico, assumindo dinossauros como seres vivos e n√£o gigantes sanguin√°rios com tend√™ncia a berrar e mostrar os dentes 24 horas por dia. Sentiu uma semelhan√ßa com Prehistoric Planet? Calma que √© s√≥ metade da hist√≥ria.

Um Allosaurus e um Camptosaurus apenas se encarando, sem segundas inten√ß√Ķes. Porque o predador n√£o precisa estar ca√ßando e a presa n√£o precisa estar fugindo 100% do tempo.

Desde o chamado “Renascimento dos Dinossauros”, nos anos 1970-80, uma tend√™ncia dos paleoartistas foi representar esses animais como organismos complexos e atl√©ticos, mas magrel√Ķes secos, verdadeiros sacos de ossos. Isso n√£o √© de se surpreender, uma vez que tecidos moles raramente s√£o preservados, restando aos paleoartistas reimaginar essas criaturas tendo apenas os ossos como base.

Greg Paul √© um dos maiores nomes da paleoarte e do Renascimento dos Dinossauros, e suas representa√ß√Ķes hiper-atl√©ticas e zero gordura destes animais seguem sendo uma das mais influentes e reproduzidas nos √ļltimos 40 anos. Por esse motivo que dinossauros magros s√£o t√£o comuns na paleoarte. Aqui, um Tyrannosaurus apel√£o apostando corrida.

Em All Yesterdays, os autores refor√ßam que os dados cient√≠ficos publicados devem ser utilizados ao m√°ximo na reconstru√ß√£o de tecidos moles, incluindo a√≠ m√ļsculos, tecidos conjuntivos, penas, chifres e escamas. Com isso, temos uma nova interpreta√ß√£o dessas criaturas, refor√ßando ainda mais a vis√£o dos mesmos como animais, e n√£o monstros. Um exemplo que ilustra bem o caso √© o dos bracinhos dos abelissaur√≠deos.

Um Majungasaurus agita seus bracinhos num claro sinal de comunicação. Já viu um abelissaurídeo fazendo isso em algum lugar?

Se existem evid√™ncias de que os diminutos bra√ßos dos abelissaur√≠deos possuem uma articula√ß√£o que permite a rota√ß√£o do membro em v√°rios √Ęngulos e, ainda por cima, cicatrizes musculares que indicam uma alta possibilidade de movimentos, por que n√£o imagin√°-los como √≥rg√£os de comunica√ß√£o? E, seguindo essa l√≥gica, porque n√£o reconstru√≠-los com cores chamativas? Esse √© o esp√≠rito de All Yesterdays, que foi muito bem encarnado em Prehistoric Planet

O jeito Carnotaurus de dizer “Oi gata, t√° afim de ver uma Netflix?”. Cena do epis√≥dio 5.

Ali√°s, qualquer semelhan√ßa entre essas obras est√° longe de ser coincid√™ncia: o j√° citado paleont√≥logo Darren Naish √© o principal consultor cient√≠fico da s√©rie, e John Conway e outros paleont√≥logos/paleoartistas fortemente ligados ao “movimento” tamb√©m deram assist√™ncia em sua cria√ß√£o.

Confia.

E √© exatamente por isso, por conta dessa pegada “especulativa mas baseada no maior n√ļmero poss√≠vel de trabalhos cient√≠ficos”, que Prehistoric Planet est√° sendo considerada a produ√ß√£o mais fidedigna sobre a vida no Mesozoico (e essa constata√ß√£o n√£o √© apenas minha, mas a de muitos paleont√≥logos de respeito). Nada de dinossauros se matando como kaijus sa√≠dos do quinto dos infernos, mas sim animais bem adaptados ao seu ambiente.

Inclua no balaio da especula√ß√£o mosassauros utilizando “esta√ß√Ķes de limpeza” em recifes de corais, Dreadnoughtus disputando direitos reprodutivos com sacos infl√°veis a la fragata, Quetzalcoatlus fazendo voos intercontinentais, um “Troodon” ateando fogo na floresta para tirar suas presas de seus esconderijos, Triceratops buscando minerais dentro de cavernas, e por a√≠ vai.

Outro momento All Yesterdays: elasmossaur√≠deos fazendo display com o pesco√ßo fora d’√°gua, presente tanto na s√©rie como no livro. Cena do epis√≥dio 1.

Nenhum comportamento exibido na s√©rie “veio do nada”: com uma equipe de consultores t√£o grande e experiente, tais suposi√ß√Ķes foram baseadas ou em evid√™ncias f√≥sseis ou por “phylogenetic bracketing“, um maneira de inferir tra√ßos em organismos a partir de sua posi√ß√£o num cladograma. Um assunto muito interessante que renderia horas e horas de discuss√£o e, no m√≠nimo, um novo post sobre.

Um exemplo resumido de phylogenetic bracketing: é de se assumir que cuidado parental seja uma condição ancestral em dinossauros, uma vez que tanto as aves (dinossauros modernos) quanto os crocodilos (parentes vivos mais próximos) possuem esse traço. Cena do episódio 4.

Pra cimentar esse jeit√£o “t√£o real que parece at√© de verdade”, temos o estilo documental. Cinegrafistas gravaram as tomadas de paisagens nos quatro cantos do planeta, para ent√£o inserirem os dinosauros de CGI nelas (e que CGI, senhoras e senhores… os efeitos s√£o, no m√≠nimo, ABSURDOS). Esse trabalho de c√Ęmera (que, inclusive, foi utilizado 23 anos atr√°s em Caminhando com Dinossauros) resultou numa abordagem muito mais realista, sem os maneirismos permitidos e artificiais de produ√ß√Ķes 100% animadas (como o caso de Planet Dinosaur).

Dinossauros de CGI em meio a cavalinhas de CGI fugindo de pterossauros de CGI. Ao fundo, nuvens de CGI. Planet Dinosaur pode parecer ser tudo, menos realista.

E, por fim, temos o estilo narrativo. Cada epis√≥dio √© focado num ecossistema, com vinhetas que mostram como bicho X lida com a vida no ambiente Y: no fim das contas, um epis√≥dio se resume a sequ√™ncias dram√°ticas sem muita conex√£o umas com as outras. Essa pegada tornou-se meio que um padr√£o nas produ√ß√Ķes recentes, como Planeta Terra II e Nosso Planeta, para citar apenas dois exemplos.

E √© exatamente aqui que encontro o calcanhar de Aquiles de Prehistoric Planet (e devo ressaltar que essa √© apenas a minha opini√£o). Ao assistir a s√©rie, notei que n√£o existem praticamente nenhuma explica√ß√£o de como as especula√ß√Ķes foram feitas: elas simplesmente est√£o l√°, assumidas como verdade absoluta. Isso √© uma falha grave num document√°rio cuja inten√ß√£o √© transmitir conhecimento. Para entender melhor qualquer comportamento exibido, voc√™ ou deve ter conhecimento pr√©vio sobre o assunto ou precisa pesquisar um bocado na internet.

Existe evid√™ncia f√≥ssil da l√≠ngua-pegajosa-armadilha-de-cupim do Mononychus? N√£o, embora a gente pode supor sua exist√™ncia por outros detalhes anat√īmicos. Sei disso por ter visto o document√°rio? N√£o. √Č porque dei um Google depois de assistir. Cena do epis√≥dio 2.

O jeit√£o polido que Prehistoric Planet emula das outras s√©ries de peso da BBC impede um maior teor cient√≠fico ou mesmo um jarg√£o mais pesado em cada epis√≥dio. Isso podia ter sido evitado se houvessem maiores explica√ß√Ķes ao longo da narra√ß√£o, ou no m√≠nimo um epis√≥dio especial apenas sobre a “ci√™ncia da s√©rie”. Ou ainda, imitando outros document√°rios modernos, colocando um “making of” de 10 minutos ap√≥s a exibi√ß√£o, para deixar claro como foi feita a reconstru√ß√£o. Infelizmente, o mais pr√≥ximo disso foram v√≠deos de 4-5 minutos, lan√ßados como b√īnus no servi√ßo de streaming e tamb√©m no canal da Apple TV+, explicando um √ļnico caso por epis√≥dio. Complicado.

Mesmo com essa ressalva (que considero bem relevante), estou com a maioria: Prehistoric Planet √© uma obra excepcional, digna de ser considerada uma das maiores, sen√£o a maior, produ√ß√£o do tipo j√° feita. O simples fato de trazer essas especula√ß√Ķes t√£o bem baseadas em evid√™ncias ao p√ļblico amplo atrav√©s de uma produ√ß√£o de alt√≠ssimo n√≠vel j√° √© louv√°vel e garante um destaque. Na verdade, eu gostei tanto que j√° estou me preparando para reassisti-la e trabalhar em an√°lises de cada epis√≥dio, porque tem pano pra gente discutir aqui!

Porque não é todo dia que somos brindados com Tarbosaurus tirando uma sonequinha <3 Cena do episódio 2.

Link para meu texto anterior: https://www.blogs.unicamp.br/colecionadores/2022/04/20/de-caminhando-com-dinossauros-ate-prehistoric-planet/

Prehistoric Planet est√° na Apple TV+: https://tv.apple.com/us/show/prehistoric-planet/umc.cmc.4lh4bmztauvkooqz400akxav

O conte√ļdo b√īnus da s√©rie pode ser visto aqui: https://www.youtube.com/watch?v=FIeCzBCLJww&list=PLx-VtE7KiW8zKg7VkRGBV5gguBncOPe-a

Você pode adquirir o ebook de All Yesterdays na amazon.com.br por R$ 20,00: https://www.amazon.com.br/All-Yesterdays-Speculative-Dinosaurs-Prehistoric-ebook/dp/B00A2VS55O/ref=sr_1_1?keywords=all+yesterdays&qid=1653761942&sprefix=all+yester%2Caps%2C227&sr=8-1&ufe=app_do%3Aamzn1.fos.4bb5663b-6f7d-4772-84fa-7c7f565ec65b

Cara de Mamífero

Texto por Pedro H. Morais e Maurício Rodrigo Schmitt

Voc√™ j√° se perguntou ‚Äúcomo era a cara dos nossos ancestrais, antes deles serem o que somos‚ÄĚ? Por exemplo, que cara teria o primeiro homin√≠deo? Ou o primeiro primata?

Essa pergunta habita o nosso imaginário, principalmente quando diz respeito aos nosso ancestrais e, na maioria das vezes, quem pode nos ajudar a obter essas respostas são os pesquisadores que trabalham com o passado, como os paleontólogos.

Onde sua imagina√ß√£o te levaria se eu te perguntasse: que cara tinha o primeiro mam√≠fero? Muitos talvez tenham pensado nos grandes mam√≠feros do passado, como os mastodontes (como Stegomastodon waringi), ou os poderosos tigres-dentes-de-sabre (como Smilodon), ou ainda nas pregui√ßas enormes (como Eremotherium laurillardi) e tatus gigantes (como Glyptodon clavipes). Por√©m, sinto lhe informar, que voc√™ viajou pouco no tempo. 

Uma pregui√ßa gigante (Scelidodon sp.) e um tatu gigante (Doedicurus sp.), ambos encontrados na Am√©rica do Sul em rochas datadas do Pleistoceno, entre 2,5 milh√Ķes e 11,7 mil anos atr√°s. Artes de Jorge Blanco (Forasiepi, Martinelli, 2007).

Quando pensamos em um mam√≠fero, o grande grupo de animais ao qual n√≥s, os seres humanos, pertencemos, fica dif√≠cil escolher um modelo que represente o todo. Vemos hoje em dia, a enorme diversidade do grupo, que foi capaz de ocupar praticamente todos os ambientes do nosso planeta, das savanas quentes do Brasil e da √Āfrica, √†s geleiras mais frias do p√≥lo-norte, das montanhas mais altas do Himalaia, √†s profundezas do oceano, dos c√©us, ao interior de cavernas e do solo. Em todos esses ambientes voc√™ encontra um exemplo diferente de mam√≠fero. Este grupo de animais se diversificou de tal forma e foi t√£o moldado pelos ambientes que colonizaram, que √© dif√≠cil considerar que um elefante, um morcego e um golfinho perten√ßam ao mesmo grupo e sejam parentes. Talvez, isso se deva ao fato de que a diversidade de formas dos mam√≠feros hoje √© maior em rela√ß√£o aos outros grupos de tetr√°podes viventes. Pense nas aves ou nos lagartos ou nos crocodilos, que apresentam, na atualidade, uma variedade bem menor de formas e tamanhos do que os mam√≠feros (no passado n√£o foi assim, mas esta √© outra hist√≥ria). Pensando em tudo isso, qual animal voc√™ escolheria para representar os mam√≠feros? Que mam√≠fero vivo hoje voc√™ diria que se assemelha mais ao ancestral de todos os mam√≠feros, ao primeiro mam√≠fero?

Temos certeza que sua imagina√ß√£o te deu v√°rias op√ß√Ķes, mas, sem querer te decepcionar, a cara do primeiro mam√≠fero seria mais parecida com a de um musaranho ou de uma cu√≠ca (n√£o, n√£o estamos falando do instrumento! Estamos falando do marsupial… Colocamos uma foto abaixo pra ajudar). 

Filhote de cuíca (Didelphimorphia) РFoto dos autores.

O primeiro mamífero era um bicho pequeno, mais ou menos do tamanho de um pequeno gambá, correndo por entre as folhagens de uma floresta, durante uma noite quente do Jurássico (sim, a história dos mamíferos começa no Jurássico).

Atualmente, por consenso, o t√°xon apontado como o ‘primeiro mam√≠fero’ √© Morganucodon, um organismo f√≥ssil encontrado nos EUA, Europa e China. Queremos chamar a aten√ß√£o aqui para a express√£o ‚Äúatualmente apontado‚ÄĚ, porque estes consensos taxon√īmicos podem mudar a luz de novos estudos, f√≥sseis e evid√™ncias.

Reconstrução artísitica de Morganucodon. Seus fósseis são encontrados principalmente em Wales (Reino Unido) e na China, além de outras partes da Europa e América do Norte, em afloramentos Jurássicos. Imagem de FunkMonk (Michael B. H.).

O grupo chamado de ‘Mammalia’ (ou ‚Äúmam√≠feros‚ÄĚ, em bom portugu√™s), √© definido por um conjunto de caracter√≠sticas morfol√≥gicas compartilhadas por todos os seus membros. Colocando de forma mais simples: pra voc√™ ser um mam√≠fero, voc√™ tem que ter, ou ter tido, um conjunto de caracter√≠sticas f√≠sicas apontadas como ‚Äúcoisa de mam√≠feros‚ÄĚ. Mas tem um problema aqui. V√°rios organismos f√≥sseis, muito pr√≥ximos dos mam√≠feros j√° tinham algumas dessas “caracter√≠sticas t√≠picas de mam√≠feros”. Isso √© um pesadelo para muitos pesquisadores, que acabam por discutir e rediscutir defini√ß√Ķes…

A defini√ß√£o mais atual e com maior consenso, √© a defini√ß√£o filogen√©tica de mam√≠fero, que englobaria Morganucodon e todas as esp√©cies viventes de mam√≠feros (placent√°rios, marsupiais e monotremados). Nessa defini√ß√£o, varias esp√©cies de mam√≠feros extintos, que viveram durante a era Mesozoica, est√£o inclusas no grupo. Basicamente, isso significa que todos os animais que s√£o agrupados numa √°rvore filogen√©tica entre Morganucodon e os mam√≠feros atuais, s√£o considerados mam√≠feros (calma, calma, a gente coloca uma figura, s√≥ olhar a√≠ embaixo). Mas, essa defini√ß√£o tamb√©m √© bastante discutida, principalmente porque Morganucodon foi “eleito” como o primeiro mam√≠fero, ou seja, essa √© uma escolha arbitr√°ria. Essa problem√°tica de “eleger um primeiro” n√£o √© exclusiva dos mam√≠feros, esse √© um conflito constante nos estudos sistem√°ticos e evolutivos, j√° que as formas biol√≥gicas formam um cont√≠nuo, quem tenta classific√°-las em grupos artificiais somos n√≥s.

No fim, cada novo achado acrescenta uma nova pe√ßa a esse quebra cabe√ßa da evolu√ß√£o e as defini√ß√Ķes se atualizam com o tempo.

Filogenia simplificada dos cinodontes. Aqui estão apenas algumas poucas espécies da grande diversidade de cinodontes. Note que o grupo que Morganucodon é considerado o início do grupo dos mamíferos, portanto, todos que vierem depois deste grupo na árvore filogenética são considerados mamíferos. E um destaque para Brasilitherium, um fóssil brasileiro que é hoje tido como o fóssil mais relacionado ao grupo dos mamíferos. Modificado de Lautenschlager et al. 2016.

Quais s√£o caracter√≠sticas presentes hoje nos mam√≠feros que definem o grupo como tal? Certamente voc√™ j√° ouviu que s√£o as gl√Ęndulas mam√°rias, os tr√™s oss√≠culos do ouvido, entre outras. Mas para saber mais sobre elas, precisamos voltar no tempo. Mais precisamente, at√© os per√≠odos Permiano e Tri√°ssico (entre cerca de 298 a 201 milh√Ķes de anos atr√°s), quando tais “caracter√≠sticas de mam√≠fero” come√ßam a ser observadas, gradualmente, em formas mais basais de animais aparentados dos mam√≠feros.

Durante a transi√ß√£o entre o Permiano e o Tri√°ssico, a Terra passou pelo seu maior evento de extin√ß√£o, conhecido como a Extin√ß√£o Permo-Tri√°ssica. Este evento foi bem maior do que a famosa extin√ß√£o que dizimou os dinossauros. Essa tal Extin√ß√£o Permo-Tri√°ssica foi t√£o grande, que causou um ‚Äúreset‚ÄĚ na fauna e na flora do planeta. Durante o final do Permiano (cerca de 255 milh√Ķes de anos atr√°s), os primeiros f√≥sseis de criaturas conhecidas como cinodontes s√£o registrados. Por√©m, √© durante o Tri√°ssico que esses animais come√ßam a brilhar no cen√°rio biol√≥gico. Infelizmente, todos os holofotes acabam por se voltar para os dinossauros no final deste per√≠odo, mas, o mundo d√° voltas, como voc√™s ver√£o.

Os cinodontes apresentavam uma grande diversidade de formas e tamanhos durante o Tri√°ssico e alguns j√° apresentavam algumas das tais “caracter√≠sticas mamalianas”. O curioso √© que essas caracter√≠sticas n√£o estavam presentes somente na linhagem que deu origem aos mam√≠feros. Alguns grupos de cinodontes completamente extintos, de uma linhagem paralela a nossa (mammaliana), tamb√©m apresentavam algumas dessas caracter√≠sticas, que hoje, s√£o consideradas como ‚Äúcoisa de mam√≠fero‚ÄĚ. Essa √© a raz√£o pela qual o debate sobre a origem dos mam√≠feros est√° sempre se modificando atualmente… Uma vez que v√°rios grupos paralelos apresentam caracter√≠sticas mamalianas, √© dif√≠cil associar com seguran√ßa, que determinado grupo de cinodontes deu origem aos mam√≠feros ou n√£o. 

Voltando para o assunto “que cara teria o primeiro mam√≠fero?”, voc√™ deve estar se perguntando agora ‚Äúque cara teriam os cinodontes?‚ÄĚ. Se voc√™ pensou no musaranho ali em cima… voc√™ n√£o est√° de todo errado, por√©m se voc√™ prestou aten√ß√£o neste texto, voc√™ j√° sacou que eles t√™m uma grande diversidade de formas, e pasmem, em termos f√≥sseis, o Brasil √© um dos pa√≠ses que apresentam a maior diversidade de cinodontes do mundo! Todos eles provenientes do Rio Grande do Sul, o local que apresenta as forma√ß√Ķes de idade tri√°ssica mais fossil√≠feras do pa√≠s. O Brasil trouxe ao mundo, por exemplo, os Brasilodontideos, o atual grupo apontado como o clado de origem dos mam√≠feros. 

A Diversidade de Cinodontes Brasileiros

Antes de tudo, a gente precisa entender como s√£o separados os cinodontes. Basicamente, existem dois grandes grupos dentro do grande grupo Cynodontia, os Cynognathia e os Probainognathia. Calma, a gente vai explicar um pouquinho de cada grupo abaixo: 

Cynognathia inclui organismos completamente extintos. Eles eram em sua maioria herb√≠voros/on√≠voros, com exce√ß√£o de apenas uma esp√©cie, que era carn√≠vora. Eram bichos relativamente grandes, variando do tamanho de um cachorro pequeno at√© o maior de todos, que podia ter mais de 2 metros de comprimento e pesar cerca de 200kg. Neste grupo existem organismos que j√° apresentavam algumas caracter√≠sticas que podem ser interpretadas como ‚Äúcoisa de mam√≠fero‚ÄĚ, por exemplo, uma das principais caracter√≠sticas do grupo (e que pode ser compar√°vel a mam√≠feros), √© a enorme complexidade dos dentes p√≥s-caninos. Os mam√≠feros possuem um padr√£o dent√°rio altamente especializado, chamado de tribosf√™nico. Os Cynognathia, embora n√£o tivessem padr√£o tribosf√™nico, possu√≠am especializa√ß√Ķes dent√°ria at√© ent√£o n√£o encontradas em outros grupos de Synapsidas. Al√©m da grande especializa√ß√£o dos dentes, recentemente foi encontrado em um cinodonte Cynognathia, chamado de Menadon, com um padr√£o de dente hipsodonte, de crescimento cont√≠nuo, tipo os encontrado hoje em mam√≠feros como o cavalo e roedores (se voc√™ n√£o sabia disso, aqui vai mais uma curiosidade, o dente do seu ratinho cresce pra sempre…por isso ele est√° sempre roendo algo. N√£o s√≥ ele, como v√°rios outros animais). Essa ocorr√™ncia de dente hipsodonte no Menadon √© √ļnica, e este √© o √ļnico g√™nero al√©m dos mam√≠feros com esse padr√£o de dente. O mais interessante, √© que o grupo de Menadon foi completamente extinto, ent√£o a caracter√≠stica que era tida como exclusiva de mam√≠feros, j√° tinha aparecido na hist√≥ria dos cinodontes muito tempo antes! Infelizmente, toda a linhagem de Cynognathia foi extinta, ent√£o nunca teremos a oportunidade de ver um vivo e verificar como eles realmente seriam. 

Cynognathia, os f√≥sseis desse grupo s√£o muito abundantes na Argentina, como o Massetognathus pascuali, e no Brasil, onde encontramos v√°rias esp√©cies em abund√Ęncia, como Menadon e Santacruzodon. Abaixo a reconstru√ß√£o de duas esp√©cies de Cynognathia em um t√≠pico ambiente do Tri√°ssico, com destaque pra apar√™ncia que j√° lembraria muito a de um mam√≠fero atual. Imagens: Massetognathus (foto do autor) Menadon (Melo et al. 2019) e a reconstru√ß√£o art√≠stica por Voltaire D. P. Neto.

O segundo grupo, Probainognathia, abrange uma variedade de formas gigantesca, j√° que Mammalia est√° inclusa neste grupo. Mas, levando apenas os f√≥sseis em considera√ß√£o, o grupo apresentava mesmo assim uma diversidade de tamanho e de h√°bitos enorme, variando de um bicho com o tamanho de um cachorro grande (como o Aleodon, que podia ter mais de 1,5 metros), at√© os Brasilodont√≠deos (que tinham o tamanho de um pequeno gamb√°, com cerca de 15cm). Os animais desse grupo s√£o, em sua maioria, classificados como inset√≠voros ou seja, eles comiam insetos, por√©m, alguns pesquisadores apontam que eles poderiam ser oportunistas (on√≠voros, assim como os gamb√°s atualmente), com alguns exclusivamente carn√≠voros, como o Trucidocynodon. Neste grupo est√£o inclu√≠dos os Brasilodontidae, atualmente tido como grupo irm√£o de mam√≠feros, mas que pode ter sido o grupo de cinodontes que deu origem a n√≥s, os mam√≠feros. 

Probainognathia. Artes de Jorge Blanco (Martinelli et al. 2016; Guignard et al. 2019).

A parte mais fant√°stica disso tudo, √© que muitos desses bichos faziam parte da fauna tri√°ssica do Brasil. Eles est√£o entre os achados f√≥sseis do Rio Grande do Sul, onde √© encontrada a maior diversidade de Cynognathia do mundo, al√©m de alguns dos registros mais importantes de Probainognathia, como os j√° mencionados Brasilodontideos. Talvez, devido ao pequeno tamanho, os cinodontes acabem por perder espa√ßo para os grandes dinossauros na m√≠dia e tamb√©m no imagin√°rio das pessoas… Apesar disso, imaginar um “pequeno musaranho”, correndo de um dinossauro, numa noite quente do Tri√°ssico, est√° carregado de informa√ß√Ķes sobre como n√≥s, os mam√≠feros, conseguimos nos tornar o que somos hoje. Enfim, agora voc√™ sabe como era “a cara dos primeiros mam√≠feros” e tamb√©m como os f√≥sseis do Brasil s√£o importantes para contar essa hist√≥ria.

Referências

Forasiepi A, Martinelli A. Bestiario fósil: mamíferos del pleistoceno de la Argentina. Albatros; 2007.

Guignard ML, Martinelli AG, Soares MB. The postcranial anatomy of Brasilodon quadrangularis and the acquisition of mammaliaform traits among non-mammaliaform cynodonts. PloS one. 2019 May 10;14(5):e0216672.

Lautenschlager S, Gill PG, Luo ZX, Fagan MJ, Rayfield EJ. The role of miniaturization in the evolution of the mammalian jaw and middle ear. Nature. 2018 Sep;561(7724):533-7.

Martinelli AG, Soares MB, Schwanke C. Two new cynodonts (Therapsida) from the Middle-Early Late Triassic of Brazil and comments on South American probainognathians. PloS one. 2016 Oct 5;11(10):e0162945.

Melo TP, Ribeiro AM, Martinelli AG, Soares MB. Early evidence of molariform hypsodonty in a Triassic stem-mammal. Nature communications. 2019 Jun 28;10(1):1-8.

Melanina é encontrada em fóssil de pterossauro brasileiro

Mol√©cula biol√≥gica respons√°vel pela pigmenta√ß√£o de seres vivos foi encontrada preservada em um f√≥ssil brasileiro de cerca de 110 milh√Ķes de anos, da regi√£o do Cear√°! O f√≥ssil em quest√£o √© de um pterossauro, um tipo de r√©ptil voador da “Era dos Dinossauros”.

Reconstituição em vida de Tupandactylus, arte de Márcio Castro.
Reconstituição em vida de Tupandactylus, arte de Márcio Castro.

O estudo foi publicado hoje em uma das revistas científicas do prestigioso grupo Nature, a Scientific Reports, e inclui pesquisadores diversos países, liderados pelos paleontólogos brasileiros Felipe Pinheiro, da Universidade Federal do Pampa (Unipampa, Rio Grande do Sul) e o doutorando Gustavo Prado, da Universidade de São Paulo (USP, São Paulo).

“Isso ainda √© muito¬†distante Jurassic Park”, lembram os pesquisadores, mas o fato de encontrar uma mol√©cula biol√≥gica t√£o bem preservada j√° √© uma grande descoberta, que nos possibilita entender melhor como eram esses organismos do passado.

O f√≥ssil de r√©ptil voador analisado pertence a um¬†Tupandactylus, um pterossauro de tamanho m√©dio, com cerca de 3 metros de envergadura e que tinha uma crista bem alta na cabe√ßa. Ele viveu no sul do Cear√°, na regi√£o do Araripe, quando¬†toda essa √°rea era¬†coberta por uma extensa¬†laguna, durante a primeira metade do Per√≠odo Cret√°ceo, h√° cerca de 110 milh√Ķes de anos.

O estudo também contou com a participação de pesquisadores do Japão e dos Estados Unidos. Trata-se da mais completa caracterização química de uma biomolécula fossilizada em um réptil.

‚ÄúEmbora sempre soub√©ssemos que os f√≥sseis encontrados na regi√£o da Chapada do Araripe eram especiais em termos de preserva√ß√£o, foi uma surpresa quando as an√°lises qu√≠micas mostraram que a melanina do bicho ainda estava l√°. Parece que o pterossauro morreu ontem‚ÄĚ, relata Felipe Pinheiro, paleont√≥logo da Unipampa.

Vários fósseis de Tupandactylus já foram descobertos na Chapada do Araripe. Porém, este preservou muito bem a crista do animal, o que levou os pesquisadores a quererem analisá-la mais de perto. A crista enorme, em forma de vela, provavelmente era utilizada, entre outras coisas, para atrair parceiros. Foi dela que os cientistas extraíram o pigmento.

Imagem do artigo monstrando os pontos amostrados no fóssil.

‚ÄúA melanina √© uma das mol√©culas mais resistentes aos processos de fossiliza√ß√£o. Enquanto os outros compostos s√£o degradados com o passar do tempo, esse pigmento resiste de forma mais ou menos intacta‚ÄĚ, explica Gustavo Prado, que √© especialista em pigmentos fossilizados.

Imagem do artigo, mostrando os corp√ļsculos esf√©ricos presentes no f√≥ssil, que conteriam a melanina.
Imagem do artigo, mostrando os corp√ļsculos esf√©ricos presentes no f√≥ssil, que conteriam a melanina.

Agora, a pergunta que não quer calar: Com essa molécula preservada, foi possível identificar a cor do animal?

Os cientistas que assinam o estudo s√£o¬†bastante c√©ticos: ‚Äú√Č complicado‚ÄĚ, diz Pinheiro. ‚ÄúS√£o muitos fatores envolvidos na colora√ß√£o de um animal, e a melanina √© s√≥ um deles‚ÄĚ. Estudos anteriores reconstru√≠ram a cor de aves e dinossauros com base na forma dos melanossomos, organelas respons√°veis por armazenar melanina. A ideia √© que o formato dos melanossomos poderia indicar a colora√ß√£o. A caracteriza√ß√£o qu√≠mica da melanina do Tupandactylus mostrou que n√£o √© bem assim. ‚ÄúN√£o encontramos correla√ß√£o entre o formato dos melanossomos e o tipo de melanina identificada no pterossauro‚ÄĚ, diz Gustavo Prado.

O novo estudo, portanto, desafia as inferências de coloração realizadas para organismos fósseis até então. Será necessário rever essa possibilidade e, à luz das novas descobertas, aperfeiçoá-la.

O grupo de pesquisadores continua investigando a preserva√ß√£o excepcional de f√≥sseis da Chapada do Araripe, e afirmam que v√°rias novidades ainda est√£o por vir. ‚ÄúAos poucos ficamos cada vez mais pr√≥ximos desses animais incr√≠veis‚ÄĚ, diz Pinheiro.

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O trabalho completo está disponível em www.nature.com/articles/s41598-019-52318-y

O estudo foi financiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES).