Texto produzido por Marcelo Soares

Há um ano, comecei a observar com lupa as informações disponíveis sobre o espalhamento da doença. Isto às vésperas daquele breve momento em que São Paulo parou quase completamente para evitar o espalhamento do então novo coronavírus. Queria ter uma ideia do que se sabia sobre o vírus. A resposta era simples: muito pouco. 

O Ministério da Saúde tinha um painel atualizado diariamente, mas apenas com o estado conhecido do vírus naquele dia. Os dados eram granulares apenas por Estado, o que não permitia muita sofisticação de análise.

Uma das principais peculiaridades de um país do porte do Brasil é ter cidades mais populosas que países inteiros. Antes do distanciamento social, consegui ir duas vezes de uma cidade tão populosa quanto a Bolívia (São Paulo) para outra tão populosa quanto o Chipre (Campinas). A razão das viagens eram minhas primeiras aulas no mestrado do Labjor. Ao sair de casa às seis da manhã, usava um moletom. Todavia, ao chegar à Unicamp, estava suando em bicas mesmo com o moletom na mochila. A área de São Paulo é semelhante à do Reino Unido inteiro. E o vírus se espalha de maneiras diferentes conforme as diferentes populações mudam de comportamento. Nesse contexto, dados agregados por Estado não são tão úteis para entender a dinâmica da pandemia.

Os dados de Coronavírus no Brasil

Inicialmente, o painel federal trazia três categorias de números. Primeiramente, o número de casos suspeitos (ou seja, pessoas que buscaram atendimento e foram testadas). Também tinha os casos descartados (ou seja, testes negativos) e, por fim, confirmados – até ali, ainda não havia mortes. Em seguida, passaram a ser publicados apenas os casos confirmados. Em 9 de março, tornei meus gráficos públicos pela primeira vez, no site da minha empresa, Lagom Data

A fonte era o Ministério da Saúde, que por qualquer lógica seria a única fonte legítima de informações sobre saúde no país. Entra governo, sai governo, o corpo técnico do Sistema Único de Saúde é altamente qualificado e estaria preparado para qualquer parada. 

O Quinto Risco

Estaria preparado, exceto uma situação… Se estiver mais vulnerável do que de costume ao que Michael Lewis chamou de “O Quinto Risco”. Ou seja, “o risco que a sociedade corre quando adota o hábito de sanar riscos de longo prazo com soluções de curto prazo”. O livro trata do governo Trump, mas aplica-se bem aos governos que tentam imitá-lo. Por lá, como mostra o livro, o que por diversas vezes salvou a sociedade dos ímpetos de um político populista, foi o espírito público do funcionalismo estável e qualificado. 

Nas semanas seguintes, veríamos dois ministros serem “fritados” e, mesmo não sendo ministros dos sonhos, serem substituídos por um pesadello. Dessa forma, toureando com uma das mãos uma emergência global de saúde e com a outra o Quinto Risco, fornecer dados da melhor maneira possível acabou se encaixando nas prioridades do ministério primeiro como uma filigrana e depois como um campo de batalha. 

Quando esse gráfico acima foi publicado, eu já tinha percebido um padrão curioso. Por exemplo, a Bahia permaneceu por uns três dias com apenas três casos confirmados da doença. Por curiosidade – principal ferramenta de trabalho de um jornalista -, chequei o site da Secretaria da Saúde da Bahia. Estavam lá nove casos. A forma de coleta de dados do Ministério da Saúde consistia em aguardar o telefonema das secretarias estaduais para atualizar os dados. Isto segundo explicou uma reportagem do “El País”. Isso mesmo que vocês leram. Temos um Sistema Único de Saúde, presente em todos os municípios brasileiros e, bem ou mal, equipado para centralizar alertas sobre doenças de notificação compulsória. Mas o Ministério aguardava telefonemas com dados.

Garimpando dados “na unha”

Então, comecei a visitar diariamente os sites das 27 secretarias estaduais de saúde do Brasil para coletar os novos dados. Para quem cobriu eleições nos anos 90, nos primórdios da internet e do voto eletrônico, quando a apuração durava dias e dias, não era nada de outro mundo. 

A lógica era simples: assim como o governo federal detalhava por Estados, os estaduais detalhariam por município. E foi o que fizeram. Só que, sem orientação central sobre como fazê-lo, cada secretaria fez isso do jeito que achou melhor. Umas publicavam releases: “Ontem, foram identificados X casos na cidade Y”. Outras publicavam cards em redes sociais. Algumas outras, em PDF – um formato que permite fazer de conta que se abre dados mesmo dificultando a vida de quem quer analisá-los. Outras ainda, em tabelas no site. Entretanto, uma minoria publicava em planilhas. Assim, em poucos dias, um levantamento que me tomava 15 minutos já estava tomando uma hora. E depois aumentou.

Essa bagunça de formatos só mudou quando a ONG Open Knowledge Brasil criou um ranking de transparência dos Estados com os dados da Covid-19. Para subir no ranking, cada Estado pôs pressão em suas equipes para melhorar o formato de divulgação dos dados. Em dois meses, os maiores fiascos de março eram modelos de transparência. 

Apenas em maio, às vésperas da saída do segundo ministro da Saúde da pandemia, o ministério passou a publicar os dados por município. Até aquele ponto, as únicas fontes de dados que compilavam informações de todos os municípios do Brasil, eram o monitoramento da Lagom Data e uns dois ou três outros que surgiram depois com a mesma lógica.

Por algumas vezes, jornalistas e pesquisadores diziam que esses monitoramentos eram a fonte mais confiável de informações sobre a doença. Sempre achei isso perigoso.

Seguro ou completo? Para que serve um monitoramento de dados?

Mais completos, com certeza os bancos de dados independentes eram – a finalidade de um monitoramento assim é justamente mostrar ao poder público, que gera as informações, que esses dados são cruciais para monitorar a emergência e que eles podem ser organizados de maneira mais útil. A confiabilidade, porém, sempre esteve longe das nossas mãos.

É um erro achar que dados obtidos de segunda mão possam ser mais confiáveis do que dados de primeira mão. Por melhor organizados que estejam, eles dependem dos dados de primeira mão para existir. E a primeira mão é necessariamente a de quem define e executa as políticas de enfrentamento da doença nos municípios, Estados e governo federal. É a mão de quem pode frear o Quinto Risco. Lá na ponta, costumo dizer, os dados são profundamente humanos. No caso dos dados da Covid, eles são anotados em fichas de papel pelos mesmos profissionais da saúde exaustos que atendem a pacientes em casos emergenciais com escassez de equipamentos de proteção individual e outros recursos. 

Para haver um número de casos confirmados, precisaríamos de mais testes aplicados.

O Brasil sempre testou muito menos do que outros países, em parte pelo gigantesco tamanho da sua população. Mais ainda: o Brasil no agregado é uma ficção; as extremas desigualdades do país apareceram com força no combate à Covid. Nos testes, cada Estado aplicou do jeito que pôde ou achou mais conveniente. Em Minas Gerais, por exemplo, o secretário da Saúde dizia em março que até tinha testes para aplicar, mas testava pouco porque estava guardando esses preciosos recursos para quando se fizessem realmente necessários. Sabe-se lá quando seria esse dia, não sei se ele já chegou. Mas, com critérios diferentes de testagem em toda parte, era temerário comparar os dados róseos de Minas Gerais com os dados assombrosos que vinham de Pernambuco, um dos primeiros Estados cujo sistema de saúde entrou em colapso. 

Para haver um número de mortes confirmadas, era preciso que o paciente estivesse ao menos com suspeita de Covid.

Os primeiros pacientes a morrer de Covid no Brasil sequer eram considerados casos suspeitos da doença. Pela orientação original do Ministério da Saúde, deviam ser testados apenas os pacientes que tivessem viajado ao exterior ou soubessem ter tido contato com alguém que viajou. Enquanto o primeiro a ter a doença confirmada, em São Paulo, era um empresário que voltou de viagem à Lombardia, a primeira senhora que morreu, no Rio, era a diarista cuja patroa havia voltado de viagem. O primeiro morto em São Paulo era um porteiro. Nenhum dos dois estava sendo tratado como um caso de Covid antes da morte.

Enquanto isso, os hospitais iam lotando numa medida que não refletia exatamente os dados oficiais da Covid. Ao final de março, os pesquisadores do Infogripe, da Fiocruz, alertaram para uma alta nos casos de Síndrome Respiratória Aguda Grave de causa não identificada, uma classificação genérica criada quando não se tem como confirmar o que causou a internação. Em Belo Horizonte, capital daquele Estado que guardou os testes para quando fossem necessários, em junho havia 9 mortes de SRAG para cada uma confirmada como sendo de Covid. Já em 2021, a Fiocruz cravou que 70% dos casos de SRAG não identificada no Brasil eram Covid mesmo. 

O fato é que a pressão da sociedade civil, especialmente da imprensa e de pesquisadores independentes, fez com que se tivesse muito mais dados disponíveis no país. Desde maio, é possível baixar os microdados de SRAG, com informações sobre cada paciente. O governo que não me ouça, mas os dados do painel do Ministério da Saúde melhoraram muito em disponibilidade e qualidade depois da pressão exercida de fora. 

Uma pausa? [lógico que não]

No início de junho, parecia que o monitoramento da Lagom Data não tinha mais razão para existir. Ao menos em termos de informação fornecida oficialmente, estava tudo mais tranquilo. Não precisávamos mais ser caçadores e coletores, poderíamos trabalhar mais no processamento dos dados, na análise de suas lacunas. Lógico que eu estava errado. 

Dia após dia, naquela fase em que o servidor batia seu cartão pela manhã sem saber quem seria seu chefe à tarde, o Ministério da Saúde foi jogando para mais tarde a divulgação dos dados federais. Em 5 de junho, eles divulgaram o dado depois das 21h30, e nas palavras do próprio inquilino do Alvorada isso ocorreu para que o número de 1.005 mortes confirmadas em um só dia não fosse notícia no Jornal Nacional. 

O Quinto Risco “estava on” com todas as barrinhas acesas.

Inclusive nos dias seguintes, o governo ativamente buscou sabotar o fornecimento de dados, inclusive tirando seu painel do ar por alguns dias. (Mesmo nesse período, os dados continuavam sendo atualizados diariamente no site no formato que o inquilino do Alvorada queria extirpar. O funcionalismo estável com espírito público continuou cumprindo sua missão, apesar da bateção de cabeça no topo.)

Esse breve apagão não teve impacto no trabalho que a Lagom Data fazia, nem mesmo afetou o que as outras iniciativas coletavam. Pois, desde o começo, elas se organizaram a fim de suprir a falta de informações centralizadas no governo federal. Pelo contrário, isso emprestou ainda mais relevância ao nosso trabalho de caçadores e coletores. Tanto que rapidamente surgiu um novo caçador e coletor na área: um consórcio que reunia os principais meios de comunicação brasileiros. Montou-se uma parceria historicamente inédita. Ou seja: fazer exatamente a mesma coisa que meia dúzia de iniciativas independentes e mal financiadas já vinham fazendo havia três meses. Dessa forma, vendo que não adiantava esconder o dado, e pressionado por decisões judiciais, o governo voltou imediatamente a publicar o que tentou esconder. E nunca mais voltou atrás. 

Nos meses seguintes, o campo de batalha mudou por diversas vezes.

A questão do número diário de casos e mortes conhecidas foi pacificada a partir dali. Isto é, há pouco questionamento no debate público sobre o tamanho da subnotificação (que continua existindo). A transparência de outros dados passou a se tornar importante. 

Um dos motivos pelos quais milhões de testes apodreceram num depósito foi justamente a baixa transparência sobre a disponibilidade e aplicação destes. Assim, agora em março de 2021, meses depois da descoberta dos testes vencendo, o governo tentou generosamente doá-los ao Haiti, que os recusou por estarem vencidos. Dias depois do começo da vacinação, o Ministério da Saúde começou a publicar diariamente microdados detalhados sobre as vacinas aplicadas no país. Todavia, isso aconteceu após o questionamento de casos de “vacinas de vento”. Esses microdados tinham muitas inconsistências, mas quando a mesma ONG Open Knowledge os tornou públicos, eles começaram a sanadá-las em poucos dias. 

Se os dados básicos de certa maneira já estão resolvidos, hoje não podemos falar em apagão na disponibilidade dos dados. A grande questão agora centralizava-se na qualidade dos dados e das decisões de política pública que os governos tomam a partir deles. As idas e vindas das medidas de supressão da circulação do vírus em São Paulo, por exemplo, seguem mais pesquisas de popularidade do que pesquisas epidemiológicas. Dessa forma, há meses existem dados suficientes para ajudar a dar foco a um plano de contenção. Todavia, mesmo assim as medidas e exceções parecem decidir-se na base de quem grita mais alto. Poucos têm os pulmões dos cartolas das igrejas e dos times de futebol, por exemplo. 

Ou seja, o Quinto Risco não é apenas federal. E ele não deve acabar tão cedo.

Pesquisadores e jornalistas estão exaustos após doze meses aparentemente gritando ao vento. Mas sempre que pusemos nossos neurônios e análises nessa tarefa, fazendo uma divulgação científica competente, conseguimos fazer as políticas públicas avançarem alguns passos. Isso mesmo que pequenos. Por mais que um governo possa despriorizar a voz da ciência, o que o último ano mostrou é que o corpo técnico estável ouve essa voz. E eles são quem mais consegue defender a sociedade do Quinto Risco.

Para Saber Mais:

LEWIS, Michael (2019) “O Quinto Risco” Intrínseca, 2019

www.lagomdata.com.br/coronavirus

O autor

Marcelo Soares é jornalista, diretor do estúdio de inteligência de dados Lagom Data, membro do Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos (ICIJ) e mestrando no Labjor/Unicamp.

Este texto é original e exclusivo do Especial Covid-19

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Os argumentos expressos nos posts deste especial são dos pesquisadores. Dessa forma, os textos foram produzidos a partir de campos de pesquisa científica e atuação profissional dos pesquisadores e foi revisado por pares da mesma área técnica-científica da Unicamp. Assim, não, necessariamente, representam a visão da Unicamp e essas opiniões não substituem conselhos médicos.


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