Texto escrito por Alessandro Zorzi

Estudo realizado no Hospital de Clínicas da UNICAMP para avaliar o impacto da quarentena sobre a formação do médico residente em Ortopedia e Traumatologia, detectou aumento do número de cirurgias ortopédicas de urgência entre Março e Julho de 2020 (período mais rígido da quarentena), em comparação com o mesmo período de 2019.

Em Janeiro de 2020 o mundo tomou ciência de uma epidemia na China por uma nova cepa do coronavírus, chamada COVID-19. No mês seguinte, o vírus se espalhou rapidamente pela Europa e assistimos aterrorizados o impacto devastador da doença na Itália. No Brasil, o temor do colapso do sistema de saúde diante de um pico previsto para Março, levou as autoridades a decretarem quarentena. Com a demora da chegada do pico, a quarentena foi se estendendo até meados de Julho, quando finalmente as autoridades divulgaram um plano gradual de reabertura.

Neste período de quarentena mais rígida, houve uma diminuição da circulação de veículos no transito das grandes cidades. Sabemos que o número de acidentes de transito tem relação com a quantidade de veículos na rua. Logo, era lógico imaginar uma diminuição no número de cirurgias para tratamento de lesões causadas por acidentes motociclísticos e automobilísticos. Certo? Errado.

Muitos hospitais interromperam o atendimento da maioria das doenças para reservar leitos e se preparar para o pico. Hospitais de campanha e tendas foram montados em várias cidades. Internações eletivas foram proibidas e ambulatórios fechados. Diante deste cenário, somente os casos urgentes, aqueles traumas graves, trazidos de helicóptero ou por ambulâncias do SAMU, poderiam ser recebidos pela equipe da Ortopedia no HC da UNICAMP.

Imediatamente surgiram ações para adaptar o ensino teórico dos médicos residentes. Aulas presenciais foram substituídas por aulas online a distância. Mas como ensinar uma cirurgia? Chegou-se a cogitar a proposta de considerar 2020 um ano perdido e fazer os residentes repetirem um ano em sua formação. Mas o que observamos na prática foi exatamente o contrário.

Um estudo conduzido pelo residente Renato Schneider Laurito, com auxílio e orientação de médicos e professores do Departamento de Ortopedia, Reumatologia e Traumatologia da UNICAMP, constatou um aumento da atividade dos residentes da Ortopedia no centro cirúrgico. Os resultados deste estudo foram apresentados no Congresso Brasileiro de Ortopedia e Traumatologia em Novembro de 2020 (CBOT 2020) e estão sendo preparados para publicação.

De acordo com o estudo, não houve prejuízo grave na formação dos médicos residentes neste período, porque apesar da proibição das internações eletivas e da realização de cirurgias não emergenciais, ocorreu um aumento do número de fraturas expostas e outros traumatismos com necessidade de tratamento cirúrgico urgente. Além disso, os médicos residentes foram afastados de outras atividades hospitalares, tais como o atendimento ambulatorial, passando a frequentar um maior número de horas no centro cirúrgico, em virtude do aumento da demanda.

A figura abaixo mostra a comparação do número de cirurgias de urgência nos dois períodos. Urgência significa todo tratamento que precisa ser instituído o mais rápido possível, não excedendo oito horas de espera, para evitar prejuízos graves e sequelas ao paciente. As cirurgias que podem esperar mais de oito horas ou que podem ser realizadas no dia seguinte são classificadas como eletivas.

Foram registradas 169 cirurgias ortopédicas urgentes entre Março e Julho de 2019, enquanto no mesmo período de 2020, em plena quarentena, esse número saltou para 188. Um aumento de 11,2%.

Enquanto isso, o número de cirurgias eletivas, aquelas realizadas em pacientes com problemas ortopédicas crônicos ou que permitem espera, despencou de 300 de Março a Julho de 2019 para apenas 196 no mesmo período de 2020.

Parece razoável pensar que o número de acidentes deveria diminuir durante a quarentena, com a menor circulação de pessoas no transito. Entretanto, uma possível explicação para este resultado foi o aumento exponencial da demanda por entregas e serviços de “delivery”. A maioria realizada por motocicletas. Além do aumento da demanda, houve um grande aumento do número de pessoas que buscaram no ramo de entregas uma forma de sobrevivência diante de demissões e fechamentos de empresas. Muitos com pouca ou nenhuma experiencia na condução de motocicletas.

Estes dados ajudam a entender a dinâmica da sociedade e o impacto na demanda por serviços hospitalares diante de situações que exijam quarentenas no futuro, para que haja um melhor planejamento na distribuição dos recursos. É necessário fazer estudos mais extensos, com dados de outros hospitais, para confirmar estes achados.

O Autor

Alessandro Zorzi

Médico ortopedista e pesquisador na UNICAMP e no Hospital Albert Einstein, com mestrado e doutorado em ciências da cirurgia pela UNICAMP e especialização em pesquisa clínica pela Harvard Medical School.

Este texto foi escrito originalmente no blog Fêmur Distal

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Os argumentos expressos nos posts deste especial são dos pesquisadores. Dessa forma, os textos foram produzidos a partir de campos de pesquisa científica e atuação profissional dos pesquisadores e foi revisado por pares da mesma área técnica-científica da Unicamp. Assim, não, necessariamente, representam a visão da Unicamp e essas opiniões não substituem conselhos médicos.


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