Destaco nesse texto a ideia de que o blended learning ou o ensino híbrido perpassa uma construção histórica que surge a partir das discussões a respeito de como associar abordagens de ensino de modo a promover métodos, metodologias e estratégias adequadas a um objetivo educacional específico. Dessas discussões e com a chegada dos primeiros computadores (e posteriormente outras tecnologias), o ensino híbrido se vincula de forma indissociável ao conceito tecnológico e a ideia de ensino realizado em espaços diferentes e por meios diferentes. Esta ideia, que à época e até os dias de hoje parece promissora. Mas ganha distorções e, por razões mercadológicas, o ensino híbrido passa a ser confundido com uma proposta de simples ensino a distância com o auxílio de recursos tecnológicos.

Em artigo de 1996, denominado “Constructivism: implications for the design and delivery of instruction”, Thomas Duffy e Donald Cunningham trazem diferentes críticas ao construtivismo discutido na época. Algumas destas críticas podem ser consideradas bastante infundadas e outras nem tanto. Os autores apresentam uma proposta própria de interpretação do construtivismo e justificar a abordagem denominada “Problem-based learning”1. Apesar de bastante duros em suas críticas, que por vezes generalizaram estudiosos do construtivismo colocando-os como padronizados, o texto ilustra uma característica emergente da época. A discussão de abordagens para o ensino diferentes daquelas pautadas na reprodução.

Realize uma busca nas bases de dados de periódicos com o termo Science learning ou mathematics learning. Se você filtrar para a década de 1990, um conjunto de trabalhos será encontrado fazendo referência John Dewey, Vigotsky, Piaget. Vocês estarão vendo referências que propõem estudos sobre as formas de aprender. Também encontramos termos como: student-centered learning; alternatives approachs; pratical instruction; os quais associam as bases das teorias da aprendizagem a estratégias didáticas utilizadas. 

É nessa época que a ideia de metodologia ativa emerge. Por exemplo, Eric Mazur (o dito criador da “peer intruction”) tem seu livro proposto em 1997 (Peer Instruction: User’s Manual). É nesse período que surgem as primeiras associações a aprendizagem híbrida. E esta é compreendida como uma proposta que visava que o estudante buscasse as informações por meio de diferentes caminhos e fontes. Além disso, mediado pelo professor, construísse sua aprendizagem. 

Nesse sentido, incorporando as bases pedagógicas, a intenção é o surgimento de propostas de ensino em que conteúdos não sejam organizados da mesma forma para todos os aprendizes; a rota de aprendizagem é construída considerando as individualidades e as necessidades, valorizam-se atitudes e não conhecimentos; o processo de avaliação pode ser acompanhado podendo ser individualizado. Com a chegada das primeiras tecnologias, os vídeos e seguido dos computadores surge o termo delivery-learning. A partir daí a blended learning passa a ser conhecida como blended e-learning. 

No entanto, toda a proposta não é inicialmente pensada para a escola. Toda a “beleza” começa a ser aplicada a cursos de treinamento empresarial. Pois com o ensino “delivery” é possível  ensinar administradores e (trabalhadores de modo geral) em larga escala. Dessa forma, avalia-se cada profissional de forma individual. Isto é, observa-se o rendimento, a capacidade de aprender sozinho e a forma de linkar o aprendizado com as questões da “firma / empresa”. Como consequência, reconhecer quem deve ou não ser mantido. Quem é ou não melhor.

Na escola, uma mescla dos dois sentidos começa a emergir. Com isso, a apropriação da tecnologia, o blended e-learning não pode mais existir (ou seria mais raro sua existência) dissociado de qualquer forma de tecnologia. Nesse cenário, a ideia de uma educação híbrida inicia-se com uma proposta de mudança dos objetivos educacionais. Isto com bases nas teorias do desenvolvimento e da aprendizagem e incorpora recursos diversos. Dentre eles a tecnologia, sendo este último, por conta do caráter de nossa sociedade, indissociável da ideia de educação híbrida atualmente.

Apesar de antiga, usarei termos de um dos autores mais referenciados sobre educação híbrida. No livro The Handbook of Blended Learning: Global Perspectives, Local Designs, Graham cita que há três definições comuns para o BL: “Combining Instrucional modalities”; Combining instructional methods” e “Combining online and face-to-face instructional”. Não apenas como Graham. Mas diversos outros autores e divulgadores da BL se apropriaram da última definição a qual ficou, deste modo, sendo a mais difundida e utilizada ao redor do mundo. 

Portanto, nos dias atuais é possível definir a educação híbrida como sendo a junção entre a educação presencial e a educação não presencial mediada por tecnologias. O erro que, ao meu ver se comete, é esquecer das bases de desenvolvimento do conceito. Com isto, diminui-se a proposta ao uso de recursos tecnológicos sem que se pense no objetivo deste uso. 

Este erro acarreta, como consequência, pelo menos dois aspectos preocupantes. Primeiramente, não se pensam nos objetivos de ensino para uma proposta híbrida, fazendo com que a transposição de um ensino presencial para o ensino mediado por tecnologias seja visto como proposta híbrida. Aulas online são o exemplo clássico. Há uma exposição do conceito, com uma avaliação no formato de prova ao final de um conjunto de aulas mas, o fato de ser no computador ou no celular faz com que seja híbrido? Obviamente que não. 

O segundo aspecto preocupante faz com que, uma vez considerando essa possibilidade fajuta de ensino híbrido, a mesma se propague como proposta a ser oferecida em diferentes cenários educacionais. Isto faz com que empresas e fundações privadas produzam materiais do chamado “ensino híbrido” para redes de ensino públicas e privadas. Como algum dos pontos mais marcantes da venda desses materiais aparece o jargão da educação personalizada. Este é outro termo bastante frutífero do ponto de vista dos estudos educacionais. Principalmente na alfabetização! Mas que é distorcido para uma ideia de que não é mais necessário gastos com a presença física ou profissionais específicos como professores.

De fato, num período em que buscamos suprir necessidades básicas de estudantes por meio de recursos bastante limitados, dizer que aprimoramos os objetivos educacionais para uma proposta híbrida é simplesmente absurdo. Não estamos fazendo ensino híbrido, estamos adaptando propostas para em ensino emergencial. 

Divulgar este ensino emergencial como proposta híbrida gera uma distorção, prejudica pesquisas a respeito e potencialidades. Num futuro, quando não estivermos em pandemia, falar em ensino híbrido poderá ser algo extremamente ruim pelo simples fato de estarmos usando a terminologia de forma inadequada. Os mais de 20 anos de pesquisas a respeito do ensino híbrido estão sendo negligenciados.

Para saber mais

1. Foundations for Research in Educational Communications and Technology Chapter 7. Constructivism: implications for the design and delivery of instruction . Thomas M. Duffy Donald J. Cunningham 

2. Blended learning design: five key ingredients. Jared M. Carman.

3. A White Paper: Achieving Success with Blended Learning Harvi Singh and Chris Reed, Centra Software

4. Mudando a Educação com metodologias ativas. José Moran

5. Aprender e ensinar com foco na educação híbrida Lilian Bacich; José Moran 

6. The Handbook of Blended Learning: Global Perspectives, Local Designs Por Curtis J. Bonk, Charles R. Graham

7. Blended Learning:

Este texto foi escrito com exclusividade para o Especial Covid-19

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Os argumentos expressos nos posts deste especial são dos pesquisadores. Dessa forma, os textos foram produzidos a partir de campos de pesquisa científica e atuação profissional dos pesquisadores e foi revisado por pares da mesma área técnica-científica da Unicamp. Assim, não, necessariamente, representam a visão da Unicamp e essas opiniões não substituem conselhos médicos.


editorial


2 comentários

Edmea Santos · 11/03/2021 às 20:57

“… boa parte das referências sobre ensino híbrido, especialmente aquelas que enfatizam ‘metodologias ativas’, insistem em centralizar no aluno e na instrução programada para o aluno supostamente aprender sozinho; mas quando estamos na cibercultura, se há ‘centros’, eles são móveis, estão na relação de construção de conhecimento permanente entre seres humanos e artefatos técnicos/informacionais; pensar no ensino híbrido na cibercultura é provocar situações de aprender em rede; logo, o centro, o protagonismo deve ser coletivo, do aluno e do professor; a rede é o fundamento; menos personalização, enquadramentos e tutorias, e mais REDE, mais conversação, mais remixagem…precisamos de uma educação para o comum!”

Fragmentos da fala iluminada da Edmea Santos há pouco no Congresso da UFBA 2021. https://www.youtube.com/watch?v=D6cToTIUZ8w

    Edmea Santos · 11/03/2021 às 21:06

    Oba: o “iluminada “ do texto acima foi expressão da internauta que transcreveu trecho da live. Obrigada

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