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Prehistoric Planet: um (baita) exercício de especulação

A semana é boa quando você acaba sendo agraciado com 40 minutos diários de Mesozóico. Agora que terminamos de ver Prehistoric Planet, a série mais do que hypada da Apple TV+, que tal refletirmos sobre a origem do estilo especulativo da série?

Quando sa√≠ram os primeiros sinais do que era Prehistoric Planet, escrevi um texto a respeito de como a nova s√©rie de documental viera para repaginar (e talvez at√© substituir) a cl√°ssica ‘Caminhando com Dinossauros’. Era uma aposta √≥bvia: em mais de 20 anos, nenhuma outra produ√ß√£o sobre dinossauros conseguiu atingir o mesmo n√≠vel e impacto, e Prehistoric Planet parecia estar aqui exatamente para isso. E, embora muita gente siga comparando as duas s√©ries, percebi que a grande inspira√ß√£o da produ√ß√£o da Apple TV+ n√£o era o cl√°ssico de 1999, mas sim um… livro.

Capa do livro “All Yesterdays” – A melhor dica de livro que voc√™ vai receber hoje.

All Yesterdays √© um livrinho simp√°tico e aparentemente inofensivo. Creditado aos paleoartistas John Conway e C.M. Kosemen e ao paleont√≥logo Darren Naish. A proposta da obra √© realizar uma releitura das representa√ß√Ķes paleoart√≠sticas do Mesozoico, assumindo dinossauros como seres vivos e n√£o gigantes sanguin√°rios com tend√™ncia a berrar e mostrar os dentes 24 horas por dia. Sentiu uma semelhan√ßa com Prehistoric Planet? Calma que √© s√≥ metade da hist√≥ria.

Um Allosaurus e um Camptosaurus apenas se encarando, sem segundas inten√ß√Ķes. Porque o predador n√£o precisa estar ca√ßando e a presa n√£o precisa estar fugindo 100% do tempo.

Desde o chamado “Renascimento dos Dinossauros”, nos anos 1970-80, uma tend√™ncia dos paleoartistas foi representar esses animais como organismos complexos e atl√©ticos, mas magrel√Ķes secos, verdadeiros sacos de ossos. Isso n√£o √© de se surpreender, uma vez que tecidos moles raramente s√£o preservados, restando aos paleoartistas reimaginar essas criaturas tendo apenas os ossos como base.

Greg Paul √© um dos maiores nomes da paleoarte e do Renascimento dos Dinossauros, e suas representa√ß√Ķes hiper-atl√©ticas e zero gordura destes animais seguem sendo uma das mais influentes e reproduzidas nos √ļltimos 40 anos. Por esse motivo que dinossauros magros s√£o t√£o comuns na paleoarte. Aqui, um Tyrannosaurus apel√£o apostando corrida.

Em All Yesterdays, os autores refor√ßam que os dados cient√≠ficos publicados devem ser utilizados ao m√°ximo na reconstru√ß√£o de tecidos moles, incluindo a√≠ m√ļsculos, tecidos conjuntivos, penas, chifres e escamas. Com isso, temos uma nova interpreta√ß√£o dessas criaturas, refor√ßando ainda mais a vis√£o dos mesmos como animais, e n√£o monstros. Um exemplo que ilustra bem o caso √© o dos bracinhos dos abelissaur√≠deos.

Um Majungasaurus agita seus bracinhos num claro sinal de comunicação. Já viu um abelissaurídeo fazendo isso em algum lugar?

Se existem evid√™ncias de que os diminutos bra√ßos dos abelissaur√≠deos possuem uma articula√ß√£o que permite a rota√ß√£o do membro em v√°rios √Ęngulos e, ainda por cima, cicatrizes musculares que indicam uma alta possibilidade de movimentos, por que n√£o imagin√°-los como √≥rg√£os de comunica√ß√£o? E, seguindo essa l√≥gica, porque n√£o reconstru√≠-los com cores chamativas? Esse √© o esp√≠rito de All Yesterdays, que foi muito bem encarnado em Prehistoric Planet

O jeito Carnotaurus de dizer “Oi gata, t√° afim de ver uma Netflix?”. Cena do epis√≥dio 5.

Ali√°s, qualquer semelhan√ßa entre essas obras est√° longe de ser coincid√™ncia: o j√° citado paleont√≥logo Darren Naish √© o principal consultor cient√≠fico da s√©rie, e John Conway e outros paleont√≥logos/paleoartistas fortemente ligados ao “movimento” tamb√©m deram assist√™ncia em sua cria√ß√£o.

Confia.

E √© exatamente por isso, por conta dessa pegada “especulativa mas baseada no maior n√ļmero poss√≠vel de trabalhos cient√≠ficos”, que Prehistoric Planet est√° sendo considerada a produ√ß√£o mais fidedigna sobre a vida no Mesozoico (e essa constata√ß√£o n√£o √© apenas minha, mas a de muitos paleont√≥logos de respeito). Nada de dinossauros se matando como kaijus sa√≠dos do quinto dos infernos, mas sim animais bem adaptados ao seu ambiente.

Inclua no balaio da especula√ß√£o mosassauros utilizando “esta√ß√Ķes de limpeza” em recifes de corais, Dreadnoughtus disputando direitos reprodutivos com sacos infl√°veis a la fragata, Quetzalcoatlus fazendo voos intercontinentais, um “Troodon” ateando fogo na floresta para tirar suas presas de seus esconderijos, Triceratops buscando minerais dentro de cavernas, e por a√≠ vai.

Outro momento All Yesterdays: elasmossaur√≠deos fazendo display com o pesco√ßo fora d’√°gua, presente tanto na s√©rie como no livro. Cena do epis√≥dio 1.

Nenhum comportamento exibido na s√©rie “veio do nada”: com uma equipe de consultores t√£o grande e experiente, tais suposi√ß√Ķes foram baseadas ou em evid√™ncias f√≥sseis ou por “phylogenetic bracketing“, um maneira de inferir tra√ßos em organismos a partir de sua posi√ß√£o num cladograma. Um assunto muito interessante que renderia horas e horas de discuss√£o e, no m√≠nimo, um novo post sobre.

Um exemplo resumido de phylogenetic bracketing: é de se assumir que cuidado parental seja uma condição ancestral em dinossauros, uma vez que tanto as aves (dinossauros modernos) quanto os crocodilos (parentes vivos mais próximos) possuem esse traço. Cena do episódio 4.

Pra cimentar esse jeit√£o “t√£o real que parece at√© de verdade”, temos o estilo documental. Cinegrafistas gravaram as tomadas de paisagens nos quatro cantos do planeta, para ent√£o inserirem os dinosauros de CGI nelas (e que CGI, senhoras e senhores… os efeitos s√£o, no m√≠nimo, ABSURDOS). Esse trabalho de c√Ęmera (que, inclusive, foi utilizado 23 anos atr√°s em Caminhando com Dinossauros) resultou numa abordagem muito mais realista, sem os maneirismos permitidos e artificiais de produ√ß√Ķes 100% animadas (como o caso de Planet Dinosaur).

Dinossauros de CGI em meio a cavalinhas de CGI fugindo de pterossauros de CGI. Ao fundo, nuvens de CGI. Planet Dinosaur pode parecer ser tudo, menos realista.

E, por fim, temos o estilo narrativo. Cada epis√≥dio √© focado num ecossistema, com vinhetas que mostram como bicho X lida com a vida no ambiente Y: no fim das contas, um epis√≥dio se resume a sequ√™ncias dram√°ticas sem muita conex√£o umas com as outras. Essa pegada tornou-se meio que um padr√£o nas produ√ß√Ķes recentes, como Planeta Terra II e Nosso Planeta, para citar apenas dois exemplos.

E √© exatamente aqui que encontro o calcanhar de Aquiles de Prehistoric Planet (e devo ressaltar que essa √© apenas a minha opini√£o). Ao assistir a s√©rie, notei que n√£o existem praticamente nenhuma explica√ß√£o de como as especula√ß√Ķes foram feitas: elas simplesmente est√£o l√°, assumidas como verdade absoluta. Isso √© uma falha grave num document√°rio cuja inten√ß√£o √© transmitir conhecimento. Para entender melhor qualquer comportamento exibido, voc√™ ou deve ter conhecimento pr√©vio sobre o assunto ou precisa pesquisar um bocado na internet.

Existe evid√™ncia f√≥ssil da l√≠ngua-pegajosa-armadilha-de-cupim do Mononychus? N√£o, embora a gente pode supor sua exist√™ncia por outros detalhes anat√īmicos. Sei disso por ter visto o document√°rio? N√£o. √Č porque dei um Google depois de assistir. Cena do epis√≥dio 2.

O jeit√£o polido que Prehistoric Planet emula das outras s√©ries de peso da BBC impede um maior teor cient√≠fico ou mesmo um jarg√£o mais pesado em cada epis√≥dio. Isso podia ter sido evitado se houvessem maiores explica√ß√Ķes ao longo da narra√ß√£o, ou no m√≠nimo um epis√≥dio especial apenas sobre a “ci√™ncia da s√©rie”. Ou ainda, imitando outros document√°rios modernos, colocando um “making of” de 10 minutos ap√≥s a exibi√ß√£o, para deixar claro como foi feita a reconstru√ß√£o. Infelizmente, o mais pr√≥ximo disso foram v√≠deos de 4-5 minutos, lan√ßados como b√īnus no servi√ßo de streaming e tamb√©m no canal da Apple TV+, explicando um √ļnico caso por epis√≥dio. Complicado.

Mesmo com essa ressalva (que considero bem relevante), estou com a maioria: Prehistoric Planet √© uma obra excepcional, digna de ser considerada uma das maiores, sen√£o a maior, produ√ß√£o do tipo j√° feita. O simples fato de trazer essas especula√ß√Ķes t√£o bem baseadas em evid√™ncias ao p√ļblico amplo atrav√©s de uma produ√ß√£o de alt√≠ssimo n√≠vel j√° √© louv√°vel e garante um destaque. Na verdade, eu gostei tanto que j√° estou me preparando para reassisti-la e trabalhar em an√°lises de cada epis√≥dio, porque tem pano pra gente discutir aqui!

Porque não é todo dia que somos brindados com Tarbosaurus tirando uma sonequinha <3 Cena do episódio 2.

Link para meu texto anterior: https://www.blogs.unicamp.br/colecionadores/2022/04/20/de-caminhando-com-dinossauros-ate-prehistoric-planet/

Prehistoric Planet est√° na Apple TV+: https://tv.apple.com/us/show/prehistoric-planet/umc.cmc.4lh4bmztauvkooqz400akxav

O conte√ļdo b√īnus da s√©rie pode ser visto aqui: https://www.youtube.com/watch?v=FIeCzBCLJww&list=PLx-VtE7KiW8zKg7VkRGBV5gguBncOPe-a

Você pode adquirir o ebook de All Yesterdays na amazon.com.br por R$ 20,00: https://www.amazon.com.br/All-Yesterdays-Speculative-Dinosaurs-Prehistoric-ebook/dp/B00A2VS55O/ref=sr_1_1?keywords=all+yesterdays&qid=1653761942&sprefix=all+yester%2Caps%2C227&sr=8-1&ufe=app_do%3Aamzn1.fos.4bb5663b-6f7d-4772-84fa-7c7f565ec65b