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O devorador de baleias ancestrais

Anteriormente falamos aqui sobre um incr√≠vel golfinho ca√ßador que dominou as √°guas do Oligoceno no sul da Calif√≥rnia (E.U.A) e suas contribui√ß√Ķes para a evolu√ß√£o dos cet√°ceos (grupo que inclui as baleias e golfinhos). Citamos algumas diferen√ßas entre ele e um grupo de cet√°ceos muito mais antigo, que inclu√≠a tamb√©m ca√ßadores t√£o excepcionais quanto, os gigantescos basilossaur√≠deos. Mas afinal, quem s√£o esses cet√°ceos com nome de dinossauro?

Basilossaurídeos. Ilustração por Artbyjrc.

Os f√≥sseis mais antigos de basilossaur√≠deos s√£o encontrados em rochas datadas do final do Eoceno M√©dio. Eles s√£o encontrados em todo o mundo, incluindo √Āfrica, √Āsia, Europa, Am√©rica do Norte e do Sul, Nova Zel√Ęndia e at√© mesmo na Ant√°rtica. De maneira geral, basilossaur√≠deos eram cet√°ceos com o corpo extremamente alongado, algumas esp√©cies chegando a mais de 18 metros de comprimento. Foi por meio de f√≥sseis desses cet√°ceos ‚Äúarcaicos‚ÄĚ que paleont√≥logos tiveram as primeiras pistas de que os golfinhos e baleias se originaram de mam√≠feros inicialmente terrestres.

O entendimento da ancestralidade terrestre só foi possível graças à preservação de ossos vestigiais das patas traseiras. Estas, eram pequenas e provavelmente semelhantes às nadadeiras peitorais dos golfinhos atuais, ou seja, não se conectavam/articulavam mais diretamente com a coluna. Isso demonstra que basilossaurídeos não conseguiriam mais sustentar o seu próprio corpo em terra e, portanto, seriam os primeiros cetáceos completamente adaptados à vida marinha. Também foram os cetáceos mais antigos a mostrar a migração das narinas da ponta do focinho para o topo da cabeça, como vemos hoje nas baleias e golfinhos modernos.

Esqueleto de Dorudon atrox evidenciando as patas traseiras rudimentares e desconexas da coluna vertebral. Foto do Repertório online de fósseis do Museu de Paleontologia da Universidade de Michigan.

Grandes répteis?

A primeira esp√©cie de basilossaur√≠deo foi descrita em 1834 por Richard Harlan, que batizou-a de Basilosaurus, ‚ÄúLagarto Rei‚ÄĚ em grego antigo. Por√©m, Harlan havia interpretado aqueles f√≥sseis erroneamente como sendo de um grande r√©ptil marinho. Percebendo esse erro, Richard Owen, em 1839, reavaliou os f√≥sseis do Basilosaurus associando-o aos cet√°ceos, e dando-lhe um novo nome, Zeuglodon, que significa ‚ÄúDentes de Jugo‚ÄĚ, tamb√©m derivado do grego antigo.

Apesar dessa nova avaliação, o nome original dado por Harlan permaneceu devido às regras internacionais da nomenclatura zoológica, que definem que o primeiro nome dado a uma nova espécie é o que deve ser considerado válido.

Evidências de um grande caçador

Nos √ļltimos anos, descobertas de novos f√≥sseis de basilossaur√≠deos na regi√£o do Egito, no continente africano, revelaram rela√ß√Ķes nada amig√°veis entre algumas esp√©cies do grupo. Alguns f√≥sseis indicam que o gigantesco Basilosaurus isis, um animal que atingia at√© 18 metros de comprimento, seria predador de uma esp√©cie menor de basilosaur√≠deo conhecida como Dorudon atrox. Essa descoberta deu pistas sobre como os grandes basilossauros do Eoceno M√©dio e Final eram efetivamente os ‚Äúreis‚ÄĚ dos mares.¬†

Esqueletos de (A) Basilosaurus isis e (B) Dorudon atrox (VOSS et al., 2019).

Julia M. Fahlke relata em um trabalho publicado em 2012, que f√≥sseis das duas esp√©cies de basilossaur√≠deos foram encontrados no mesmo s√≠tio fossil√≠fero. Por√©m, havia algo estranho ali: na localidade eram encontrados f√≥sseis tanto de juvenis quanto de adultos de Dorudon atrox e somente f√≥sseis de adultos de Basilosaurus isis. No mesmo trabalho, Fahlke relata tamb√©m, que alguns dos cr√Ęnios de D. atrox possu√≠am grandes marcas de mordida, que depois de an√°lise detalhada, puderam ser interpretadas como ferimentos letais, ou seja, elas eram a prov√°vel causa de morte desses organismos. Quem seriam os respons√°veis pelas mordidas?

Isso levou a pesquisadora a propor a hip√≥tese de que adultos de B. isis poderiam, no passado, ter invadido as √°reas de parto de D. atrox para atacar seus filhotes. N√£o havia, no entanto, nenhuma evid√™ncia direta para apoiar essa hip√≥tese. Fahlke, ent√£o, decidiu digitalizar os f√≥sseis para testar a sua ideia. Ela aplicou t√©cnicas de tomografia computadorizada e obteve modelos tridimensionais (3D) dos cr√Ęnios fossilizados. Os modelos 3D dos esp√©cimes juvenis de D. atrox foram colocados digitalmente na boca de um B. isis adulto e as marcas de mordidas comparadas com o tamanho e posicionamento dos dentes. Bingo! As marcas de mordida no cr√Ęnio dos juvenis de D. atrox correspondiam exatamente √† denti√ß√£o de B. isis.

Modelo digital 3D do espécime juvenil de Dorudon atrox (azul) na boca de um Basilosaurus isis adulto (cinza) (FAHLKE, 2012).

O perfil do culpado

A pesquisadora tamb√©m produziu modelos de argila dos dentes de B. isis e observou que as marcas nos cr√Ęnios dos juvenis de D. atrox tamb√©m se encaixavam com as caracter√≠sticas espec√≠ficas dos dentes da esp√©cie maior de basilossaur√≠deo. As marcas variavam ainda de acordo com qual dente fincou no cr√Ęnio do animal, a posi√ß√£o do ataque, a for√ßa aplicada durante a mordida e o estado de desgaste natural dos dentes de B. isis.¬†

Foi proposto também, que algumas marcas poderiam ter sido causadas por outros animais como Crocodilus megarhinus, grandes crocodilos marinhos do final do Eoceno do Egito, ou Carcharocles sokolowi, um grande tubarão encontrado mesmo depósito, com dentes de até 9,5 cm. Porém, as marcas analisadas não se encaixavam com as características da arcada e dos dentes dessas espécies. O culpado realmente só poderia ser Basilosaurus isis.

Acreditava-se, até então, que a alimentação dos cetáceos primitivos era limitada a peixes, entretanto, com esse estudo, as primeiras evidências de uma predação mais ampla foram sugeridas. 

Um mundo onde baleia comia baleia (e também tubarão!)

Apesar do excelente trabalho feito por Fahlke, evid√™ncias diretas eram necess√°rias para comprovar definitivamente a rela√ß√£o de preda√ß√£o proposta pela autora. A preserva√ß√£o do conte√ļdo estomacal desses enormes predadores seria o ideal.¬†

Eis que, em 2019, Manja Voss e colegas publicaram um trabalho justamente com a pe√ßa faltante para a compreens√£o dessa rela√ß√£o entre presa e predador: o conte√ļdo estomacal de um B. isis foi encontrado e nele, partes de D. atrox. Voss e colegas relataram evid√™ncias de tr√™s esp√©cies de vertebrados encontrados no conte√ļdo estomacal de B. isis. Haviam partes de dois juvenis de D. atrox, dentes de um pequeno peixe √≥sseo (Pycnodus mokattamensis) e dentes de um grande tubar√£o (Carcharocles sokolowi).

Fotomosaico de Basilosaurus isis encontrado com conte√ļdo estomacal preservado (VOSS et al., 2019).

Os autores sugeriram ainda que, devido ao grande tamanho de algumas presas encontradas, B. isis  não deveriam ser capazes de engoli-las inteiras. Considerando o comportamento de cetáceos atuais, eles também não deveriam consumir a carne de carcaças. Eles eram devidamente capazes de atacar animais de grande porte e abatê-los, além de terem dentes apropriados para cortá-los em pedaços. A cena deveria ser terrível.

Muito se comparou B. isis com as grandes orcas (Orcinus orca) da atualidade, pois estas tamb√©m s√£o de ca√ßadores de topo de cadeia, que consomem animais, incluindo outros mam√≠feros marinhos e tubar√Ķes, √†s vezes muito maiores do que elas mesmas. A descoberta elucidou um pouco mais sobre a din√Ęmica dos predadores de topo dos oceanos do in√≠cio da Era Cenoz√≥ica.¬†

As orcas tamb√©m ca√ßam filhotes de grandes baleias, assim como consomem parte das presas maiores, dando uma perspectiva sobre como B. isis faziam em sua √©poca. Por√©m, as orcas ca√ßam em grupo e esse tipo de intera√ß√£o n√£o √© poss√≠vel de ser verificada no registro fossil√≠fero de¬† B. isis. Pelo menos at√© o momento…

Restos cranianos de juvenil de Dorudon atrox (VOSS et al., 2019).

Pelas informa√ß√Ķes adquiridas a partir desses trabalhos, entende-se que B. Isis foram possivelmente os primeiros cet√°ceos a se alimentarem de outros cet√°ceos de sua √©poca. Os trabalhos citados aqui tamb√©m ampliam o conhecimento sobre a evolu√ß√£o da dieta desse grupo de animais, antes interpretados como consumidores exclusivos de peixes. Ainda h√° muito a se descobrir sobre a¬† paleoecologia dos cet√°ceos extintos. O registro fossil√≠fero sempre guarda surpresas e √© preciso uma aten√ß√£o especial e, √†s vezes, at√© mesmo criatividade para se desvendar os mist√©rios guardados nos f√≥sseis.

Referências:

FAHLKE, Julia M. Bite marks revisited ‚ÄĒ evidence for middle-to-late Eocene Basilosaurus isis predation on Dorudon atrox (both Cetacea, Basilosauridae). Palaeontologia Electronica, v. 15, n. 3, p. 32A, 2012.

MARX, Felix G.; LAMBERT, Olivier; UHEN, Mark D. Cetacean paleobiology. John Wiley & Sons, 2016.

VOSS, Manja., ANTAR, Mohammed Sameh., ZALMOUT, Iyad S., & GINGERICH, Philip D. Stomach contents of the archaeocete Basilosaurus isis: Apex predator in oceans of the late Eocene. PloS one, v. 14, n. 1, p. e0209021, 2019.