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Tetrapodophis amplectus e a hist√≥ria sem fim da ‚Äúcobra‚ÄĚ de quatro patas: uma perspectiva interna.

Em 2015, um f√≥ssil proveniente do Brasil veio √† tona com uma publica√ß√£o feita por Martill e colaboradores. A repercuss√£o dessa publica√ß√£o foi imensa por v√°rios motivos, como por exemplo, o fato de se tratar de um esp√©cime muito bem preservado de uma suposta cobra de quatro patas. No entanto, nem tudo foram flores, cr√≠ticas acerca da proced√™ncia duvidosa do material e at√© mesmo da sua designa√ß√£o como uma serpente foram levantadas. Para sabermos um pouco mais sobre o assunto e a import√Ęncia das discuss√Ķes levantadas convidamos o Doutorando Tiago Rodrigues Sim√Ķes, especialista no estudo da origem e evolu√ß√£o de Squamata (lagartos e cobras), para escrever o esclarecedor texto abaixo.

Obs: Agradeço ao colega João Francisco Botelho pela sugestão do tema, que me motivou a convidar o Tiago para redigir tal texto.

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¬†(TEXTO POR TIAGO SIM√ēES)¬† ¬†

Tetrapodophis amplectus e a hist√≥ria sem fim da ‚Äúcobra‚ÄĚ de quatro patas: uma perspectiva interna

F√≥sseis espetaculares costumam chamar a aten√ß√£o da comunidade cient√≠fica e da m√≠dia ao redor do mundo. Em parte pelo fasc√≠nio que a paleontologia como um todo (especialmente atrav√©s dos dinossauros) causa em muitos, em parte pelas novas perspectivas que certos f√≥sseis fornecem acerca da evolu√ß√£o dos seres vivos. Dentro desse √ļltimo aspecto encontra-se um r√©ptil f√≥ssil denominado Tetrapodophis amplectus (Figura 1), da Forma√ß√£o Crato da Bacia do Araripe, que viveu a cerca de 115 milh√Ķes de anos atr√°s. A esp√©cie, originalmente publicada como uma cobra de quatro patas (Martill, Tischlinger & Longrich, 2015) criou grande como√ß√£o na comunidade cient√≠fica internacional no ano de 2015. Contudo, logo ap√≥s a sua publica√ß√£o, o estudo foi alvo de uma s√©rie de controversas envolvendo tanto a proced√™ncia do material, quanto a ci√™ncia por tr√°s da descoberta. No relato abaixo, eu forne√ßo um relato e as minhas perspectivas sobre o assunto do ponto de vista de um brasileiro, especialista em lagartos f√≥sseis e diretamente envolvido na nova pesquisa sobre a Tetrapodophis.

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Figura 1: Espécime (holótipo) de Tetrapodophis amplectus. Créditos: Michael W. Caldwell

Problemas na caracteriza√ß√£o anat√īmica e classifica√ß√£o

A posi√ß√£o ocupada pela Tetrapodophis na evolu√ß√£o do grupo que compreende as cobras e lagartos (Squamata, ou escamados) √© sem d√ļvida o aspecto mais problem√°tico na interpreta√ß√£o cient√≠fica do f√≥ssil. No √ļltimo encontro da Society of Vertebrate Paleontology (SVP) em Salt Lake City, nos EUA, um time de colaboradores liderados por Michael Caldwell (University of Alberta, Canad√°), e que tamb√©m inclui Robert Reisz (University of Toronto, Canad√°), Randall Nydam (Midwestern University, EUA), Alessandro Palci (Flinders University, Austr√°lia), al√©m de mim (afilia√ß√£o abaixo), apresentou uma s√©rie de dados novos sobre a Tetrapodophis. Em resumo, aspectos da morfologia dent√°ria (Figura 2), craniana e das v√©rtebras indicam que o indiv√≠duo se parece mais com um grupo extinto de lagartos aqu√°ticos denominados dolicossaur√≠deos (proximamente relacionados aos mosassauros) do que com qualquer cobra vivente ou f√≥ssil conhecida. Um dos aspectos mais relevantes dos novos dados obtidos √© que a informa√ß√£o anat√īmica presente na descri√ß√£o original do esp√©cime ou est√° errada, ou √© imposs√≠vel de ser visualizada. Al√©m disso, partes do material preservam impress√Ķes da morfologia do cr√Ęnio (Figura 3) que foram simplesmente ignoradas no estudo original. √Č de se espantar que tal informa√ß√£o n√£o tenha sido inclu√≠da no estudo original, j√° que tais impress√Ķes em baixo relevo do cr√Ęnio fornecem informa√ß√Ķes valiosas sobre alguns ossos que s√£o importantes para a classifica√ß√£o dessa esp√©cie dentre os escamados (Squamata).

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Figura 2: Imagem dos dentes presentes no holótipo de Tetrapodophis amplectus . a) material original; b) representação esquemática, enumerando os dentes. Créditos: Michael W. Caldwell

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Figura 3: Imagens do cr√Ęnio de Tetrapodophis amplectus . Principais ossos preservados, bem como as impress√Ķes de ossos completa ou parcialmente destruidos. Cr√©ditos: Michael W. Caldwell

O leitor pode se perguntar como que erros em tamanho volume podem ter sido cometidos em um estudo publicado num peri√≥dico de tamanho escal√£o como a Science? Pois bem, voc√™ n√£o √© o √ļnico. Diversos outros especialistas em escamados presentes na reuni√£o anual da SVP ficaram igualmente espantados sobre a falta de cuidado na correta interpreta√ß√£o anat√īmica da Tetrapodophis. Alguns j√° desconfiavam de diversos erros ao comparar as fotos publicadas com a descri√ß√£o escrita do material no artigo original, mas somente agora com os novos dados fornecidos pelo nosso time de colaboradores puderam confirmar tais suspeitas (veja relato do Dr. Jason Head, Cambridge University: http://news.nationalgeographic.com/2016/11/snakes-tetrapodophis-fossils-ethics-science/).

Uma outra pergunta que aqueles que n√£o s√£o especialistas em cobras e lagartos podem fazer (e extremamente relevante nessa discuss√£o) √©: como um animal alongado e de patas curtas n√£o √© uma cobra? O que ocorre √© que diversas linhagens de lagartos adquiriram um corpo alongado seguido de redu√ß√£o dos membros durante a sua hist√≥ria evolutiva, incluindo as cobras, dolicossaur√≠deos, anfisb√™nias, dibam√≠deos, pigopod√≠deos, diversas grupos de angu√≠deos, scinc√≠deos, entre outros. Dessa forma, a redu√ß√£o de membros e presen√ßa de um corpo alongado est√£o longe de ser um aspecto exclusivamente observado nas cobras. Para se reconhecer uma cobra como tal, deve-se analisar a morfologia das v√©rtebras e, em especial, do cr√Ęnio. Sendo assim, a combina√ß√£o de dados que foram mal-interpretados ou ignorados certamente influenciou os resultados apresentados por Martill e co-autores, inclusive a an√°lise filogen√©tica realizada pelos mesmos.

Problemas na interpretação do hábito de vida

A interpreta√ß√£o inicial do f√≥ssil como um animal fossorial foi um dos pontos que mais me chamou a aten√ß√£o na descri√ß√£o por parte de Martill e colaboradores. O indiv√≠duo possui os ossos do pulso e do tornozelo pouco ou n√£o ossificados. Apesar de essa caracter√≠stica poder ser indicativa de um est√°gio juvenil em r√©pteis, especialmente no est√°gio embrion√°rio ou rec√©m-nascido, nenhum outro aspecto da morfologia do animal indica um est√°gio de desenvolvimento t√£o jovem. Uma outra hip√≥tese, no entanto, explica de forma mais parcimoniosa esse baixo grau de ossifica√ß√£o: um h√°bito de vida aqu√°tico, conforme observado em in√ļmeras linhagens de r√©pteis que adquiriram um h√°bito aqu√°tico em sua hist√≥ria evolutiva (ex: mosassauros, plesiossauros, talatossauros, entre outros). Al√©m disso, a baixa ossifica√ß√£o dos ossos do pulso e tornozelo tornariam as patas da Tetrapodophis pouco √ļteis para atividades como escavar ou escalar. Outros argumentos tamb√©m foram utilizados em um estudo mais recente para demonstrar empiricamente que a Tetrapodophis n√£o possui o leque de adapta√ß√Ķes que normalmente se observa em lagartos ou cobras fossoriais (Lee et al., 2016).

Problemas legais e éticos

O outro aspecto controverso sobre a Tetrapodophis, e que concerne de forma mais direta a paleontologia brasileira, √© como esse material foi parar em uma cole√ß√£o particular na Alemanha. A legisla√ß√£o brasileira pro√≠be, desde 1942, a venda de f√≥sseis ou a sua retirada do pa√≠s sem permiss√£o legal. No entanto, toneladas de f√≥sseis deixam o Brasil ilegalmente para serem vendidos no exterior, especialmente aqueles da bacia do Araripe (regi√£o de proced√™ncia da Tetrapodophis)‚ÄĒpara mais detalhes sobre a legisla√ß√£o brasileira sobre os f√≥sseis e o problema do contrabando de f√≥sseis, veja Sim√Ķes and Caldwell (2015). Os autores do trabalho relataram n√£o saber sobre a exata √©poca em que o f√≥ssil saiu do Brasil (http://www.sciencemag.org/news/2015/07/four-legged-snake-fossil-stuns-scientists-and-ignites-controversy). Na realidade, depoimentos por parte do autor principal (Martill) sobre a sa√≠da do material do Brasil demonstram o qu√£o preocupado com as normas √©ticas e legais o autor parecia estar no momento de sua publica√ß√£o ‚Äúpessoalmente, eu n√£o dou a m√≠nima para como e quando o f√≥ssil saiu do Brasil‚ÄĚ [tradu√ß√£o livre] (veja o relato de Martill no link anterior). Contudo, o fato do f√≥ssil pertencer a uma cole√ß√£o particular e devido ao longo hist√≥rico de tr√°fico de f√≥sseis da regi√£o do Araripe criam uma situa√ß√£o muito suspeita acerca da proced√™ncia do material e as circunst√Ęncias da sua sa√≠da do pa√≠s. Isso levou a abertura de um processo criminal para se investigar a sa√≠da desse f√≥ssil do Brasil (http://www.nature.com/news/four-legged-snake-fossil-sparks-legal-investigation-1.18116).

Um dos grandes problemas envolvendo cole√ß√Ķes particulares e venda de f√≥sseis √© a perda de conhecimento sobre a biodiversidade pret√©rita devido a exemplares que terminam em gavetas de indiv√≠duos particulares, ao inv√©s de serem estudados por especialistas em museus e universidades. No caso da Tetrapodophis, o exemplar havia sido depositado em um museu na regi√£o de Solnhofen √† √©poca da publica√ß√£o. Contudo, o material pertence a um colecionador particular e o dono det√©m os direitos de retirar o esp√©cime do museu quando bem entender. Em algum momento entre o fim de 2015 e in√≠cio de 2016, soubemos da not√≠cia que o dono do material havia retirado o esp√©cime do museu em Solnhofen e que, portanto, o hol√≥tipo e √ļnico esp√©cime conhecido de Tetrapodophis n√£o estava mais dispon√≠vel para estudo. As observa√ß√Ķes do esp√©cime feitas por Martill e co-autores, seguidas das realizadas por Caldwell e Reisz em uma visita ao museu logo ap√≥s a publica√ß√£o da esp√©cie, poder√£o permanecer como as √ļnicas existentes acerca desse material, talvez por muitos anos a frente. Nesse contexto, e ao meu entendimento, fica clara a resposta a pergunta: quem ganha com materiais cient√≠ficos depositados em cole√ß√Ķes particulares? Certamente, n√£o √© a ci√™ncia.

Referências para os artigos citados acima:

Lee MSY, Palci A, Jones MEH, Caldwell MW, Holmes JD, Reisz RR. 2016. Aquatic adaptations in the four limbs of the snake-like reptile Tetrapodophis from the Lower Cretaceous of Brazil. Cretaceous Research 66: 194-199.

Martill DM, Tischlinger H, Longrich NR. 2015. A four-legged snake from the Early Cretaceous of Gondwana. Science 349: 416-419.

Sim√Ķes TR, Caldwell MW. 2015. F√≥sseis e legisla√ß√£o: breve compara√ß√£o entre Brasil e Canad√°. Ci√™ncia e Cultura 67: 50-53.

Dados sobre o autor:

12645264_10207058817362317_831737693683863186_nTiago Rodrigues Sim√Ķes possui gradua√ß√£o e mestrado em Ci√™ncias Biol√≥gicas pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e atualmente est√° concluindo o doutorado na University of Alberta (Edmonton, Canand√°). A sua pesquisa consiste no estudo da origem e evolu√ß√£o de Squamata (lagartos e cobras), utilizando dados de esp√©cies f√≥sseis e viventes (https://www.researchgate.net/profile/Tiago_Simes2).

>"Sea Dragons"

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“Sea Dragons:
predators of the prehistoric oceans”
(Richard Ellis, 2003)


Meses atr√°s estava procurando literatura cient√≠fica para enriquecer o conhecimento sobre os grandes grupos de r√©pteis marinhos do Mesoz√≥ico – Ictiossauros, Plesiossauros e Mosassauros. Descobri o livro “Sea Dragons – predators of the ancient oceans”, de autoria de Richard Ellis: uma verdadeira b√≠blia para interessados no assunto, a qual recomendo para qualquer paleont√≥logo de vertebrados ou entusiasta na √°rea.

O livro descreve detalhes sobre fauna Mesoz√≥ica dos tr√™s maiores grupos de r√©pteis marinhos, incluindo peculiaridades sobre cada esp√©cie encontrada e seus respectivos paleoambientes. Ele tem um panor√Ęma mundial, n√£o se limitando-se a regi√Ķes geogr√°ficas espec√≠ficas como outros livros encontrados na literatura sobre o assunto.

Figura acima: Plesiossauro Рelasmossaurídeo predador. Richard Ellis.

Ellis realizou suas pr√≥prias ilustra√ß√Ķes em nanquim, tanto para os materiais f√≥sseis apresentados, quanto para as reconstru√ß√Ķes dos animais. Para quem aprecia Paleoarte, portanto, esse livro torna-se ainda mais interessante.

O mais fant√°stico √© o fato de o autor ser um artista pl√°stico e n√£o um ‘cientista/paleont√≥logo’ propriamente dito. Apaixonado pelo tema, Ellis fez um √≥timo trabalho, tendo recebido consultoria e aux√≠lio de v√°rias sumidades no assunto. O resultado final foi amplamente aprovado! Isso √© prova de que n√£o √© necess√°rio ser um ‘Doutor na √°rea’ para produzir literatura cient√≠fica de qualidade – basta o esfor√ßo, muita dedica√ß√£o e profissionalismo.

O livro possui um rico levantamento de dados e bibliografia para quem deseja buscar informa√ß√Ķes mais aprofundadas e mant√©m uma linguagem, que apesar de t√©cnica, √© acess√≠vel para o p√ļblico geral.

Observa√ß√£o: “Sea Dragons” foi escrito em 2003, portanto o leitor deve ter em mente que algumas poucas teorias citadas no livro j√° foram derrubadas. Alguns animais descritos mais recentemente tamb√©m faltam nas listagens. Entretanto, o livro √© um must com todo o conhecimento adquirido at√© a data que foi publicado.



Eu Aprovei!

Figura acima: Mosassauro. Richard Ellis.

Onde comprar?
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Confira no link abaixo:



>Uma introdução à respeito dos Monstros Marinhos do Cretáceo

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Durante a Era Mesozóica, os mares eram habitados por uma formidável diversidade de répteis marinhos. O enfoque desse texto introdutório é para os três grupos extintos mais conhecidos desses animais: os Ictiossauros, os Plesiossauros (Pliossauros inclusos) e os Mosassauros.

Figura 1: Cladogramas de répteis marinhos mesozóicos.
Fonte: SCIENCE. www.siencemag.org

Figura 2 Reconstrução de Ictiossauro caçando um amonite.

By Jorge Gonzales.

O primeiro grupo a ser apresentado, os Ictiossauros (figura 2), eram extremamente adaptados √† vida marinha. Possuiam um corpo aquadin√Ęmico, semelhante ao de um golfinho, com membros em formatos de p√°s, nadadeiras caudais verticais, como as de um tubar√£o, focinhos longos, e, em esp√©cies mais derivadas, barbatanas dorsais (h√° restos de f√≥sseis com registro de contorno de barbatanas dorsais para alguns g√™neros, como observou McGowan √† respeito dos melhores f√≥sseis encontrados para esse grupo na regi√£o de Holzmaden, na Alemanha).

A locomo√ß√£o dos Ictiossauros se dava por propuls√£o em alta velocidade dada por meio de sua poderosa cauda com o direcionamento da barbatana (para os indiv√≠duos que tinham essas caracter√≠sticas j√° desenvolvidas) e nadadeiras. O seu h√°bito alimentar envolvia basicamente uma dieta de cefal√≥podes, ingeridos por meio de suc√ß√£o (como algumas baleias modernas). Sua reprodu√ß√£o era ovoviv√≠para, ou seja, os filhotes eram expelidos do corpo j√° formados: h√° amplo registro f√≥ssil de fetos associados as m√£es que teriam morrido por complica√ß√Ķes no parto — Para alguns pesquisadores, todav√≠a, h√° tamb√©m a teoria que os fetos poderiam ser expelidos do corpo das m√£es p√≥s-morten, como McGowan prop√īs baseado em carca√ßas de baleias na Tasmania que liberaram os fetos depois de mortos.

Os Ictiossauros surgiram no in√≠cio do Per√≠odo Tri√°ssico e extiguiram-se no Neocret√°ceo, h√° cerca de 90 milh√Ķes de anos. Um dos g√™neros encontrados na Col√īmbia, Platypterygius, foi um dos √ļltimos antes que o grupo se extiguisse. O g√™nero Platypterygius encontrava-se tamb√©m nos mares da Am√©rica do Norte, Europa, R√ļssia, √ćndia e Austr√°lia.

Figura 3: Reconstrução computadorizada de um Plesiossauro.

Figura 4: Reconstrução computadorizada de um Plesiossauro Elasmossauro. Fonte: Johnson Mortimer.


Os Plesiossauros compunham o grupo de predadores marinhos mais bem-sucedidos e melhor distribuídos durante todo o Mesozóico. Tinham formas e tamanhos variados, que incluíam animais de pescoço longo com cabeça pequena ou de pescoço curtos com cabeça enorme, mas geralmente possuíam a cauda muito curta e as nadadeiras bem desenvolvidas.

O grupo surgiu no meio do Período Triássico e seguiu até o Maastrichiano (final do Período Cretáceo), onde enfrentou sua ext
in√ß√£o, sem deixar descendentes de alguma forma. H√° alguns que acreditam na exist√™ncia de Plesiossauros vivendo isolados no Lago escoc√™s Loch Ness. At√© hoje, por√©m, n√£o houve evid√™ncias concretas e toda aquela hist√≥ria n√£o passa, na verdade, de mito.

Os Plesiossauros (Diapsida: Sauropterygia: Plesiosauria) eram compostos por dois grandes grupos: os Elasmossauros (com cabeças incrivelmente pequena e um pescoço muito longo. Figuras 3 e 4); e os Pliossauros (com pescoço curto e cabeças enormes).

Não há registro de fetos fósseis para o grupo, logo não é sabido se esses animais davam à luz aos seus filotes na agua, ou se desovavam na praia. A constituição robusta caixa toráxica foi justificada por alguns cientistas para defender a teoría de os Elasmossauros pudessem ir à praia, em terra firme. Entretanto, as nadadeiras compridas e os pescoços muito longos os tornariam muito desajeitados fora da água e eles se tornariam presas fáceis para dinosauros carnívoros ou crocodilianos. Atualmente, a grande maioria dos paleontólogos acreditam ser quase impossível que esses animais saíssem da água.


Figura 5: Reconstrução computadorizada de um Kronosaurus.

Figura 6 (autoria desconhecida): Reconstrução computadorizada de um Kronosaurus.


“O Liopleurodon ergue sua cabe√ßa robusta vagarosamente e movimenta suas nadadeiras. √Ä medida que ele avan√ßa, amonites agitam-se na agua e os peixes escondem-se nos corais em seu temor. Sua boca abre e atinge gravemente a por√ß√£o do meio de um Ophthalmosaurus. A for√ßa de seu ataque carrega ambos sua cabe√ßa e sua presa para fora da agua, onde, por um breve instante ele pausa antes de trazer ambos abaixo com uma for√ßa explosiva. H√° sangue por todos os lados. Sua v√≠tima more instantaneamente, seu corpo perfurado pelos longos dentes e suas costas quebradas. O Pliossauro ajeita sua presa na boca, mordendo e sacudindo-a repetidamente (‚Ķ) Ele volta √† superficie erguendo a garganta rosada e engolindo.”
(Haines)

Liopleurodon tratava-se de um Pliossauro. Colossais predadores, entre os maiores r√©pteis carn√≠voros que j√° viveram.

As primeiras formas intermedi√°rias entre os plesiossauros e os pliossauros surgiram no in√≠cio do Jur√°ssico, como os Macroplata longirostris, M. tenuiceps e possivelmente Eurycleidus arcuatus. Eram plessiossauros de pesco√ßo mais curto e cr√Ęnio ligeiramente mais robusto.

O gênero Pliosaurus é conhecido para o Jurássico Médio, e foi um dos primeiros do grupo a ter as características que os definem.

Ao Final do Jur√°ssico e Cret√°ceo, diversas formas floresceram, incluso os colossais predadores Liopleurodon, Kronosaurus, Mareasaurus, Brachauchenius, Megalneusaurus e Peloneustes. Sua distribui√ß√£o era ampla, incluindo as Am√©ricas, a Europa, a √Āsia e a Oceania.

Em 1992, o Paleont√≥logo alem√£o Oliver Hampe descreveu um enorme Pliossauro proveniente da regi√£o de Boyac√°, ao norte da Col√īmbia. Ele foi nomeado Kronosaurus boyacencis, embora suas costelas, demasiado robustas (diferente do encontrado em outros do grupo), pudessem ser peculiares o suficiente para que se levantasse a hip√≥tese de um novo g√™nero para a Am√©rica do Sul. Os Kronosaurus (figuras 5 e 6) estavam distribu√≠dos desde a Austr√°lia at√© a Col√īmbia.

Ao final do Cretáceo foram extintos, assim como tantas outras espécies marinhas.


Figura 7: Reconstrução computadorizada de Mosassauros.
Fonte: Johnson Mortimer.

 Figura 8: Reconstru√ß√£o de Mosassauro.
Fonte: Walter Colvin.

Os Mosassauros (Figuras 7 e 8) foram criaturas aparentadas aos lagartos varanídeos atuais. Eram extremamente bem adaptados à vida marinha: enormes predadores de corpo alongado, esguio, dentes triangulares afiados e uma comprida cauda que lhes dava propulsão para perseguir suas presas.

Esse grupo evoluiu rapidamente (em termos de escala geol√≥gica) durante meados do Per√≠odo Cret√°ceo. H√° 90 milh√Ķes de anos atr√°s, Mosassauros j√° habitavam diversas regi√Ķes do globo e estavam entre os animais marinhos mais bem-sucedidos daquele momento. Alguns pesquisadores sugeriram que os Mosassauros teriam gradualmente substitu√≠do o nicho ecol√≥gico dos Ictiossauros, que se extinguiram no in√≠cio daquele Per√≠odo. Entretanto, parece haver uma incompatibilidade em rela√ß√£o aos h√°bitos alimentares dos dois grupos para que sustentasse essa id√©ia.

Mosassauros, assim como diversos outros grupos, foram totalmente extintos durante o final do Cret√°ceo.




Bibliografia:
. Ellis, Richard. Sea Dragons: predators of the prehistoric oceans. University Press of Kansas, 2003.
. Motani, Ryosuke. The Evolution of Marine Reptiles. Evo Edu Outreach (2009) 2:224‚Äď235. Acesso livre em Springerlink.com, 2009

>Monstros marinhos de sangue-quente

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Durante a Era Mesoz√≥ica os oceanos eram habitados por uma diversa fauna de r√©pteis marinhos. Plesiossauros, Ictiossauros e Mosassauros compunham esse elenco de famosos monstros bizarros. Mas uma quest√£o que sempre motivou discuss√Ķes foi quanto o metabolismo desses animais: seriam eles endot√©rmicos, ou seja, capazes de regularem a temperatura corporal?

A Paleontologia alinhada √† Geoqu√≠mica trouxeram uma resposta √† essa quest√£o. Pesquisadores franceses realizaram estudos recentes com is√≥topos de oxig√™nio (O-18/O-16) contidos em f√≥sseis dos tr√™s mais famosos grupos de r√©pteis marinhos mesoz√≥icos: os Plesiossauros, os Ictiossauros e Mosassauros. Eles compararam a composi√ß√£o dos is√≥topos de oxig√™nio no fosfato dos dentes daqueles grupos com os de peixes que coabitaram os mesmos ambientes.

O valor de O-18 contido no fosfato de vertebrados indicam ambos: a temperatura corporal e a composi√ß√£o da √°gua ingerida. No caso dos r√©pteis estudados, a valor de O-18 reflete o sangue durante o processo de forma√ß√£o dos dentes. Assumindo que ambos os r√©pteis e peixes estudados viveram sob as mesmas condi√ß√Ķes de massa de √°gua, o O-18 indicaria a temperatura corporal deles. E assim foi feito, analisando amostras do mundo todo. Veja a tabela abaixo:



Abaixo estão as tabelas com os valores específicos para todo o material encontrado em uma mesma camada de sedimento. Os erros estão elevados pois tiveram de ser considerados os processos diagenéticos (de formação do fóssil), onde pode ter ocorrido uma variação da composição original dos matérias coletados.

           
Apesar de todas as variáveis existentes, é possível observar a partir dos gráficos acima, que mesmo com a variação da temperatura da água, os répteis marinhos estudados conseguiam manter relativamente sua temperatura corporal, com exceção dos Mosassauros, que permitiriam que sua temperatura diminuísse levemente a medida que a temperatura da água também diminuísse.

A endotermia n√£o √© caracter√≠stica de um grupo apenas. A endotermia total ou parcial surgiu ao longo do tempo em diferentes esp√©cies de diferentes linhagens. √Č sabido que alguns tipos de tubar√Ķes e atuns possuem endotermia parcial, assim como tamb√©m alguns insetos e at√© mesmo vegetais. Acredita-se que a origem da endotermia total tenha ocorrido somente no Permiano, com os Sin√°psidos. 

No grupo dos Arcossauros, propuseram a endotermia para dinossauros e pterossauros. J√° quanto aos crocodilianos, ainda √© t√≥pico de debate sobre se alguns de seus ancestrais  teriam desenvolvido tal capacidade, tendo em vista que o cora√ß√£o de seus representantes atuais possui quatro c√Ęmaras assim como o das aves e mam√≠feros.

A termorregulação pode ser um indicador para o sucesso evolutivo dos répteis marinhos gigantes, afinal, eles deveriam necessitar de uma enorme quantidade de energia para suas atividades predatórias. Essa peculiaridade fisiológica lhes teria dado maior flexibilidade comportamental.

À respeito dos grupos comentados

As tr√™s linhagens de r√©pteis marinhos gigantes enfocadas no texto representam adapta√ß√Ķes de diferentes grupos √† vida marinha. Os Ictiossauros evolu√≠ram a partir de r√©pteis neodi√°psidos basais. Tinham o formato de corpo parecido com o dos golfinhos atuais, sem pesco√ßo, mas uma cauda parecida com a de um peixe. J√° os Plesiossauros eram di√°psidos derivados — Sauropterygia, o grupo irm√£o dos Lepidosauria (cobras e lagartos). Tinham fortes patas em forma de p√°s e um longo pesco√ßo. Os Mosassauros eram varan√≥ides anguimorfos altamente adaptados √† vida marinha. Possuiam o corpo alongado, cauda larga e chata na vertical e patas em formas de p√°s. 

Tanto a morfologia dent√°ria e o conte√ļdo estomacal desses tr√™s grupos de r√©pteis marinhos indicam que eram predadores. Sua fisiologia indica que eram excelentes nadadores, resistentes a diferentes temperaturas, sobretudo os Mosassauros e Plesiossauros, que poderiam realizar longas jornadas em mar aberto.





Referências Bibliográficas:

. A. Bernard, C. Lecuyer, P. Vincent, R. Amiot, N. Bardet, E. Buffetaut, G. Cuny, F. Fourel, F. Martineau, J.-M. Mazin & A. Prieur, 2010. Regulation of Body Temperature by Some Mesozoic Marine Reptiles. Science, 328 (5984): 1379 DOI: 10.1126/science.1187443

. R. Montani, 2010. Warm-blooded Sea Dragons. Science, 328 (5984).