Texto escrito por Marina Fontolan e Dayane Machado

No texto anterior, falamos sobre a história da vacinação e a criação do Zé Gotinha, hoje nós vamos falar sobre a vacinação no Brasil no cenário da pandemia de COVID-19 especificamente.

Como a vacinação no país, embora avançando, ainda está mais lenta do que gostaríamos e ainda não possuímos doses suficientes para toda a população, fizemos um recorte histórico.

Assim, no texto de hoje, começaremos abordando o anúncio dos testes da Coronavac em território nacional e até o final do ano de 2020. Ainda que seja um recorte histórico muito breve, ele deixa claro como o governo federal reagiu à vacina e como foi mudando seu discurso ao longo do tempo, estratégia essa que continua sendo empregada ainda hoje.

Vacinação no Brasil

No Brasil, a vacinação para a Covid-19 já possui um histórico ”longo”. Ele começa em 2020, quando o governador do estado de São Paulo, João Dória, anunciou em meados de junho que o instituto Butantan produziria a vacina. Um mês depois, afirmou que a vacina poderia estar disponível à população em Janeiro de 2021. Um discurso problemático que já estava sendo adotado por outros países: Estados Unidos e Rússia, por exemplo, já estavam anunciando o lançamento de possíveis vacinas para agosto daquele ano.

No entanto, o final de Agosto de 2020 marcou o início de uma grande discussão acerca da vacinação de Covid-19 no país. O Ministério da Saúde tentava negociar a compra de vacinas da Oxford (hoje conhecidas como AstraZeneca).

Alguns poréns

Enquanto isso, o presidente da república, Jair Bolsonaro, dizia a apoiadores que “Ninguém pode obrigar ninguém a tomar vacina”. Ao mesmo tempo, João Dória começou a defender a vacinação obrigatória. A partir deste momento, tivemos um embate de narrativas, que politizou o debate em torno da vacinação e de possíveis tratamentos para a Covid-19.

Em Outubro de 2020, Dória declarou que a vacinação seria obrigatória no estado de São Paulo, sendo rebatido por Bolsonaro no mesmo dia. Este afirmou que o governo federal não obrigaria a vacinação, mesmo tendo assinado uma lei que permitia aos estados tornar a vacinação compulsória.

Ainda no mês de Outubro, o Ministério da Saúde anunciou a compra da vacina chinesa da Sinovac, a Coronavac, por meio de um acordo com o governo do estado de São Paulo. O presidente reagiu no dia seguinte, falando em traição do Ministério da Saúde e disse que seu governo não compraria a “vacina chinesa”. Esta fala foi contrariada pelo então vice-presidente da república, o general Hamilton Mourão, que afirmou que o governo federal compraria a vacina chinesa sim. Fala esta que veio acompanhada da estimativa do presidente da Anvisa de que o Brasil teria vacinas disponíveis no 1º semestre de 2021, momento em que o país já tinha mais de 150 mil mortes pela Covid-19.

Protestos e intenções de se vacinar: as contradições brasileiras

As falas do presidente da república em relação à vacina geraram reação da população brasileira, sobretudo aquela que apóia o presidente. Um grupo a favor dele chegou a realizar um protesto na Avenida Paulista no início de novembro de 2020, criticando Doria e a obrigatoriedade da vacina de Covid-19 em SP.

Nessa época, uma pesquisa do Datafolha mostrou que 72% da população tomaria a vacina da Covid-19, 57% aceitariam o imunizante de origem chinesa e 58% aceitavam a obrigatoriedade. Em outras palavras, as falas do presidente já estavam possivelmente contribuindo para a confusão da população em relação às vacinas e em relação às políticas públicas em torno da vacinação. Por exemplo, a obrigatoriedade que o presidente dava a entender que seria implementada, era aquela da Revolta da Vacina, algo muito distante da realidade.

Da suspensão temporária de testes às mudanças de narrativas

    Ao constatar a morte de um participante dos testes da Coronavac no estado de São Paulo em meados de novembro de 2020, a Anvisa pediu a suspensão dos testes. Isto acontece para que as circunstâncias da morte fossem melhor analisadas, e os testes foram retomados dois dias depois. A notícia fez com que Bolsonaro comemorasse “Mais uma que Jair Bolsonaro ganha”.

Esse ponto marcou uma certa mudança de discurso vindo do governo federal em relação às vacinas. Isto é, Dória anunciou que a vacina poderia ser aplicada no Brasil sem a autorização da Anvisa, a Anvisa rebateu a fala. Além disso, Bolsonaro afirmou que o Brasil iria fornecer a vacina, desde que a Anvisa a aprovasse. Este mês terminou com o Ministério da Saúde descartando a possibilidade de acesso à vacina para toda a população em 2021 e com a Anvisa fazendo inspeções na China relacionadas à produção da Coronavac. 

Já o mês de Dezembro de 2020 iniciou com o Ministério da Saúde afirmando que a vacina da PFizer não atendia ao perfil desejado pelo Brasil e a Anvisa definindo requisitos para uso emergencial de vacinas. Além disso, o então presidente da câmara, Rodrigo Maia, tentou definir um plano de vacinação e uma discussão acerca de quanto tempo a Anvisa teria para avaliar os pedidos de uso emergencial das vacinas.

Termo de responsabilidade e movimento antivacina

Em meados de dezembro, Bolsonaro pediu a divulgação de dados sobre periculosidade das vacinas contra Covid-19. Neste momento, ele afirmava que exigiria das pessoas que tomassem vacina a assinatura de um termo de responsabilidade e, também, afirmou que ele próprio não tomaria.

Neste discurso, Bolsonaro juntou algumas táticas usadas pelos movimentos antivacina. Quais? Ora, o questionamento gratuito dos processos de desenvolvimento das vacinas. Como a suposição de que elas não são seguras, independente do volume de evidências indicando o contrário. Além disso, também apontou a suposta relação de  liberdade de escolha. Para tanto, ele (e todos adeptos a este discurso) ignoram o fato de que as vacinas são uma política de saúde pública coletiva e que a perspectiva individualizada não faz o menor sentido nessa discussão.

O Superior Tribunal Federal reagiu a esta fala, autorizando medidas restritivas às pessoas que não tomassem vacina e rejeitando o recurso que desobrigava os pais a vacinarem os filhos. Bolsonaro respondeu, dizendo que não haveria vacina para todos. Outra fala é que não havia razão para ter pressa pra comprar vacinas (discurso que mudou no dia 28/12). Por fim, que não ligava para o fato do Brasil estar atrasado na vacinação e nas negociações de compras de vacinas e que era responsabilidade dos laboratórios negociar as doses com o Brasil. Fundamental lembrar que tal fato chegou a ser feito pela Pfizer insistentemente, mas ela continuou sendo ignorada).

Análise de dados: qual o resultado disso?

    Há uma clara confusão gerada acerca das vacinas, direcionando a circulação de desinformação à população. Quais?

Por exemplo, a falta de uma campanha em defesa da vacinação por parte do governo federal (uma marco negativo na história da vacinação no Brasil, considerando a trajetória do PNI). Além disso, temos as suspeitas sobre as vacinas, desde a segurança até a eficácia, levantadas constantemente pelo presidente. Por fim, podemos citar também as informações desencontradas divulgadas por diferentes instituições (imprensa, instituições de pesquisa e diferentes setores do governo).

Reforçamos estes exemplos com a popularidade de boatos de que as vacinas não seriam seguras, de que poderiam causar doenças e de que não protegeriam contra a Covid-19. Em entrevista ao Jornal Valor Econômico, Aurélio Tenharim, um líder indígena no Amazonas, afirmou o seguinte: “Muitos parentes não querem tomar a vacina (…) Os parentes dizem: ‘Se o presidente diz que não vai tomar a vacina porque diz que não precisa, porque eu vou tomar?”. Parentes se referem às pessoas que se identificam como indígenas – independente da etnia. 

Mas isto não se deu de forma isolada

Os discursos nada consistentes vindos do governo federal, sobretudo a partir da figura do presidente da república, não alimentaram a hesitação vacinal só entre os povos tradicionais no Brasil. Como visto, a pesquisa do Datafolha do ano passado já indicava a possibilidade de hesitação e, de acordo com os pesquisadores da Rede de Pesquisa Solidária, a falta de vacinas também contribuiu para a população hesitar em se vacinar. Essa hesitação vacinal está chegando a ponto de sobrarem vacinas em algumas unidades básicas de saúde e de pessoas morrerem de Covid-19 por não terem tomado a vacina, como este caso reportado pelo Youtuber Felipe Neto.

    Essa hesitação vacinal se torna um problema cada vez maior no país. Afinal, a falta de vacinas de um lado e a hesitação de outro, fazem com que a pandemia não consiga ser controlada. Isso resulta no país permitindo que mais pessoas morram e levando mais tempo para conseguir retomar suas atividades econômicas – alerta dado inclusive pela OCDE

Como lidar com essa situação?

    Quando estamos diante de uma pessoa espalhando desinformação, sendo essa relacionada à vacinas ou não, podemos seguir alguns passos. Primeiro: identificar o público: quem é essa pessoa? De onde ela tirou esta desinformação? A maior parte das pessoas acaba espalhando desinformação sem saber que se trata de desinformação. É importante lembrar que todos estão suscetíveis a desinformação e podem cair nelas.

O segundo passo é conversar com a pessoa no privado e evitar ataques, sem fazer um estardalhaço em grupo, pois isso pode travar o diálogo.

O terceiro passo é ouvir a pessoa de verdade e fazer muitas perguntas: de onde ela recebeu aquele dado? Quem enviou? Por que isso faz sentido pra ela?, faça isso reconhecendo os sentimentos das pessoas. Lembrem-se: estamos numa pandemia e é normal as pessoas sentirem medo. Isso faz com que as pessoas acreditem nas maiores bobagens sem pensar.

O quarto passo é encontrar pontos em comum entre o que a pessoa fala e o dado que você tem, mas cuidado! Evite usar jargões e inundar a pessoa com dados e muitas informações, isso tende a fazê-la se fechar e passar a te ignorar. Por fim, repita os fatos sempre que possível

    Você percebeu que a pessoa está com muito contato com redes de desinformação? Além dos passos que já dissemos, é legal você mostrar para ela redes sérias de divulgação científica. Abaixo indicamos alguns destes locais:

InfoVid – Twitter; Instagram e Facebook

Especial COVID-19 

Todos Pelas Vacinas

Observatório COVID-19

Rede Análise COVID-19

Agência Lupa

Organização Mundial da Saúde

Associação Brasileira de Saúde Coletiva

Central of Disease Control and Prevention

Para Saber Mais

Eve Dubé, Maryline Vivion & Noni E MacDonald (2015) Vaccine hesitancy, vaccine refusal and the anti-vaccine movement: influence, impact and implications, Expert Review of Vaccines, 14:1, 99-117.


Lazarus, J.V., Ratzan, S.C., Palayew, A. et al. A global survey of potential acceptance of a COVID-19 vaccine. Nat Med 27, 225–228 (2021).

Este texto foi escrito com exclusividade para o Especial Covid-19

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Os argumentos expressos nos posts deste especial são dos pesquisadores. Dessa forma, os textos foram produzidos a partir de campos de pesquisa científica e atuação profissional dos pesquisadores e foi revisado por pares da mesma área técnica-científica da Unicamp. Assim, não, necessariamente, representam a visão da Unicamp e essas opiniões não substituem conselhos médicos.


3 comentários

Ana Márcia Vainsencher · 14/08/2021 às 18:48

Texto super interessante para levar aos jovens

Flávio Donato da Silva · 21/08/2021 às 20:19

Boas considerações acerca do tema.
Importante para leitura e inteirar de uma doença ainda nova ao redor do mundo.

Flavio Donato da Silva · 05/10/2021 às 23:52

Estamos ficando livre da COVID aos poucos.
A vitória é sempre do Eterno criador do céu e da terra.

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