Por João Pedro Broday

Segundo o Ministério da Saúde já são mais de 32 mil profissionais da saúde contaminados pelo novo coronavírus. Além dos impactos diretos da doença, os trabalhadores da linha de frente ao combate à doença são também os mais vulneráveis aos impactos na saúde mental. 

Estudo realizado na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), liderado por Felipe Ornell e Silvia Chwartzmann Halpern, divulgado na última edição da revista Caderno de Saúde Pública, utilizou epidemias anteriores para desenvolver um cenário para a pandemia atual. O trabalho indicou que durante a epidemia de Sars (Síndrome Respiratória Aguda Grave), em 2003, 18 a 57% dos profissionais da saúde tiveram sérios problemas emocionais e psiquiátricos. Já em 2015, durante a epidemia de Mers (Síndrome Respiratória do Oriente Médio), também causada pelo coronavírus, estresse e fadiga também foram observados. 

“Estudos prévios mostram que eventos de contaminação podem ser seguidos por impactos drásticos na saúde psicossocial individual e coletiva, tornando-se, eventualmente, mais danosos que a própria pandemia”, alertam os pesquisadores. 

Os autores verificaram que, com o alta demanda por serviços de saúde, há o aumento da jornada de trabalho que, aliada com a infraestrutura precária, a falta de equipamentos de proteção individual (EPI) e a preocupação com a auto inoculação, aumentam a sobrecarga emocional nesses profissionais, trazendo consequências psíquicas com sentimento de solidão, estresse, irritabilidade, fadiga mental e física, insônia, desespero e até mesmo estresse pós-traumático (TEPT). 

“Estudo recente com profissionais da saúde no tratamento da Covid-19 encontraram altas incidências de estresse e ansiedade, com maiores índices em mulheres e enfermeiras, quando comparadas com homens e médicos, respectivamente. Isto pode ser explicado pelos longos turnos e contato intenso com pacientes por parte das enfermeiras”, enfatizam os autores.

A imagem de super-herois

“Uma tendência que é mais desencadeada na Covid-19 é dar aos profissionais de saúde um status de super-heróis e, se por um lado isto agrega valor, por outro há pressão adicional, porque os super-heróis não falham, não desistem ou ficam doentes”, afirmam Felipe e co-autores.  

De posse dessas informações, o estudo indicou que o cuidado psicológico dos profissionais da saúde deve ser ampliado, especialmente para aqueles que apresentam doenças crônicas, ou vivem com crianças ou idosos. Os sintomas somáticos também devem ser avaliados, bem como ser fornecido tratamento psicológico a esses profissionais, como foi feitos em RenMin Hospital e no Centro de Saúde Mental, em Wuhan, na China, primeira cidade onde a Covid-19 foi diagnosticada. Nesses locais, foram criados guias e consultas online com equipes multiprofissionais, permitindo uma melhor psicoeducação e a identificação de sintomas nos próprios integrantes das equipes médicas.  

“No Brasil, onde há uma escalada no número de casos, estratégias de saúde para profissionais de linha de frente precisam ser intensificadas. Se eles não forem priorizados, além do possível colapso do sistema de saúde, teremos o colapso emocional dos profissionais”, afirma o estudo. O trabalho também indica que tal colapso influenciará diretamente na disponibilidade humana e de recursos durante a pandemia e pode ser solucionado com a criação de centros médicos em áreas mais distantes e o desenvolvimento de programas governamentais de escala regional e municipal, visto que cada região apresenta peculiaridades no enfrentamento à doença.

“Uma estratégia complementar é o estabelecimento de parcerias com instituições da sociedade civil e implementação de sistemas de assistência remota. Atualmente, diferentes iniciativas estão sendo desenvolvidas por universidades e centros privados de saúde mental com objetivo de prover suporte online e de telefonia a profissionais da saúde”, sugerem os autores do artigo.

Acesse o artigo completo

ORNELL, Felipe et al . The impact of the COVID-19 pandemic on the mental health of healthcare professionals. Cad. Saúde Pública,  v. 36, n. 4,  2020.   Epub Apr 30, 2020. 

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Os argumentos expressos nos posts deste especial são dos pesquisadores, produzidos a partir de seus campos de pesquisa científica e atuação profissional e foi revisado por pares da mesma área técnica-científica da Unicamp. Não, necessariamente, representam a visão da Unicamp. Essas opiniões não substituem conselhos médicos.


editorial

Categorias: Sociedade

Germana Barata

Jornalista de ciência, mestre e doutora em história social. É pesquisadora do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor) do Núcleo de Desenvolvimento da Criatividade (Nudecri) da Unicamp e editora dos blogs Ciência em Revista e Um Oceano.

1 comentário

Mário Luis Broday · 09/07/2020 às 05:42

Parabéns aos profissionais da saúde neste momento difícil da nossa história.

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