>Monstros marinhos de sangue-quente

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Durante a Era Mesozóica os oceanos eram habitados por uma diversa fauna de répteis marinhos. Plesiossauros, Ictiossauros e Mosassauros compunham esse elenco de famosos monstros bizarros. Mas uma questão que sempre motivou discussões foi quanto o metabolismo desses animais: seriam eles endotérmicos, ou seja, capazes de regularem a temperatura corporal?

A Paleontologia alinhada à Geoquímica trouxeram uma resposta à essa questão. Pesquisadores franceses realizaram estudos recentes com isótopos de oxigênio (O-18/O-16) contidos em fósseis dos três mais famosos grupos de répteis marinhos mesozóicos: os Plesiossauros, os Ictiossauros e Mosassauros. Eles compararam a composição dos isótopos de oxigênio no fosfato dos dentes daqueles grupos com os de peixes que coabitaram os mesmos ambientes.

O valor de O-18 contido no fosfato de vertebrados indicam ambos: a temperatura corporal e a composição da água ingerida. No caso dos répteis estudados, a valor de O-18 reflete o sangue durante o processo de formação dos dentes. Assumindo que ambos os répteis e peixes estudados viveram sob as mesmas condições de massa de água, o O-18 indicaria a temperatura corporal deles. E assim foi feito, analisando amostras do mundo todo. Veja a tabela abaixo:



Abaixo estão as tabelas com os valores específicos para todo o material encontrado em uma mesma camada de sedimento. Os erros estão elevados pois tiveram de ser considerados os processos diagenéticos (de formação do fóssil), onde pode ter ocorrido uma variação da composição original dos matérias coletados.

           
Apesar de todas as variáveis existentes, é possível observar a partir dos gráficos acima, que mesmo com a variação da temperatura da água, os répteis marinhos estudados conseguiam manter relativamente sua temperatura corporal, com exceção dos Mosassauros, que permitiriam que sua temperatura diminuísse levemente a medida que a temperatura da água também diminuísse.

A endotermia não é característica de um grupo apenas. A endotermia total ou parcial surgiu ao longo do tempo em diferentes espécies de diferentes linhagens. É sabido que alguns tipos de tubarões e atuns possuem endotermia parcial, assim como também alguns insetos e até mesmo vegetais. Acredita-se que a origem da endotermia total tenha ocorrido somente no Permiano, com os Sinápsidos. 

No grupo dos Arcossauros, propuseram a endotermia para dinossauros e pterossauros. Já quanto aos crocodilianos, ainda é tópico de debate sobre se alguns de seus ancestrais  teriam desenvolvido tal capacidade, tendo em vista que o coração de seus representantes atuais possui quatro câmaras assim como o das aves e mamíferos.

A termorregulação pode ser um indicador para o sucesso evolutivo dos répteis marinhos gigantes, afinal, eles deveriam necessitar de uma enorme quantidade de energia para suas atividades predatórias. Essa peculiaridade fisiológica lhes teria dado maior flexibilidade comportamental.

À respeito dos grupos comentados

As três linhagens de répteis marinhos gigantes enfocadas no texto representam adaptações de diferentes grupos à vida marinha. Os Ictiossauros evoluíram a partir de répteis neodiápsidos basais. Tinham o formato de corpo parecido com o dos golfinhos atuais, sem pescoço, mas uma cauda parecida com a de um peixe. Já os Plesiossauros eram diápsidos derivados — Sauropterygia, o grupo irmão dos Lepidosauria (cobras e lagartos). Tinham fortes patas em forma de pás e um longo pescoço. Os Mosassauros eram varanóides anguimorfos altamente adaptados à vida marinha. Possuiam o corpo alongado, cauda larga e chata na vertical e patas em formas de pás. 

Tanto a morfologia dentária e o conteúdo estomacal desses três grupos de répteis marinhos indicam que eram predadores. Sua fisiologia indica que eram excelentes nadadores, resistentes a diferentes temperaturas, sobretudo os Mosassauros e Plesiossauros, que poderiam realizar longas jornadas em mar aberto.





Referências Bibliográficas:

. A. Bernard, C. Lecuyer, P. Vincent, R. Amiot, N. Bardet, E. Buffetaut, G. Cuny, F. Fourel, F. Martineau, J.-M. Mazin & A. Prieur, 2010. Regulation of Body Temperature by Some Mesozoic Marine Reptiles. Science, 328 (5984): 1379 DOI: 10.1126/science.1187443

. R. Montani, 2010. Warm-blooded Sea Dragons. Science, 328 (5984).

Um comentário em “>Monstros marinhos de sangue-quente”

  1. >Saber como funcionava o metabolismo de animais extintos sempre foi uma das grandes questões da Paleontologia. Sendo assim, ver um estudo como esse é sempre animador. O que mais chama a atenção aqui, todavia, é o fato desse grupo de pesquisadores franceses terem incorporado aspectos empíricos ao seu estudo, não tendo se baseado somente em especulações (um bom avanço!). Além disso, Bernard e colegas exploraram um modelo interessante da geoquímica, que fornece uma perspectiva interessante sobre a problemática que queriam explorar. Esses modelos geoquímicos de análise de variação de isótopos estão muito em evidência na atualidade entre os estudos paleontológicos…. E isso faz sentido: Eles podem fornecer respostas fantásticas. Dependendo do caso, suas soluções são bastante precisas e, sobretudo, acessam informações custosas de serem conseguidas de outra forma. Isótopos de diferentes elementos podem refletir uma série de comportamentos do animal e também a interferência do meio em seu metabolismo. Cabe ao pesquisador saber o que vai analisar: oxigênio, carbono, estrôncio, nitrogênio, fósforo, etc. A maquinaria geoquímica, com uma quantidade muito pequena de amostra pode fazer uma varredura de vários desses elementos numa única análise. A tecnologia nesse campo é extraordinária. A interpretação, que cabe, no entanto, precisa ser cautelosa.As oportunidades que essas análises oferecem não devem cegar os pesquisadores para algumas limitações.Destaco a cautela aqui principalmente porque pouco se sabe até onde o processo diagenético pode interferir no resultado das análises. Isso precisa ser melhor avaliado. O erro intrínseco, sob essa perspectiva, pode ser muito grande.Como a diagênese pode interferir na proporção isotópica? Isso pode variar de uma formação sedimentar para a outra, inclusive. E materiais com diferenças temporais não deveriam ser comparados.É uma questão a se explorar.De qualquer forma, o trabalho dos franceses vem mostrar uma tendência a sofisticação no estudo da paleontologia. E isso é de se comemorar!A ciência prosseguirá por seus próprios meios. Estudos posteriores virão a corroborar ou refutar a hipótese frente a novas evidências e avanços na compreensão principalmente da interferência do processo diagenético nessa situação toda.Obrigado a Tito por ter abordado essa temática aqui no Colecionadores!Um abraço!

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