Texto escrito por Rafael Lopes Paixão

Francis Fukuyama, um filósofo e economista estadunidense, escreveu em 1992 um livro intitulado “O Fim da História e o Último Homem”. Neste livro, ele advogou que com o fim da União Soviética entrávamos  em um novo momento histórico em que o modelo de democracia ocidental teria prevalecido. Logo, a história humana estaria estagnada para sempre numa única forma de governo bem como um sucessivo caminhar em direção a um bem-estar generalizado.

A segunda parte do título, “e o Último Homem”, evoca essa ideia, que bem antes de Fukuyama já era cultivada em diversas outras disciplinas científicas. Por exemplo, para mim o mais próximo que consigo pensar é a epidemiologia. A epidemiologia é o estudo das doenças e das epidemias que nos afligem no contexto da sociedade. Ou seja, é o estudo de doenças como fenômeno populacional e social.

A epidemiologia se funda como ciência, ou seja, com método investigativo e de teste de hipóteses, a partir da descoberta feita por Sir John Snow. O cientista foi o responsável por analisar o surto de cólera, que afligia a população do bairro de Soho em Londres em 1854. Dessa forma, ele percebeu que a doença era causada, primariamente, pelo uso comum de uma fonte de água contaminada. Para tanto, Snow mapeou os casos de cólera no Soho.

Com o mapeamento viu que a maior incidência se dava para famílias que localizavam-se mais próximas a uma fonte de água específica.

E a solução? Snow manda selar a fonte e em algumas semanas o surto cessa.


Figura 1: Mapeamento de casos realizados por John Snow em sua investigação do surto de cólera de 1854 no bairro do Soho, em Londres.

A investigação de Snow obteve sucesso ao provar que a Cólera se dava pela contaminação de uma fonte de água de uso comum por um microorganismo. Assim, o debate à época, sobre qual seria a origem das doenças infecciosas, se vira para a comprovação de que a teoria microbiana das doenças infecciosas era a teoria mais plausível e explicativa da epidemias da época.

Concorrente a essa teoria, tinha-se a teoria do miasma. Nesta teoria as doenças infecciosas se transmitiam por ares contaminados. Embora a teoria microbiana tenha sido aceita, acertadamente, há um revés nesta história. Infelizmente, com esse debate se constrói durante dois séculos a ideia que doenças infecciosas que se transmitem pelo ar são só um mito. Ou, ainda, uma teoria falha do passado para a epidemiologia. Todavia, a pandemia de Covid-19 nos desafia para outro lado. Apesar de ter identificado incorretamente o modo como certas doenças podem transmitir-se, a teoria do Miasma, ainda que ingênua, apoiava-se em algum fundo de verdade. Mas essa é uma discussão para outro texto.

A teoria microbiana talvez tenha difundido-se tão fortemente difundida no nosso pensamento social exatamente por por sua capacidade de provar que a grande maioria das doenças infecciosas, que nos afligiram durante tantos séculos, facilmente resolvem-se com condições básicas de higiene e vida. Uma consequência disso, que pôde ser vista, principalmente na epidemiologia (mas não só), é que o pensamento epidemiológico do século XX caminhou na direção complementar do pensamento capitalista liberal de fim da história. Pensamento este fundado por Hegel e que deságua em Fukuyama e seu livro anteriormente citado.

Até meados dos anos 1980, era corrente na epidemiologia a noção de que caminhávamos para a eliminação das doenças infecciosas. Assim, basicamente a epidemiologia se tornaria no estudo das doenças crônicas. Por trás disso, temos a ideia de fim da história e do “Homo Novissimus”. Ou seja, o homem que não mais padecerá por doenças infecciosas. Parece bom, não? Dessa forma, somente faleceríamos por doenças crônicas que aparecem, em uma ideia radicalmente reducionista, porque estamos vivendo demais. Tal ideia se traduz claramente no cartum abaixo:




Figura 2. Cartum sobre a história médica atualizando lentamente o livro de doenças erradicadas.

Homo Novissimus e os modos de produção

Com o sucesso das vacinas e, no caso do cartum, da vacina da poliomielite, adentramos uma sociedade que se via cada vez mais os benefícios de um capitalismo capaz de inovar rapidamente. Bem como garantir que essa inovação chegasse a todos em um tempo razoável.

O problema, dizem os defensores do fim da história e do Homo Novissimus, era somente distributivo. Assim, se a saúde fosse, como ainda é em muitos países, visualizada como bem público, logo esse problema de alocação de vacinas para cada nova doença infecciosa, estaria resolvido. Ou seja, segundo a “teoria” do Homo Novissimus, em alguns anos, no máximo em décadas, erradicaríamos as doenças infecciosas. Só não combinamos com o planeta essa ideia também.

Vale ressaltar aqui que eu não sou um adepto da teoria de Gaia. Esta teoria diz que o planeta Terra é um ser vivo como um todo. Portanto, segundo esta teoria, quando desequilibramos esse organismo, ele reagiria para combater isso. Para mim, esse tipo de teoria é só uma desculpa com fundo místico, para se pedir o básico da nossa relação com o planeta.

O ponto todo é: nosso modo de produção e de sociedade, atomizado no conceito de Homo Novissimus não é verdadeiro.

Ou seja, aquele homem que após ter resolvido suas disputas políticas vive quase que indefinidamente em confluência com seu habitat, não funciona na prática (nem na teoria…)! Durante os anos subsequentes à segunda guerra mundial, e algumas décadas após a pandemia da gripe “espanhola”, vimos anos de alguma tranquilidade. Aliás, foi um tempo de sucessiva erradicação de doenças infecciosas, ora por simples aumento da qualidade de vida, vez advinda do modelo de produção comunista, vez advinda do modelo de produção capitalista liberal, ora por inovação e acesso às vacinas.

Tal fato parecia ser tão verdadeiro que o número de artigos científicos sobre doenças infecciosas em revistas de epidemiologia pareciam estar simplesmente sumindo dos registros destas revistas. Quase como um esgotamento do assunto, o gráfico abaixo traduz isso:


Figura 3. Porcentagem de papers sobre doenças infecciosas apresentados para a AES, American Epidemiological Society (Sociedade Americana de Epidemiologia), e para a AJE, American Journal of Epidemiology (Revista Americana de Epidemiologia).

Parcimônias nas análises

Novamente, aqui precisamos analisar a evidência com parcimônia, ainda que tanto AES e AJE sejam revistas internacionalmente conhecidas e que versam sobre temas internacionais, há um viés de mais estudos voltados à realidade estadunidense. Ou seja, ainda que seja verdade que doenças infecciosas estavam deixando de ser assunto nos meios de estudo de doenças em geral, isso só seria verdade para a realidade que esses estudos cobrem, que provavelmente é a realidade da sociedade estadounidense. A partir da década de 1980, esse paraíso é abalado, com a pandemia de HIV e AIDS, uma doença tropical que circulava em populações da África central desde os anos 1920. Essa doença provavelmente espalhou-se para o mundo a partir da década de 1960 (Figura 5). Concomitantemente com isso tem-se a exploração imperialista europeia no continente desde o século XIX.  Posteriormente, com os movimentos de independência, a industrialização passada na região no pós segunda guerra.




Figura 5. Localização de amostras de HIV-1, grupo M, e suas introduções a partir de Kinshasa ao longo das ferrovias e hidrovias tanto da República Democrática do Congo e da República do Congo. Anos mais recentes tons azuis, anos mais antigos tons vermelhos.

E a COVID-19?

Desde dezembro de 2019, o mundo se pergunta como e porquê há pessoas padecendo de uma pneumonia viral que parece se transmitir pelo ar. A resposta para origem do Covid-19, ainda hoje, dezembro de 2021, é incerta. Mas muito provavelmente ela surge de infecções em trabalhadores que têm contato com morcegos no interior do sul da China, mais especificamente na província de WuHan (武汉). Desde dezembro de 2019, aprendemos muito sobre o vírus e sobre como combatê-lo. Foram desenvolvidas vacinas que têm se mostrado efetivas em mitigar a severidade da doença. Assim como evitar grande parte dos óbitos por infecção.

Em menos de 2 anos, fomos capazes de identificar o patógeno que nos afligia e criar uma vacina que impede que padecemos da infecção sem qualquer esperança de sobrevivência. Talvez existam dois paradigmas centrais da pandemia de SARS-CoV-2. O primeiro de que há vírus que se transmite pelo ar. Uma vez que o SARS-CoV-2 é capaz de permanecer apto a infectar uma pessoa ao permanecer em suspensão com micro gotículas de água exaladas pelo simples fato de respirarmos, os aerossóis. O segundo paradigma é que é muito mais usual do que o senso comum nos dizia o evento de um vírus pular de uma espécie para outra. Isso precisa ser aprendido devidamente para que seja possível desenvolver meios de identificar e barrar tais eventos que chamamos de spillover.

Porém há um paradigma que pouco se comenta, que ainda não é devidamente aprendido por todos. Aliás, leva-se em consideração somente por algumas poucas pessoas. O Homo Novissimus, com o perdão do trocadilho, encontra-se ultrapassado.

Isto é, o nosso futuro prometido, em que padeceríamos somente dos efeitos do tempo em nosso corpo, simplesmente não existe.

Vivemos num mundo cada vez mais quente, mais desigual e mais segregado. Um planeta mais quente com certeza é um lugar favorável ao surgimento cada vez mais frequente de novos patógenos que com certeza vão nos trazer consequências como a pandemia de Covid-19.

Além disso, uma sociedade mais desigual é incapaz de sanar os problemas existentes e, muito menos ainda, de sanar os problemas que vão existir. A falta de equidade vacinal, por exemplo, atualmente impede que saiamos da pandemia, ou que tenhamos um breve momento de alívio antes da próxima pandemia. E um mundo cada vez mais segregado é a volta ao ponto na história que nos moveu para chegar a um vida em sociedade. Como já falamos aqui no Especial sobre o “retorno ao nosso normal”. Vamos supor que cada indivíduo só precisa se importar e cuidar no máximo daqueles para com quem tem-se alguma dívida, seja ela qual for. Assim, neste caso, estaremos fadados a morrermos de qualquer doença surgida por uma planeta cada vez mais inabitável. Além disso ser agravado por uma sociedade cada vez mais desigual e individualista.

Por fim

A epidemiologia, talvez como toda e qualquer outra área da ciência, é nada mais que um reflexo do momento histórico que se vive. Se há 60 anos o fim das doenças infecciosas era declarado, há 40 ele era postergado, talvez hoje tenhamos consciência de que não haverá mundo sem doenças infecciosas. Caso persistâmos em não estudarmos suas causas e mitigar os meios, como sociedade, pelos quais elas se perpetuam no ápice da inteligência humana padecemos por suas consequências.

É preciso entendermos que mais que fatos que vão acontecer. Isto é, as doenças infecciosas são consequências de atos passados e da forma como produzimos sob o solo que pisamos. Em suma, sem qualquer pretensão bucólica, precisamos parar de destruir o planeta por simplesmente acharmos que não haverá consequência ou porquê esse é o único modo como podemos viver.

É preciso não aceitar nosso antigo e atual normal.

Para Saber Mais

Castro MC, Baeza A, Codeço CT, Cucunubá ZM, Dal’Asta AP, De Leo GA, et al. (2019) Development, environmental degradation, and disease spread in the Brazilian Amazon, PLoS Biol 17(11): e3000526.

Faria, NR, Rambaut, A, Suchard, MA, (…) Lemey, Philippe (2014) The early spread and epidemic ignition of HIV-1 in human populations, Science, Vol 346, Issue 6205 • pp. 56-61

Reingold, AL (2000) Infectious Disease Epidemiology in the 21st Century: Will It Be Eradicated or Will It Reemerge?, Epidemiologic Reviews, Volume 22, Issue 1.

Figura 1 retirada de: Retirado de: https://en.wikipedia.org/wiki/1854_Broad_Street_cholera_outbreak, que por sua vez foi retirado do livro em domínio público, “On the Mode of Communication of Cholera” by John Snow, originally published in 1854 by C.F. Cheffins, Lith, Southhampton Buildings, London, England.

Figuras 2 e 3 retiradas de: Reingold, AL (2000) Infectious Disease Epidemiology in the 21st Century: Will It Be Eradicated or Will It Reemerge?, Epidemiologic Reviews, Volume 22, Issue 1.

O autor

Rafael Lopes Paixão da Silva é doutorando em física. Ele estuda dados de saúde pública e sua dinâmica e relações com o clima é Físico. Pesquisador no Observatório Covid-19 Brasil e convidado pelo editorial para escrever no Especial COVID-19.

Este texto foi escrito com exclusividade para o Especial COVID-19

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Os argumentos expressos nos posts deste especial são dos pesquisadores. Dessa forma, produziu-se textos produzidos a partir de campos de pesquisa científica e atuação profissional dos pesquisadores. Além disso, a revisão por pares aconteceu por pesquisadores da mesma área técnica-científica da Unicamp. Assim, não, necessariamente, representam a visão da Unicamp e essas opiniões não substituem conselhos médicos.


1 comentário

Carlos Eduardo Pollhuber · 26/12/2021 às 12:35

Muito bom o artigo, que vai direto ao ponto.

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