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A separação dos continentes em uma visão histórica

Texto por M√°rio G. F. Esperan√ßa J√ļnior

As paisagens que reconhecemos √† nossa volta possuem uma hist√≥ria bastante din√Ęmica. Por exemplo: rios mudam de curso, lagos secam, mares retraem e avan√ßam sobre os continentes… Em um intervalo de tempo mais amplo, montanhas s√£o formadas e erodidas, oceanos se fecham, novas esp√©cies de organismos surgem enquanto outras s√£o extintas. Evid√™ncias geol√≥gicas mostram que esses processos s√£o recorrentes e se sucederam por todo o planeta desde seus prim√≥rdios.

No sul do Brasil, afloram rochas do per√≠odo Permiano, intervalo que compreende de 298 a 252 milh√Ķes de anos atr√°s. Essas rochas s√£o ricas em f√≥sseis da extinta Flora Glossopteris, plantas as quais tamb√©m s√£o encontradas em dep√≥sitos sedimentares da √Āfrica, Ant√°rtida, Austr√°lia e √ćndia. Atualmente, estas regi√Ķes est√£o separadas por extensos oceanos, que s√£o barreiras intranspon√≠veis para grande parte dos organismos terrestres, incluindo as plantas. Sendo assim, pode-se deduzir que tais √°reas estiveram unidas durante o Permiano, e mais tarde se afastaram at√© chegarem em suas localiza√ß√Ķes atuais. Dessa forma, as floras e faunas que antigamente colonizaram regi√Ķes cont√≠guas, passaram a ser encontradas na forma de f√≥sseis em lugares distantes.

A evolu√ß√£o desse pensamento cient√≠fico levou muitos anos at√© chegar aos moldes que hoje conhecemos. Mas para entendermos a sucess√£o dos fatos que nos levam a resposta acerca de tais semelhan√ßas fossil√≠feras, precisamos voltar alguns s√©culos atr√°s…

As primeiras ideias

Com a chegada dos europeus ao continente americano no s√©culo XV e com a confec√ß√£o dos primeiros mapas em escala global, notou-se que a costa oeste da √Āfrica e leste da Am√©rica do Sul possuem contornos semelhantes, assim sugerindo que tais continentes estivessem em algum momento unidos. √Äquela √©poca, contudo, perduravam as ideias b√≠blicas de que a Terra seria jovem, e o conhecimento cient√≠fico limitava-se √† observa√ß√£o direta do meio devido √† aus√™ncia de tecnologia capaz de comprovar tais fen√īmenos. Somente no s√©culo XVII √© que surgiram as primeiras evid√™ncias acerca de uma idade para a Terra. Ao observar intrus√Ķes de granitos, bem como o ciclo de eros√£o e deposi√ß√£o de sedimentos, o naturalista escoc√™s James Hutton deduziu que havia muito tempo envolvido nesses processos, concluindo que a Terra seria muito antiga, ‚Äúsem vest√≠gio de um come√ßo, nem perspectiva de um fim‚ÄĚ (Hutton, 1788). D√©cadas mais tarde, o matem√°tico irland√™s Lord Kelvin calculou a idade do planeta, que estaria entre 20 e 400 milh√Ķes de anos, dado o presente equil√≠brio t√©rmico e fluxo de calor da superf√≠cie. Esse c√°lculo foi posteriormente refinado, mas somente no final do s√©culo XIX, com a descoberta da radioatividade por Henri Becquerel e o subsequente desenvolvimento das t√©cnicas de data√ß√£o radiom√©tricas, √© que se chegou √† atual idade de 4,56 bilh√Ķes de anos. Essa escala de tempo √© grande o suficiente para explicar processos naturais muito lentos para a humanidade, por√©m recorrentes na hist√≥ria da Terra.

A comprova√ß√£o da exist√™ncia de um tempo profundo talvez tenha sido um dos principais fatores para o estabelecimento de uma teoria que explicasse o encaixe dos continentes percebido s√©culos antes. Tais ideias foram fomentadas no in√≠cio do s√©culo XX com o trabalho do ge√≥logo austr√≠aco Eduard Suess (Fig. 1), ao notar a presen√ßa das folhas f√≥sseis do tipo Glossopteris na Am√©rica do Sul, √Āfrica e √ćndia. A coocorr√™ncia das mesmas plantas em √°reas distantes e separadas por oceanos √© um indicativo de que essas massas de terra j√° estiveram conectadas, por fim denominando essa antiga regi√£o como Terra de Gondwana (Suess, 1885). A fim de explicar tal observa√ß√£o, Suess deduziu que o resfriamento do planeta causaria o adensamento de certas √°reas que consequentemente afundariam formando os oceanos. Entre essas regi√Ķes, haveria pontes de terra permitindo o interc√Ęmbio da fauna e flora, sendo que estas conex√Ķes mais tarde submergiriam resultando no padr√£o geogr√°fico atual. Essa teoria, no entanto, n√£o foi bem aceita por n√£o existirem evid√™ncias f√≠sicas de tais fen√īmenos. Nos anos subsequentes, propuseram-se, ainda, que uma massa de terra prim√°ria poderia ter sido partida em continentes menores devido √† expans√£o volum√©trica do planeta (Mantovani, 1889), e tamb√©m que a movimenta√ß√£o das mesmas seria fruto da for√ßa das mar√©s ‚Äď hip√≥teses que foram rejeitadas por f√≠sicos e matem√°ticos.

Fig. 1. Autores de importantes trabalhos na construção da geologia moderna. Da esquerda para a direita: James Hutton, Eduard Suess, Alfred Wegener, Arthur Holmes e John Tuzo Wilson. Modificado de commons.wikimedia.org.

Foi assim que, em 1915, o meteorologista alem√£o Alfred Wegener prop√īs que as massas continentais outrora estivessem amalgamadas no supercontinente Pangeia (Fig. 2), dadas semelhan√ßas n√£o somente entre os f√≥sseis, mas tamb√©m com as rochas e estruturas geol√≥gicas encontradas nos dois lados do Atl√Ęntico (Wood, 1980). Por exemplo, a presen√ßa de f√≥sseis de Mesossauros, antigos r√©pteis marinhos encontrados na Am√©rica do Sul e √Āfrica, tamb√©m apontavam para tal proximidade. Al√©m disso, a ampla presen√ßa de rochas glaciais, denominadas de tilitos, sugeria uma uni√£o de diversas √°reas pr√≥ximo ao polo sul. Com essas e outras evid√™ncias, prop√īs-se a teoria do afastamento, ou deriva dos continentes, fen√īmeno que seria decorrente da rota√ß√£o da Terra (Wegener, 1915). Contudo, a explica√ß√£o de Wegener sobre o motor respons√°vel pela deriva n√£o foi bem aceita pela comunidade cient√≠fica. O verdadeiro mecanismo respons√°vel pela afastamento dos continentes s√≥ foi estabelecido anos mais tarde pelo ge√≥logo ingl√™s Arthur Holmes. Conforme a ideia apresentada, existiriam fluxos convectivos verticais abaixo dos continentes, constantemente alimentados pelo calor gerado por elementos radioativos do interior da Terra. Tais fluxos arrastariam as massas continentais continuadamente, ocasionando na forma√ß√£o de assoalho oce√Ęnico nas regi√Ķes em que as correntes quentes sobem, e na cria√ß√£o de montanhas na borda em que o fluxo frio desce (Holmes, 1931). Entretanto, as evid√™ncias do processo descrito por Holmes surgiram somente anos depois com a amplia√ß√£o do conhecimento sobre o fundo oce√Ęnico.

Fig. 2. Configuração atual dos continentes (à esquerda) e uma definição atualística da Pangeia durante o período Permiano, com os contornos dos continentes modernos (à direita).
 

Nesse sentido, o conhecimento a respeito da Dorsal Mesoatl√Ęntica exerceu um papel fundamental no entendimento da deriva continental. Esta cadeia de montanhas submarina foi inicialmente identificada em 1872, em uma expedi√ß√£o liderada pelo naturalista escoc√™s Charles W. Thomson com o objetivo de investigar a √°rea por onde passariam cabos submarinos de tel√©grafo, ligando a Europa √† Am√©rica do Norte. Mas foi somente ap√≥s a Segunda Guerra Mundial que realmente se intensificaram as pesquisas sobre o assoalho marinho, o que incluiu os primeiros mapeamentos do fundo oce√Ęnico realizados por sonar (Heezen et al., 1959). Com isso, constatou-se que a Dorsal Mesoatl√Ęntica, em quase sua totalidade, inclui um vale em rifte ‚Äď regi√Ķes de vulcanismo intenso em que terremotos s√£o frequentes. Al√©m disso, data√ß√Ķes do assoalho marinho mostraram que o mesmo √© composto por rochas vulc√Ęnicas jovens. Dessa maneira, a forma√ß√£o da litosfera oce√Ęnica √© o resultado da atividade vulc√Ęnica recente desses riftes, que pouco a pouco afastam por√ß√Ķes mais antigas, expandindo o oceano (Heezen, 1960; Dietz, 1961). Assim, ao menos parte das ideias de Holmes j√° possu√≠a alguma comprova√ß√£o no in√≠cio da d√©cada de 60.

O nascimento de uma teoria unificadora

No entanto, existia uma interessante quest√£o em aberto: j√° que o assoalho dos oceanos √© criado ao longo das dorsais, haveria algum mecanismo capaz de destru√≠-lo? Com o avan√ßo do mapeamento do fundo marinho durante a d√©cada de 60, o ge√≥logo canadense John Tuzo Wilson constatou que certas falhas geol√≥gicas, dorsais e fossas submarinas se interconectam formando grandes placas. Assim, a litosfera seria dividida em diversas placas r√≠gidas que se movimentam e submergem sob os arcos vulc√Ęnicos ao envelhecerem e resfriarem. √Ä medida que o oceano √© destru√≠do, os continentes circundantes se aproximam e eventualmente colidem formando cadeias de montanhas, a exemplo dos Himalaias (Wilson, 1963; 1965; 1966). Dessa forma, a abertura e fechamento dos oceanos seria um encadeamento c√≠clico, e portanto, repetitivo ao longo da hist√≥ria da Terra (Fig. 3). Mais tarde, esse processo foi denominado, em sua homenagem, de Ciclo de Wilson ‚Äď uma importante contribui√ß√£o ao que hoje conhecemos por Teoria da Tect√īnica de Placas (Fig. 4).

Fig. 3. O Ciclo de Wilson. 1 ‚Äď Desenvolvimento de rifte sobre um continente est√°vel; 2 ‚Äď Com a continuidade do processo, surge um oceano com uma dorsal entre duas massas de terra; 3 ‚Äď O oceano se expande afastando os continentes; 4 ‚Äď A litosfera oce√Ęnica esfria e adensa, afundando na astenosfera e resultando numa fossa adjacente a um arco vulc√Ęnico; 5 ‚Äď O oceano √© consumido, reaproximando os continentes; 6 ‚Äď Os continentes colidem formando uma √ļnica massa de terra com uma cadeia montanhosa; 7 ‚Äď As montanhas s√£o erodidas.

Atualmente, o avan√ßo tecnol√≥gico permite inferir temperaturas para o interior da Terra atrav√©s de tomografia s√≠smica. Com isso, comprovou-se a exist√™ncia de regi√Ķes quentes pr√≥ximas √†s dorsais, enquanto que as temperaturas s√£o mais baixas onde antigas placas oce√Ęnicas afundaram. Essa ascens√£o de material quente e descida de rochas frias demonstra o processo de convec√ß√£o proposto por Holmes no come√ßo do s√©culo passado. O desenvolvimento da tecnologia permitiu, tamb√©m, mensurar com grande precis√£o a taxa de afastamento dos continentes (e portanto, a taxa de expans√£o do assoalho oce√Ęnico). No caso do Atl√Ęntico, o afastamento varia de 1,8 cent√≠metro por ano, pr√≥ximo √† Isl√Ęndia; at√© 3,5 cent√≠metros ao ano, entre o Brasil e o sul da √Āfrica (Grotzinger e Jordan, 2013), velocidades realmente lentas para a percep√ß√£o da humanidade. Entretanto, dist√Ęncias consider√°veis podem ser alcan√ßadas, levando-se em considera√ß√£o o amplo intervalo de tempo que compreende a fascinante hist√≥ria da Terra.

Fig. 4. As placas tect√īnicas e alguns exemplos dos est√°gios do Ciclo de Wilson (conforme fig. 3). 1 ‚Äď Grande Vale do Rifte (√Āfrica); 2 ‚Äď Mar do Jap√£o; 3 ‚Äď Oceano Atl√Ęntico (fotografia da por√ß√£o emersa da Dorsal Mesoatl√Ęntica, Isl√Ęndia); 4 ‚Äď Andes (Vulc√£o El Cotopaxi, Equador); 5 ‚Äď Mar Mediterr√Ęneo; 6 ‚Äď Himalaias (√Āsia); 7 ‚Äď Eur√°sia central. Modificado de commons.wikimedia.org (autores: √Üvar Arnfj√∂r√į Bjarmason, peterhartree, David Ceballos, Shivam Maini).

Referências

Dietz, R.S. 1961. Continent and ocean-basin evolution by spreading of the sea floor. Nature 190, 854-857.

Grotzinger J., Jordan T.H. 2013. Para entender a Terra. 6. ed. Porto Alegre: Bookman.

Heezen, B.C., Tharp, M., Ewing, M. 1959. The floors of the ocean, I. The North Atlantic. Geological Society of America, Special Paper 65.

Heezen, B.C. 1960. The rift in the ocean floor. Scientific American 203, 98-110.

Holmes, A. 1931. XVIII. Radioactivity and Earth Movements. Transactions of the Geological Society of Glasgow 18(3), 559‚Äď606.

Hutton, J. 1788. X. Theory of the Earth; or an Investigation of the Laws observable in the Composition, Dissolution, and Restoration of Land upon the Globe. Earth and Environmental Science Transactions of The Royal Society of Edinburgh 1(2), 209 ‚Äď 304.

Mantovani, R. 1889. Les fractures de l’√©corce terrestre et la th√©orie de Laplace. Bulletin de la Soci√©t√© des sciences et arts de l’Ile de la R√©union, 41‚Äď53.

Suess, E. Das Antlitz der Erde. 1885. Leipzig: Freytag.

Wegener, A. 1915. Die Entstehung der Kontinente und Ozeane. Braunschweig: Vieweg.

Wilson, J.T. 1963. A possible origin of the Hawaiian islands. Canadian Journal of Physics 41, 863-870.

Wilson, J.T. 1965. A new class of faults and their bearing on continental drift. Nature 207, 343-347.

Wilson, J.T. 1966. Did the Atlantic close and then re-open? Nature 211, 676-681.

Wood, R.M. 1980. Coming Apart at the Seams. New Scientist 85, 252-254.

Krakatoa em atividade: é o fim do mundo?

Texto de Letícia Freitas Guimarães

A erup√ß√£o do Anak Krakatau na noite de 10 de abril causou alvoro√ßo nas redes sociais. Not√≠cias falsas, alarmistas, v√≠deos de erup√ß√Ķes passadas e at√© apofenia astrol√≥gica inundaram as redes. Mas por que esta erup√ß√£o n√£o deveria nos espantar?

O Anak Krakatoa (Anak Krakatau, em Indon√©sio) localiza-se no estreito de Sunda, entre as Ilhas de Sumatra e Java, uma regi√£o com centenas de vulc√Ķes ativos relacionados √† intera√ß√£o entre as placas tect√īnicas Australiana e de Sunda (Figura 1). Este sistema faz parte do chamado C√≠rculo de Fogo do Pac√≠fico, uma regi√£o geologicamente muito ativa, que se estende por cerca de 40.000 km e √© delimitada por zonas de converg√™ncia de placas tect√īnicas (Figura 2). Cerca de 75% dos vulc√Ķes ativos e 90% dos terremotos do planeta est√£o localizados nesta √°rea. N√£o √© de se espantar, ent√£o, que o Anak Krakatau seja um dos vulc√Ķes mais ativos do mundo.

Figura 1 – Imagem do Google Earth mostrando a localiza√ß√£o do vulc√£o Anak Krakatau (destacado no c√≠rculo rosado) e alguns outros vulc√Ķes do arco magm√°tico de Sunda, relacionado √† subduc√ß√£o da Placa Australiana sob a Placa de Sunda (linha dentada amarela). A velocidade do deslocamento da Placa Australiana √© informada pelas setas brancas.
Figura 2 – Mapa esquem√°tico com as principais fei√ß√Ķes geol√≥gicas relacionadas ao C√≠rculo de Fogo do Pac√≠fico.

As erup√ß√Ķes mais antigas registradas em observa√ß√Ķes hist√≥ricas do sistema vulc√Ęnico de Krakatau datam do ano de 250 e, desde ent√£o, este sistema apresenta-se bastante ativo, alternando fases efusivas, isto √©, com derramamento de lava, e fases explosivas, com erup√ß√Ķes freatomagm√°ticas, fluxos pirocl√°sticos e queda de cinzas (veja o Gloss√°rio no final do texto para ficar por dentro dos termos da vulcanologia).

A maior erup√ß√£o deste sistema ocorreu em 1883, com um √≠ndice de explosividade vulc√Ęnica (VEI) igual a 6 (de uma escala vai at√© 8). Para se ter uma id√©ia da grandiosidade deste evento de 1883 em compara√ß√£o a outros importantes eventos eruptivos do mundo veja a Figura 4b. Durante o evento de 1883, o estratovulc√£o Krakatau chegou a ter tr√™s condutos ativos, ou seja, tr√™s aberturas na superf√≠cie durante sua fase mais violenta (chamada de fase paroxysmal) e, ap√≥s tr√™s meses deste cl√≠max, o edif√≠cio vulc√Ęnico colapsou. Este colapso gerou um enorme fluxo pirocl√°stico que, ao atingir o oceano, gerou tsunamis nas costas de Sumatra e Java, matando mais de 36 mil pessoas. Alguns anos depois, dentro da caldeira formada pelo colapso do Krakatau, surgiu o cone vulc√Ęnico batizado de Anak Krakatau (filho de Krakatau, em indon√©sio), ativo desde 1927.

Figura 3 – Sequ√™ncia de fotos de atividades hist√≥ricas do vulc√£o Anak Krakatau. A) Erup√ß√£o freatomagm√°tica de 1927; B) Erup√ß√£o freatomagm√°tica de 1930; C) Atividade eruptiva de 1979,  incluiu fase explosiva (coluna eruptiva observada na foto) e fase efusiva (derrames de lava); D) Atividade fumar√≥lica em 1979. Os derrames de lava de colora√ß√£o negra no canto direito inferior na foto s√£o de 1975. As fotos A, B e D s√£o do Servi√ßo Vulcanol√≥gico da Indon√©sia (VSI) e a foto C √© de Katia e Maurice Krafft.
Figura 4 – A) Maior erup√ß√£o j√° ocorrida no Krakatau, em 1883. Foto cortesia da fam√≠lia de R. Breon; B) Diagrama comparativo entre os volumes de material vulc√Ęnico ejetado pelos grandes eventos eruptivos da hist√≥ria da Terra. A erup√ß√£o de 1883 do Krakatau corresponde ao cubo amarelo.

As imagens que circularam na internet no dia 11 de abril correspondem, em sua maioria, √† erup√ß√£o de dezembro de 2018. Este evento correspondeu a uma erup√ß√£o do tipo Vulcaniana de VEI 3, que gerou uma coluna eruptiva de 15 km de altura e um novo colapso do edif√≠cio vulc√Ęnico que, de novo, gerou tsunamis nas ilhas de Sumatra e Java, vitimizando mais de 400 pessoas. O sistema vulc√Ęnico mant√©m-se ativo desde ent√£o, com intermitente atividade s√≠smica (terremotos), fumar√≥lica e erup√ß√Ķes explosivas. A figura 5 apresenta uma sequ√™ncia de imagens das atividades registradas no Anak Krakatau desde o final de 2018 at√© o come√ßo de 2020. Nelas √© poss√≠vel ver a varia√ß√£o no relevo causada pelo colapso do edif√≠cio vulc√Ęnico em decorr√™ncia da erup√ß√£o de 22 de dezembro de 2018.

Dentre as diversas erup√ß√Ķes do Anak Krakatau em 2020, a erup√ß√£o de 10 de abril (figura 6) foi apenas mais uma dentro deste per√≠odo de atividades. Ela correspondeu √† uma erup√ß√£o do tipo Stromboliana (tipo de erup√ß√£o de explosividade moderada), com coluna eruptiva que atingiu cerca de 500 m de altura. Segundo informa√ß√Ķes de Servi√ßo Vulcanol√≥gico da Indon√©sia:

“…os gases emitidos comp√Ķem-se majoritariamente de vapor d‚Äô√°gua, os terremotos e deforma√ß√£o no solo s√£o insignificantes, indicando que ainda existe suprimento de material magm√°tico em reservat√≥rios rasos e n√£o h√° altera√ß√£o (aumento) de amea√ßas“.

A Instituição manteve o alerta de risco no nível II de uma escala que varia de I a IV, sendo IV o nível de maior risco. O acesso em um raio de 2 km do vulcão está proibido por enquanto.

Figura 5 – A) Sequ√™ncia de fotos mostrando a atividade vulc√Ęnica e a varia√ß√£o do relevo do Krakatau entre Dezembro de 2018 e Janeiro de 2019. B) Vista do Krakatau em Outubro de 2018. O sombreado vermelho corresponde √† forma do vulc√£o em Novembro de 2019, ap√≥s o colapso do edif√≠cio vulc√Ęnico em decorr√™ncia da erup√ß√£o de 22 de dezembro de 2018. C) Imagem do GFZ Potsdam mostrando o formato do Krakatau ap√≥s a erup√ß√£o de 22 de dezembro de 2018. A linha tracejada preta mostra a antiga forma do edif√≠cio vulc√Ęnico enquanto a linha tracejada branca indica o plano de deslizamento do edif√≠cio durante o colapso.
Figura 6 РImagens do Serviço Vulcanológico da Indonésia (VSI) da erupção da noite de 10 de abril de 2020.

Outros vulc√Ķes tamb√©m encontram-se em atividade na regi√£o, como o Karangetang, Merapi, Kerinci, Sangeang Api, Semeru, Ibu e o Dukono. Alguns destes vulc√Ķes (como o Merapi, o Kerinci e o Sangeang Api) est√£o relacionados ao arco vulc√Ęnico de Sunda, o mesmo arco vulc√Ęnico onde se localiza o Anak Krakatau (representado na figura 1). Deste modo, a erup√ß√£o destes vulc√Ķes est√° associada, uma vez que a gera√ß√£o do magma que os alimenta deve-se ao mesmo processo geol√≥gico ocorrendo no mesmo contexto. O magma gerado em zonas vulc√Ęnicas √© armazenado em grandes reservat√≥rios chamados de c√Ęmaras magm√°ticas, que podem ter tamanho e forma bastante variados. Estes grandes reservat√≥rios s√£o significativamente mais volumosos do que sua express√£o em superf√≠cie (os vulc√Ķes). Em zonas de regime tect√īnico convergente (isto √©, onde as placas tect√īnicas se chocam) com forma√ß√£o de arcos vulc√Ęnicos, um mesmo reservat√≥rio/uma mesma c√Ęmara magm√°tica pode alimentar diferentes vulc√Ķes ou, ainda, diferentes reservat√≥rios podem estar interconectados. Processos de recarga do reservat√≥rio magm√°tico e abalos s√≠smicos s√£o alguns dos fatores que atuam como gatilhos de erup√ß√Ķes. Sendo tais processos recorrentes em regi√Ķes tectonicamente ativas, √© comum que diversos sistemas vulc√Ęnicos estejam ativos simultaneamente. O vulc√£o Karangetang localiza-se no arco Sangihe, enquanto que os vulc√Ķes Ibu e Dukono localizam-se no arco Halmahera. Embora n√£o estejam geneticamente vinculados aos vulc√Ķes do arco de Sunda, todos estes sistemas s√£o gerados pelo mesmo processo geol√≥gico, apenas ocorrendo em diferentes localidades. Que tal navegar pelo Google Earth e descobrir os v√°rios sistemas vulc√Ęnicos da regi√£o? Basta clicar AQUI.

GLOSS√ĀRIO GEOL√ďGICO E VULCANOL√ďGICO – Entenda os termos utilizados pelos vulcan√≥logos:

Arco vulc√Ęnico: cadeia de vulc√Ķes que pode se estender por centenas a milhares de quil√īmetros cuja forma√ß√£o est√° relacionada a uma zona de subduc√ß√£o. O arco se desenvolve acima desta zona e pode ser do tipo oce√Ęnico (onde ocorre intera√ß√£o entre duas placas oce√Ęnicas; ex: Ilhas Aleutas, Antilhas) ou continental (intera√ß√£o em margem continental onde uma placa oce√Ęnica, por ser mais densa, √© empurrada por debaixo de uma placa continental menos densa; ex: Andes)

Cone vulc√Ęnico: monte c√īnico √≠ngreme formado pela acumula√ß√£o de material vulc√Ęnico ejetado em (sucessivas) erup√ß√Ķes.

Dep√≥sito de queda de cinzas: dep√≥sitos formados pela queda de material vulc√Ęnico finamente particulado (cinzas vulc√Ęnicos). As cinzas s√£o ejetadas na atmosfera e, por serem pouco densas, sobrem formando uma coluna eruptiva que se dispersa.

Erupção freatomagmática: erupção explosiva que ocorre devido a interação do magma com água.

Erup√ß√£o Stromboliana: tipo eruptivo de explosividade moderada onde gases e ‚Äúco√°gulos‚ÄĚ de lava incandescente de baixa viscosidade s√£o ejetados. Recebe este nome por ser a erup√ß√£o t√≠pica do vulc√£o Stromboli, na It√°lia.

Erup√ß√£o Vulcaniana: tipo eruptivo de explosividade moderada a alta onde gases e cinzas vulc√Ęnicas s√£o ejetados e formam colunas eruptivas que se expandem rapidamente. Recebe este nome por ter sido primeiramente descrita na ilha de Vulcano, na It√°lia.

Estratovulc√£o: Cone vulc√Ęnico de relevo bastante √≠ngreme formado pela altern√Ęncia de, majoritariamente, dep√≥sitos pirocl√°sticos (provenientes de erup√ß√Ķes explosivas) e, subordinadamente, derrames de lava viscosa. A composi√ß√£o qu√≠mica destes dep√≥sitos pode variar, sendo as composi√ß√Ķes mais sil√≠cicas (mais viscosas) mais comuns. Comumente, o formato c√īnico torna-se mais √≠ngreme em dire√ß√£o ao cume, onde encontra-se uma cratera. Correspondem ao tipo mais comum de vulc√£o (cerca de 60% dos vulc√Ķes terrestres) e ocorrem principalmente nos limites convergentes de placas.

Fase paroxysmal: estágio mais violento (clímax) do ciclo eruptivo, no qual toda a cavidade da cratera encontra-se aberta, proferindo uma erupção particularmente violenta.

Fluxo Pirocl√°stico: produto mais perigoso e destrutivo do vulcanismo explosivo. Formam avalanches de gases e material vulc√Ęnico de tamanho variado (desde muito fino ‚Äď cinzas ‚Äď at√© blocos de rocha em escala m√©trica) que resultam em um fluxo de baixa viscosidade e altas temperaturas (podendo variar de 100¬įC a 700¬įC) que se move muito r√°pido

√ćndice de Explosividade Vulc√Ęnica (VEI): escala num√©rica (logar√≠tmica) que mede a explosividade de erup√ß√Ķes vulc√Ęnicas. Varia de 0 (eventos n√£o explosivos, menos de 10000 m3 de material vulc√Ęnico ejetado) a 8 (eventos muito grandes ou mega-colossais, com volume de material vulc√Ęnico ejetado superior a 1000 km3 e altura da coluna eruptiva acima de 25 km.

Zona de subduc√ß√£o: regi√£o de tect√īnica convergente onde uma placa (mais densa) √© empurrada por debaixo de outra.

Referências

https://volcano.si.edu/volcano.cfm?vn=262000

https://vsi.esdm.go.id/index.php/gunungapi/aktivitas-gunungapi/3038-press-release-aktivitas-gunungapi-anak-krakatau-11-april-2020

https://volcano.si.edu/gvp_currenteruptions.cfm


Let√≠cia Freitas Guimar√£es √© ge√≥loga, PhD em Petrologia pela Universidade de S√£o Paulo (USP). Desenvolveu sua pesquisa nas rochas vulc√Ęnicas sil√≠cicas da Prov√≠ncia Magm√°tica do Paran√°, trabalhando com an√°lises geoqu√≠micas e texturais quantitativas. Atualmente colabora na elabora√ß√£o de um ranking de risco vulc√Ęnico para os vulc√Ķes da Am√©rica Latina. √Č co-fundadora e diretora de rela√ß√Ķes acad√™micas na Associa√ß√£o Brasileira de Mulheres nas Geoci√™ncias (ABMGeo) e colabora na p√°gina de divulga√ß√£o cient√≠fica dos p√≥s-graduandos do IGc-USP (Instagram @divulgageologia).

Gostar√≠amos de agradecer sinceramente a Let√≠cia por ter disponibilizado o seu tempo e aceitado o convite de escrever para o nosso blog. Como voc√™s puderam ver, n√£o √© “o fim do mundo”… Pelo menos por enquanto ;).

Você conhece a Geomitologia?

Olá caros colecionadores! Hoje trago o texto do aluno Rodrigo Lima Veloso que cursa especialização em Geologia do Quaternário pelo Museu Nacional/UFRJ. Neste texto Rodrigo explica o que é Geomitologia e traz alguns exemplos de como essa ciência nos ajudou a compreender melhor os povos pretéritos.


Desde pequenos nós nos encantamos com histórias fantásticas de mitos e heróis, sejam da antiguidade ou de heróis de histórias atuais como nos livros de Harry Potter e Percy Jackson, que geralmente se baseiam em antigas lendas. Mas você já parou para pensar de onde vêm essas histórias?
Geomitologia foi o termo empregado pela primeira vez em 1968 pela ge√≥loga Dorothy Vitaliano (Figura 1) como sendo o estudo que tentava evidenciar algum tipo de rela√ß√£o entre os eventos geol√≥gicos e a mitologia. Esse estudo nos √ļltimos anos tem servido como base para se especular e procurar entender o tipo de rela√ß√£o que os humanos da antiguidade tinham com o ambiente ao seu redor e como o compreendiam.

Vitaliano
Figura 1: Foto de Dorothy Vitaliano. Fonte: Google Imagens.

Dentro das √°reas de estudo da geomitologia os f√≥sseis s√£o uma das principais evid√™ncias de como esses mitos podem ser mais bem contextualizados √† √©poca e compreendidos de forma mais completa por n√≥s atualmente. Muitos s√£o os exemplos destes vest√≠gios org√Ęnicos sendo coletados e interpretados durante toda a hist√≥ria da humanidade. Em seu livro ‚ÄúThe First Fossil Hunters‚ÄĚ (Figura 2), Adrianne Mayor relata diversas hist√≥rias que poderiam mostrar a intera√ß√£o seres humanos com f√≥sseis, sendo alguma delas datadas desde o Egito Antigo at√© o Imp√©rio Romano. Acredita-se que a rela√ß√£o desses povos com os f√≥sseis seja muito maior do que imagin√°vamos.
Mayor tem como foco de seu trabalho mostrar que as rela√ß√Ķes e a compreens√£o de alguns conceitos naturais que hoje compreendemos nem sempre foram t√£o deixados de lados pelos antigos povos que viveram a milhares de anos atr√°s como seria de se imaginar. Algumas ideias como a de extin√ß√£o de esp√©cies ou como a de Delos, que prop√īs a exist√™ncia de um ciclo natural cont√≠nuo de quase impercept√≠veis transgress√Ķes marinhas e forma√ß√Ķes de √°reas terrestres, s√£o surpreendentemente acuradas em rela√ß√£o ao que sabemos hoje e que sempre fomos levados a acreditar que eram entendimentos ‚Äúmodernos‚ÄĚ.
De acordo com Horner e Dobb (1997 apud Mayor, 2000), as popula√ß√Ķes antigas tinham uma percep√ß√£o maior do ambiente que as rodeava, e que a intera√ß√£o entre o fato e a imagina√ß√£o √© a chave para a verdadeira compreens√£o da mitologia que conhecemos hoje. Os antigos gregos e romanos, por exemplo, acreditavam que todas as esp√©cies estavam encolhendo porque eles encontravam ossos gigantes que n√£o condiziam com o tamanho de nenhum animal que lhes fosse conhecido.

Figura 2: Capa de ‚ÄúThe First Fossil Hunters‚ÄĚ de Adrienne Mayor, mostrando o que parece ser um cr√Ęnio f√≥ssil representado em uma pintura de um vaso.
Figura 2: Capa de ‚ÄúThe First Fossil Hunters‚ÄĚ de Adrienne Mayor, mostrando o que parece ser um cr√Ęnio f√≥ssil representado em uma pintura de um vaso.

A ideia de animais gigantes que haviam sido extintos de alguma maneira tamb√©m eram comuns, hist√≥rias como a das ‚ÄúNeades‚ÄĚ que falavam sobre monstros enormes que tinham habitado a regi√£o de Samos na Gr√©cia e que haviam sido engolidos pela Terra sem deixar nenhum vest√≠gio para tr√°s. A ilha de Samos na Gr√©cia √© um local onde ocorreram muitos terremotos e at√© hoje s√£o encontrados f√≥sseis como o do Samotherium por exemplo. Com isso fica f√°cil compreender de onde v√™m as ideias contr√°rias ao fixismo e mais do que isso, coincidentemente ou n√£o, chegam perto dos processos¬†tafom√īmicos pelos quais esses f√≥sseis passaram. Quando relacionadas, √†s informa√ß√Ķes a que temos acesso hoje e as lendas nos mostram que o poder de observa√ß√£o que indiv√≠duos tinham do mundo era muito grande
Por√©m, em alguns casos, os f√≥sseis influenciaram na descri√ß√£o de animais com os quais eles acreditavam coabitar a Terra. Atualmente, o caso mais famoso √© o dos grifos (Figura 3), esses animais, diferente do que j√° citamos, n√£o eram considerados animais m√≠ticos que haviam existido apenas em tempos pret√©ritos, eram considerados animais reais que coexistiam com os humanos. A hist√≥ria dos grifos come√ßa no deserto de Gobi, na Mong√≥lia e China, onde mercadores e mineiros citas passavam durante suas caravanas de com√©rcio, e de onde prospectavam ouro. Esses n√īmades contavam hist√≥rias sobre um animal terrivelmente territorialista e protetor com seus ninhos, e que portanto atacava sem piedade quem quer que se aproximasse do ouro, que de acordo com os n√īmades era encontrado em ninhos de grifos. Acredita-se que esses mineiros haviam se deparado com f√≥sseis que s√£o extremamente comuns no Deserto de Gobi, os f√≥sseis de Protoceratops (Figura 3) que s√£o expostos naturalmente no deserto e muitas vezes associados ao ouro. Esses homens ent√£o come√ßaram a espalhar as hist√≥rias sobre essa criatura com a inten√ß√£o de proteger o ouro que era encontrado no lugar afugentando pessoas que conhecessem a hist√≥ria dos grifos, mas o curioso, √© que diversos autores da antiguidade descreviam in√ļmeras caracter√≠sticas desses animais, n√£o se questionava a sua exist√™ncia ou n√£o, eles realmente acreditavam que eles existissem.

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Figura 3: Na parte superior representado um esqueleto de um indiv√≠duo do g√™nero Protoceratops, na parte inferior uma representa√ß√£o de um grifo segundo os padr√Ķes dos romanos (Lorena Pontes Lima).

Um caso em particular da mitologia eg√≠pcia tamb√©m pode ser usado para ilustrar a import√Ęncia de se buscar a compreens√£o do que pode estar por tr√°s dos mitos. Grande parte do pante√£o das divindades eg√≠pcias √© representado por seres antropozoom√≥rficos, ou seja, eram parte humanos e parte animais. N√£o coincidentemente, os animais com os quais essas divindades dividiam as suas caracter√≠sticas eram todos animais comumente encontrados na regi√£o e que tinham alguma rela√ß√£o com o que o deus em quest√£o representava. Como por exemplo, Sobek era a personifica√ß√£o do rio Nilo e era representado por um homem com cabe√ßa de crocodilo. Por√©m, um dos deuses sempre deixou os pesquisadores intrigados, tamb√©m conhecidos por sua antropozoomorfia caracter√≠stica, o deus Set nunca se assemelhou a nenhum animal vivente da regi√£o do Egito. Essa representa√ß√£o pode ser explicada com bases paleontol√≥gicas, visto que cr√Ęnios de giraf√≠deos s√£o encontrados nas √°reas fossil√≠feras eg√≠pcias, e o cr√Ęnio desses animais assemelha-se √†s representa√ß√Ķes da cabe√ßa de Set que os eg√≠pcios faziam (Figura 4). Set no pante√£o eg√≠pcio era considerado a personifica√ß√£o do deserto, das tempestades e da viol√™ncia, e comumente f√≥sseis s√£o expostos nos desertos justamente ap√≥s grandes tempestades, fazendo com que a associa√ß√£o entre ambos seja mais cr√≠vel.

Figura 4: A esquerda a representa√ß√£o de Set de acordo com os antigos eg√≠pcios e √† direita o desenho de um cr√Ęnio de um esp√©cime de giraf√≠deo (Lorena Pontes Lima).
Figura 4: A esquerda a representa√ß√£o de Set de acordo com os antigos eg√≠pcios e √† direita o desenho de um cr√Ęnio de um esp√©cime de giraf√≠deo (Lorena Pontes Lima).

Todos esses são pequenos exemplos de como a nossa história é influenciada por pequenos detalhes que quando mal interpretados nos levam a crer que o estudo e interpretação da paleontologia são relativamente recentes, quando na verdade, eles vêm sendo interpretados das mais diversas formas. De acordo com Oakley (1971 apud Fernandes, 2005), os primeiros registros de coleta de fósseis por humanos datam de cerca de 100.000 anos atrás. Não temos como afirmar se a produção dessa peça foi ou não proposital, mas já é um começo para que possamos entender a evolução da percepção humana quanto ao ambiente ao seu redor.
Mas nem sempre, o f√≥ssil d√° origem ao mito, alguns mitos foram respons√°veis por servir de inspira√ß√£o para a nomea√ß√£o alguns f√≥sseis, podemos citar aqui, por exemplo, o caso dos amonitas, que recebem esse nome pela similaridade aos cornos do deus J√ļpiter Ammon (Taylor, 2016) como est√° explicitado na Figura 5.

Figura 5: √Ā esquerda uma representa√ß√£o de J√ļpiter Ammon e √† direita um amonita.
Figura 5: √Ā esquerda uma representa√ß√£o de J√ļpiter Ammon e √† direita um amonita.

A geomitologia ainda √© uma ci√™ncia pouco explorada, nos √ļltimos anos, in√ļmeras hist√≥rias v√™m sendo estudadas por especialistas, mas ainda h√° uma necessidade muito grande de maior interdisciplinaridade entre as diversas √°reas como arqueologia, zooarqueologia, paleontologia e hist√≥ria. Uma maior intera√ß√£o faria com que fosse cada vez mais f√°cil de ver por tr√°s dos mitos como apenas hist√≥rias fantasiosas, trazendo os fatos marcantes para aquela sociedade e que serviram de base para as cren√ßas de um povo. Conseguir compreender que as pessoas da antiguidade, mesmo com tantas limita√ß√Ķes tecnol√≥gicas, conseguiam ter vislumbres, por vezes muito precisos de eventos que demoraram s√©culos para serem explicados. Podendo assim evidenciar o interesse por esses eventos que muitas vezes passaram despercebidos por estudiosos e pesquisadores ao longo dos anos.

Referências:

FERNANDES, A.S.F. 2005. F√≥sseis: Mitos e Folclore. Anu√°rio do Instituto de Geoci√™ncias ‚Äď UFRJ, v. 28, p. 101-115.
MAYOR, A. 2000. The first fossil hunters. Paleontology in greek and roman times. Princeton, Princeton University Press. 361 p.
TAYLOR, P. D. 2016 Fossil Folklore: Ammonyte. Deposits Magazine, n¬ļ 46 20-23.
VITALIANO, D. 1968. Geomythology: the impact of geologic events on history and legend, with special reference to Atlantics. Journal of the Folklore Institute (Indiana University), 5: 5-30.


26905858_2007696039247755_2080243137_oRodrigo Lima Veloso
Graduado em Ci√™ncias Biol√≥gicas/Licenciatura em 2014 pelo Centro de Ci√™ncias da Sa√ļde (CCS) do Centro Universit√°rio Serra dos √ďrg√£os (Unifeso). Na mesma universidade foi aluno bolsista do Programa Pet-Sa√ļde no per√≠odo entre 2012 e 2014. Atuou como professor de ci√™ncias da rede estadual no munic√≠pio de Carmo – RJ de 2015 at√© 2017, atualmente cursa uma especializa√ß√£o em Geologia do Quatern√°rio pelo Museu¬†Nacional/UFRJ. Tem interesse em continuar seus estudos nas √°reas de evolu√ß√£o, paleontologia e curadoria.