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Você conhece a Geomitologia?

Olá caros colecionadores! Hoje trago o texto do aluno Rodrigo Lima Veloso que cursa especialização em Geologia do Quaternário pelo Museu Nacional/UFRJ. Neste texto Rodrigo explica o que é Geomitologia e traz alguns exemplos de como essa ciência nos ajudou a compreender melhor os povos pretéritos.


Desde pequenos nós nos encantamos com histórias fantásticas de mitos e heróis, sejam da antiguidade ou de heróis de histórias atuais como nos livros de Harry Potter e Percy Jackson, que geralmente se baseiam em antigas lendas. Mas você já parou para pensar de onde vêm essas histórias?
Geomitologia foi o termo empregado pela primeira vez em 1968 pela ge√≥loga Dorothy Vitaliano (Figura 1) como sendo o estudo que tentava evidenciar algum tipo de rela√ß√£o entre os eventos geol√≥gicos e a mitologia. Esse estudo nos √ļltimos anos tem servido como base para se especular e procurar entender o tipo de rela√ß√£o que os humanos da antiguidade tinham com o ambiente ao seu redor e como o compreendiam.

Vitaliano
Figura 1: Foto de Dorothy Vitaliano. Fonte: Google Imagens.

Dentro das √°reas de estudo da geomitologia os f√≥sseis s√£o uma das principais evid√™ncias de como esses mitos podem ser mais bem contextualizados √† √©poca e compreendidos de forma mais completa por n√≥s atualmente. Muitos s√£o os exemplos destes vest√≠gios org√Ęnicos sendo coletados e interpretados durante toda a hist√≥ria da humanidade. Em seu livro ‚ÄúThe First Fossil Hunters‚ÄĚ (Figura 2), Adrianne Mayor relata diversas hist√≥rias que poderiam mostrar a intera√ß√£o seres humanos com f√≥sseis, sendo alguma delas datadas desde o Egito Antigo at√© o Imp√©rio Romano. Acredita-se que a rela√ß√£o desses povos com os f√≥sseis seja muito maior do que imagin√°vamos.
Mayor tem como foco de seu trabalho mostrar que as rela√ß√Ķes e a compreens√£o de alguns conceitos naturais que hoje compreendemos nem sempre foram t√£o deixados de lados pelos antigos povos que viveram a milhares de anos atr√°s como seria de se imaginar. Algumas ideias como a de extin√ß√£o de esp√©cies ou como a de Delos, que prop√īs a exist√™ncia de um ciclo natural cont√≠nuo de quase impercept√≠veis transgress√Ķes marinhas e forma√ß√Ķes de √°reas terrestres, s√£o surpreendentemente acuradas em rela√ß√£o ao que sabemos hoje e que sempre fomos levados a acreditar que eram entendimentos ‚Äúmodernos‚ÄĚ.
De acordo com Horner e Dobb (1997 apud Mayor, 2000), as popula√ß√Ķes antigas tinham uma percep√ß√£o maior do ambiente que as rodeava, e que a intera√ß√£o entre o fato e a imagina√ß√£o √© a chave para a verdadeira compreens√£o da mitologia que conhecemos hoje. Os antigos gregos e romanos, por exemplo, acreditavam que todas as esp√©cies estavam encolhendo porque eles encontravam ossos gigantes que n√£o condiziam com o tamanho de nenhum animal que lhes fosse conhecido.

Figura 2: Capa de ‚ÄúThe First Fossil Hunters‚ÄĚ de Adrienne Mayor, mostrando o que parece ser um cr√Ęnio f√≥ssil representado em uma pintura de um vaso.
Figura 2: Capa de ‚ÄúThe First Fossil Hunters‚ÄĚ de Adrienne Mayor, mostrando o que parece ser um cr√Ęnio f√≥ssil representado em uma pintura de um vaso.

A ideia de animais gigantes que haviam sido extintos de alguma maneira tamb√©m eram comuns, hist√≥rias como a das ‚ÄúNeades‚ÄĚ que falavam sobre monstros enormes que tinham habitado a regi√£o de Samos na Gr√©cia e que haviam sido engolidos pela Terra sem deixar nenhum vest√≠gio para tr√°s. A ilha de Samos na Gr√©cia √© um local onde ocorreram muitos terremotos e at√© hoje s√£o encontrados f√≥sseis como o do Samotherium por exemplo. Com isso fica f√°cil compreender de onde v√™m as ideias contr√°rias ao fixismo e mais do que isso, coincidentemente ou n√£o, chegam perto dos processos¬†tafom√īmicos pelos quais esses f√≥sseis passaram. Quando relacionadas, √†s informa√ß√Ķes a que temos acesso hoje e as lendas nos mostram que o poder de observa√ß√£o que indiv√≠duos tinham do mundo era muito grande
Por√©m, em alguns casos, os f√≥sseis influenciaram na descri√ß√£o de animais com os quais eles acreditavam coabitar a Terra. Atualmente, o caso mais famoso √© o dos grifos (Figura 3), esses animais, diferente do que j√° citamos, n√£o eram considerados animais m√≠ticos que haviam existido apenas em tempos pret√©ritos, eram considerados animais reais que coexistiam com os humanos. A hist√≥ria dos grifos come√ßa no deserto de Gobi, na Mong√≥lia e China, onde mercadores e mineiros citas passavam durante suas caravanas de com√©rcio, e de onde prospectavam ouro. Esses n√īmades contavam hist√≥rias sobre um animal terrivelmente territorialista e protetor com seus ninhos, e que portanto atacava sem piedade quem quer que se aproximasse do ouro, que de acordo com os n√īmades era encontrado em ninhos de grifos. Acredita-se que esses mineiros haviam se deparado com f√≥sseis que s√£o extremamente comuns no Deserto de Gobi, os f√≥sseis de Protoceratops (Figura 3) que s√£o expostos naturalmente no deserto e muitas vezes associados ao ouro. Esses homens ent√£o come√ßaram a espalhar as hist√≥rias sobre essa criatura com a inten√ß√£o de proteger o ouro que era encontrado no lugar afugentando pessoas que conhecessem a hist√≥ria dos grifos, mas o curioso, √© que diversos autores da antiguidade descreviam in√ļmeras caracter√≠sticas desses animais, n√£o se questionava a sua exist√™ncia ou n√£o, eles realmente acreditavam que eles existissem.

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Figura 3: Na parte superior representado um esqueleto de um indiv√≠duo do g√™nero Protoceratops, na parte inferior uma representa√ß√£o de um grifo segundo os padr√Ķes dos romanos (Lorena Pontes Lima).

Um caso em particular da mitologia eg√≠pcia tamb√©m pode ser usado para ilustrar a import√Ęncia de se buscar a compreens√£o do que pode estar por tr√°s dos mitos. Grande parte do pante√£o das divindades eg√≠pcias √© representado por seres antropozoom√≥rficos, ou seja, eram parte humanos e parte animais. N√£o coincidentemente, os animais com os quais essas divindades dividiam as suas caracter√≠sticas eram todos animais comumente encontrados na regi√£o e que tinham alguma rela√ß√£o com o que o deus em quest√£o representava. Como por exemplo, Sobek era a personifica√ß√£o do rio Nilo e era representado por um homem com cabe√ßa de crocodilo. Por√©m, um dos deuses sempre deixou os pesquisadores intrigados, tamb√©m conhecidos por sua antropozoomorfia caracter√≠stica, o deus Set nunca se assemelhou a nenhum animal vivente da regi√£o do Egito. Essa representa√ß√£o pode ser explicada com bases paleontol√≥gicas, visto que cr√Ęnios de giraf√≠deos s√£o encontrados nas √°reas fossil√≠feras eg√≠pcias, e o cr√Ęnio desses animais assemelha-se √†s representa√ß√Ķes da cabe√ßa de Set que os eg√≠pcios faziam (Figura 4). Set no pante√£o eg√≠pcio era considerado a personifica√ß√£o do deserto, das tempestades e da viol√™ncia, e comumente f√≥sseis s√£o expostos nos desertos justamente ap√≥s grandes tempestades, fazendo com que a associa√ß√£o entre ambos seja mais cr√≠vel.

Figura 4: A esquerda a representa√ß√£o de Set de acordo com os antigos eg√≠pcios e √† direita o desenho de um cr√Ęnio de um esp√©cime de giraf√≠deo (Lorena Pontes Lima).
Figura 4: A esquerda a representa√ß√£o de Set de acordo com os antigos eg√≠pcios e √† direita o desenho de um cr√Ęnio de um esp√©cime de giraf√≠deo (Lorena Pontes Lima).

Todos esses são pequenos exemplos de como a nossa história é influenciada por pequenos detalhes que quando mal interpretados nos levam a crer que o estudo e interpretação da paleontologia são relativamente recentes, quando na verdade, eles vêm sendo interpretados das mais diversas formas. De acordo com Oakley (1971 apud Fernandes, 2005), os primeiros registros de coleta de fósseis por humanos datam de cerca de 100.000 anos atrás. Não temos como afirmar se a produção dessa peça foi ou não proposital, mas já é um começo para que possamos entender a evolução da percepção humana quanto ao ambiente ao seu redor.
Mas nem sempre, o f√≥ssil d√° origem ao mito, alguns mitos foram respons√°veis por servir de inspira√ß√£o para a nomea√ß√£o alguns f√≥sseis, podemos citar aqui, por exemplo, o caso dos amonitas, que recebem esse nome pela similaridade aos cornos do deus J√ļpiter Ammon (Taylor, 2016) como est√° explicitado na Figura 5.

Figura 5: √Ā esquerda uma representa√ß√£o de J√ļpiter Ammon e √† direita um amonita.
Figura 5: √Ā esquerda uma representa√ß√£o de J√ļpiter Ammon e √† direita um amonita.

A geomitologia ainda √© uma ci√™ncia pouco explorada, nos √ļltimos anos, in√ļmeras hist√≥rias v√™m sendo estudadas por especialistas, mas ainda h√° uma necessidade muito grande de maior interdisciplinaridade entre as diversas √°reas como arqueologia, zooarqueologia, paleontologia e hist√≥ria. Uma maior intera√ß√£o faria com que fosse cada vez mais f√°cil de ver por tr√°s dos mitos como apenas hist√≥rias fantasiosas, trazendo os fatos marcantes para aquela sociedade e que serviram de base para as cren√ßas de um povo. Conseguir compreender que as pessoas da antiguidade, mesmo com tantas limita√ß√Ķes tecnol√≥gicas, conseguiam ter vislumbres, por vezes muito precisos de eventos que demoraram s√©culos para serem explicados. Podendo assim evidenciar o interesse por esses eventos que muitas vezes passaram despercebidos por estudiosos e pesquisadores ao longo dos anos.

Referências:

FERNANDES, A.S.F. 2005. F√≥sseis: Mitos e Folclore. Anu√°rio do Instituto de Geoci√™ncias ‚Äď UFRJ, v. 28, p. 101-115.
MAYOR, A. 2000. The first fossil hunters. Paleontology in greek and roman times. Princeton, Princeton University Press. 361 p.
TAYLOR, P. D. 2016 Fossil Folklore: Ammonyte. Deposits Magazine, n¬ļ 46 20-23.
VITALIANO, D. 1968. Geomythology: the impact of geologic events on history and legend, with special reference to Atlantics. Journal of the Folklore Institute (Indiana University), 5: 5-30.


26905858_2007696039247755_2080243137_oRodrigo Lima Veloso
Graduado em Ci√™ncias Biol√≥gicas/Licenciatura em 2014 pelo Centro de Ci√™ncias da Sa√ļde (CCS) do Centro Universit√°rio Serra dos √ďrg√£os (Unifeso). Na mesma universidade foi aluno bolsista do Programa Pet-Sa√ļde no per√≠odo entre 2012 e 2014. Atuou como professor de ci√™ncias da rede estadual no munic√≠pio de Carmo – RJ de 2015 at√© 2017, atualmente cursa uma especializa√ß√£o em Geologia do Quatern√°rio pelo Museu¬†Nacional/UFRJ. Tem interesse em continuar seus estudos nas √°reas de evolu√ß√£o, paleontologia e curadoria.