trezentos e sessenta e quatro. 

duas mil trezentas e quarenta e nove.

duzentos e setenta mil seiscentos e cinquenta e seis.

nove milhões oitocentos e noventa e seis mil setecentas e vinte e sete.

dois milhões, trezentos e quatorze mil e cinquenta e nove.

#nãoéumnumero [hashtag do Memorial Inumeráveis]

Estes são os dados relacionados à COVID-19 de ontem. 10 de março. Um dia antes do anúncio oficial da OMS de que vivíamos uma pandemia. Neste dia, vivenciamos 2349 óbitos oficiais de Covid-19 no Brasil – o pior número desde o início da crise sanitária. 270.656 óbitos “acumulados”. Aplicamos apenas 9.896.727 doses de vacinas, CoronaVac ou Astrazeneca.

Vidas protegidas, vidas salvas, vidas perdidas. 270.656 pessoas.

Vocês ainda se chocam? Se solidarizam? Se importam?

270.656 brasileiros, em 213 milhões. Cerca de 0,13% da população. Parece tão pouco quando mudamos o jeito de apresentar os dados, não?

Quem tomou as duas doses das vacinas respira mais aliviado junto a 2.314.059 pessoas. Elas representam 1,01% das pessoas protegidas contra Covid-19, ou seja, apresentam uma chance muito ínfima de se contaminar e, se contaminadas, chances próximas de zero de apresentarem quadros severos de Covid-19.

Sim, Ciência salva vidas. Mas a ciência que salva vidas é a mesma  que precisa receber investimentos que serão usados tanto na formação de pessoas em graduação, pós-graduação e pesquisadores, quanto em laboratórios, insumos, recursos para a realização de pesquisa e formulação de produtos em tempos de crise (como o que vivemos agora).

A ciência não se fecha em si mesma.

Salva-se vida disponibilizando-se estes conhecimentos, produtos e informação, à população. E nesse processo, políticas públicas voltadas à ciência  e sua gestão efetiva são primordiais. Isso significa que, especialmente em tempos de crise, a negociação deve ser rápida, eficiente e de forma a priorizar  vidas.

Não há pausa para respirar – temos brasileiros sem oxigênio em hospitais. Não deveria existir  pausa para debater o país de origem da vacina. Importa a validação científica, segurança dos dados, a compra de insumos, a estruturação de transferências de tecnologias e fabricação das vacinas. Não há tempo para ofertar tratamentos ineficazes e/ou perigosos, ludibriando pessoas vulneráveis a um discurso de medo.

A cada 37 segundos uma pessoa morre.

A cada pausa para conjecturar se deve-se ou não comprar e fabricar vacinas, pessoas morrem. A cada pausa para conjecturar se deve-se fechar ou não as ruas com severidade, pessoas morrem. A cada pausa entre slides de coletivas, anunciando novas cores no painel dos estados, pessoas morrem.  A cada hesitação ao que a Ciência já avaliou, testou e validou, pessoas morrem. 

Ao final deste dia, no nosso país, após um ano do anúncio oficial decretando uma pandemia pela Organização Mundial da Saúde, provavelmente perderemos  mais do que 2 mil pessoas, amigos, parentes, pessoas que são queridas por outras,e brasileiros. 

Ainda que vacinando, seguimos morrendo – não por que as vacinas não funcionam. Mas por vacinarmos lentamente demais.

Por agirmos demasiadamente caóticos…

A ciência em parceria com a divulgação científica tem o potencial de salvar vidas e vêm lutando para que todos compreendam vários aspectos relacionados à pandemia. Como isto acontece em sua relevância mais mundana. Mas só conhecer não basta. São necessárias ações amplas que incluem o Estado com políticas públicas eficazes e a nós mesmos. Saber é ferramenta para usarmos na sociedade, em nossa vida cotidiana. É base para pensarmos e agirmos frente às problemáticas do mundo. 

A ciência nos dá respostas, a divulgação científica tornar o conhecimento acessível a todos. Juntas, tem o potencial de salvar vidas. No entanto,  só a prática rotineira e aplicada, de políticas coerentes, assertivas e cientificamente embasadas, em todos os setores da sociedade, especialmente na gestão de políticas públicas, torna o conhecimento em vidas não perdidas, todos os dias.

E nós, do Blogs de Ciência da Unicamp, estudamos todos os dias, analisamos dados, todos os dias, contamos vidas e mortes todos os dias, sentimos cada uma delas todos os dias, e em luto e em luta, seguimos e seguiremos -tal como o prometido desde o início de tudo isto- com e por todos que seguem aqui e todos os que partiram deixando familiares, amigos, colegas, companheiros: juntos.

as artes deste editorial são de Carolina Frandsen, Clorofreela

Este texto foi escrito com exclusividade para o Especial Covid-19

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Os argumentos expressos nos posts deste especial são dos pesquisadores. Dessa forma, os textos foram produzidos a partir de campos de pesquisa científica e atuação profissional dos pesquisadores e foi revisado por pares da mesma área técnica-científica da Unicamp. Assim, não, necessariamente, representam a visão da Unicamp e essas opiniões não substituem conselhos médicos.


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