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Krakatoa em atividade: é o fim do mundo?

Texto de Letícia Freitas Guimarães

A erup√ß√£o do Anak Krakatau na noite de 10 de abril causou alvoro√ßo nas redes sociais. Not√≠cias falsas, alarmistas, v√≠deos de erup√ß√Ķes passadas e at√© apofenia astrol√≥gica inundaram as redes. Mas por que esta erup√ß√£o n√£o deveria nos espantar?

O Anak Krakatoa (Anak Krakatau, em Indon√©sio) localiza-se no estreito de Sunda, entre as Ilhas de Sumatra e Java, uma regi√£o com centenas de vulc√Ķes ativos relacionados √† intera√ß√£o entre as placas tect√īnicas Australiana e de Sunda (Figura 1). Este sistema faz parte do chamado C√≠rculo de Fogo do Pac√≠fico, uma regi√£o geologicamente muito ativa, que se estende por cerca de 40.000 km e √© delimitada por zonas de converg√™ncia de placas tect√īnicas (Figura 2). Cerca de 75% dos vulc√Ķes ativos e 90% dos terremotos do planeta est√£o localizados nesta √°rea. N√£o √© de se espantar, ent√£o, que o Anak Krakatau seja um dos vulc√Ķes mais ativos do mundo.

Figura 1 – Imagem do Google Earth mostrando a localiza√ß√£o do vulc√£o Anak Krakatau (destacado no c√≠rculo rosado) e alguns outros vulc√Ķes do arco magm√°tico de Sunda, relacionado √† subduc√ß√£o da Placa Australiana sob a Placa de Sunda (linha dentada amarela). A velocidade do deslocamento da Placa Australiana √© informada pelas setas brancas.
Figura 2 – Mapa esquem√°tico com as principais fei√ß√Ķes geol√≥gicas relacionadas ao C√≠rculo de Fogo do Pac√≠fico.

As erup√ß√Ķes mais antigas registradas em observa√ß√Ķes hist√≥ricas do sistema vulc√Ęnico de Krakatau datam do ano de 250 e, desde ent√£o, este sistema apresenta-se bastante ativo, alternando fases efusivas, isto √©, com derramamento de lava, e fases explosivas, com erup√ß√Ķes freatomagm√°ticas, fluxos pirocl√°sticos e queda de cinzas (veja o Gloss√°rio no final do texto para ficar por dentro dos termos da vulcanologia).

A maior erup√ß√£o deste sistema ocorreu em 1883, com um √≠ndice de explosividade vulc√Ęnica (VEI) igual a 6 (de uma escala vai at√© 8). Para se ter uma id√©ia da grandiosidade deste evento de 1883 em compara√ß√£o a outros importantes eventos eruptivos do mundo veja a Figura 4b. Durante o evento de 1883, o estratovulc√£o Krakatau chegou a ter tr√™s condutos ativos, ou seja, tr√™s aberturas na superf√≠cie durante sua fase mais violenta (chamada de fase paroxysmal) e, ap√≥s tr√™s meses deste cl√≠max, o edif√≠cio vulc√Ęnico colapsou. Este colapso gerou um enorme fluxo pirocl√°stico que, ao atingir o oceano, gerou tsunamis nas costas de Sumatra e Java, matando mais de 36 mil pessoas. Alguns anos depois, dentro da caldeira formada pelo colapso do Krakatau, surgiu o cone vulc√Ęnico batizado de Anak Krakatau (filho de Krakatau, em indon√©sio), ativo desde 1927.

Figura 3 – Sequ√™ncia de fotos de atividades hist√≥ricas do vulc√£o Anak Krakatau. A) Erup√ß√£o freatomagm√°tica de 1927; B) Erup√ß√£o freatomagm√°tica de 1930; C) Atividade eruptiva de 1979,  incluiu fase explosiva (coluna eruptiva observada na foto) e fase efusiva (derrames de lava); D) Atividade fumar√≥lica em 1979. Os derrames de lava de colora√ß√£o negra no canto direito inferior na foto s√£o de 1975. As fotos A, B e D s√£o do Servi√ßo Vulcanol√≥gico da Indon√©sia (VSI) e a foto C √© de Katia e Maurice Krafft.
Figura 4 – A) Maior erup√ß√£o j√° ocorrida no Krakatau, em 1883. Foto cortesia da fam√≠lia de R. Breon; B) Diagrama comparativo entre os volumes de material vulc√Ęnico ejetado pelos grandes eventos eruptivos da hist√≥ria da Terra. A erup√ß√£o de 1883 do Krakatau corresponde ao cubo amarelo.

As imagens que circularam na internet no dia 11 de abril correspondem, em sua maioria, √† erup√ß√£o de dezembro de 2018. Este evento correspondeu a uma erup√ß√£o do tipo Vulcaniana de VEI 3, que gerou uma coluna eruptiva de 15 km de altura e um novo colapso do edif√≠cio vulc√Ęnico que, de novo, gerou tsunamis nas ilhas de Sumatra e Java, vitimizando mais de 400 pessoas. O sistema vulc√Ęnico mant√©m-se ativo desde ent√£o, com intermitente atividade s√≠smica (terremotos), fumar√≥lica e erup√ß√Ķes explosivas. A figura 5 apresenta uma sequ√™ncia de imagens das atividades registradas no Anak Krakatau desde o final de 2018 at√© o come√ßo de 2020. Nelas √© poss√≠vel ver a varia√ß√£o no relevo causada pelo colapso do edif√≠cio vulc√Ęnico em decorr√™ncia da erup√ß√£o de 22 de dezembro de 2018.

Dentre as diversas erup√ß√Ķes do Anak Krakatau em 2020, a erup√ß√£o de 10 de abril (figura 6) foi apenas mais uma dentro deste per√≠odo de atividades. Ela correspondeu √† uma erup√ß√£o do tipo Stromboliana (tipo de erup√ß√£o de explosividade moderada), com coluna eruptiva que atingiu cerca de 500 m de altura. Segundo informa√ß√Ķes de Servi√ßo Vulcanol√≥gico da Indon√©sia:

“…os gases emitidos comp√Ķem-se majoritariamente de vapor d‚Äô√°gua, os terremotos e deforma√ß√£o no solo s√£o insignificantes, indicando que ainda existe suprimento de material magm√°tico em reservat√≥rios rasos e n√£o h√° altera√ß√£o (aumento) de amea√ßas“.

A Instituição manteve o alerta de risco no nível II de uma escala que varia de I a IV, sendo IV o nível de maior risco. O acesso em um raio de 2 km do vulcão está proibido por enquanto.

Figura 5 – A) Sequ√™ncia de fotos mostrando a atividade vulc√Ęnica e a varia√ß√£o do relevo do Krakatau entre Dezembro de 2018 e Janeiro de 2019. B) Vista do Krakatau em Outubro de 2018. O sombreado vermelho corresponde √† forma do vulc√£o em Novembro de 2019, ap√≥s o colapso do edif√≠cio vulc√Ęnico em decorr√™ncia da erup√ß√£o de 22 de dezembro de 2018. C) Imagem do GFZ Potsdam mostrando o formato do Krakatau ap√≥s a erup√ß√£o de 22 de dezembro de 2018. A linha tracejada preta mostra a antiga forma do edif√≠cio vulc√Ęnico enquanto a linha tracejada branca indica o plano de deslizamento do edif√≠cio durante o colapso.
Figura 6 РImagens do Serviço Vulcanológico da Indonésia (VSI) da erupção da noite de 10 de abril de 2020.

Outros vulc√Ķes tamb√©m encontram-se em atividade na regi√£o, como o Karangetang, Merapi, Kerinci, Sangeang Api, Semeru, Ibu e o Dukono. Alguns destes vulc√Ķes (como o Merapi, o Kerinci e o Sangeang Api) est√£o relacionados ao arco vulc√Ęnico de Sunda, o mesmo arco vulc√Ęnico onde se localiza o Anak Krakatau (representado na figura 1). Deste modo, a erup√ß√£o destes vulc√Ķes est√° associada, uma vez que a gera√ß√£o do magma que os alimenta deve-se ao mesmo processo geol√≥gico ocorrendo no mesmo contexto. O magma gerado em zonas vulc√Ęnicas √© armazenado em grandes reservat√≥rios chamados de c√Ęmaras magm√°ticas, que podem ter tamanho e forma bastante variados. Estes grandes reservat√≥rios s√£o significativamente mais volumosos do que sua express√£o em superf√≠cie (os vulc√Ķes). Em zonas de regime tect√īnico convergente (isto √©, onde as placas tect√īnicas se chocam) com forma√ß√£o de arcos vulc√Ęnicos, um mesmo reservat√≥rio/uma mesma c√Ęmara magm√°tica pode alimentar diferentes vulc√Ķes ou, ainda, diferentes reservat√≥rios podem estar interconectados. Processos de recarga do reservat√≥rio magm√°tico e abalos s√≠smicos s√£o alguns dos fatores que atuam como gatilhos de erup√ß√Ķes. Sendo tais processos recorrentes em regi√Ķes tectonicamente ativas, √© comum que diversos sistemas vulc√Ęnicos estejam ativos simultaneamente. O vulc√£o Karangetang localiza-se no arco Sangihe, enquanto que os vulc√Ķes Ibu e Dukono localizam-se no arco Halmahera. Embora n√£o estejam geneticamente vinculados aos vulc√Ķes do arco de Sunda, todos estes sistemas s√£o gerados pelo mesmo processo geol√≥gico, apenas ocorrendo em diferentes localidades. Que tal navegar pelo Google Earth e descobrir os v√°rios sistemas vulc√Ęnicos da regi√£o? Basta clicar AQUI.

GLOSS√ĀRIO GEOL√ďGICO E VULCANOL√ďGICO – Entenda os termos utilizados pelos vulcan√≥logos:

Arco vulc√Ęnico: cadeia de vulc√Ķes que pode se estender por centenas a milhares de quil√īmetros cuja forma√ß√£o est√° relacionada a uma zona de subduc√ß√£o. O arco se desenvolve acima desta zona e pode ser do tipo oce√Ęnico (onde ocorre intera√ß√£o entre duas placas oce√Ęnicas; ex: Ilhas Aleutas, Antilhas) ou continental (intera√ß√£o em margem continental onde uma placa oce√Ęnica, por ser mais densa, √© empurrada por debaixo de uma placa continental menos densa; ex: Andes)

Cone vulc√Ęnico: monte c√īnico √≠ngreme formado pela acumula√ß√£o de material vulc√Ęnico ejetado em (sucessivas) erup√ß√Ķes.

Dep√≥sito de queda de cinzas: dep√≥sitos formados pela queda de material vulc√Ęnico finamente particulado (cinzas vulc√Ęnicos). As cinzas s√£o ejetadas na atmosfera e, por serem pouco densas, sobrem formando uma coluna eruptiva que se dispersa.

Erupção freatomagmática: erupção explosiva que ocorre devido a interação do magma com água.

Erup√ß√£o Stromboliana: tipo eruptivo de explosividade moderada onde gases e ‚Äúco√°gulos‚ÄĚ de lava incandescente de baixa viscosidade s√£o ejetados. Recebe este nome por ser a erup√ß√£o t√≠pica do vulc√£o Stromboli, na It√°lia.

Erup√ß√£o Vulcaniana: tipo eruptivo de explosividade moderada a alta onde gases e cinzas vulc√Ęnicas s√£o ejetados e formam colunas eruptivas que se expandem rapidamente. Recebe este nome por ter sido primeiramente descrita na ilha de Vulcano, na It√°lia.

Estratovulc√£o: Cone vulc√Ęnico de relevo bastante √≠ngreme formado pela altern√Ęncia de, majoritariamente, dep√≥sitos pirocl√°sticos (provenientes de erup√ß√Ķes explosivas) e, subordinadamente, derrames de lava viscosa. A composi√ß√£o qu√≠mica destes dep√≥sitos pode variar, sendo as composi√ß√Ķes mais sil√≠cicas (mais viscosas) mais comuns. Comumente, o formato c√īnico torna-se mais √≠ngreme em dire√ß√£o ao cume, onde encontra-se uma cratera. Correspondem ao tipo mais comum de vulc√£o (cerca de 60% dos vulc√Ķes terrestres) e ocorrem principalmente nos limites convergentes de placas.

Fase paroxysmal: estágio mais violento (clímax) do ciclo eruptivo, no qual toda a cavidade da cratera encontra-se aberta, proferindo uma erupção particularmente violenta.

Fluxo Pirocl√°stico: produto mais perigoso e destrutivo do vulcanismo explosivo. Formam avalanches de gases e material vulc√Ęnico de tamanho variado (desde muito fino ‚Äď cinzas ‚Äď at√© blocos de rocha em escala m√©trica) que resultam em um fluxo de baixa viscosidade e altas temperaturas (podendo variar de 100¬įC a 700¬įC) que se move muito r√°pido

√ćndice de Explosividade Vulc√Ęnica (VEI): escala num√©rica (logar√≠tmica) que mede a explosividade de erup√ß√Ķes vulc√Ęnicas. Varia de 0 (eventos n√£o explosivos, menos de 10000 m3 de material vulc√Ęnico ejetado) a 8 (eventos muito grandes ou mega-colossais, com volume de material vulc√Ęnico ejetado superior a 1000 km3 e altura da coluna eruptiva acima de 25 km.

Zona de subduc√ß√£o: regi√£o de tect√īnica convergente onde uma placa (mais densa) √© empurrada por debaixo de outra.

Referências

https://volcano.si.edu/volcano.cfm?vn=262000

https://vsi.esdm.go.id/index.php/gunungapi/aktivitas-gunungapi/3038-press-release-aktivitas-gunungapi-anak-krakatau-11-april-2020

https://volcano.si.edu/gvp_currenteruptions.cfm


Let√≠cia Freitas Guimar√£es √© ge√≥loga, PhD em Petrologia pela Universidade de S√£o Paulo (USP). Desenvolveu sua pesquisa nas rochas vulc√Ęnicas sil√≠cicas da Prov√≠ncia Magm√°tica do Paran√°, trabalhando com an√°lises geoqu√≠micas e texturais quantitativas. Atualmente colabora na elabora√ß√£o de um ranking de risco vulc√Ęnico para os vulc√Ķes da Am√©rica Latina. √Č co-fundadora e diretora de rela√ß√Ķes acad√™micas na Associa√ß√£o Brasileira de Mulheres nas Geoci√™ncias (ABMGeo) e colabora na p√°gina de divulga√ß√£o cient√≠fica dos p√≥s-graduandos do IGc-USP (Instagram @divulgageologia).

Gostar√≠amos de agradecer sinceramente a Let√≠cia por ter disponibilizado o seu tempo e aceitado o convite de escrever para o nosso blog. Como voc√™s puderam ver, n√£o √© “o fim do mundo”… Pelo menos por enquanto ;).

>Paleovulcanologia

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Uma vertente da Vulcanologia, a Paleovulcanologia √© a ci√™ncia que estuda vulc√Ķes extintos. Sua nomenclatura √© considerada controversa por alguns vulcan√≥logos, que consideram inapropriado a utiliza√ß√£o do prefixo ‘Paleo’. Independente da nomenclatura, no entanto, o estudo desses vulc√Ķes √© muito importante para se elucidar como os gigantes de fogo influenciaram o ambiente no passado e at√© mesmo como dirigiram o curso da vida. 

 Por Juliana Freitas da Rosa

A vulcanologia √© uma especialidade da Geologia altamente ligada a Geof√≠sica. Foi criada na d√©cada 1980 para estudar os vulc√Ķes e os produtos vulc√Ęnicos. 


O nome Vulc√£o foi dado em homenagem ao deus do fogo da mitologia greco-romana, Vulcano. 


At√© alguns anos atr√°s, a import√Ęncia dessa ci√™ncia era voltada para reduzir os riscos das popula√ß√Ķes situadas em regi√Ķes adjacentes a estes gigantes (previs√£o de erup√ß√Ķes, prepara√ß√£o de planos de emerg√™ncia locais, etc). Hoje em dia, essa import√Ęncia se estende a um n√≠vel o mundial, pois direta ou indiretamente, todos  sofremos os efeitos desastrosos desencadeados por esses “deuses de fogo”.


Apesar de erup√ß√Ķes vulc√Ęnicas existirem desde os prim√≥rdios de nosso planeta, o primeiro registro hist√≥rico escrito que se tem not√≠cia √© de 79 d.C., quando duas cidades romanas ‚Äď Pomp√©ia e Herculano ‚Äď foram devastadas por uma imensa erup√ß√£o, varridas pelos produtos vulc√Ęnicos do monte Ves√ļvio. Essa erup√ß√£o foi nomeada de Vesuviana ou Pliniana. ‘Pliniana’ em homenagem ao Pl√≠nio ‚Äúo velho‚ÄĚ. Pl√≠nio o velho foi ao encontro do Tit√£ no meio do caos para entender melhor o que estava acontecendo. Seu sobrinho, Pl√≠nio ‚Äúo jovem‚ÄĚ, descreveu em duas cartas esse dia fat√≠dico, sendo estas, as cartas mais importantes para a hist√≥ria da Vulcanologia.

Reconstituição do que teria sido a erupção vesuviana de Pompéia.
V√≠timas do vulc√£o Ves√ļvio congeladas no tempo. Corpos petrificados pelas cinzas e lama mostram cenas da trag√©dia e a impot√™ncia da popula√ß√£o diante da cat√°strofe.
 Tamb√©m tem-se not√≠cias de erup√ß√Ķes na Gr√©cia antiga, descritas em trechos dos contos de Homero, aonde o caos vulc√Ęnico era relacionado a brigas dos tr√™s deuses gregos irm√£os: Zeus, Hades e Poseidon. Por n√£o terem registros acurados, detalhes dessas erup√ß√Ķes pereceram, por√©m, registros hist√≥ricos n√£o s√£o o √ļnico modo de se rastrear a ocorr√™ncia de eventos vulc√Ęnicos…. Como, ent√£o, sabemos se houve uma erup√ß√£o no passado? Como saber se foram suficientes para mudar o ambiente de sua √©poca, ou at√© mesmo influenciar o planeta ainda hoje com seus produtos?

Ilustra√ß√£o por Guilherme M. Alay√£o – A briga dos deuses. A mitologia e os vulc√Ķes.


A Geologia, como uma ciência
que abriga a Vulcanologia, estuda – entre outras coisas – o interior do planeta (o interior da crosta, seus movimentos, etc.). Esse estudo nos ajuda a explicar a origem das atividades vulc√Ęnicas e at√© mesmo prever os locais preferenciais de ocorr√™ncia.
J√° a Petrologia √ćgnea – uma vertente espec√≠fica da Geologia que estuda rochas que se originam de magma solidificado – auxilia a Vulcanologia por meio do estudo aplicado das rochas vulc√Ęnicas (Rocha extrusivas, ou seja, que se resfriaram na superf√≠cie terrestre).
Vulc√Ķes produzem dois principais tipos de produtos que originar√£o rochas: lavas e piroclastos (cinzas, bombas vulc√Ęnicas, etc.). A presen√ßa de rochas vulc√Ęnicas indica a exist√™ncia pret√©rita de vulc√Ķes e derramamentos de lava fissurais (sem forma√ß√£o de cones vulc√Ęnicos). Mesmo sem registros da hist√≥ria escrita, portanto, podemos rastrear a ocorr√™ncia de atividades vulc√Ęnicas.

Lava sendo expelida e resfriando rapidamente para a formação de rocha.

Diferentes tipos de Piroclastos
O tipo de rocha produzida denuncia detalhes das erup√ß√Ķes e acompanhando a sucess√£o estratigr√°fica podemos elucidar detalhes do ambiente antes e depois do evento vulc√Ęnico.

 Existem distintos tipos de lava, que formam diferentes tipos de rochas extrusivas, assim como existem diferentes tipos de rochas pirocl√°sticas, que denunciam detalhes violentos de eventos vulc√Ęnicos.

Assim como a Paleontologia estuda os f√≥sseis – Paleo=antigo; Onto=ser e Logia=estudo -, o estudo de vulc√Ķes extintos seria chamado de Paleovulcanologia. 

Vulc√Ķes extintos deixaram suas marcas em formas de rochas, camadas de cinzas, altera√ß√Ķes no relevo e at√© mesmo sinais na atmosfera. Rochas vulc√Ęnicas s√£o grandes ind√≠cios de que um ou mais vulc√Ķes estiveram ativos em uma determinada regi√£o, logo √© esse o ponto de partida para obter registros de um paleovulc√£o.

Um paleovulc√£o √© considerado como aquele que cessou completamente a sua atividade. Aqui portanto √© necess√°rio distinguir vulc√Ķes dormentes de extintos. O que em alguns casos nem sempre √© f√°cil, at√© mesmo para especialistas. Vulc√Ķes podem permanecer inativos por longos per√≠odos, o que nem sempre significa que ele cessou sua atividade. Alguns tem intervalos de dorm√™ncia que podem durar centenas de milhares de anos… como aquele de Yellowstone por exemplo. 

E. F. Cook, em 1966, descreveu a import√Ęncia da Paleovulcanologia como ci√™ncia. Ele relata o porqu√™ de estudiosos serem t√£o conservadores ao adotarem o termo ‘Paleo’ para defin√≠-la: O fazem, principalmente a fim de evitar conflitos com os estudos da pr√≥pria Vulcanologia atual. 

A explica√ß√£o √© a seguinte: Existem vulc√Ķes extintos mais recentes do que aqueles que ainda est√£o ativos. Mas ser√° que isto √© motivo suficiente? Acho que independente do nome, √© importante estudar vulc√Ķes que n√£o est√£o mais em atividade… sejam de milhares, milh√Ķes ou centenas de milh√Ķes de anos.  

No Brasil, h√° evid√™ncias de muitos vulc√Ķes extintos, sendo um dos mais conhecidos, o de Po√ßos de Caldas (MG-SP) com rochas vulc√Ęnicas que variam de 53 a 87 milh√Ķes de anos. Ele foi descrito em diversos trabalhos, estes reunidos durante um Congresso de Geologia em 1992 pelos professores Dr. Horstpeter H. Ulbrich e Dra. Mabel N. C. Ulbrich. Os estudos detalham todo o Maci√ßo Alcalino de Po√ßos de Caldas, desde o embasamento cristalino at√© os sedimentos pirocl√°sticos. A base do vulc√£o adentra-se na Bacia do Paran√°, o que o tornaria um dos maiores vulc√Ķes alcalinos do mundo, com pouco mais de 800km¬≤ de afloramentos. Ele possivelm
ente estava ativo quando houve a grande extin√ß√£o em massa do Cret√°ceo-Pale√≥geno, h√° 65 milh√Ķes de anos. As manifesta√ß√Ķes mais recentes datam de 53 milh√Ķes de anos atr√°s. 

A paleovulcanologia estuda, neste caso, a influ√™ncia deste vulc√£o no paleoambiente da regi√£o durante o per√≠odo ca√≥tico de transi√ß√£o de eras. Como apararentemente h√° uma pausa na forma√ß√£o de rochas a partir de 72 Ma atr√°s, sendo retomada a atividade somente no limite que separa as duas eras Mesoz√≥ica e Cenoz√≥ica, talvez haja alguma pista importante para explicar a extin√ß√£o local. Sinais de uma grande transforma√ß√£o no ambiente est√£o registrado em suas rochas. Se as idades calculadas com K/Ar forem reais, Po√ßos de Caldas registraria um per√≠odo de atividade vulc√Ęnica da ordem de 20 ou 30 Ma – muitas vezes superior ao que se conhece para outros vulc√Ķes em atividade e tamb√©m extintos (Hosrtpeter e Mabel Ulbrich,1992).

Cratera do vulcão extinto de Poços de Caldas, MG, em imagem de satélite.

Outro paleovulc√£o brasileiro seria o do arquip√©lago de Fernando de Noronha. O arquip√©lago de Fernando de Noronha possui uma ilha principal de mesmo nome com 16,4 km¬≤ de √°rea, e vinte ilhas menores. Registros revelam que o arquip√©lago eleva-se  sobre uma ampla plataforma de eros√£o, submersa atualmente. Esta plataforma est√° situada a 4km de profundidade em cima do assoalho oce√Ęnico. Localizado na Forma√ß√£o Rem√©dios, suas rochas datam desde 8 a 12,3 milh√Ķes de anos — sendo essas as idades de resfriamento das mesmas. Considera-se esse vulc√£o relativamente recente e de vida curta. O seu estudo para a paleovulcanologia ajudaria a compreender a forma√ß√£o e decl√≠nio de um vulc√£o num curto per√≠odo de tempo. 

Foto de Fernando de Noronha. Arquip√©lago formado por atividade vulc√Ęnica pret√©rita.

Registros de um dos mais antigos vulc√Ķes em territ√≥rio brasileiro seria o da regi√£o de S√£o F√©lix do Xingu (PA) da Era Paleoproteroz√≥ica. Os ge√≥logos Dr. Caetano Juliani e Dr. Carlos Marcello Dias Fernandes descreveram sua geomorfologia, tomando como base as rochas de at√© 2 bilh√Ķes de anos abrangendo as Forma√ß√Ķes Sobreiro e Santa Rosa. Este vulc√£o estaria relacionado com um grande evento magm√°tico denominado Uatum√£ (Pessoa et. al., 1977), num dos maiores terrenos pr√©-cambriano do mundo, o Cr√°ton Amaz√īnico (Almeida et. al., 1981). Devido a selva amaz√īnica ser muito fechada, os estudo desse gigante baseou-se na interpreta√ß√£o de imagens digitais do Projeto SIPAM (Sistema de Prote√ß√£o da Amaz√īnia) e do SRTM (Shuttle Radar Topographic Mission). O trabalho de campo foi realizado ao longo do rio Xingu por trilhas e estradas. Investiga√ß√Ķes petrol√≥gicas, texturais e mineral√≥gicas foram analisadas por interpreta√ß√£o petrogr√°fica da transmiss√£o e reflex√£o de luz. Por muitas das rochas estarem em processo de metamorfismo, percebe-se que o vulc√£o dessa regi√£o era realmente muito antigo. A paleovulcanologia, neste caso, estuda a influ√™ncia deste imenso evento vulc√Ęnico de Uatum√£, que hoje abrange uma √°rea de 1.500.000 km¬≤, no Cr√°ton Amaz√īnico. Na √©poca em que este vulc√£o estava ativo, a atmosfera era rarefeita e o planeta muito mais quente, existiam apenas seres vivos unicelulares e rar√≠ssimos multicelulares. Esse vulc√£o pode ser um poss√≠vel candidato que ajudou a liberar gases para a forma√ß√£o da atmosfera favor√°vel para a evolu√ß√£o da vida terrestre al√©m da forma√ß√£o de oceanos e diminui√ß√£o da temperatura global. O seu volume vulc√Ęnico foi de longe o maior de todo o territ√≥rio brasileiro, at√© mesmo maior do que o derrame de lava da Forma√ß√£o Serra Geral da Bacia do Paran√°, que cobriu os grandes paleodesertos Botucatu e Piramb√≥ia.

A quest√£o da paleovulcanologia como ci√™ncia pode ser desafiadora e o estudo desses vulc√Ķes, nada f√°cil, mas frente a influ√™ncia que  tiveram no meio ambiente pret√©rito (com reverbera√ß√Ķes at√© a atualidade), considero a paleovulcanologia como uma ci√™ncia v√°lida. Ao estudarmos as estruturas dos vulc√Ķes extintos, tentamos entender como era o ambiente durante a sua forma√ß√£o e as poss√≠veis altera√ß√Ķes no ecossistema que eles causaram – muitas vezes diferentes das que observamos hoje. Al√©m disso, temos de nos preocupar com a previs√£o de novos eventos, s√≥ assim poderemos mitigar trag√©dias humanas e ambientais.

N√£o existem dois vulc√Ķes iguais, cada evento √© √ļnico, mas podemos compar√°-los para esclarecer o passado e imaginar como poder√° ser o futuro.

Juliana Freitas da Rosa √© estudante de Geologia na Universidade de S√£o Paulo (USP). Ela √© apaixonada por Vulcanologia e pretende seguir seus estudos na √°rea. Trabalha como monitora no Museu de Geoci√™ncias e est√° dispon√≠vel para discutir mais sobre o tema ou tirar d√ļvidas. Deixe seus coment√°rios!