Texto escrito por Rafael Lopes Paixão da Silva e Ana Arnt

5 de novembro completamos 600 dias de pandemia de COVID-19. Nestes dias, foram 250 milhões de infecções no mundo (um Brasil inteiro de pessoas), 5 milhões de óbitos. No Brasil, 21 milhões de casos confirmados e 609 mil óbitos registrados.

Uma pandemia joga por terra qualquer noção de estatística e parâmetros sobre o quê, verdadeiramente, estes conhecimentos significam. Isso é uma constatação minha, acredite. Eu (Rafael) trabalho há 3 anos com dados de saúde pública no Brasil, em meu projeto de doutorado. Ao longo deste tempo, fui percebendo estas relações ao longo da pesquisa. Além disso, sem muito esforço dos dados, isso transparece comparativamente, também.

Vamos ver um exemplo?

Um dos piores anos de epidemia de dengue, em todo o Brasil, tínhamos menos de 800 mortes, por essa doença, em um ano, no país.

Em pouco mais de um ano e meio de pandemia de Covid-19 no Brasil, esse número foi ultrapassado em 329 dias. Ou seja, nos 600 dias de pandemia (529 dias para ser exato), em 329 dias  tivemos mais mortes que em anos inteiros de dengue, só para começar a colocar em perspectiva o que é a pandemia de Covid-19. Aqui somente nos referenciamos aos casos de Covid-19 confirmados. Há ainda o fato que como nossa testagem sempre foi pífia. Isto é, muito do que hoje chamamos de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG), é Covid-19 não diagnosticado. Se colocarmos nessa conta a SRAG, esse número de dias desde o anúncio da transmissão comunitária da Covid-19 no Brasil, dia 12 de março de 2020, subimos ao patamar de 396 dias com mais de 800 mortes. Isto significa 13 meses inteiros morrendo mais do que 800 pessoas por dia de uma só causa.

Vale ressaltar que não importa se estamos falando, num primeiro momento, quando não havia vacinas. Sempre foram mortes evitáveis, se medidas de prevenção fossem amplamente adotadas. Em um segundo momento, essas mortes, que já eram evitáveis, se tornaram duplamente evitáveis. Primeiro, pelos motivos acima: medidas de prevenção de contágio fossem adotadas rigorosamente e amplamente. Depois porque, após as vacinações iniciadas no mundo, nós vacinamos lentamente e sem um planejamento rigoroso. Por fim, o caos no sistema hospitalar veio depois de iniciada a vacinação por total negligência de instâncias federais, estaduais e municipais de governo.

Mas isso é só a frieza dos números e das estatísticas, as pessoas são sempre maiores que qualquer número e qualquer estatística. Somos seres sociais e também racionais.

Então sabemos que necessitamos de interação, contato, e sabemos que precisamos disso de modo racional, temos a óbvia consciência dessa necessidade. Quando um igual nosso morre, isso nos fere duplamente, pelo menos.

Primeiro, porque sabemos conscientemente que nossa interação social com esse igual se finda ali. Assim, sabemos que temos uma interação a menos para usufruir, um a menos na comunidade. Racionalmente, sabemos também que qualquer pessoa é única em si. Dessa forma, sabemos que quando a morte dessa pessoa ocorre, se fecham diversas possibilidades de vida, experiências e interações sociais. O luto é um processo importante, porque através dele podemos compreender e superar, ainda que de forma simbólica, esse encerramento de interações sociais.

A pandemia é algo tão fora do imaginário cotidiano anterior à 2020 que, precisamos reformular a escrita do primeiro parágrafo. Durante 600 dias de pandemia no Brasil, em média, mais de 800 famílias passaram por esse processo de sofrimento e luto por dia. Isto a partir da constatação racional e social. Ou seja, de que naquele dia se findava uma interação humana relevante em suas rotinas, uma possibilidade de contato social, uma relação social, um membro da comunidade.

Tanto individualmente, como socialmente isso é um fardo e uma tragédia sem igual.

Especialmente em face de que isso continua a ocorrer todos os dias, até a atualidade, sem uma perspectiva exata de quando cessará.

Em tempos de quase 400 mortes diárias, ainda estamos discutindo retirada de máscaras em ambientes abertos. Estes eventos, mais do que baseados em ciência, é uma evidente normalização  das infecções pela doença, como se nada fossem. Como se fosse gripe, mas que a cada dois dias, neste momento, mata mais do que dengue ao longo de anos anteriores. A COVID-19 ainda mata em um patamar muito alto. Ainda são mortes evitáveis,  como narrado no primeiro parágrafo.

Não tenho mais nenhum amigo, colega ou familiar, que não tenha um caso de morte por COVID-19 para contar sobre os 600 dias de pandemia. Tanto tempo de provação e tanta exigência de luto tem um preço que sequer somos capazes de mensurar agora. Vamos precisar de anos para começar a entender a pandemia a partir da perspectiva das perdas que nos atravessam hoje. E talvez levemos décadas para formalmente contabilizar seu impacto, se pudermos fazer isso algum dia.

Foram 600 dias de pandemia, e ainda não acabou por aqui…

Uma das visões que se tem consolidado durante esse ano de 2021 é a de que a pandemia do COVID-19, não se findará neste ano. Junto disso, vem também a afirmação de que teremos que aprender a conviver com o vírus. Pois eu concordo somente com a primeira afirmação.

Ao longo destes dias, a segunda afirmação tem nos causado muita indignação. Por quê? Basicamente porque ela se faz para uma doença que temos meios de prevenção altamente eficazes. Ou seja, o conjunto de medidas não farmacológicas e farmacológicas, como máscaras e vacinas. Ainda que as pessoas teimem em não seguir essas medidas, é trabalho nosso como sociedade fazer com que essas medidas sejam aplicadas. Aliás, sequer sabemos qual o preço que estamos pagando ao aceitar a “convivência” com o vírus. A COVID-longa é pouco documentada e estudada até o momento.

Aceitar a COVID-19 como um custo desse novo mundo é, para mim, inaceitável. Tanto quanto a vacinação estagnar em parte do mundo por movimentos antivacina e existir estoques guardados. Isto tudo enquanto nações inteiras sucumbem por falta de acesso ao que a ciência alcançou em meses de intensa pesquisa, é inconcebível.

A conformidade do status quo mundial é uma afronta, perante as mortes que sucedem diariamente.

Quando repetimos que a pandemia é o resultado direto das ações humanas. Ou ainda, quando afirmamos que a vacina só funciona se for universal, estamos realizando uma constatação estritamente factual. Não haverá lugar para nós e o vírus nesse novo mundo. Ou escolhemos uma morte lenta e sofrida, e impomos isso à sociedade, como temos feito até agora. Ou escolhemos construir um mundo em que não seja mais tolerável mortes por uma doença evitável e que tenhamos vacinas universalmente disponíveis.

Ao escolher uma morte lenta e impormos isso socialmente, emergirá uma sociedade com sequelas dessa pandemia. Sequelas essas que começamos a entender somente agora. Por exemplo, há estimativas de que até 80% da totalidade de casos, sintomáticos ou não, acabam com algum tipo de sequela de longo prazo.  Ou seja, escolhendo um mundo que luta junto para combater mortes evitáveis, optamos por um mundo em que a saúde é vista de modo holístico. Isto é, integrado a outros saberes. Por exemplo, com urbanismo, climatologia, ecologia, agricultura, e também de modo transdisciplinar, em que essas todas ciências possam transpor conhecimento entre si.

Não gostaria que vissem esse último parágrafo como um sonho utópico, contraposto a um aviso. Pelo contrário, o escrevemos mais como uma realidade desejável (possível?). Fazendo isto, nos contrapomos a uma realidade cada vez mais próxima e que congrega adeptos sem respeito a si mesmos e aos outros.

Desumanizações…

Quando pedem que aceitemos as sequelas da doença, as normalizam. Com isto, estão pedindo a todos nós um custo que somente a falta de caráter é capaz de arcar. Querem nos desumanizar, retirando-nos a empatia com a dor e o sofrimento do outro. Nos negamos, pois é exatamente neste ponto que nos tornamos humanos.

Justificar-se, na atual incapacidade de coordenação da nossa sociedade e nas estatísticas do cálculo frio do custo, tanto em vidas, como em moedas dos dois cenários, é o fim de nós como humanidade. No fundo,  nós sabemos que um mundo em que não tenhamos que conviver com o Covid-19 só é mais custoso se ignorarmos que pessoas são incomensuravelmente mais valiosas que qualquer estatística. 

Somos humanos porque somos capazes de calcular, mensurar, pensar, amar. Somos humanos, também, por olharmos os números e sabermos que não basta. É preciso nos colocarmos no lugar uns dos outros e vislumbramos, sentirmos o que sofrem nossos iguais. Pessoas não são números em estatísticas, são vidas, em suspiros de dor, alegria, leveza, presença, ausência.

Os autores

Rafael Lopes Paixão da Silva é doutorando em física. Ele estuda dados de saúde pública e sua dinâmica e relações com o clima é Físico. Além disso, é pesquisador do Observatório Covid-19 Brasil e foi convidado pelo editorial para escrever no Especial COVID-19.

Ana Arnt é professora do Instituto de Biologia, Unicamp, coordena o Blogs Unicamp e o Especial COVID-19.

Este texto é original e escrito com exclusividade para o Especial Covid-19

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Os argumentos expressos nos posts deste especial são dos pesquisadores. Dessa forma, os textos foram produzidos a partir de campos de pesquisa científica e atuação profissional dos pesquisadores e foi revisado por pares da mesma área técnica-científica da Unicamp. Assim, não, necessariamente, representam a visão da Unicamp e essas opiniões não substituem conselhos médicos.


editorial


Ana Arnt

Bióloga, Mestre e Doutora em Educação. Professora do Departamento de Genética, Evolução, Microbiologia e Imunologia, do Instituto de Biologia (DGEMI/IB) da UNICAMP e do Programa de Pós-Graduação em Ensino de Ciências e Matemática (PECIM). Pesquisa e da aula sobre História, Filosofia e Educação em Ciências, e é uma voraz interessada em cultura, poesia, fotografia, música, ficção científica e... ciência! ;-)

1 comentário

desentupidora vila madalena · 01/06/2022 às 13:19

esse pandemia deixou nossas mentes ruins, estamos sofrendo muito por isso

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