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O que os olhos nas asas de um inseto fóssil podem nos dizer?

Por Matheus P. dos Santos da Rocha & Cledston Matheus A. Mac√°rio

Quando falamos em Paleontologia, muitos a resumem como uma ciência meramente de descrição de aspectos morfológicos, como o simples trabalho de encontrar um osso, descreve-lo e, por sorte, dar nome a uma nova espécie. Porém, a Paleontologia vai muito além disso. Por meio dela, podemos especular sobre diversos aspectos da vida no passado. Até mesmo alguns cujas evidências, muitas vezes, são escassas no registro fossilífero. Um exemplo disso, seria encontrar uma resposta para a pergunta: como eram os olhos dos dinossauros não-avianos?

Como toda ciência, a paleontologia trabalha, inicialmente, com hipóteses, e essas, podem nos levar para linhas de raciocínio beeeem inusitadas, uma hora podemos estar debatendo sobre buracos negros e a extinção dos dinossauros e isso, mais à frente, pode terminar numa deliciosa (ou não) receita de macarrão com biscoito. A história de hoje começa com uma linhas de raciocínio inusitadas: ela parte de um grupo de insetos fósseis, os Kalligrammatidae…

O que s√£o os Kalligrammatidae?

Chrysoperla carnea – Foto de Julia Stoess

Você já viu em algum jardim por aí pequenas bolinhas sustentadas por um fio bem fino, presas nas folhas das plantas? Se sim, com quase toda certeza você viu ovos de bicho-lixeiro. Pertencentes a uma ordem de insetos chamada Neuroptera, esses inofensivos (para os humanos) insetos são predadores vorazes de ovos de aranhas e outros invertebrados. Essa ordem inclui desde a formiga-leão, até coisas estranhas como os mantispídeos (que parecem uma mistura bizarra entre um marimbondo e um louva-a-deus).

Apesar de n√£o serem um grupo muito comum nos dias de hoje, a representa√ß√£o f√≥ssil deles √© abundante. No Brasil, dados de um trabalho de revis√£o de 2018, d√£o conta que das 379 esp√©cies de insetos descritos para a Forma√ß√£o Crato, da Bacia do Araripe, 76 s√£o neur√≥pteros, ou seja, 20% da diversidade de insetos da forma√ß√£o est√° em uma √ļnica ordem, que atualmente representa 0,6% das esp√©cies de insetos viventes. 

No meio de toda essa diversidade, os f√≥sseis mais enigm√°ticos de Neuroptera s√£o os da fam√≠lia Kalligrammatidae. O primeiro de Kalligrammatidae foi descrito por Johannes Walther, em 1904, com base num material quase completo, encontrado no calc√°rio jur√°ssico de Solnhofen (Alemanha) – aquele mesmo do Archaeopteryx. Desde ent√£o, diversas esp√©cies de Kalligrammatidae foram encontradas em v√°rias localidades, com destaque para os achados na China e nos √Ęmbares birmaneses, ao norte de Mianmar. 

Diversidade dos kalligrammatidae. a. & b. da Forma√ß√£o Crato (Brasil); c., d., e., f., g., h. & p. das Forma√ß√Ķes Jiulongshan ou Haifanggou (China); i., j., k., l., m. & n. da Forma√ß√£o Yixian (China); o. da Forma√ß√£o Karabastau (Cazaquist√£o).” – Imagem original por Julian Kiely (Editado).

Em 1997, o lend√°rio paleont√≥logo Rafael G. Martins-Neto, descreveu, pela primeira vez, um Kalligrammatidae na Forma√ß√£o Crato, batizado de Makarkinia adamsi. De l√° pra c√°, outros trabalhos confirmaram a presen√ßa dessa fam√≠lia no Nordeste Brasileiro e, inclusive, descreveram novas esp√©cies, sendo este, at√© hoje, o √ļnico lugar fora da Europa e √Āsia a ter esses registros.

√Č uma sorte que esses animais ocorram em v√°rios afloramentos do tipo lagerst√§tten (s√≠tios com preserva√ß√£o excepcional) pelo mundo afora. A boa preserva√ß√£o dos f√≥sseis permitiu notar rapidamente a semelhan√ßa dos kalligrammat√≠deos f√≥sseis com as atuais borboletas e mariposas. Essa compara√ß√£o n√£o fica s√≥ por conta do formato, padr√Ķes de colora√ß√£o e desenhos das asas, mas alguns esp√©cimes bem preservados, principalmente em √Ęmbar, mostram tamb√©m a presen√ßa de uma ‚Äúboca‚ÄĚ modificada em um fino e comprido tubo chamado de prob√≥scide, caracter√≠stica marcante das mariposas e borboletas (ambas pertencentes √† ordem Lepidoptera). Mas isso aconteceu nos kalligrammat√≠deos num momento do tempo geol√≥gico em que as borboletas n√£o existiam e as mariposas n√£o eram t√£o abundantes e diversificadas como s√£o hoje.

Fora do Brasil, alguns Kalligrammatidae chegam a ser apelidados de ‚Äúgiant lacewings‚ÄĚ (crisop√≠deos gigantes) e isso chegou ao extremo em algumas esp√©cies f√≥sseis. Comparativamente, algumas esp√©cies f√≥sseis s√£o enormes em rela√ß√£o aos seus irm√£os ainda viventes. Estima-se que as esp√©cies encontradas no Araripe, por exemplo, alcan√ßavam entre 24 a 32 cent√≠metros de envergadura! 

A hist√≥ria dos ‚Äúolhos‚ÄĚ nas asas

Insetos grandes e chamativos podem virar comida facilmente, por isso, precisam ter alguma forma de se proteger da predação. Os kalligrammatídeos que viveram entre o Eojurássico ao Neocretáceo estavam dividindo espaço com lagartos, dinossauros avianos e não-avianos, pterossauros, entre outros predadores . Logo, teria que haver alguma forma deles não sucumbirem a seus colegas de habitat!

As mariposas e borboletas de hoje em dia t√™m algumas estrat√©gias para evitar a preda√ß√£o. Desde proje√ß√Ķes nas asas para desviar a aten√ß√£o do predador, como as mariposas do g√™nero Actias, at√© mimetizar (imitar) folhas secas, tal qual Zaretis itys faz. Outra forma √© ter ‚Äúolhos‚ÄĚ, ou melhor, ocelos em suas asas. Os ocelos s√£o desenhos circulares que aparecem em diversos animais, especialmente nos lepid√≥pteros. Esses c√≠rculos podem aparecer com 2 estrat√©gias diferentes de uso:

Mycalesis patnia – Foto por L. Shyamal
  • A primeira √© ter eles pr√≥ximos √†s margens da asa, fazendo com que a aten√ß√£o de um prov√°vel predador seja focada na ponta da asa e n√£o no centro do corpo do organismo.
  • A outra √© simplesmente aterrorizar! As mariposas da fam√≠lia Saturniidae e as borboletas-olho-de-coruja do g√™nero Caligo, por exemplo, fazem isso muito bem. Elas t√™m ocelos enormes no centro das asas, que imitam – algumas vezes de forma assustadora – os olhos de uma coruja, afastando assim qualquer predador que ouse atac√°-las.
Caligo beltrao – Foto por Quartl

E é nesse ponto que queríamos chegar. Justamente essa segunda estratégia é atribuída a várias espécies fósseis de kalligramatídeos. Desde o primeiro espécime descrito, os ocelos gigantes estão presentes nas asas, e há trabalhos que descrevem e comparam os diversos formatos encontrados.

Makarkinia irmae – Imagem de Machado et al. (2021).

O que isso tem a ver com dinossauros?

Agora, chegou a hora que, ou voc√™s sair√£o desse blog nos chamando de loucos, ou ter√£o o famoso ‚ÄúMind Blow‚ÄĚ. Vamos ao ponto principal: voc√™ j√° parou para pensar sobre o formato dos olhos dos dinossauros n√£o-avianos? Essa √© uma discuss√£o complicada, pois o n√ļmero de olhos de dinossauro preservados no registro fossil√≠fero √©: zero! Mas √© uma curiosidade leg√≠tima querer saber essa informa√ß√£o, tanto que pode ser encontrado por a√≠, em f√≥runs pela internet, pessoas debatendo sobre essa quest√£o.

Como esse tipo de material fóssil para dinossauros é inexistente, parte-se para a comparação com animais recentes, tanto seus parentes mais próximos ainda vivos, quanto possíveis análogos ecológicos. Mas existe ainda outra linha de raciocínio para se debater: não olhar para os dinossauros em si, mas para seus colegas de habitat e, no nosso caso especifico, os kalligramatídeos da Formação Crato.

A reação dos leitores daqui a alguns instantes, pelo menos, na expectativa dos autores…

Como j√° foi mencionado anteriormente, os ‚ÄúGiant Lacewings‚ÄĚ poderiam ter se utilizado da segunda estrat√©gia de uso dos ocelos: para assustar prov√°veis predadores, imitando os olhos de animais com os quais conviveram. A√≠ est√° o ‚Äúpulo do gato‚ÄĚ. Para um predador se assustar com os olhos desenhados nas asas das borboletas-olho-de-coruja √© preciso que tenha um animal no mesmo habitat, que v√° servir de gatilho (o “modelo” dos ocelos de Caligo, uma coruja, por exemplo: um predador assustador, que assuste o predador da Caligo). Mas h√° 120 milh√Ķes de anos n√£o existiam corujas no Cear√°, ent√£o‚Ķquem eram os modelos dos Kalligrammatidae do Crato?

Pantano do Crato – Arte de Olmagon.

Existem dois principais suspeitos: pterossauros e dinossauros, mas vamos por partes. Pterossauros na Bacia do Araripe, segundo Mendes et al. (2020), eram majoritariamente pisc√≠voros (comedores de peixes), com algumas exce√ß√Ķes como Lacusovagus magnificens, que provavelmente vagava pelos p√Ęntanos da regi√£o para ca√ßar anf√≠bios e outras pequenas presas. O trabalho de Mendes, inclusive, coloca os pterossauros como animais no topo da teia tr√≥fica da regi√£o na √©poca. 

‚ÄúTeia tr√≥fica da fauna Cret√°cea do Araripe‚ÄĚ – Mendel et al. (2020)

Mas se os pterossauros cearenses comiam peixes, majoritariamente, os possíveis predadores dos kalligramatídeos (outros insetos, anfíbios, pássaros, pequenos dinossauros, etc.) não estavam no cardápio deles, a priori. Por esse fator, seria compreensível a exclusão desses animais como possíveis modelos para os ocelos.

Escultura do Santanaraptor placidus do Museu Pl√°cido Cidade Nuvens, de Santana do Cariri, CE.

J√° os dinossauros, por outro lado, s√£o os candidatos perfeitos para esse quebra-cabe√ßas ecol√≥gico. Animais como Aratasaurus museunacionali, Mirischia asymetrica (que, assim como “Ubirajara“, foi traficado para Alemanha #MirischiaBelongtoBR) e Santanaraptor placidus, ocupavam o nicho de predadores de m√©dio a pequeno porte da regi√£o do Cariri. Como apontado por Julian Kiely, em seu artigo para o blog ‚ÄúPaleoflora‚ÄĚ,  a forma da asa dianteira na maioria das esp√©cies de kalligramat√≠deos, e o grande tamanho dessas asas,  correspondiam, aproximadamente, ao tamanho e a forma das cabe√ßas de muitos pequenos dinossauros predadores que conviviam com esses insetos (como as esp√©cies mencionadas acima). Desta forma, poder√≠amos inferir que as pupilas dos dinossauros de m√©dio a pequeno porte do Jur√°ssico Superior e do Cret√°ceo Inferior, como os maniraptores (pelo menos), deveriam ser arredondadas, j√° que os ocelos de todos os kalligramat√≠deos conhecidos at√© ent√£o, possuem esse mesmo formato. O que se soma √† evid√™ncia indireta parelela, que considera como base comparativa o formato da pupila dos dinossauros viventes, que s√£o as aves.

Mimetismo de Kalligrammatidae a um Maniraptora  – Imagem de Julian Kiely, 2022.

O poder da especulação

Alguns podem estar se perguntando: qual a import√Ęncia de especular aspectos biol√≥gicos e evolutivos t√£o dif√≠ceis de se comprovar por meio do registro fossil√≠fero? Muito da ci√™ncia come√ßa com especula√ß√£o. As descobertas cient√≠ficas, em geral, nascem de hip√≥tese de algu√©m. Um exemplo cl√°ssico foi a detec√ß√£o das ondas gravitacionais em 2015, que haviam sido previstas por Albert Einstein em 1916.

Focando na √°rea da Paleontologia, um exemplo muito interessante, e, √† √©poca, considerado extremamente especulativo, foi o da exist√™ncia de um radiodonte (grupo que inclui o Anomalocaris) filtrador, batizado de ‚ÄúCeticaris‚ÄĚ. Nada mais que uma especula√ß√£o concebida pelo artista John Meszaros, publicada no livro All Your Yesterdays, de 2013. Por√©m, para surpresa de muitos, em 2014 foi realmente descrito um radiodonte cambriano com h√°bito filtrador, Tamisiocaris borealis.

‚ÄúCeticaris‚ÄĚ – Arte de John Meszaros

Em homenagem √† previs√£o de Meszaros, Tamisiocaris foi inclu√≠do em um novo clado denominado Cetiocaridae. Infelizmente, o nome deste clado n√£o √© mais considerado v√°lido, de acordo com o C√≥digo Internacional de Nomenclatura Zool√≥gica, por n√£o existir nenhum g√™nero real chamado “Cetiocaris“, ent√£o foi formalmente substitu√≠do pelo nome Tamisiocarididae.

Reconstrução de Tamisiocaris РArte de Rob Nicholls

Finalmentes

Com base em todos os argumentos supracitados (Al√ī, professores de reda√ß√£o!), podemos inferir que a hip√≥tese levantada pode levar a especula√ß√Ķes e trabalhos futuros que respondam √†s nossas d√ļvidas (isso claro, se esse post, neste humilde blog, chegar nas pessoas certas, e para isso seu compartilhamento √© fundamental). Gostar√≠amos de agradecer a Julian Kiely do excelente blog ‚ÄúPaleoflora‚ÄĚ pelo artigo que inspirou este, e que isso inspire a todos os nossos leitores a imaginar e especular dentro da ci√™ncia, lan√ßar ideias, compartilh√°-las, pois s√≥ assim a ci√™ncia cresce e prospera, com uni√£o e partilha. 

Referências:

Martins-Neto, R. G. 1997. Neurópteros (Insecta, Planipennia) da Formação Santana (Cretáceo IInferior) Bacia do Araripe, Nordeste do Brasil. X Рdescrição de novos taxa (Chrysopidae, Babinskaiidae, Myrmeleontidae, Ascalaphidae e Psychopsidae). Revista Universidade Guarulhos , São Paulo, v. 2, n.4,. p. 68-83.

Frazer, J. 2016. Butterflies in the Time of Dinosaurs, with Nary a Flower in Sight. Scientific American.

Labandeira, C. et al. 2016. The evolutionary convergence of mid-Mesozoic lacewings and Cenozoic butterflies. Proceedings of the Royal Society B: Biological Sciences. 283. 

Vinther, J., Stein, M., Longrich, N. et al. 2014. A suspension-feeding anomalocarid from the Early Cambrian. Nature 507, 496‚Äď499.

Moura-J√ļnior, D.A. et al. 2018. The Brazilian Fossil Insects: current scenario. Anu√°rio do Instituto de Geoci√™ncia – Ufrj, v. 41, n. 1, p. 142-166. Instituto de Geoci√™ncias – UFRJ.

Mendes, M. et al. 2020. Ecosystem Structure and Trophic Network in the Late Early Cretaceous Crato Biome. Brazilian Paleofloras. Springer, Cham. 

Machado, R.J.P. et al.2021. A new giant species of the remarkable extinct family Kalligrammatidae (Insecta: Neuroptera) from the Lower Cretaceous Crato Formation of Brazil. Cretaceous Research. Volume 120.

Kiely, J. 2022. Restoring the Kalligrammatids: The not-butterflies of the mesozoic. Paleoflora.

Um dinossauro no exílio e a luta contra o colonialismo científico

Poucos imaginariam que um dinossauro do tamanho de um ganso desencadearia uma das maiores pol√™micas da Paleontologia nos √ļltimos anos. Para bem ou para mal, ‚ÄúUbirajara jubatus‚ÄĚ tem chamado a aten√ß√£o como poucos f√≥sseis na hist√≥ria da Paleontologia.

Arte de Saulo Daniel, publicada no Twitter.

Quando foi revelado ao mundo no dia 13 de dezembro de 2020, “Ubirajara jubatus” deveria ter sido visto como uma descoberta interessante do ponto de pista cient√≠fico, pois tratava-se do primeiro dinossauro n√£o-aviano com penas do Hemisf√©rio do Sul. Contudo, a sua import√Ęncia foi rapidamente ofuscada por um emaranhado de problemas √©ticos e legais. O estudo de “Ubirajara” representa um t√≠pico caso de colonialismo cient√≠fico: um f√≥ssil brasileiro que foi parar de maneira suspeita num museu alem√£o (Museu Estadual de Hist√≥ria Natural de Karlsruhe) e uma pesquisa feita exclusivamente por cientistas estrangeiros.

O conceito de colonialismo cient√≠fico foi definido em 1967 por Johann Galtung como ‚Äúo processo pelo qual o centro de adquisi√ß√£o do conhecimento sobre uma na√ß√£o est√° fora a pr√≥pria na√ß√£o‚ÄĚ. Isto se aplica ainda √† Paleontologia de v√°rios pa√≠ses, cujas pesquisas, em pleno s√©culo XXI, s√£o predominantemente feitas por estrangeiros.

Al√©m do Brasil, pa√≠ses como China, Mong√≥lia, Marrocos, Rep√ļblica Dominicana e Myanmar, t√™m estado na mira, tanto de traficantes de f√≥sseis, como de pesquisadores sem escr√ļpulos. Os f√≥sseis atraem a curiosidade do p√ļblico e s√£o um valioso recurso em muitos aspectos: cient√≠fico, educacional, cultural e at√© econ√īmico, gerando turismo e beneficiando o com√©rcio local. Por√©m, todos estes benef√≠cios ficam num pa√≠s estrangeiro, quando os f√≥sseis s√£o levados (legal ou ilegalmente) ao exterior e terminam estudados por equipes de outros pa√≠ses, o que cria depend√™ncia cient√≠fica e perpetua desigualdades sociais.

No Brasil, assim como em toda a Am√©rica Latina e na maior parte dos pa√≠ses do mundo, os f√≥sseis pertencem legalmente √† Na√ß√£o onde s√£o encontrados. Durante d√©cadas, contudo, milhares de f√≥sseis t√™m sa√≠do ilegalmente da regi√£o do Araripe, no Nordeste do Brasil, regi√£o muito rica em termos paleontol√≥gicos, mas com um baixo √≠ndice de desenvolvimento humano. Estes f√≥sseis s√£o adquiridos a pre√ßos irris√≥rios por estrangeiros, chegam ilegalmente a feiras e leil√Ķes na Europa e terminam em cole√ß√Ķes privadas ou em museus estrangeiros.

Centenas destes f√≥sseis no ex√≠lio t√™m sido estudados por cientistas estrangeiros de maneira impune nas √ļltimas d√©cadas. Este problema √© mais do que conhecido pela comunidade cient√≠fica brasileira, por√©m estamos acostumados a que as nossas vozes n√£o sejam escutadas no exterior. Problema que n√£o enfrentam, por exemplo, os autores do estudo de “Ubirajara ” e de v√°rios outros f√≥sseis extra√≠dos irregularmente do Brasil. Eberhard Frey (ex-curador da cole√ß√£o de vertebrados do museu onde ainda hoje est√° “Ubirajara”) era, at√© 2021, nada menos que o presidente da Associa√ß√£o Europeia de Paleontologia de Vertebrados (EAVP, sigla em ingl√™s), enquanto que David Martill, tamb√©m autor do estudo de “Ubirajara”, publicou um artigo defendendo abertamente que os paleont√≥logos desrrespeitem as leis locais.

√Č uma luta que sempre tem sido desigual. Por√©m, desta vez foi diferente. Estamos na era das redes sociais, da comunica√ß√£o cient√≠fica online e das hashtags. O uso de hashtags como #BlackLivesMatter e #MeToo t√™m mostrado que as redes sociais podem unir esfor√ßos em torno de uma causa. #UbirajaraBelongstoBR (Ubirajara pertence ao Brasil), criada no Twitter pela paleont√≥loga e divulgadora cient√≠fica Aline Ghilardi, se espalhou como fogo na internet, poucas horas ap√≥s a not√≠cia do novo dinossauro. No Youtube, foram feitas v√°rias lives denunciando o caso, uma delas, pediu ao p√ļblico pra desenhar “Ubirajara” e protestar nas redes usando a hashtag #UbirajaraBelongstoBR. Em poucos dias este era o dinossauro mais desenhado do mundo: artistas, crian√ßas e p√ļblico geral participavam da campanha. O ru√≠do produzido foi t√£o alto que em duas semanas a revista Cretaceous Research retirou a pesquisa do ar e anunciou que investigava o caso.

Em setembro de 2021, o museu de Karlsruhe contra-atacou, publicando no Instagram um comunicado no qual afirmavam que o dinossauro Ubirajara era ‚Äėpropriedade do estado de Baden-W√ľrttemberg‚Äô e que n√£o seria devolvido ao Brasil. Em poucos dias acumularam-se mais de 10 mil coment√°rios pouco amig√°veis de brasileiros usando a hashtag #UbirajaraBelongstoBR. O museu teve que desativar a sua conta no Instagram. Poucos dias depois, a revista Science revelou que “Ubirajara” foi importado pela Alemanha em 2006 por uma empresa privada e, ent√£o, comprado pelo Museu Estadual de Historia Natural de Karlsruhe, em 2009, o que contradizia a alega√ß√£o de Eberhard Frey, que afirmava tanto que ele mesmo tinha transportado o f√≥ssil para Alemanha em 1995, portando uma suposta autoriza√ß√£o do governo brasileiro.

No 15 de novembro de 2021, publicamos uma carta na revista Nature Ecology and Evolution, na qual explicamos os problemas legais e √©ticos envolvendo n√£o s√≥ “Ubirajara”, mas v√°rios outros f√≥sseis que encontravam-se no museu de Karlsruhe e em outros museus do pa√≠s. Enviamos essa carta √† ministra de Ci√™ncia e Cultura do estado alem√£o de Baden-W√ľrttemberg e, um m√™s depois, ela nos respondeu prometendo investigar o caso e tomar a√ß√Ķes contra os respons√°veis.

Em mar√ßo de 2022 publicamos, ent√£o, um amplo estudo onde denunciamos o colonialismo cient√≠fico em centenas de estudos sobre f√≥sseis do Brasil e do M√©xico. E, finalmente, em julho de 2022, o Minist√©rio de Ci√™ncia e Cultura de Baden-W√ľrttemberg anunciou que o Museu Estadual de Historia Natural de Karlsruhe tinha atuado de maneira desonesta e ordenou a devolu√ß√£o do f√≥ssil ao Brasil. Al√©m disso, solicitou ao museu que informasse sobre todos os f√≥sseis que se encontram irregularmente na sua cole√ß√£o.

Eberhard Frey aposentou-se prematuramente em 2022 e Norbert Lenz, também autor do estudo e diretor do museu, foi removido do seu cargo em julho de 2022.

Devido √† repercuss√£o gerada pelo caso, algumas revistas acad√™micas t√™m adaptado pol√≠ticas mais r√≠gidas sobre a origem legal dos f√≥sseis nas suas publica√ß√Ķes. Adicionalmente, alguns pa√≠ses come√ßaram a retornar voluntariamente f√≥sseis ao Brasil, como em outubro de 2021, quando uma universidade dos EUA entregou 36 aranhas f√≥sseis ao Museu de Paleontologia de Santana do Cariri, e em fevereiro de 2022, quando a B√©lgica devolveu ao Brasil um pterossauro.

No momento em que estas linhas s√£o escritas, seguimos esperando pela repatria√ß√£o, n√£o s√≥ do dinossauro “Ubirajara”, mas de centenas de outros f√≥sseis que se encontram irregularmente em Karlsruhe e em outros museus da Alemanha. Aconte√ßa o que acontecer, a Ci√™ncia n√£o ser√° a mesma ap√≥s este caso. “Ubirajara” est√° j√° no sal√£o da fama dos maus exemplos na Paleontologia, junto a Archaeoraptor e ao Homem de Piltdown.

*Este texto foi originalmente publicado em espanhol em http://saberesyciencias.com.mx/2023/02/10/dinosaurio-exilio-la-lucha-colonialismo-cientifico/

Referências:

Smyth, R.S.H. et al. 2020. WITHDRAWN: A maned theropod dinosaur from Gondwana with elaborate integumentary structures. Cretaceous Research.

Martill, D. 2018. Why palaeontologists must break the law: a polemic from an apologist. The Geological Curator 10: 641-649.

Padilha, P. K. 2020. ROUBARAM mais um DINOSSAURO DO BRASIL #UbirajarabelongstoBR. https://youtu.be/Uf_QjXwbEDU

P√©rez Ortega, R. 2021. Retraction is ‚Äėsecond extinction‚Äô for rare dinosaur. Science 374: 14-15.

Cisneros, J.C. 2021. The moral and legal imperative to return illegally exported fossils. Nature Ecology & Evolution, 6:2-3.

Cisneros, J.C. 2022. Digging deeper into colonial palaeontological practices in modern day Mexico and Brazil. Royal Society Open Science 9:210898.

Melanina é encontrada em fóssil de pterossauro brasileiro

Mol√©cula biol√≥gica respons√°vel pela pigmenta√ß√£o de seres vivos foi encontrada preservada em um f√≥ssil brasileiro de cerca de 110 milh√Ķes de anos, da regi√£o do Cear√°! O f√≥ssil em quest√£o √© de um pterossauro, um tipo de r√©ptil voador da “Era dos Dinossauros”.

Reconstituição em vida de Tupandactylus, arte de Márcio Castro.
Reconstituição em vida de Tupandactylus, arte de Márcio Castro.

O estudo foi publicado hoje em uma das revistas científicas do prestigioso grupo Nature, a Scientific Reports, e inclui pesquisadores diversos países, liderados pelos paleontólogos brasileiros Felipe Pinheiro, da Universidade Federal do Pampa (Unipampa, Rio Grande do Sul) e o doutorando Gustavo Prado, da Universidade de São Paulo (USP, São Paulo).

“Isso ainda √© muito¬†distante Jurassic Park”, lembram os pesquisadores, mas o fato de encontrar uma mol√©cula biol√≥gica t√£o bem preservada j√° √© uma grande descoberta, que nos possibilita entender melhor como eram esses organismos do passado.

O f√≥ssil de r√©ptil voador analisado pertence a um¬†Tupandactylus, um pterossauro de tamanho m√©dio, com cerca de 3 metros de envergadura e que tinha uma crista bem alta na cabe√ßa. Ele viveu no sul do Cear√°, na regi√£o do Araripe, quando¬†toda essa √°rea era¬†coberta por uma extensa¬†laguna, durante a primeira metade do Per√≠odo Cret√°ceo, h√° cerca de 110 milh√Ķes de anos.

O estudo também contou com a participação de pesquisadores do Japão e dos Estados Unidos. Trata-se da mais completa caracterização química de uma biomolécula fossilizada em um réptil.

‚ÄúEmbora sempre soub√©ssemos que os f√≥sseis encontrados na regi√£o da Chapada do Araripe eram especiais em termos de preserva√ß√£o, foi uma surpresa quando as an√°lises qu√≠micas mostraram que a melanina do bicho ainda estava l√°. Parece que o pterossauro morreu ontem‚ÄĚ, relata Felipe Pinheiro, paleont√≥logo da Unipampa.

Vários fósseis de Tupandactylus já foram descobertos na Chapada do Araripe. Porém, este preservou muito bem a crista do animal, o que levou os pesquisadores a quererem analisá-la mais de perto. A crista enorme, em forma de vela, provavelmente era utilizada, entre outras coisas, para atrair parceiros. Foi dela que os cientistas extraíram o pigmento.

Imagem do artigo monstrando os pontos amostrados no fóssil.

‚ÄúA melanina √© uma das mol√©culas mais resistentes aos processos de fossiliza√ß√£o. Enquanto os outros compostos s√£o degradados com o passar do tempo, esse pigmento resiste de forma mais ou menos intacta‚ÄĚ, explica Gustavo Prado, que √© especialista em pigmentos fossilizados.

Imagem do artigo, mostrando os corp√ļsculos esf√©ricos presentes no f√≥ssil, que conteriam a melanina.
Imagem do artigo, mostrando os corp√ļsculos esf√©ricos presentes no f√≥ssil, que conteriam a melanina.

Agora, a pergunta que não quer calar: Com essa molécula preservada, foi possível identificar a cor do animal?

Os cientistas que assinam o estudo s√£o¬†bastante c√©ticos: ‚Äú√Č complicado‚ÄĚ, diz Pinheiro. ‚ÄúS√£o muitos fatores envolvidos na colora√ß√£o de um animal, e a melanina √© s√≥ um deles‚ÄĚ. Estudos anteriores reconstru√≠ram a cor de aves e dinossauros com base na forma dos melanossomos, organelas respons√°veis por armazenar melanina. A ideia √© que o formato dos melanossomos poderia indicar a colora√ß√£o. A caracteriza√ß√£o qu√≠mica da melanina do Tupandactylus mostrou que n√£o √© bem assim. ‚ÄúN√£o encontramos correla√ß√£o entre o formato dos melanossomos e o tipo de melanina identificada no pterossauro‚ÄĚ, diz Gustavo Prado.

O novo estudo, portanto, desafia as inferências de coloração realizadas para organismos fósseis até então. Será necessário rever essa possibilidade e, à luz das novas descobertas, aperfeiçoá-la.

O grupo de pesquisadores continua investigando a preserva√ß√£o excepcional de f√≥sseis da Chapada do Araripe, e afirmam que v√°rias novidades ainda est√£o por vir. ‚ÄúAos poucos ficamos cada vez mais pr√≥ximos desses animais incr√≠veis‚ÄĚ, diz Pinheiro.

***

O trabalho completo está disponível em www.nature.com/articles/s41598-019-52318-y

O estudo foi financiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES).