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Em Busca do Permiano (Parte 3) – A raiz dos ecossistemas modernos

Acompanhe a expedi√ß√£o Piau√≠-Maranh√£o 2013 em busca de f√≥sseis de vertebrados permianos no nordeste brasileiro. A expedi√ß√£o faz parte de um extenso projeto¬†realizado por um conv√™nio de institui√ß√Ķes do mundo todo, mas com base na Universidade Federal do Piau√≠.

Nessa terceira parte, Dr. Juan Cisneros fala sobre a import√Ęncia dos estudos sobre o Permiano para compreens√£o da evolu√ß√£o dos sistemas ecol√≥gicos terrestres. Os ecossistemas modernos teriam sua raiz h√° mais de 290 milh√Ķes de anos!

Acompanhe as outras partes desse document√°rio AQUI.

O Misterioso Monstro de Tully

Não tão famoso mundialmente quanto o Monstro do Lago Ness, mas pelo menos, muito melhor documentado.

O Misterioso Monstro de Tully ¬†(e suas li√ß√Ķes para Paleontologia):

Diferente do lendário monstro escocês, o Monstro de Tully é um fato. 

Encontrado unicamente na região de Illinois, Estados Unidos, a criatura bizarra acabou por tornar-se símbolo desse Estado americano.

O tal monstro desafia a literatura da zoologia de invertebrados:

Trata-se de uma criatura de corpo mole, fusiforme, segmentado¬†e com um longo rostrum, que mais se assemelha a uma tromba. Essa ‘tromba’ √© coroada por uma boca em pin√ßa, com duas estruturas em formato de ‘garras’. Dois prolongamentos com fun√ß√£o desconhecida se projetam lateralmente da sua parte ventral, assim como um achatamento e alargamento lateral de sua regi√£o posterior¬†formam de uma esp√©cie de “nadadeira”.

Os maiores exemplares n√£o ultrapassam 35 cm de comprimento, e o¬†mais interessante:¬†nenhuma outra criatura viva ou f√≥ssil¬†j√° encontrada se assemelha a esse animal…

Afinal:

O QUE √Č O MONSTRO DE TULLY??

 

E PORQUE “MONSTRO“??

 

Sem p√Ęnico. Eles n√£o s√£o criaturas sugadoras de c√©rebros ou devoradores de carne rastejantes e asquerosos.¬†Apesar do nome e de sua descri√ß√£o levarem a uma quase imediata associa√ß√£o aos filmes trash de monstros dos anos 70 e 80…

O “Monstro de Tully”, na verdade, √© conhecido somente por meio de f√≥sseis.

Pois √©, n√£o fique t√£o decepcionado…

A foto acima n√£o passa de uma brincadeira. Uma brincadeira muito bem bolada, devo admitir!

O autor da pegadinha √© Bryan Patterson, ent√£o professor da Universidade de Havard, que enviou¬†esta foto¬†ao colega Eugene Richardson, do¬†Field Museum of Natural History,¬†no Natal de 1968. A foto vinha com a seguinte legenda: “O fim da ca√ßada”.

A gra√ßa da brincadeira estava no ar de mist√©rio que ent√£o envolvia os f√≥sseis apelidados de “Monstros de Tully”:¬†Ningu√©m fazia a menor¬†ideia¬†do que ele se tratava.

Eugene foi quem apresentou à Bryan esta criatura pela primeira vez.

Bryan ficou t√£o impressionado e intrigado com o animal misterioso, que resolveu pregar uma pe√ßa no colega. Inventou uma fantasiosa hist√≥ria sobre estranhos¬†“vermes dan√ßantes” em Turkana, na √Āfrica, que tratar-se-iam de criaturas¬†muito semelhantes ao tal “Monstro de Tully”…por√©m ainda viventes.

A história do fóssil era tão problemática, que a possibilidade de existirem animais viventes aparentados seria simplesmente fantástica! Porém, foi tudo uma brincadeira. A foto criada por Patterson representaria o registro de uma bem sucedida caçada ao animal fantasioso.

A descoberta do monstro

Mr. Francis Tully e seu ‘monstro’

Descobertos no final da década de 1950 por Francis Tully em uma mina próxima a Braidwood, Estado de Illinois, os fósseis desse estranho animal deixaram perplexos os pesquisadores da época. Aparentemente abundantes no registro local, mas distintos de qualquer outro ser vivente ou fóssil conhecido até então, não havia como estabelecer qualquer  afinidade para a criatura.

Perante o mist√©rio que envolvia o animal, ele foi apelidado de “Mr. Tully’s Monster” e depois, batizado formalmente por Eugene Richardson como Tullimonstrum gregarium,¬†uma forma latinizada do apelido informal recebido anteriormente (“gregarium” significando “comum”).

Aparentemente encontrado √ļnica e exclusivamente no¬†Estado de Illinois (EUA),¬†Tullimonstrum¬†prov√©m de dep√≥sitos estuarinos com idades de¬†300 milh√Ķes de anos (Per√≠odo Carbon√≠fero).¬†–> Nessa √©poca, por exemplo,¬†os vertebrados encontravam-se ainda no in√≠cio de sua conquista do ambiente terrestre e enormes florestas de samambaias e licop√≥dios prosperavam ao redor do mundo.Estas imensas florestas, que viriam a formar as nossas mais ricas reservas de carv√£o mineral.

Uma excepcional preservação

Os f√≥sseis de Tullimonstrum¬†foram preservados de uma maneira muito especial.¬†Animais de corpo mole¬†s√£o raros no registro fossil√≠fero,¬†enquanto que partes duras, mineralizadas (como conchas, ossos, escamas e dentes) s√£o mais recorrentes porque resistem mais facilmente aos processos tafon√īmicos (i.e. necrofagia, decomposi√ß√£o, desarticula√ß√£o, sepultamento, etc.). Ent√£o o que pode ter havido com os f√≥sseis de Tullimonstrum?

Tullimonstrum pertence a uma famosa assembléia fóssilífera de animais de corpo mole e plantas muito bem preservados provenientes de uma unidade conhecida como como Mazon Creek. Devido a qualidade excepcional de seus fósseis, Mazon Creek é considerada um Konservat-lagerstätte (clique aqui e leia mais sobre isso).

Condi√ß√Ķes qu√≠micas especiais no ambiente de fossiliza√ß√£o √© que favoreceram a preserva√ß√£o detalhada de tantas plantas e invertebrados. √ćons dissolvidos na √°gua salgada reagiam com a lama e a mat√©ria org√Ęnica dando in√≠cio a forma√ß√£o de um n√≥dulo ao redor dos corpos sepultados de organismos (Veja a foto a seguir). Foram esses n√≥dulos, compostos de siderita, que ajudaram na preserva√ß√£o do registro da vida antiga. Hoje eles s√£o encontrados entremeados em um pacote de folhelho, que apresenta entre 25 e 30 metros de espessura e √© recoberto por uma valiosa camada de carv√£o.

Tulimonstrum, molde e contra-molde

Esquesitice inigual√°vel

Sem d√ļvida,¬†Tullimonstrum¬†√© o maior¬†incertae sedis¬†at√© hoje. Mesmo depois de d√©cadas desde o seu descobrimento e milhares de exemplares bem preservados terem sido coletados, n√£o foi poss√≠vel reconhecer qualquer car√°ter compartilhado com filos modernos. Semelhan√ßas, todavia, j√° foram observadas em f√≥sseis de idade Cambriana, como Opabinia* e Vetustovermis,¬†por√©m tais apontamentos n√£o passaram de especula√ß√Ķes at√© agora. Nenhum estudo se aprofundou nessa quest√£o.

Sua bizarrice √© tamanha, que tornou-se carism√°tica. Acabou por virar uma lenda da Paleontologia. Trata-se de um dos principais exemplos sobre as mais diversas e¬†exc√™ntricas¬†experimenta√ß√Ķes da vida durante sua radia√ß√£o e evolu√ß√£o no planeta. Quantos grupos de organismos n√£o terminaram em uma um “beco sem sa√≠da” como o Tullimonstrum? Seria ele um dos √ļltimos raros sobreviventes de um filo de origem Cambriana?

As li√ß√Ķes do monstro

O monstrinho de Tully nos deixa algumas li√ß√Ķes:

A Paleontologia é sempre cheia de lacunas. Principalmente  aquela que estuda os invertebrados.

Temos que lembrar, que o registro f√≥ssil √© descont√≠nuo!¬†Tanto no tempo, quanto no espa√ßo… e que, al√©m disso, e talvez PRINCIPALMENTE, sofre um desvio brutal por aquilo que chamamos de processos tafon√īmicos (leia mais sobre isso AQUI¬†e¬†AQUI¬†***). Esses, muito mais cru√©is com os pobres animais de corpo mole….

O que conhecemos por meio dos fósseis hoje, é apenas a pontinha de um gigantesco iceberg de tudo que já existiu.

Se as afinidades mais pr√≥ximas de Tullimonstrum realmente forem com criaturas de idade Cambriana, pelo menos mais de 210 milh√Ķes de anos de hist√≥ria desse grupo de animais se passou sem que um √ļnico f√≥ssil de um representante de sua linhagem fosse preservado.

√Č bem prov√°vel que nunca teremos conhecimento de uma imensa quantidade de p√°ginas da hist√≥ria da vida e √© um fato, que milhares de personagens se perderam para sempre. No meio dessa hist√≥ria, o monstro de Tully vai continuar sendo um mist√©rio… at√© que a pr√≥xima pe√ßa do quebra-cabe√ßa seja revelada.

Referências

Johnson, R.G, and Richardson, E.G. 1969. Pennsylvanian invertebrates of the Mazon Creek area, Illinois: The morphology and affinities ofTullimonstrum. Fieldiana: Geology¬† 12 (8): 119‚Äď149.
Nash E.G. 1968.  The quest for the dancing worm. Bulletin of the Field Museum of Natural History 39(4): cover + 4-6http://archive.org/details/cbarchive_107413_thequestforthedancingworm1966
Richardson, E.G. 1966. Wormlike Fossil from the Pennsylvanian of Illinois. Science 151(3706): 75-76
Richardson, E.S. The tully monster. Bulletin of the Field Museum of Natural History 37(7): cover + 4-6.  July 1966 <http://archive.org/details/bulletin37312fiel>