Os casos assintomáticos são um grande problema quando falamos em combater a pandemia do novo coronavírus, que já infectou quase 10 milhões e matou quase 500 mil pessoas. Aquelas pessoas que têm sido chamadas de “assintomáticas” são um complicador a mais, pois elas são as transmissoras silenciosas do vírus. Mesmo sem qualquer sintoma, ainda são capazes de transmiti-lo, apesar de haver uma grande dúvida ainda se todos os casos assintomáticos são capazes de fazer isso. 

Um paciente assintomático é aquele que tem resultado positivo em testes de RT-qPCR para o SARS-CoV-2, mas sem demonstrar qualquer sintoma ou anormalidade em exames de imagens. Ou seja, uma pessoa que foi infectada pelo vírus, mas não ficou doente (não teve sintoma algum). Na maioria das vezes, por causa da falta de sintomas e pouca consciência de como se prevenir, essas pessoas não procuram ajuda médica e acabam sem nem saber que estão infectados, contribuindo assim para a rápida disseminação do vírus dentro da população.

Mas assintomáticos realmente transmitem a doença?

Recentemente, uma pesquisa de um grupo de pesquisadores chineses, publicada na revista Nature Medicine estudou a fundo uma série de características sobre 37 casos assintomáticos. Nesta pesquisa, foram avaliados diferentes fatores como: características demográficas, exames laboratoriais e radiológicos, propagação do vírus e quantidades de anticorpos específicos contra o vírus. 

Os cientistas viram que o tempo médio que pacientes assintomáticos podem disseminar o vírus é de 19 dias, enquanto pacientes com a forma leve da doença tem esse período reduzido para 14 dias. Mas calma… O estudo deixa claro que ser capaz de disseminar o vírus não quer dizer que ele pode infectar eficientemente outra pessoa. Então, o que significa este resultado? Primeiramente, que é preciso mais estudos para compreender a capacidade de infecção do vírus nestas condições, pois simples detecção do material genético do vírus não quer dizer que ele está realmente presente no trato respiratório do organismo. 

E os anticorpos?

Além disso, uma outra conclusão da pesquisa foi em relação à quantidade de anticorpos IgG e IgM de pacientes com sintomas leves e pacientes assintomáticos. Recapitulando rapidamente o que explicamos no texto de anticorpos, em um primeiro contato com um patógeno, nós produzimos somente IgM. Já em um segundo contato OU um primeiro contato mais demorado e prolongado (como é o caso da infecção pelo SARS-CoV-2), nós passamos a produzir mais IgG do que IgM, pois esse anticorpo IgG é muito mais eficiente no combate ao vírus. 

Focando agora nos resultados dessa pesquisa, os autores viram que durante a fase aguda da infecção (aquela em que podemos sentir os sintomas e contaminar outras pessoas), os pacientes sintomáticos possuem mais IgG do que pacientes assintomáticos. Já na fase convalescente (aquela que ocorre após o fim da infecção e que você não pode mais infectar alguém), os níveis de anticorpos e principalmente de IgG diminuem mais nos pacientes assintomáticos do que em pacientes com sintomas leves. Mas o que todos esses termos complicados significam afinal?

Em outras palavras, tudo isso significa que a duração da imunidade contra o SARS-CoV-2 pode ser menor do que para outros coronavírus (algo que já foi abordado no texto sobre Cenários Pós-Pandemia). Exemplificando um pouco melhor: a imunidade contra outros coronavírus como o SARS-CoV-1 (causador do surto na China em 2002) e o MERS-CoV (causador do surto no Oriente Médio em 2012) dura por aproximadamente 1 ano1, 2, com alguns artigos dizendo que níveis de IgG se mantém por até dois anos para a SARS 3, 4, enquanto para a MERS a resposta por anticorpos pode durar até 34 meses 5. Contudo, como visto no artigo, os níveis de anticorpos neutralizantes para o SARS-CoV-2 já começam a baixar entre 2 e 3 meses após o fim da infecção, uma ideia que também está sendo proposta por vários outros estudos 6, 7.

Nossa, o que isso pode significar para nós? Quer dizer que eu posso pegar COVID-19 de novo? 

Calma! Não é bem assim. Como foi dito no texto sobre anticorpos, após uma infecção nós criamos células de memória que, entre outras coisas, passam a produzir anticorpos continuamente e que ajudam a combater de forma mais rápida e eficiente uma próxima infecção. Então a princípio, se você possui anticorpos contra o SARS-CoV-2 e se contaminar novamente, até onde sabemos atualmente, você não terá mais do que os sintomas leves da COVID-19.

Contudo, não conhecemos ainda a duração dessa imunidade, assim não sabemos se essa doença funciona como a gripe comum (que todo ano nos infectamos ou tomamos a vacina) ou alguma outra doença que uma vez que nos infectamos não pegamos mais (como a catapora). E é justamente por causa dessas dúvidas, quanto a duração da imunidade contra o SARS-CoV-2, que precisamos considerar melhor sobre os “passaportes de imunidade” da COVID-19 8, 9. Para os que não conhecem o termo, seria uma espécie de documento afirmando se você está infectado ou não, ou se já se infectou e está recuperado. Alguns países como a China já estão usando esse tipo de estratégia para a flexibilização da quarentena. 

Por causa de todas essas dúvidas, caso a duração da imunidade do SARS-CoV-2 seja realmente de curta duração, o uso dos passaportes de imunidade pode ser arriscado e acarretar em novas ondas de infecção. Dessa forma, será necessário pensar em outras estratégias de saúde pública como novas intervenções, novos períodos de isolamento social, higiene, isolamento de grupos de risco e testes em larga escala. 

Mas, novamente, para respondermos essas dúvidas precisamos de mais pesquisas e testes, para realmente saber a duração da imunidade contra o vírus e a eficácia dos anticorpos gerados em casos assintomáticos e leves. Enquanto isso, o isolamento social (mesmo nos casos de pessoas já infectadas e recuperadas) continua sendo estritamente necessário! Não só nos protegemos como também protegemos todas as pessoas que estão em volta. 

Para saber mais

Artigo Original: Long, Q. X., Tang, X. J., Shi, Q. L., Li, Q., Deng, H. J., Yuan, J., … & Su, K. (2020). Clinical and immunological assessment of asymptomatic SARS-CoV-2 infections. Nature Medicine, 1-5.

  1. Cao, W. C., Liu, W., Zhang, P. H., Zhang, F. & Richardus, J. H. Disappearance of antibodies to SARS-associated coronavirus after recovery. N. Engl. J. Med. 357, 1162–1163 (2007).
  1. Choe, P. G. et al. MERS-CoV antibody responses 1 year after symptom onset, South Korea, 2015. Emerg. Infect. Dis. 23, 1079–1084 (2017).
  1. Guo, X., et al. Long-term persistence of IgG antibodies in SARS-CoV infected healthcare workers. Preprint at https://www.medrxiv.org/content/10.1101/2020.02.12.20021386v1 (2020).
  1. Wu, L. P. et al. Duration of antibody responses after severe acute respiratory syndrome. Emerg. Infect. Dis. 13, 1562–1564 (2007).
  1. Payne, D. C. et al. Persistence of antibodies against middle east respiratory syndrome coronavirus. Emerg. Infect. Dis. 22, 1824–1826 (2016).
  1. Wang, X., et al. Neutralizing antibodies responses to SARS-CoV-2 in COVID-19 inpatients and convalescent patients. Preprint at https://www.medrxiv.org/content/10.1101/2020.04.15.20065623v3 (2020).
  1. Kissler, S. M., Tedijanto, C., Goldstein, E., Grad, Y. H. & Lipsitch, M. Projecting the transmission dynamics of SARS-CoV-2 through the postpandemic period. Science 368, 860–868 (2020).
  1. Entrevista: o passaporte da imunidade do coronavírus é uma ideia perigosa. Acessado em: 25/06/2020. Disponível em: https://saude.abril.com.br/medicina/passaporte-da-imunidade-do-coronavirus-ideia-perigosa/
  1. Faz sentido pensar em um passaporte de imunidade para Covid-19? Acessado em: 25/06/2020. Disponível em: https://saude.abril.com.br/blog/com-a-palavra/faz-sentido-pensar-em-um-passaporte-de-imunidade-para-covid-19/

Outras Leituras:

Gao, Z., Xu, Y., Sun, C., Wang, X., Guo, Y., Qiu, S., & Ma, K. (2020). A systematic review of asymptomatic infections with COVID-19. Journal of Microbiology, Immunology and Infection.

Este post foi escrito com exclusividade para o Especial Covid-19

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Os argumentos expressos nos posts deste especial são dos pesquisadores, produzidos a partir de seus campos de pesquisa científica e atuação profissional e foi revisado por pares da mesma área técnica-científica da Unicamp. Não, necessariamente, representam a visão da Unicamp. Essas opiniões não substituem conselhos médicos.


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