Arquivo da categoria: Geral

Prehistoric Planet, o guia de episódios

Breves considera√ß√Ķes sobre cada cap√≠tulo, do litoral da Zel√Ęndia √†s florestas congeladas do Polo Norte.

Ainda d√° pra falar da s√©rie? Depois de discorrer sobre as expectativas da produ√ß√£o e minhas primeiras impress√Ķes, chegou a hora de revisitar os cinco epis√≥dios de Prehistoric Planet. A s√©rie da AppleTV+ possui uma abordagem padr√£o dos document√°rios de natureza atuais, com cada epis√≥dio focado num ecossistema, o que garante uma salada de diversidade para a tela, tanto de criaturas como de seus habitats e condi√ß√Ķes clim√°ticas. Somadas, elas perfazem o mais assombroso esfor√ßo paleoart√≠stico conjunto j√° realizado.

Resolvi rever toda a s√©rie e fazer coment√°rios breves, apenas minhas impress√Ķes, a respeito de cada epis√≥dio. Para deixar a leitura mais din√Ęmica, decidi trazer uma refer√™ncia aos document√°rios pr√©vios da BBC para cada cap√≠tulo. Em alguns casos, esses momentos claramente serviram de inspira√ß√£o √† algumas sequ√™ncias de Prehistoric Planet (ou a coincid√™ncia √© muito braba, quem garante?). Cabe a voc√™ identific√°-las enquanto assiste (e depois dizer se concorda comigo!)

Sem mais delongas, Prehistoric Planet, capítulo por capítulo:

Epis√≥dio 1 ‚Äď Costas (Coasts)

Prehistoric Planet n√£o √© uma s√©rie sobre dinossauros, √© uma s√©rie sobre a fauna de nosso planeta durante o Maastrichtiano, o finalzinho do per√≠odo Cret√°ceo. “Costas” deixa isso claro desde o princ√≠pio: os Tyrannosaurus s√£o os √ļnicos dinossauros num epis√≥dio que est√° cheio de pterossauros, plesiossauros e tartarugas.
Um episódio que se destaca por ser simplesmente o primeiro, aquele que, se assistirmos a série na ordem, representa o início da nossa viagem ao tempo. Tudo é novo, você não sabe o que esperar. Quem veio pelos clichês do gênero se surpreende com peixinhos limpando a pele de um mosassauro, amonites bioluminescentes, Tuarangisaurus engolindo pedra, e por aí vai. Prehistoric Planet não apenas almeja mostrar a vida do Cretáceo como nunca antes vista, mas se orgulha em fazer isso.

Amonite bioluminescente do epis√≥dio 1, “Costas”.

Sequ√™ncia favorita: no Norte da √Āfrica, beb√™s Alcione (A Voz do Samba) precisam fazer um voo dos rochedos onde eclodiram √†s florestas seguras, passando por um verdadeiro corredor a√©reo de predadores. Tudo aqui funciona: as paisagens s√£o lindas, a diversidade de pterossauros impressiona, os comportamentos especulativos s√£o sensacionais (os filhotes “caindo” durante o voo √© o ponto alto) e, principalmente, o trabalho dos cinegrafistas √©, no m√≠nimo, realista. Filmar aves em voo n√£o √© tarefa f√°cil, ainda mais durante persegui√ß√Ķes, e essa dificuldade √© transposta em Prehistoric Planet: perceba como as imagens do Barbaridactylus em voo s√£o tremidas, como eles saem e entram do enquadramento, √†s vezes fora de foco, tal qual um falc√£o seria filmado hoje em dia. Sublime.

O que n√£o gostei: aqui temos os √ļnicos momentos de toda a s√©rie em que o CGI claramente me pareceu CGI. Alguns movimentos dos r√©pteis marinhos n√£o me soaram naturais, especialmente a aus√™ncia de qualquer mudan√ßa de dire√ß√£o da cabe√ßa dos mosassauros. Mas nada foi mais artificial do que quando as imagens de recifes de corais reais deram lugar, abruptamente, a recifes de CGI.

Parece que, enquanto assistia a Blue Planet, alguém mudou de canal e colocou em Procurando Nemo.

Momento “j√° vi isso na BBC”:

Epis√≥dio 2 ‚Äď Desertos (Deserts)

O epis√≥dio sobre as regi√Ķes des√©rticas do planeta vem como um perfeito ant√≠doto pra quem sentiu falta de dinossauros no epis√≥dio anterior: temos aqui o maior n√ļmero de cabe√ßas por minuto de proje√ß√£o – s√≥ a sequ√™ncia do o√°sis asi√°tico tem mais figurantes que uns 3 epis√≥dios juntos. Lawrence da Ar√°bia, vers√£o cret√°cea.

Hadrossauros n√īmades (duas vezes!), pequenos especialistas do deserto, duelos de saur√≥podes e at√© mesmo lagartinhos garantem uma sequ√™ncia mais impressionante que a outra, ainda que, como de costume, pouco seja explicado para al√©m do que os dinossauros est√£o fazendo. Prehistoric Planet n√£o almeja ser o tipo de document√°rio did√°tico cheio de informa√ß√Ķes sobre o mundo, daqueles que a professora passava pra gente na escola. √Č uma obra muito mais contemplativa, art√≠stica. E, nesse quesito, a s√©rie acerta em cheio.

Mononykus retratato no epis√≥dio “Desertos”.

Sequ√™ncia favorita: mais uma vez, temos a prova da qualidade audiovisual de Prehistoric Planet logo de cara. No meio do deserto, Dreadnoughtus se re√ļnem para disputar acesso √†s f√™meas de maneira extremamente violenta, praticamente uma vers√£o terrestre de elefantes-marinhos. O grande macho l√≠der est√° sujo de areia; no inevit√°vel embate com um concorrente, a gente consegue enxergar o p√≥ lan√ßado ao ar a cada tranco que o bicho d√°, um detalhe m√≠nimo, mas que nos lembra do alt√≠ssimo n√≠vel da anima√ß√£o. Sem falar os efeitos sonoros bizarr√≠ssimos usados durante toda a sequ√™ncia. Fino, coisa fina.

O que não gostei: embora seja um comportamento notável (e visto e revisto em outros documentários com o caso das sépias-gigantes do sul da Austrália), a cena das estratégias reprodutivas peculiares do Barbaridactylus perde ponto pelo antropomorfismo exagerado, em minha opinião (mais sobre isso, abaixo).

Momento “j√° vi isso na BBC”:

Epis√≥dio 3 – √Āgua Doce (Freshwater)

Ap√≥s rever a s√©rie inteira, confirmei minhas impress√Ķes iniciais: esse √© meu epis√≥dio favorito. Acredito que aqui temos um √≥timo equil√≠brio entre criaturas “wtf?!” pulando (literalmente) na tela e bichos mais conhecidos vistos sob uma nova perspectiva. Se, por um lado, os famosos Velociraptor e Tyrannosaurus fazem uma reprise, somos brindados com um Deinocheirus flatulento e um grupinho fofo de Masiakasaurus (talvez um dos √ļnicos bichos que n√£o foi exibido na divulga√ß√£o pr√©via do document√°rio).

Mas preciso dizer, o tema do epis√≥dio √© ainda mais vago que os demais: apesar de se referir como ‚Äú√°gua doce‚ÄĚ, a tal da √°gua s√≥ t√° ali pra servir de plano de fundo e conectar frouxamente minidramas do mundo natural. A aus√™ncia de crocodilos, um grupo extremamente diverso durante o Cret√°ceo, tamb√©m n√£o faz muito sentido.

M√£e Quetzalcoatlus e seu ninho, no epis√≥dio “√Āgua Doce”.

Sequ√™ncia favorita: os pterossauros em Prehistoric Planet roubam todas as cenas. Mesmo com uma bela sequ√™ncia envolvendo uma m√£e Quetzalcoatlus, por√©m, nada bate a arrepiante descida de tr√™s Velociraptor num desfiladeiro, atr√°s de… mais pterossauros, disparada minha cena favorita de toda a s√©rie. O neg√≥cio √© t√£o bem feito que realmente parece algo filmado hoje em dia; o fato de o ‚Äúataque final‚ÄĚ ter sido filmado numa tomada longa em plano aberto, com os bichinhos bem pequeninos e distantes, √© s√≥ uma pequena parte disso. Quem j√° viu as in√ļmeras cenas de leopardos-das-neves em document√°rios sabe que n√£o √© f√°cil filmar ca√ßadas completas em escarpas e penhascos, e a emula√ß√£o dessa limita√ß√£o t√©cnica em Prehistoric Planet foi s√≥ mais uma nota do seu primor t√©cnico.

E, convenhamos, ver os Velociraptor usando suas penas como vantagem para saltos mais longos é simplesmente impagável.

O que não gostei: a sequência dos Elasmosaurus, que fecha o episódio, é um tanto confusa geograficamente (ora parece que eles sobem o rio, ora que estão descendo), e não chega no mesmo nível de tudo o que foi mostrado antes. Não é necessariamente ruim, mas, para mim, serviu como um anticlímax.

Momento “j√° vi isso na BBC”:

Epis√≥dio 4 ‚Äď Mundos Congelados (Ice Worlds)

Ainda hoje, mesmo dentro da academia (experi√™ncia pr√≥pria), muitas pessoas vivem sob o antigo dogma de que dinossauros s√£o lagart√Ķes de sangue frio, limitados a uma exist√™ncia em √°reas tropicais, √ļmidas e quentes. Um epis√≥dio inteiro dedicado √† fauna cret√°cica das altas latitudes joga um banho de √°gua fria (R√Ā!) nessa vis√£o, nos apresentando uma cole√ß√£o extraordin√°ria de dinossauros na neve. Como padr√£o quando o tema √© regi√Ķes sazonais, o quarto epis√≥dio se desenrola no ritmo das esta√ß√Ķes, come√ßando no in√≠cio da primavera e terminando com as nevascas de inverno.

E sim, aqui temos o recorde de ornitísquios de Prehistoric Planet, com cinco formas diferentes dando as caras. O Olorotitan provavelmente reina soberano, e sua sequência é facilmente uma das mais bonitas de toda a série.

Troodont√≠deo usando fogo para ca√ßar durante o epis√≥dio “Mundos congelados”.

Sequ√™ncia favorita: embora o duelo final entre Pachyrhinosaurus e Nanuqsaurus seja o cl√≠max perfeito, em termos t√©cnicos e narrativos, para mim, toda e qualquer coisa que envolva a Ant√°rtida j√° √© um destaque, ent√£o fico com o jovem Australopelta em busca de um ref√ļgio no inverno. Al√©m de possuir ecos diretos de Esp√≠ritos da Floresta de Gelo, meu epis√≥dio favorito de Caminhando com Dinossauros, acho que devemos lembrar que sempre √© bom ver representa√ß√Ķes dos rar√≠ssimos anquilossauros gondw√Ęnicos.

O que não gostei: nada realmente problemático, mas achei a sequência original envolvendo Edmontosaurus e Dromaeosauridae um tanto genérica e previsível. Os Dromeosaurídae, por outro lado, são os Maniraptora mais bonitos da série (desculpa, Corythoraptor).

Momento “j√° vi isso na BBC”:

Epis√≥dio 5 ‚Äď Florestas (Forests)

Das selvas do que √© hoje a Argentina √†s florestas dec√≠duas autunais do Extremo Oriente, o Planeta Pr√©-hist√≥rico era um Planeta Verde (Green Planet, ah l√° o Attenborough fazendo jab√° pra ele mesmo). Ao tratar de florestas, esse talvez seja o mais did√°tico dos epis√≥dios, com brev√≠ssimas men√ß√Ķes √† sucess√£o ecol√≥gica, papel ecol√≥gico do fogo e mudan√ßa de esta√ß√Ķes.

Mesmo assim, esse foi o com o qual menos me identifiquei (e veja abaixo o porquê). Pelo menos temos o Brasil, representado aqui pelo belíssimo Austroposeidon, da região de Presidente Prudente, SP.

Anquilossaur√≠deo que aparece no epis√≥deo “Florestas”.

Sequ√™ncia favorita: eu tenho uma queda por Abelisauridae, posso passar horas vendo as propor√ß√Ķes bizarras de bichos como o Majungasaurus, Aucasaurus e, claro, o Carnotaurus. Mas tamb√©m posso fazer isso com os Azhdarchidae, e como torci o nariz pra um pequeno detalhe envolvendo o Carnotaurus, minha sequ√™ncia favorita ficou com o gigante Hatzegopteryx dando um rol√™ pelas florestas pr√©-hist√≥ricas da Transilv√Ęnia. Os pequenos Zalmoxes s√£o um detalhe √† parte. O √ļnico contra √© essa cena ter acabado t√£o r√°pido!

O que n√£o gostei: criaturas antropomorfizadas t√™m sido comuns (infelizmente) em boa parte dos document√°rios atuais, e em Prehistoric Planet, n√£o poderia ser diferente. Na minha interpreta√ß√£o, esse epis√≥dio traz mais momentos emotivos do que todos os outros. √Č o Carnotaurus visivelmente frustrado, o beb√™ Therizinosaurus admirado com o adulto e a m√£e Triceratops apreensiva com sua filhote perdida na caverna. Passa a impress√£o de que o simples fato de os Triceratops adentrarem uma caverna n√£o seja espetacular o bastante, precisa ser inserido um drama narrativo (e que nos distrai do que realmente √© importante). Ainda que n√£o chegue a um n√≠vel Disney de bobose, esses artif√≠cios narrativos soam um bocado exagerados (e a trilha sonora contribui muito com isso), caminhando na contra m√£o do realismo proposto pela s√©rie.

Momento “j√° vi isso na BBC”:

Um breve adendo: a m√ļsica da s√©rie

Eu sou um grande reclam√£o das trilhas sonoras dos document√°rios atuais. Para mim, elas s√£o altas, onipresentes e sem inspira√ß√£o, m√ļsicas compostas com o claro e √ļnico intuito de gerar emo√ß√Ķes. Logo, j√° esperava que ia encontrar esse problema aqui, mas fui surpreendido positivamente: em algumas sequ√™ncias, √© poss√≠vel apreciar o sil√™ncio, o som do ambiente e dos animais.

Mas, quando presente, a trilha soa gen√©rica demais. Em alguns casos, at√© lembra as de um filme de super-her√≥i (a pr√≥pria m√ļsica t√≠tulo pode ter sa√≠do de um filme da Marvel). Essas caracter√≠sticas negativas ficaram ainda mais claras quando me lembrei da m√ļsica de Caminhando com Dinossauros, que de gen√©rica n√£o tem nada, e percebi como ela foi importante para deixar a s√©rie de 1999 t√£o atmosf√©rica, at√© meio sombria.

Felizmente algu√©m tamb√©m notou isso, pois descobri uma sequ√™ncia de Prehistoric Planet com a m√ļsica de Caminhando com Dinossauros substituindo a original. Olha a diferen√ßa!

_______________________________________________________________________________

Link para meu texto sobre expectativa da série: https://www.blogs.unicamp.br/colecionadores/2022/04/20/de-caminhando-com-dinossauros-ate-prehistoric-planet/

Link para meu texto sobre primeiras impress√Ķes da s√©rie, e sua inspira√ß√£o: https://www.blogs.unicamp.br/colecionadores/2022/06/05/prehistoric-planet-um-baita-exercicio-de-especulacao/¬†

Prehistoric Planet est√° na Apple TV+: https://tv.apple.com/us/show/prehistoric-planet/umc.cmc.4lh4bmztauvkooqz400akxav

Descrição do Austroposeidon magnificus: https://journals.plos.org/plosone/article?id=10.1371/journal.pone.0163373

Sépias espertas: https://www.youtube.com/watch?v=KT1-JQTiZGc&ab_channel=BBCEarth

Leopardo-das-neves: https://www.youtube.com/watch?v=GgDHvl1wD20&ab_channel=WildFilmsIndia

The Green Planet: https://www.youtube.com/watch?v=3G1arGl8RvA&ab_channel=BBC

Uma fauna muito, muito grande, que chamamos de Mega

Texto por Thaís Pansani

Quando se fala de Paleontologia, muitos associam na sua imagina√ß√£o automaticamente os dinossauros ‚Äď n√£o os culpo, pois muitas das ind√ļstrias (especialmente a cinematogr√°fica) apostam, tradicionalmente, na imagem do T. Rex e dos pesco√ßudos pra vender seus produtos e conquistar o p√ļblico. Quantas hist√≥rias contadas voc√™s j√° ouviram sobre dinos na televis√£o? Quantos desenhos com alguns mais coloridos, outros mais assustadores, nos cinemas? Quantas camisetas, canecas e at√© mesmo bichinhos de pel√ļcia? At√© o nome estegossauro √© familiar. Agora, tente se lembrar de quantos filmes sobre pregui√ßas-gigantes voc√™ j√° viu no cinema? Essa √© mais f√°cil, porque temos o ‚ÄúEra do Gelo‚ÄĚ (pra alegria dos pesquisadores). Mas e se eu te perguntar quantas pessoas na rua voc√™ j√° viu com uma camiseta de tigre-dentes-de-sabre ou quantos bichinhos de pel√ļcias de gliptodontes (um tipo de tatu gigante com armadura) voc√™ j√° viu? Aposto que n√£o vai ser t√£o f√°cil agora. E se eu disser que o nome toxodonte n√£o √© t√£o familiar assim (voc√™ provavelmente nunca ouviu falar nele, n√£o √© mesmo?). Acontece que h√° uma hist√≥ria cheia de animais incr√≠veis que existiram (e infelizmente hoje n√£o existem mais), que vai muito al√©m dos dinossauros. Nossos queridos dinos, t√£o popularmente conhecidos, viveram apenas uma fra√ß√£ozinha de tempo no nosso registro geol√≥gico da Terra, ocupando a Era Mesoz√≥ica, apenas. Eles viveram durante os per√≠odos Tri√°ssico, Jur√°ssico (esse √© famoso!) e Cret√°ceo, entre aproximadamente 230 e 66 milh√Ķes de anos atr√°s. Antes e depois desse per√≠odo de tempo, temos outras eras, divididas entre muitos outros per√≠odos, os quais tinham as mais diversas esp√©cies e em que ocorreram os mais diversos eventos ecol√≥gicos, geogr√°ficos, geol√≥gicos e ambientais. Sinto que o que falta na Ci√™ncia, s√£o mais pesquisadores com desejo de difundir informa√ß√Ķes sobre as esp√©cies que estudam para o p√ļblico geral. Quem sabe assim, quando se falasse de Paleontologia, aqueles (ainda uma por√ß√£o pequena) que conhecem essa ci√™ncia passariam a ter uma vis√£o mais ampla sobre diversidade e evolu√ß√£o da vida ao longo do tempo geol√≥gico. N√£o desmerecendo a import√Ęncia dos dinos ‚Äď nem paleontol√≥gica nem na divulga√ß√£o cient√≠fica ‚Äď , mas quero falar aqui de uma outra fauna. Com alguns animais t√£o grandes e impressionantes quanto os dinossauros e, o mais fascinante, t√£o recentes, que alguns co-existiram com as primeiras popula√ß√Ķes humanas.

tempo-geolgico-1-638

Na Era Cenozoica (era atual em que vivemos), a linhagem dos mam√≠feros se diversificou. Muito do seu sucesso evolutivo se deu devido √† extin√ß√£o dos dinossauros, no final do per√≠odo Cret√°ceo (per√≠odo que encerra a era anterior, a Mesozoica). Os animais que vamos tratar aqui, s√£o especificamente do per√≠odo Quatern√°rio, a √ļltima subdivis√£o da Era Cenoz√≥ica, que se estende at√© a atualidade. Por√©m, essa fauna incr√≠vel, que voc√™s est√£o para conhecer, apenas permaneceu viva at√© o final do Pleistoceno (cerca de 11 mil anos atr√°s), extinta por alguns¬†fatores que vamos apresentar no desenrolar dessa hist√≥ria.

Considera-se megafauna todo conjunto de grandes animais. E quando digo grande, são grandes mesmo! Animais com mais de 50 kg, 100 kg, alguns com mais de 1000 kg. Ao longo da Era Cenozóica, uma distinta megafauna de mamíferos evoluiu independentemente em vários cantos do planeta, ocupando os espaços ecológicos deixados vagos pelos dinossauros. São centenas de organismos fascinantes, mas dessa vez, eu vou apresentar um pouco sobre a  fantástica megafauna sul-americana:

1-smithsoniansA Am√©rica do Sul permaneceu muito tempo isolada ao longo da Era Cenozoica, e isso permitiu com que animais muito estranhos e √ļnicos evolu√≠ssem por aqui nesse intervalo de tempo. A megafauna end√™mica de mam√≠feros da America do Sul √© muito espec√≠fica e alguns dos seus principais representantes foram as pregui√ßas-gigantes, os litopternos, os gliptodontes e os pampater√≠deos (vamos conhecer mais sobre eles j√° j√°). Assim que o √ćstimo do Panam√° foi formado, houve um interc√Ęmbio de animais entre Am√©rica do Norte e do Sul, evento conhecido como ‚ÄúO Grande Interc√Ęmbio Bi√≥tico Americano‚ÄĚ ou GIBA, para os √≠ntimos. Durante o GIBA, alguns animais t√≠picos da megafauna de mam√≠feros end√™mica norte-americana como os tigres-dente-de-sabre, os ursos, os cavalos e os poderosos probosc√≠deos vieram parar por aqui. Assim como alguns dos nossos megamam√≠feros migraram para l√°. Terminou, que no Pleistoceno estavam todos juntos… e algumas esp√©cies se perderam nesse contexto, mas isso √© hist√≥ria para outra postagem. Vamos nos ater √† megafauna end√™mica da Am√©rica do Sul:

As maiores esp√©cies de pregui√ßa-gigante que existiram na Am√©rica do Sul podiam chegar a ter 6 metros de comprimento e alcan√ßar at√© 4 metros de altura, quando sobre duas patas. Elas tinham garras enormes que, entre outras coisas, ajudavam na sua prote√ß√£o. Al√©m disso, apresentavam uma pelagem espessa com pequenos oss√≠culos embebidos na pele, formando uma esp√©cie de armadura. O tamanho e o peso das pregui√ßas-gigantes variava muito entre os g√™neros. Nothrotherium, por exemplo, podia ser considerada uma pregui√ßa-gigante ‚Äúnanica‚ÄĚ, mas te garanto que eram muito grandes se comparadas as ‚Äėpreguicinhas‚Äô atuais, que vemos em cima das √°rvores. Falando nisso, as pregui√ßas gigantes eram todas terr√≠colas, n√£o arbor√≠colas! Nada de ficar de galho em galho descansando (conseguem imaginar o tamanho de uma √°rvore pra conseguir isso?). As pregui√ßas-gigantes perambulavam pelas vegeta√ß√Ķes abertas e podiam at√© fazer tocas com suas garras, seja pra descanso tempor√°rio ou habita√ß√£o. As pregui√ßas-gigantes foram os mam√≠feros mais diversificados da Am√©rica do Sul (considerando tamanho, peso, prefer√™ncias alimentares, etc.), al√©m de o grupo mais amplamente distribu√≠do geograficamente. Uma esp√©cie espec√≠fica, Eremotherium laurillardi, conseguiu alcan√ßar do sul da Am√©rica do Sul ao norte da Am√©rica do Norte, sendo considerada uma esp√©cie ‚Äúpan-americana‚ÄĚ. Pensa no sucesso para se estabelecer em todo canto das Am√©ricas!

eremotherium

Eremotherium, arte de Jorge Blanco.

ground-sloth-size-comparison

Algumas preguiças-gigante em escala.

Os Litopternos são bem menos conhecidos, mas não menos interessantes. Eles eram de tamanho semelhante ao de um camelo e pesavam cerca de 1 tonelada. Tinham o pescoço comprido, pernas longas com três dedos e uma estranha narina entre os olhos, que levou pesquisadores à sugerirem a existência de uma tromba, semelhante à da anta.

–í–ł–ļ–ł

Macrauchenia, um litopterno, arte de Kobrina Olga.

Sabe aquele fusca azul, que a gente não resiste e dá um soco no coleguinha por conta de uma brincadeira clássica? (espero que ainda conheçam essa brincadeira e eu não esteja ficando tão velha). Ele é do tamanho de um glitptodonte, um bicho parecido com um tatu, com uma carapaça alta, cheias de osteodermos ornamentados, caudas robustas e garras capazes de cavar tocas que podiam servir como abrigo, proteção contra o frio ou até mesmo esconderijo de predadores. Na verdade, assim como as pregiças-gigantes, existiram diversas espécies de gliptodontes!

extinctglypt

Dois gliptodontes lutando. Arte de Peter Schouten.

Toxodontes, por sua vez, possu√≠am um tamanho semelhante ao de um hipop√≥tamo, podendo chegar a 2 metros de altura. Tinham um cr√Ęnio grande, pesco√ßo achatado, pernas curtas, com patas dianteiras menores que as posteriores e ouvidos na regi√£o acima da cabe√ßa. Viviam por vezes associados a cursos de √°gua e, supostamente, tinham h√°bito semi-aqu√°tico. Pelo que se sabe por meio do registro fossil√≠fero, n√£o chegaram na Am√©rica do Norte, mas conseguiam sobreviver gra√ßas a seu h√°bito generalista, alimentando-se de acordo com a sua localiza√ß√£o geogr√°fica.

Toxodon-01

Toxodonte. Arte de Jorge Blanco.

√Č incr√≠vel imaginar como a evolu√ß√£o selecionou organismos t√£o grandes e √© t√£o incr√≠vel que ainda se discute na academia o que os levaram √† extin√ß√£o. Algumas das sugest√Ķes s√£o: doen√ßas; altera√ß√Ķes clim√°ticas e ambientais; a rela√ß√£o com os seres humanos primitivos, afetando direta (ex: pela ca√ßa) ou indiretamente (ex: queimada e derrubada de √°rvores afetando seus habitats) suas popula√ß√Ķes; ou jun√ß√£o de um ou mais desses fatores. Para cada continente, atribui-se um motivo mais prov√°vel para a extin√ß√£o desses animais. No caso do sul-americano, por falta de evid√™ncias substanciais da intera√ß√£o entre ser humano/megafauna no registro paleontol√≥gico (diferente de na Am√©rica do Norte, que esses ind√≠cios s√£o bem mais comuns), √© pressuposto que varia√ß√Ķes clim√°ticas e na din√Ęmica da vegeta√ß√£o tenham sido os principais fatores que levaram esses organismos √† extin√ß√£o. Entretanto, vale salientar que a Paleontologia √© uma ci√™ncia relativamente nova, principalmente no continente sul-americano. H√° a possibilidade de que existam evid√™ncias que ainda n√£o investigamos ou encontramos, por falta de cientistas trabalhando com o tema ou por falta de explora√ß√£o de novas √°reas, coletas e/ou organiza√ß√£o de dados.

Estudar a megafauna pleistoc√™nica possui uma s√©rie de import√Ęncias. A come√ßar pela compreens√£o da grandiosidade que esse termo ‚Äúmegafauna‚ÄĚ carrega. Estamos falando de animais de grande porte que viveram espalhados pelo mundo todo at√© muito recentemente. Esses organismos passaram por evento de extin√ß√£o significativo, que concentrou os seus √ļnicos remanescentes atuais nas savanas africanas. Atualmente estamos passando por um processo muito semelhante de perda de esp√©cies, o que significa, que estudar os efeitos da extin√ß√£o desses animais no passado pode ser muito importante. Al√©m disso, entender a diversidade e como eles se organizavam em comunidades pode nos ajudar a reconstruir todo um cen√°rio ambiental de uma determinada √©poca e/ou de um determinado local. Tente fechar os olhos e imaginar como era a sua cidade h√° 30 anos atr√°s. Agora, volte um pouco mais no tempo e tente imaginar h√° 300 anos atr√°s. 3 mil anos atr√°s. 30 mil anos atr√°s. Expanda sua imagina√ß√£o para todo seu estado ou a regi√£o. Ser√° que o Brasil era desse exato jeitinho, caracterizado pelas mesmas florestas e cursos de rios e sensa√ß√£o t√©rmica h√° 40 mil anos atr√°s? Um dos maiores desafios dos paleoec√≥logos √© reconstituir um ambiente do passado com as informa√ß√Ķes presenteadas pelos f√≥sseis. A partir da dieta inferida pela an√°lise dos dentes da maioria dos animais da megafauna, por exemplo, conseguimos deduzir qual o tipo de vegeta√ß√£o que predominava no ambiente em que este animal viveu, do que ele se alimentava, qu√£o generalista ele era, etc. Fechamos os olhos e conseguimos imaginar um palco em que as cortinas se abrem e temos campos de matas abertas e clima muito mais seco do que o atual, algo completamente diferente do que existe hoje na Mata Atl√Ęntica, por exemplo. Onde pregui√ßas terr√≠colas andavam tranquilamente por uma vegeta√ß√£o mais aberta e menos √ļmidas e alguns tatus-gigantes migravam em busca de comida e temperaturas mais amenas. Conseguimos tamb√©m imaginar a din√Ęmica das popula√ß√Ķes desses animais, como se reproduziam ou interagiam com as outras esp√©cies. Al√©m disso, conseguimos associar fatores que tenham contribu√≠do para com que o espet√°culo de diversidade deste palco imagin√°rio tenha sido encerrado e estabelecer associa√ß√Ķes com o que ocorre atualmente em nossa biodiversidade, nossas taxas de extin√ß√Ķes e as consequ√™ncias ambientais e ecol√≥gicas que o nosso modo de vida pode e j√° est√° acarretando. Afinal, vivemos em um constante conflito de uma nova √©poca, que alguns cientistas j√° denominam como ‚ÄúAntropoceno‚ÄĚ. E que talvez possa ter um desfecho diferente, se conseguirmos aprender com o passado.

H√° muito a ser descoberto em nossas cavernas mineiras, nossos tanques nordestinos e demais sitios fossil√≠feros espalhados pelo Brasil ‚Äď muitos ainda desconhecidos. Acredito que h√° ainda muitas esp√©cies a serem descritas, muitos paradigmas a serem derrubados e conclus√Ķes que nem sequer come√ßamos a imaginar. N√£o √© preciso uma dist√Ęncia de 100 ou mais milh√Ķes de anos para nos sensibilizarmos com a maravilha que √© um mundo que n√£o existe mais. Parece que foi ontem (em escalas de tempo geol√≥gico), mas o panorama que configurava a megafauna sul-americana h√° pouco mais de 10 mil anos atr√°s foi completamente diferente do que temos hoje. E isso n√£o √© t√£o apaixonante quanto imaginar grandes dinossauros? Espero que, ao final deste texto, a resposta seja sim, e que s√≥ n√£o se tinha esse sentimento ainda por culpa nossa ‚Äď de n√≥s, paleont√≥logos, que nos esquecemos de enaltecer as outras facetas da Paleontologia.

thais

Sobre a autora:

Tha√≠s Pansani √© bi√≥loga formada pela UFSCar Sorocaba, atualmente √© mestranda em Ecologia e Recursos Naturais pela UFSCar S√£o Carlos e trabalha com megafauna pleistoc√™nica sul-americana e suas rela√ß√Ķes ecol√≥gicas e paleobiogeogr√°ficas.


Referências:

Cartelle, 1994. Tempo Passado.

Cartelle, 2000. Preguiças terrícolas, essas desconhecidas.

Ghilardi et al. 2011. Megafauna from the Late Pleistocene-Holocene deposits of the Upper Ribeira karst area, southeast Brazil. Quaternary International, 245: 369-378.

Oliveira et al. 2017. Quaternary mammals from central Brazil (Serra da Bodoquena, Mato Grosso do Sul) and comments on paleobiogeography and paleoenvironments. Revista Brasileira de Paleontologia, 20(1):31-44.

http://revistapesquisa.fapesp.br/2005/07/01/o-mastodonte-e-a-macrauquenia/

Sobre penas e escamas: a nova roupa do rei

Recentemente uma nova publicação causou uma acalorada discussão entre amantes dos dinossauros na internet. Trata-se de um assunto muito mais polêmico que mamilos. Claro, só poderíamos estar falando de PENAS em dinossauros. Ou talvez, nesse caso, a ausência delas.

Polemica

No in√≠cio do m√™s Phill Bell e colaboradores, incluindo os Phill Currie, Robert Bakker e Pete Larson (alguns paleont√≥logos de renome na √°rea), publicaram um artigo na revista Biology Letters intitulado Tyrannosauroid integument reveals conflicting patterns of gigantism and feather evolution, ou, traduzindo: “O integumento de tiranosaur√≥ides revela um padr√£o conflituoso entre gigantismo e a evolu√ß√£o das penas”. Esse artigo foi amplamente noticiado pela m√≠dia geral e foi justamente a causa¬†de uma grande reviravolta na internet. Em especial, entre f√£s de dinossauros (e, mais significativamente, ¬†entre aqueles fan√°ticos por Jurassic Park).

Obviamente, esse foi mais um caso em que a m√≠dia leiga deitou e rolou. Dinossauros… tiranossauro… e penas. Ingredientes m√°gicos pra escrever besteiras vender not√≠cias/atrair leitores! Um monte de gente que simplesmente n√£o entende nada desses assuntos resolveu escrever sobre isso e pipocaram manchetes como: “O Tiranossauro n√£o tinha penas!”, “Tiranossauro era coberto de escamas, como um lagarto” ou “Jurassic Park estava certo!”. √Č claro que o corpo das not√≠cias n√£o foi melhor do que isso.

tyrannosaurus-rex-conway-1024x1024Um efeito em cadeia teve início e monte de outras pessoas prontamente compartilhou (sem ler, claro) nas redes sociais a notícia. Uma parte dessas mesmas pessoas, então, começou a advogar a manchete jornalística como a descoberta paleontológica do ano e a verdade definitiva sobre os tiranossauros.

Quando abri minha linha do tempo no Facebook, ela se parecia com isso:
dinowar-1

Depois de me inteirar sobre o assunto, mais uma vez lamentei sobre como uma divulga√ß√£o mal feita de um resultado de estudo cient√≠fico pode ser danosa. Um artigo t√£o legal, sendo mal compreendido e passando a ser usado quase como um¬†“argumento b√≠blico” por algumas pessoas que n√£o querem, de forma¬†alguma, se desapegar de ideias ultrapassadas. Foi um¬†verdadeiro desfile de fal√°cias. E √© por isso que viemos tentar esclarecer um pouquinho esse¬†assunto!

Primeiramente, n√£o podemos deixar de falar, que no mesmo dia que o artigo de Bell e colaboradores foi publicado, um outro artigo magn√≠fico sobre um filhote de ave (Enanthiornithine) do Cret√°ceo preservado em √Ęmbar de Myanmar saiu do prelo no peri√≥dico ‘Gondwana Research‘. Um artigo de grande impacto no meio paleontol√≥gico, que passou praticamente despercebido pela m√≠dia e consequentemente, o p√ļblico geral. Uma pena (me perdoe o trocadilho).

Para não propagar a injustiça, seguem aqui algumas fotos e o link do artigo para quem tiver interesse em ler sobre o assunto:

583561-1-s2.0-s1342937x17300527-gr1

close-up-of-the-feet-2-by-ming-bai

Agora, quanto √†s penas em tiranossauros, √© importante come√ßar desde j√° dizendo que, de tudo que o artigo diz, a √ļnica coisa que ele N√ÉO diz √© que tiranossauros n√£o tinham penas. Pronto, falei. Pois √©, poder√≠amos encerrar a postagem aqui.

dinostudy

O que o artigo tr√°s, na verdade, √© a descri√ß√£o formal de algumas impress√Ķes de pele com evid√™ncias de escamas em certas partes do corpo de diferentes esp√©cies de tiranossaur√≠deos (incluindo¬†Tyrannosaurus rex, Daspletosaurus, Tarbosaurus, Gorgosaurus e Albertosaurus)¬†e, a partir disso, os autores discutem¬†a possibilidade de¬†uma evolu√ß√£o paralela dessas esp√©cies gigantes mais tardias, em rela√ß√£o √†s esp√©cies de tiranossaur√≥ides emplumados mais basais¬†(considere aqui os penosos asi√°ticos¬†Yutyrannus e Dilong¬†– clique nos nomes para acessar os artigos originais com imagens dos f√≥sseis).¬†Basicamente, o que os autores argumentam, √©¬†que as esp√©cies tardias¬† (a maior parte de dep√≥sitos da Am√©rica do Norte) n√£o teriam uma extensa cobertura ¬†de penas como os tiranossaur√≥ides basais chineses (N√ÉO QUE ELES N√ÉO POSSUIAM PENAS!).¬†A justificativa¬†principal¬†do artigo √© que a evolu√ß√£o do gigantismo poderia ter desfavorecido a manuten√ß√£o de uma extensa cobertura de penas em¬†Tyrannosaurus rex, Daspletosaurus, Tarbosaurus, Gorgosaurus e Albertosaurus. Os autores justificam¬†sua¬†hip√≥tese¬†alegando¬†uma suposta redu√ß√£o na import√Ęncia das penas na manuten√ß√£o de calor corp√≥reo devido √†:

1) Homeotermia inercial por gigantismo (i.e. inércia térmica);

2) Uma hipotética atividade metabólica mais alta em algumas espécies tardias ou;

3) A ocupa√ß√£o de¬†ambientes com press√Ķes seletivas distintas. As esp√©cies asi√°ticas mais basais, por exemplo, habitavam regi√Ķes mais florestadas.

Todas argumenta√ß√Ķes muito pertinentes, que implicam necessariamente na revers√£o (ou modifica√ß√£o) de um car√°ter basal do grupo, que √Č a presen√ßa de uma extensa cobertura de penas (veja a figura abaixo). Os autores deixam em aberto a¬†quest√£o sobre se¬†as escamas de esp√©cies mais derivadas seriam ou n√£o produto de uma modifica√ß√£o das penas primitivas¬†observadas em Yutyrannus e Dilong, j√° que as escamas em Aves atuais n√£o s√£o hom√≥logas √†s escamas ‘reptilianas’ (ou seja, n√£o t√™m a mesma origem embrion√°ria), mas sim s√£o resultado de penas modificadas.

Rela√ß√Ķes de parentesco entre Yutyrannus, Dilong e Tyranosauridae.
Rela√ß√Ķes de parentesco entre Yutyrannus, Dilong e Tyranosauridae.

Os autores concluem o artigo da seguinte forma:

“Our results, therefore, reveal an intriguing counterintuitive pattern between size and integumentary evolution within Tyrannosauroidea that can only be tested by future fossil discoveries.” – “Nossos resultados, portanto, revelam um intrigante padr√£o contraintuitivo entre tamanho e evolu√ß√£o tegumentar dentro de Tyrannosauroidea que s√≥ pode ser testado por futuras descobertas de f√≥sseis.”

A √ļltima frase resume tudo. Uma proposta que somente poder√° ser testada com futuras (e melhores ou mais completas) descobertas de f√≥sseis.

√ďtimo. Agora que ficou claro tudo o que o artigo quer dizer e aquilo que ele n√£o quer dizer, existem algumas outras coisas que podem ter sido mal interpretadas nele.¬†A primeira, e mais importante, √© a imagem sobre as impress√Ķes de pele com escamas (figurada alguns par√°grafos acima). A imagem d√° a impress√£o – errada! – de que as regi√Ķes ‘escamosas’¬†sinalizadas foram encontradas todas em um mesmo indiv√≠duo/esp√©cime ou que foram encontradas em diferentes f√≥sseis de uma mesma esp√©cie (no caso, como amplamente argumentado por quem n√£o leu o artigo direito:¬†Tyrannosaurus rex). Mas n√£o, ela re√ļne todas as evid√™ncias de impress√Ķes de peles das V√ĀRIAS esp√©cies citadas no texto (veja esta imagem que demonstra mais honestamente¬†o que conhecemos sobre o tegumento de Tyrannosaurus rex, Tarbosaurus e Albertosaurus, respectivamente – de cima para baixo).

2838737845_fa89d35c4a_zSão conhecidas apenas pequenas áreas preservadas de pele para cada espécie, o que nem de longe justifica que o padrão escamoso observado possa ser extrapolado para o corpo inteiro do animal/dos animais. Desde quando, por exemplo, a imagem ao lado seria uma justificativa para avestruzes serem escamosos?

A ausência de penas em algumas partes do corpo do animal não é uma evidência suficiente para afirmarmos que todo o animal era (ou a maior parte dele era) escamoso.

Agora, o oposto (ou seja, que penas estavam presentes nesses organismos, mesmo que ainda não tenhamos encontrado evidências diretas da sua presença) se pode afirmar com certo embasamento lógico. Por quê?!

√Č importante compreender um princ√≠pio b√°sico da Ci√™ncia, aqui adaptado √†¬†Biologia Evolutiva: √© mais parcimonioso supor que um caracter (no caso, penas) se manteve ao longo da evolu√ß√£o de um grupo de organismos, do que que ele tenha sido perdido, revertido ou alterado em linhagens sucessivas. Da mesma forma, por infer√™ncia com base nos parentes mais proximamente relacionados, – mais basais ou derivados – (phyllogenetic bracketing), √© mais parcimonioso afirmar que as penas estavam¬†presentes em Tyrannosauridae do que que estivessem ausentes.

N√£o vou nem me estender muito, mas ainda existem ainda outras quest√Ķes n√£o discutidas no artigo, como a a√ß√£o de¬†aspectos tafon√īmicos, que causam desvios preservacionais no registro fossil√≠fero. In√ļmeras¬†adversidades naturais (a√ß√£o de decompositores, exposi√ß√£o prolongada da carca√ßa, aspectos geoqu√≠micos da fossiliza√ß√£o, etc.) poderiam ter desfavorecido a preserva√ß√£o de penas. Os tipos de dep√≥sito em que as¬†esp√©cies mais tardias (de Tyrannosauridae) s√£o encontradas, s√£o bastante diferentes do de Dilong e Yutyrannus, que pelas condi√ß√Ķes de preserva√ß√£o excepcionais pode ser considerado um lagerst√§tte.

Aos paleobi√≥logos¬†interessa ainda investigarem poss√≠veis varia√ß√Ķes ontogen√©ticas (√© prov√°vel que em est√°gios mais juvenis, Tyrannosauridae tivessem uma cobertura mais extensa de penas); e geogr√°ficas (esp√©cies de latitudes mais altas apresentariam esse mesmo padr√£o sugerido no artigo?).

Mais uma vez: o que o artigo de Bell e colaboradores quis dizer, apenas, √© que a cobertura de penas nas¬†esp√©cies de Tyrannosauridae citadas no artigo (Tyrannosaurus rex, Daspletosaurus, Tarbosaurus, Gorgosaurus e Albertosaurus)¬†provavelmente¬†seria¬†mais restrita do que em esp√©cies mais basais, de Tyrannosauroidea, e outros Coelurosauria.¬†N√£o ¬†que elas estivessem definitivamente ausentes! Aceitem: a presen√ßa de penas (seja l√° em qual extens√£o pelo corpo) em Coelurosauria¬†(Eumaniraptora, Oviraptorosauria, Therezinosauroidea, Alvarezsauridae, Ornithomimosauria, Compsognathidae e Tyrannosauroidea) j√° n√£o √© mais um assunto em discuss√£o. √Č um fato amplamente aceito por paleont√≥logos especialistas em dinossauros.

Fãs de Jurassic Park, por favor, não deixem a emoção sobrepor a razão! E aos outros fãs de dinossauros: leiam sempre os artigos originais ou procurem fontes confiáveis de informação.

Fanboys, vocês ainda não se livraram do T. rex com penas...
Fanboys, voc√™s ainda n√£o se livraram do T. rex com penas… Arte de Raul Martin.

Algumas leituras adicionais sobre essa quest√£o:

T. rex, Feathers, Scales, and Science
Prejudices skin in the evolution of Tyrannosauridae
Those scales are scales?

Revenge of the scaly Tyrannosaurus 

Não deixe de assistir também o vídeo do nosso colega Pirulla sobre o assunto:

Município de Coração de Jesus, uma experiência além do tempo

Ol√° a todos! Seguindo a vertente de postagens relacionadas √†¬†divulga√ß√£o cient√≠fica e sua import√Ęncia, temos aqui outra narrativa¬†acerca da divulga√ß√£o da descoberta do¬†Tapuiasaurus macedoi em sua cidade natal, o munic√≠pio de Cora√ß√£o de Jesus! Este texto, redigido pelo Me. Natan Santos Brilhante, traz uma perspectiva complementar √† postagem pr√©via sobre o assunto (veja aqui). Espero que gostem!


Sob a mira de olhares curiosos e intrigados, forasteiros em um ve√≠culo branco com logotipo (representado pela silhueta de um Tamandu√°-bandeira) de uma institui√ß√£o p√ļblica conduziram diversas expedi√ß√Ķes de coleta de f√≥sseis no norte do estado de Minas Gerais. Os trabalhos na regi√£o duraram v√°rios anos, mais precisamente de 2005 at√© 2012. Entretanto, na perspectiva dos habitantes, quais seriam os motivos que trariam por tanto tempo pesquisadores do Museu de Zoologia da Universidade de S√£o Paulo (MZUSP)1 para uma cidade modesta e long√≠nqua?

01 - Natan
Veículo oficial do MZUSP no afloramento. Fonte: Natan Santos Brilhante

Logo MZUSP Atualizado
Logo em evidência, o mesmo visto na porta dianteira do veículo oficial do MZUSP. Fonte: Arquivo Laboratório de Paleontologia-MZUSP

Talvez o município de Coração de Jesus seja considerado simples em comparação com as grandes metrópoles brasileiras. Contudo, é uma cidade extremamente rica em cultura, hospitalidade e vivacidade. Em meio a toda a sua diversidade, nunca faltaram pessoas com disposição e prontidão em ajudar, seja para desatolar o veículo quando este enfrentou chuvas torrenciais nas estradas de barro do município, ou para servir com capricho uma boa refeição para toda a equipe depois de um dia exaustivo de trabalho.
 
Outras situa√ß√Ķes inusitadas fazem parte das boas lembran√ßas, e ocupam as p√°ginas do di√°rio de campo, como o deslocamento de um bloco de grandes dimens√Ķes e peso, localizado em √°rea de dif√≠cil acesso. Esse material s√≥ p√īde ser transportado para o alto do barranco gra√ßas ao aux√≠lio de um ‚Äúcarro de boi‚ÄĚ , gentilmente disponibilizado por Jos√© Ad√£o Pereira de Souza, o ‚ÄúZezinho‚ÄĚ, respons√°vel pela descoberta dos primeiros ossos fossilizados expostos na regi√£o por a√ß√£o do intemperismo*.
03 - Natan
‚ÄúCarro de boi‚ÄĚ, comumente usado para auxiliar em atividades de zonas rurais. Fonte: Natan Santos Brilhante

04 - Natan
Moradores do município de Coração de Jesus ajudando a equipe de pesquisa do MZUSP a transportar os materiais. Fonte: Natan Santos Brilhante

05 - Natan
Fragmentos de ossos fossilizados (esbranquiçados) aflorando em meio aos sedimentos por ação do intemperismo. Fonte: Natan Santos Brilhante

E o que falar da amizade do Sr. Israel Cruz e da Sra. Marylene Ferreira que abriram as porteiras da Fazenda Santa Tereza para os pesquisadores trabalharem e que, no entardecer, os acolhia com tanto carinho em sua casa para oferecer um bolo caseiro acompanhado de suco de coquinho azedo***. Vale lembrar ainda do Sr. Amilcar, que nos recebeu em sua resid√™ncia semelhante a uma ‚Äúcasa de taipa‚ÄĚ, a alguns quil√īmetros dos afloramentos. Sua atitude cordial possibilitou o abastecimento de √°gua para as etapas de coleta, resguardando o uso de recurso pot√°vel destinado ao nosso consumo e, consequentemente, evitando a nossa desidrata√ß√£o diante do sol forte e de temperaturas com m√©dias di√°rias acima dos 40 graus (na sombra). Curiosamente, ele sempre lembrava com precis√£o o nome de integrantes da equipe que por l√° passaram h√° anos (mem√≥ria invej√°vel para qualquer taxonomista, n√£o?!).
06 - MZUSP
Um dos pontos de coleta de fósseis nos domínios da Fazenda Santa Tereza. Fonte: Arquivo Laboratório de Paleontologia-MZUSP

Estes foram apenas alguns dos eventos e personagens que fizeram parte das muitas histórias de bastidores que ocorreram durante os trabalhos de campo.
Tal empenho e esfor√ßo renderam frutos, ou melhor… f√≥sseis, de dinossauros saur√≥podes e ter√≥podes, que foram (e continuam sendo) dedicadamente estudados por pesquisadores nacionais e internacionais. Entre as descobertas mais emblem√°ticas est√° a esp√©cie Tapuiasaurus macedoi, a partir de um exemplar que det√©m o mais bem preservado cr√Ęnio de titanossauro da Am√©rica do Sul. Essa descoberta recebeu destaque na comunidade cient√≠fica e na m√≠dia por meio da publica√ß√£o de um artigo na PLoS ONE4 em 2011 e, mais recentemente, na Zoological Journal of the Linnean Society5 em 2016.
07 - MZUSP
Coleta de fósseis de dinossauros nos arredores do município de Coração de Jesus. Fonte: Arquivo Laboratório de Paleontologia-MZUSP

08 - MZUSP
Equipe de pesquisa do MZUSP protegendo e preparando a retirada dos fósseis no afloramento para serem transportados. Fonte: Arquivo Laboratório de Paleontologia-MZUSP

09 - MZUSP
Cr√Ęnio do esp√©cime MZSP-PV 807 (Tapuiasaurus macedoi). A barra de escala representa 10 cm. Fonte: Arquivo Laborat√≥rio de Paleontologia-MZUSP

Infelizmente, nem sempre cabem agradecimentos em uma revista cient√≠fica a cada pessoa que, direta ou indiretamente, colaborou com o desenvolvimento da pesquisa. Eventualmente, estas ser√£o retratadas em outros meios de comunica√ß√£o, como internet, jornais e r√°dio. Outra quest√£o recorrente √© a falta de acesso e de linguagem adequada a este tipo de conte√ļdo por p√ļblico o qual a vida acad√™mica n√£o faz parte da sua realidade.
Ent√£o, como retribuir o apoio t√£o caloroso? Como mostrar √† popula√ß√£o a import√Ęncia e a seriedade do que est√° sendo realizado nos arredores da sua cidade? Ou o porqu√™ de estar sendo realizado. Como resposta, cito a seguir alguns dos trabalhos promovidos por alunos, funcion√°rios e professores do Museu de Zoologia da Universidade de S√£o Paulo, em parceria com o Museu de Ci√™ncias da USP – Pr√≥-Reitoria de Cultura e Extens√£o Universit√°ria2 e o Instituto Butantan3.
As atividades contaram também com o apoio da Prefeitura local e ocorreram a partir de duas frentes principais:
(1) Montagem da exposi√ß√£o itinerante ‚ÄúCabe√ßa Dinossauro: o novo tit√£ brasileiro‚ÄĚ
Abordou tem√°ticas como Paleontologia, Evolu√ß√£o e Din√Ęmica da Terra, e foi uma remontagem (e recontextualiza√ß√£o) de uma exposi√ß√£o com o mesmo t√≠tulo, montada para o Museu de Zoologia da USP, em 2011.
A exposi√ß√£o permaneceu aberta de ter√ßa-feira a domingo, durante todo o dia, entre os meses de maio e agosto de 2012. Adentro, o p√ļblico p√īde contemplar f√≥sseis originais e r√©plicas de diferentes regi√Ķes e contextos geol√≥gicos, assim como dioramas, v√≠deos informativos e ‚Äúpaleoarte‚ÄĚ. Entre os v√≠deos, destaca-se um feito com os depoimentos de algumas pessoas da cidade, sobre suas impress√Ķes ou sua participa√ß√£o na descoberta dos f√≥sseis.
10 - MZUSP
Vista geral da exposi√ß√£o ‚ÄúCabe√ßa Dinossauro: o novo tit√£ brasileiro‚ÄĚ, em sua primeira montagem itinerante. Fonte: Arquivo Laborat√≥rio de Paleontologia-MZUSP

11 - MZUSP
Painel com informes e material a respeito do vasto universo da Paleontologia. Fonte: Arquivo Laboratório de Paleontologia-MZUSP

Ap√≥s poucos dias de abertura, a exposi√ß√£o j√° havia recebido milhares de visitantes, alcan√ßando n√£o apenas os Corjesuenses, mas tamb√©m cidad√£os de munic√≠pios pr√≥ximos e de outros estados . Para se ter ideia em n√ļmeros, a exposi√ß√£o foi visitada por mais de 9 mil pessoas, em uma cidade de pouco mais de 20 mil habitantes!
12 - MZUSP
Dia de visita. Intera√ß√£o entre o p√ļblico e a exposi√ß√£o. Fonte: Arquivo Laborat√≥rio de Paleontologia-MZUSP

Acreditamos que este tipo de realiza√ß√£o estimule uma pr√°tica de grande import√Ęncia para a regi√£o: o turismo. Afinal, a rotatividade intensa de pessoas pode ser uma importante fonte para a economia regional, uma vez que a cidade est√° distante de grandes centros urbanos e o com√©rcio se restringe basicamente aos seus pr√≥prios habitantes.
(2) Projeto de extens√£o ‚ÄúPaleontologia sob a perspectiva da Educa√ß√£o Patrimonial: aproximando os f√≥sseis da popula√ß√£o de Cora√ß√£o de Jesus‚ÄĚ
Foi de car√°ter educativo e teve o intuito de permitir o reconhecimento do patrim√īnio fossil√≠fero da regi√£o, assim como apresentar quest√Ķes cient√≠ficas relacionadas √† Paleontologia, relev√Ęncia desta ci√™ncia para o mundo e valor do Patrim√īnio Geopaleontol√≥gico. Foram efetivadas as seguintes atividades:
I. Curso de Forma√ß√£o Continuada de Professores – visou um melhor entendimento do patrim√īnio fossil√≠fero regional e do conte√ļdo da exposi√ß√£o itinerante por parte de professores, de modo que eles pudessem promover visitas direcionadas com seus alunos, utilizando ferramentas da Educa√ß√£o Patrimonial e o conhecimento obtido a partir de estudos regionais. Esse evento ocorreu em mar√ßo de 2012, teve dura√ß√£o de uma semana (40 horas) e contou com a participa√ß√£o de 118 professores e funcion√°rios de escolas p√ļblicas estaduais e municipais, tanto de √°reas urbanas quanto rurais, divididos em duas turmas.
13 - MZUSP
Curso sendo ministrado para a formação continuada de professores. Fonte: Arquivo Laboratório de Paleontologia-MZUSP

II. Oficinas nas escolas – promoveu monitorias e oficinas para desenvolver dobraduras e desenhos relacionados √† Paleontologia, assim como o contato com f√≥sseis e r√©plicas. Essa etapa incluiu tamb√©m a iniciativa ‚ÄúConverse com um Paleont√≥logo‚ÄĚ, promovendo o di√°logo direto entre alunos das escolas e profissionais e estudantes de p√≥s-gradua√ß√£o em Paleontologia para discutir e esclarecer d√ļvidas a respeito da atua√ß√£o do paleont√≥logo e a relev√Ęncia da sua √°rea de estudo. Participaram mais de 600 alunos de 10 escolas p√ļblicas (urbanas e rurais), em maio de 2012.
14 - MZUSP
Colaboradores do Laborat√≥rio de Paleontologia do MZUSP em di√°logo aberto com alunos de escolas p√ļblicas. Fonte: Arquivo Laborat√≥rio de Paleontologia-MZUSP

III. Forma√ß√£o de Monitores – prestou treinamento t√©cnico para o atendimento ao p√ļblico na exposi√ß√£o citada acima, de maio a julho de 2012. Os mediadores eram alunos do Ensino M√©dio, selecionados a partir de uma parceira junto √†s escolas. O curso abordou conceitos relacionados √† Museologia, Paleontologia e Patrim√īnio Geopaleontol√≥gico, totalizando 24 horas.
15 - MZUSP
Monitores atendendo o p√ļblico na exposi√ß√£o ‚ÄúCabe√ßa Dinossauro: o novo tit√£ brasileiro‚ÄĚ. Fonte: Arquivo Laborat√≥rio de Paleontologia-MZUSP

IV. Curso de Extens√£o Universit√°ria – foi ministrado para 16 graduandos em agosto de 2012. Para transmitir ideias gerais sobre o que √© a Paleontologia, a sua import√Ęncia, e o qu√£o promissoras s√£o as descobertas regionais.
Foram desenvolvidos tamb√©m diversos materiais did√°ticos para complementar, ilustrar e relembrar muitas das informa√ß√Ķes transmitidas em sala de aula pelos colaboradores do projeto educativo, como o livreto ‚ÄúCabe√ßa DINOSSAURO – o novo tit√£ brasileiro‚ÄĚ.
16 - MZUSP
Material educativo. Fonte: Arquivo Laboratório de Paleontologia-MZUSP

Al√©m dessas pr√°ticas, foram tamb√©m doadas r√©plicas do ‚Äútapuiassauro‚ÄĚ para o Centro Cultural Jos√© Alves Macedo, um n√ļcleo hist√≥rico-cultural sediado na pra√ßa central da cidade. Essa institui√ß√£o foi fundada e √© administrada por Ubirajara Alves Macedo, personagem folcl√≥rico e um tanto exc√™ntrico da regi√£o, que foi homenageado pela sua colabora√ß√£o na descoberta e na divulga√ß√£o inicial dos f√≥sseis com o sobrenome da sua fam√≠lia posto no ep√≠teto espec√≠fico da esp√©cie supracitada (Tapuiasaurus macedoi).
17 - Natan
A pra√ßa central da cidade pode ser facilmente reconhecida pela presen√ßa de uma ic√īnica est√°tua, Sagrado Cora√ß√£o de Jesus, que remete ao nome herdado pelo munic√≠pio. Fonte: Natan Santos Brilhante

Por meio dessas a√ß√Ķes de ensino e divulga√ß√£o, foi poss√≠vel mostrar √† popula√ß√£o da cidade de Cora√ß√£o de Jesus a import√Ęncia dos trabalhos paleontol√≥gicos, conscientizando e educando os moradores em como proceder diante de novas descobertas, valorizando assim os ideais de preserva√ß√£o e valoriza√ß√£o do patrim√īnio geopaleontol√≥gico. Esperamos com isso resgatar n√£o somente o patrim√īnio fossil√≠fero, mas tamb√©m, com empenho, incentivar as futuras gera√ß√Ķes de paleont√≥logos(as) e demais entusiastas da ci√™ncia.
18 - MZUSP
Monitores transmitindo conhecimento aos visitantes da exposi√ß√£o ‚ÄúCabe√ßa Dinossauro: o novo tit√£ brasileiro‚ÄĚ. Fonte: Arquivo Laborat√≥rio de Paleontologia-MZUSP

19 - MZUSP
Alunos de escolas p√ļblicas do munic√≠pio de Cora√ß√£o de Jesus durante uma visita √† exposi√ß√£o ‚ÄúCabe√ßa Dinossauro: o novo tit√£ brasileiro‚ÄĚ. Nota-se a curiosidade e o entusiasmo em suas express√Ķes faciais ao bordarem a tem√°tica Paleontologia. Fonte: Arquivo Laborat√≥rio de Paleontologia-MZUSP

* A história mais completa sobre a descoberta dos fósseis no município de Coração de Jesus foi relatada em uma matéria do Estadão, um jornal do estado de São Paulo, o qual, na época (2010), dedicou um caderno especial a essa temática. A reportagem contou também com uma série de entrevistas de alguns dos moradores e dos pesquisadores que estiveram à frente das descobertas na região.
*** Coquinho azedo (Butia capitata): planta típica do cerrado rica em vitamina A, C e potássio.
 
Endere√ßo eletr√īnico de algumas das reportagens sobre o assunto:
I. http://ciencia.estadao.com.br/noticias/geral,um-dinossauro-no-coracao-de-jesus,609332
II. http://topicos.estadao.com.br/tapuiassauro
III. http://tv.estadao.com.br/geral,dinossauros-do-brasil-o-trabalho-dos-paleontologos,242506
IV. http://tv.estadao.com.br/geral,dinossauros-do-brasil-entrevista-com-alberto-carvalho,244709
Endere√ßo eletr√īnico das institui√ß√Ķes mencionadas:
1 – http://www.mz.usp.br
2 – http://biton.uspnet.usp.br/mc/
3 – http://www.butantan.gov.br
Endere√ßo eletr√īnico dos¬†artigos cient√≠ficos a respeito do Tapuiasaurus:
4 – http://journals.plos.org/plosone/article?id=10.1371/journal.pone.0016663
5 – http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/zoj.12420/abstract


Natan Santos Brilhante

IMG_0858
Formação acadêmica: Graduado em Ciências Biológicas pela Universidade do Grande ABC, Licenciatura Plena e Bacharelado; Mestre e doutorando pelo Programa de Pós-Graduação em Zoologia do Museu Nacional, da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Experi√™ncia profissional: elabora√ß√£o e execu√ß√£o de exposi√ß√Ķes, treinamento e medeio de monitores, atendimento ao p√ļblico, expedi√ß√Ķes de campo (paleontologia e herpetologia) e outros trabalhos t√©cnicos devido a sua colabora√ß√£o junto ao Laborat√≥rio de Paleontologia e √† Museologia do Museu de Zoologia da USP, de 2008 a 2013. Ap√≥s esse per√≠odo, ingressou no Museu Nacional/UFRJ e, desde ent√£o, segue como colaborador no Setor de Paleovertebrados do Departamento de Geologia e Paleontologia.
√Ārea de estudo: Zoologia, com √™nfase em Paleontologia de Vertebrados. Atua principalmente nos seguintes temas: Taxonomia de arcossauros f√≥sseis e recentes, curadoria de cole√ß√Ķes, coleta e prepara√ß√£o de f√≥sseis de vertebrados.

Com um frango no quintal

Talvez uma das facetas mais importantes que um pesquisador pode desempenhar √© a de divulgar a ci√™ncia, tanto o conhecimento por ele produzido quanto por seus pares. A divulga√ß√£o cientifica possibilita a aproxima√ß√£o de duas esferas tidas como tradicionalmente distantes que √© o conhecimento popular e o conhecimento cientifico, Por meio da divulga√ß√£o os pesquisadores nutrem a esperan√ßa de que pelo menos partes do conhecimento cientifico comece a integrar o conhecimento popular (e.g., teoria da gravidade, relatividade, alguns fatos sobre dinosauros, etc). A divulga√ß√£o cientifica feita pelos pr√≥prios cientistas √© relativamente rara e no m√≠nimo controversa, visto que pesquisadores divulgadores s√£o vistos como “estranhos no ninho” por seus pares (ver postagem). No entanto, cada vez mais os org√£os de fomento brasileiros est√£o reconhecendo a import√Ęncia de divulgar os resultados das pesquisas por eles financiadas. Portanto, vem ¬†se tornando cada vez mais comum a necessidade de direcionar parte do recurso solicitado, via projeto a um destes org√£os, a divulga√ß√£o direta de seus resultados.
Com o intuito de ilustrar a import√Ęncia da divulga√ß√£o da ci√™ncia para a comunidade n√£o-cientifica trago os relatos de dois pesquisadores que estiveram envolvidos no projeto de divulga√ß√£o do Tapuiasaurus realizado em sua “cidade natal”, Cora√ß√£o de Jesus.
Esta primeira postagem foi feita pela doutoranda Mariana Galera Soler e a segunda postagem será uma contribuição do doutorando Natan Santos Brilhante.
————————————————————————
A divulga√ß√£o da ci√™ncia n√£o √© uma novidade da nossa sociedade. Desde o s√©culo XVIII h√° extensos registros de a√ß√Ķes de profissionais e amadores da ci√™ncia buscando apresentar os seus resultados para plateias, muitas vezes selecionadas. Longe de ser uma a√ß√£o altru√≠sta, o processo de comunica√ß√£o dos resultados de uma pesquisa √© fundamental para a valida√ß√£o desta pesquisa pelo p√ļblico que, em √ļltima inst√Ęncia, atende fun√ß√Ķes econ√īmicas (financiamento p√ļblico e privado) e profissionais (forma√ß√£o de novos profissionais e apoio social √† pesquisa).
J√° na contemporaneidade, a partir da d√©cada de 1970 houve um forte movimento intitulado public undestanding of science, que tem resultado nas a√ß√Ķes de divulga√ß√£o que conhecemos atualmente, como centros de ci√™ncia mega-interativos, clubes de ci√™ncias, jogos, livros, filmes etc. Neste per√≠odo a divulga√ß√£o cient√≠fica passou a ter um car√°ter de essencialmente educativo. Fala-se no meio acad√™mico em letramento cient√≠fico ou alfabetiza√ß√£o cient√≠fica, ou seja, informar as pessoas de modo que elas possam tomar suas decis√Ķes de acordo com os conceitos cient√≠ficos vigentes. Em uma sociedade imersa em ci√™ncia e tecnologia, como vivemos atualmente, parece um discurso coerente.
No entanto, ao mesmo tempo que falamos em sociedade do conhecimento, hiperconectividade, redes sociais, ao abrirmos os jornais nos deparamos com uma chamada ‚Äúcrise dos direitos humanos‚ÄĚ, novos muros estabelecendo fronteiras f√≠sicas, al√©m dos ‚Äúfatos alternativos‚ÄĚ e da pseudoci√™ncia. Conhecemos o corpo humano e o universo em um n√≠vel de detalhamento que era impens√°vel no s√©culo XIX, mas questionamos a ci√™ncia que nos deu acesso a estas informa√ß√Ķes de uma forma que jamais pens√°vamos no p√≥s-guerra.

18136144_1315527271833833_886183950_n
‚ÄúVivemos em uma sociedade extremamente dependente de ci√™ncia e tecnologia, em que quase ningu√©m sabe nada de ci√™ncia e tecnologia‚ÄĚ ‚Äď Carl Sagan. Fonte da imagem: http://bigthink.com/words-of-wisdom/carl-sagan-on-science-and-technology

 
Ent√£o, p√Ķe-se em quest√£o: como falar de ci√™ncia para p√ļblicos que interessados em likes no Instagram?
Atualmente falar de ci√™ncia parece cool, ent√£o vou focar em exemplos da Paleontologia. Desenhos de dinossauros estampam camisetas e geralmente grandes bilheterias no cinema. Mas, o que √© mesmo um f√≥ssil? Um dinossauro √© t√£o antigo quando meu tatarav√ī? Eu posso ter um f√≥ssil em casa? Quando Pedro Alvares Cabral chegou no Brasil ainda existiam pregui√ßas gigantes?
18109476_1315527278500499_1666205460_n
‚ÄúEm minhas veias corre o sangue dos Dinossauros. Dos dinossauros eu te digo!‚ÄĚ. Um dos meus memes favoritos sobre dinossauros! Por que divulga√ß√£o cient√≠fica tamb√©m pode ser feita com likes e curtidas. Fonte: http://www.ifunny.com/pictures/veins-flows-blood-dinosaurs/

Estas quest√Ķes podem parecer bobas para quem √© da √°rea, mas n√£o s√£o triviais para a maioria das pessoas. No contexto mais √≥bvio, o escolar, embora sejam assuntos apontados nos par√Ęmetros curriculares de todos os n√≠veis da Educa√ß√£o B√°sica brasileira, s√£o temas pouco explorados pelos livros did√°ticos e na forma√ß√£o dos profissionais da Educa√ß√£o, de forma que a informa√ß√£o sobre paleontologia n√£o est√° evidente e os conte√ļdos paleontol√≥gicos aparecem dispersos nos curr√≠culos escolares, quando aparecem.
Espa√ßos para aprender sobre Paleontologia no Brasil tamb√©m s√£o escassos. Por exemplo, em todo o estado de S√£o Paulo h√° menos de uma dezena de museus que possuem f√≥sseis em exposi√ß√£o. H√° tamb√©m alguns centros de ci√™ncia, como o Catavento Cultural (em S√£o Paulo/SP), Sabina ‚Äď Parque Escola do Conhecimento (Santo Andr√©/SP) ou o Museu de Ci√™ncia e Tecnologia da PUCRS (Rio Grande do Sul / RS), mas dada as dimens√Ķes brasileiras ainda s√£o a√ß√Ķes esparsas. O Museu Nacional, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Rio de Janeiro/RJ) √© uma institui√ß√£o diferenciada neste aspecto, dado ao espa√ßo oferecido a uma exposi√ß√£o permanente sobre as diferentes faunas paleontol√≥gicas brasileiras, como tamb√©m por a√ß√Ķes educativas desenvolvidas pela equipe e alunos do museu.
Estas s√£o a√ß√Ķes pontuais e, geralmente, circunscritas a capitais e regi√Ķes de grande circula√ß√£o de pessoas. No entanto, quem usa t-shirt com a estampa do ‚ÄúT-rex‚ÄĚ, em geral, tem acesso a um museu ou a internet e pode descobrir mais facilmente que aquele personagem t√£o bravo do ‚ÄúJurassic Park‚ÄĚ n√£o passa de um frang√£o desengon√ßado e carniceiro. Voltando a sociedade hiperconectada, a informa√ß√£o paleontol√≥gica nas redes sociais est√° dispon√≠vel, e √© poss√≠vel dar likes no Instagram de diversos museus, seguir canais no Youtube de divulgadores cient√≠ficos. O desafio √© descobrir onde est√° a informa√ß√£o qualificada sobre a Paleontologia. E, neste sentido, as institui√ß√Ķes e os termos ‚Äúestudos comprovam‚ÄĚ apresentam um peso de qualificadores.
No entanto, esta √© uma quest√£o j√° bem explorada por outros textos. Gostaria aqui de discutir uma outra situa√ß√£o: como nos comunicar com quem encontra f√≥sseis nos seus quintais? Com quem est√° a margem destas grandes institui√ß√Ķes, cuja ci√™ncia se aprende tanto na pr√°tica cotidiana quanto na escola. Como falar em tempo geol√≥gico, para aqueles que contam os per√≠odos do ano entre as √©pocas de chuva e seca?
Para esta quest√£o, trago um outro referencial que ainda √© pouco explorado na Paleontologia brasileira, que √© o conceito do f√≥ssil como um patrim√īnio. Embora legalmente reconhecido como tal desde a d√©cada de 1940, e esta ser uma legisla√ß√£o bastante conhecida pelos paleont√≥logos, a dimens√£o cultural dos f√≥sseis ainda √© pouco explorada nas a√ß√Ķes educativas.
Entender o f√≥ssil como um patrim√īnio natural, implica em contextualizar estes materiais por meio de uma linguagem clara e objetiva, buscando estabelecer rela√ß√Ķes entre as popula√ß√Ķes locais onde os f√≥sseis foram encontrados e as equipes que pesquisam. Para al√©m quest√Ķes biol√≥gicas e geol√≥gicas diretamente relacionas aos f√≥sseis, a utiliza√ß√£o do referencial da educa√ß√£o patrimonial em Paleontologia fornece subs√≠dios para que esses materiais fa√ßam parte da identidade local e sejam entendidos como um patrim√īnio natural a ser preservado. Para que sejam efetivas estas pr√°ticas, ou seja, para que a popula√ß√£o local seja agente na conserva√ß√£o de s√≠tios paleontol√≥gicos e tamb√©m possam compartilhar seu conhecimento, at√© mesmo indicando novos afloramentos, abrindo suas casas e propriedades ou hist√≥ricos da regi√£o, √© fundamental que as a√ß√Ķes atendam as demandas espec√≠ficas dos grupos locais.
N√£o h√° apostilas ou f√≥rmulas. H√° estudos de caso que demonstram que a parceria entre popula√ß√Ķes locais e paleont√≥logos podem ser frut√≠feras para ambos. Um exemplo ocorreu no ano de 2012, no munic√≠pio de Cora√ß√£o de Jesus (MG). Nesta localidade foram encontrados f√≥sseis de dinossauros ter√≥podes e saur√≥podes da Bacia S√£o-franciscana que datam do Per√≠odo Cret√°ceo Inferior, com idades em torno de 120 milh√Ķes de anos. Esta regi√£o tem sido objeto de estudo da equipe de paleontologia do Museu de Zoologia da USP (SP), desde 2005.
18143112_1315527738500453_1834782978_n
Em destaque, município de Coração de Jesus, no norte do estado de Minas Gerais. Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Cora%C3%A7%C3%A3o_de_Jesus_(Minas_Gerais)

De forma que, passados sete anos em que a popula√ß√£o local convivia com a chegada de uma pick-up branca com emblema de uma universidade de outro estado, pessoas estranhas saiam cedo, iam para a √°rea rural do munic√≠pio e voltavam sujos de terra e com o carro cheios de rochas cobertas por gesso, muitas hist√≥rias foram criadas e situa√ß√Ķes com a equipe. Dizia-se de tudo um pouco: havia um tal dinossauro na cidade, que foi vendido para os EUA h√° centenas de milhares de reais, os donos das terras onde os f√≥sseis foram encontrados ganharam dinheiro e as equipes de paleont√≥logos eram apelidados de ‚Äúosseiros‚ÄĚ.¬† Depois de tanto tempo sem entender bem o que estava acontecendo, as rela√ß√Ķes entre a popula√ß√£o e a equipe come√ßaram a se tornar mais dif√≠ceis, ao ponto do prefeito da √©poca ligar para o Museu de Zoologia e pedir explica√ß√Ķes.
Bem, tais explica√ß√Ķes vieram na forma de um projeto educativo e uma exposi√ß√£o itinerante. Como n√£o era poss√≠vel levar e fazer uma montagem do f√≥ssil original, foi montada a exposi√ß√£o ‚ÄúCabe√ßa Dinossauro: o novo tit√£ brasileiro‚ÄĚ, ao redor da r√©plica completa do dinossauro Tapuiassaurus macedoi. As a√ß√Ķes educativas seguiram quatro linhas: (i) Curso de Forma√ß√£o Continuada de Professores, em que os conhecimentos gerados a partir dos estudos na regi√£o foram compartilhados com professores; tamb√©m foram abordadas ferramentas da Educa√ß√£o Patrimonial, para que os professores e alunos pudessem explorar a exposi√ß√£o e o patrim√īnio fossil√≠fero regional. Participaram 118 professores e funcion√°rios das escolas p√ļblicas estaduais e municipais, urbanas e rurais. (ii) Oficinas nas escolas, que discutiram o trabalho do paleont√≥logo, por meio de desenhos, dobraduras, intera√ß√£o com r√©plicas e f√≥sseis e roda de conversa entre alunos e profissionais, intitulada ‚ÄúConverse com um Paleont√≥logo‚ÄĚ. Em maio de 2012, foram realizadas oficinas para 10 escolas p√ļblicas (urbanas e rurais), envolvendo mais de 600 alunos. (iii) Forma√ß√£o de Monitores, como parte da parceria com as escolas, em que foram escolhidos 20 alunos do Ensino M√©dio os quais atuaram como mediadores na exposi√ß√£o entre os meses de maio e julho de 2012. Estes alunos realizaram um curso de forma√ß√£o (dura√ß√£o de 24 horas), em que se discutiram conceitos relacionados √† Paleontologia, museus e patrim√īnio geopaleontol√≥gico. E, (iv) Curso de Extens√£o Universit√°ria, abordando aspectos gerais da Paleontologia e ratificando a import√Ęncia cient√≠fica das descobertas regionais. Participaram do curso 16 estudantes, em agosto de 2012.
18110384_1314742908578936_299249172_o
Exposi√ß√£o ‚ÄúCabe√ßa Dinossauro: o novo¬†tit√£ brasileiro‚ÄĚ, em sua primeira montagem itinerante, em Cora√ß√£o de Jesus (MG), maio de 2012. Na foto, um grupo de estudantes da cidade √© atendido na exposi√ß√£o por dois monitores (tamb√©m estudantes da cidade que participaram do projeto educativo). Foto: Mariana Galera Soler

 
Durante todo este projeto, que durou cerca de 6 meses, os ‚Äúosseiros‚ÄĚ acabaram sendo pessoas conhecidas na cidade. Quando sa√≠amos nas ruas (e aqui me incluo, pois fui coordenadora deste projeto e tamb√©m uma das ‚Äúosseiras‚ÄĚ que estava na coleta dos f√≥sseis) √©ramos convidados para entrar nas casas, conversar com as pessoas sobre o tal dinossauro. De elementos estranhos, passamos a fazer parte da hist√≥ria daquele local, materializado na forma do ‚Äútal dinossauro‚ÄĚ entrar nas propostas de letra para um novo hino da cidade ou da ‚Äúexplica√ß√£o‚ÄĚ de uma lenda local***.
De porteiras fechadas nas regi√Ķes dos afloramentos, fomos recebidos com caf√© e biscoito de toalha e conhecemos uma Cora√ß√£o de Jesus absolutamente nova para n√≥s. Os resultados n√£o foram ‚Äúapenas‚ÄĚ a divulga√ß√£o dos resultados da pesquisa paleontol√≥gica, as pessoas de Cora√ß√£o de Jesus sabiam nossos nomes e se interessavam pelo nosso trabalho, j√° n√£o √©ramos mais os ‚Äúosseiros‚ÄĚ. E de muitas hist√≥rias que podem ser contadas, uma frase de um professor no √ļltimo dia do curso registrou fundamentalmente esta parceria: ‚ÄúObrigado por ter nos ajudado a descobrir que a nossa cidade √© mais importante do que parece‚ÄĚ.
18090537_1314729801913580_623807731_o
Nas visitas as escolas realizávamos diferentes oficinas, entre elas a construção de dinossauros de origamis. Na imagem, um dos alunos das escolas rurais de Coração de Jesus (MG) com seus dinossauros. Foto: Mariana Galera Soler

18110899_1314742585245635_1420950820_o
Exposi√ß√£o de trabalhos dos alunos em escola rural do munic√≠pio de Cora√ß√£o de Jesus. A atividade de ‚Äúcriar f√≥sseis‚ÄĚ com a impress√£o de folhas em argila foi uma das oficinas propostas para os professores durante o curso. Ao fundo, algumas reconstitui√ß√Ķes dos animais extintos encontrados na regi√£o, tamb√©m feitas em argila por alunos. Foto: Mariana Galera Soler

Este √© apenas um caso, mas existem outros. Embora escassos, projetos focados em popula√ß√Ķes locais e tratando os f√≥sseis como um patrim√īnio e em parceria com as pessoas s√£o um caminho poss√≠vel para al√©m da divulga√ß√£o da ci√™ncia mais √≥bvia, cheia de f√≥rmulas prontas e high tech de comunicar uma ci√™ncia neutra e fechada em si, tratando os f√≥sseis como todos sendo um dinossauro sem penas que corre como um guepardo. Projetos locais e contextualizados s√£o um caminho para a preserva√ß√£o do patrim√≥nio fossil√≠fero in situ e para que a ci√™ncia n√£o seja apenas um conjunto de resultados empilhados, ass√©pticos e descontextualizados, e produzida por homens brancos, de meia idade e jaleco branco (eventualmente, com a l√≠ngua de fora).
18120198_1314743015245592_56950743_o
Não basta ser monitor tem que participar! Alunos do Ensino Médio foram indicados por seus professores para atuar como monitores na exposição. Para tanto participaram de um curso sobre Paleontologia e também de diversas atividades práticas, entre elas ajudar na montagem da própria exposição. Foto: Marcia Fernades Lourenço

 
*** Cora√ß√£o de Jesus teve nos anos 1960 ‚Äď 70 certa notoriedade na regi√£o e grandes investimentos p√ļblicos que geraram, por exemplo, a constru√ß√£o de um espa√ßo esportivo e complexo de piscinas bem estruturados. Contudo, esse projeto foi abandonado e o munic√≠pio voltou a ser apenas mais um dos pequenos lugares na borda do Vale do Jequitinhonha. Para explicar esta ‚Äúperda de status‚ÄĚ, os mais velhos costumavam dizer que no passado algu√©m havia enterrado a cabe√ßa de um burro na cidade e por isso ela n√£o ‚Äúia para frente‚ÄĚ. Com a descoberta do cr√Ęnio (‚Äúcabe√ßa‚ÄĚ) de um dinossauro (bicho antigo que viveu h√° muito tempo), diversas pessoas relacionaram o f√≥ssil a ‚Äúcabe√ßa do burro‚ÄĚ e viram nesta descoberta a chance da cidade voltar a progredir.


Mariana Galera Soler

Forma√ß√£o: Bi√≥18109741_1315265438526683_809310084_nloga pela Faculdade de Filosofia Ci√™ncias e Letras de Ribeir√£o Preto (USP/RP) e Mestre em Museologia pela USP/SP. Estudante de doutorado em Hist√≥ria e Filosofia da Ci√™ncia, com especializa√ß√£o em Museologia pela Universidade de √Čvora / Portugal.
√Ārea de estudo: comunica√ß√£o e divulga√ß√£o cient√≠fica; museus de hist√≥ria natural; exposi√ß√Ķes e cole√ß√Ķes cient√≠ficas.
 Mas onde entra Paleontologia em tudo isso? Desde a graduação trabalhei o Laboratório de Paleontologia da USP Ribeirão Preto. Depois fui ao Museu de Zoologia da USP / São Paulo, onde trabalhei na curadoria da coleção paleontológica, além de participar de outras atividades do Laboratório de Paleontologia.
Bem tudo isso j√° faz algum tempo! Tamb√©m j√° fui professora de biologia e ci√™ncias e, nos √ļltimos seis anos, atuei na coordena√ß√£o do setor educativo do Museu Biol√≥gico do Instituto Butantan. O que n√£o quer dizer que eu deixei a Paleontologia de lado. Continuo trabalhando no gerenciamento da base de dados paleontol√≥gicos brasileira LUND (www.lund.fc.unesp.br/lund) e atuei em alguns trabalhos de divulga√ß√£o e exposi√ß√Ķes paleontol√≥gicas, em que uma das hist√≥rias conto aqui nesse texto.