Entre as inúmeras mudanças ocasionadas pela pandemia da COVID-19, a situação do ensino talvez seja um dos assuntos mais urgentes a serem debatidos. O Ciência Pelos Olhos Delas adentrou tal problemática por meio de interessantes conversas com profissionais do ensino fundamental/médio e superior.

Hoje trazemos mais um diálogo, agora com a educadora Natália De Nadai, que atua na criação de conteúdo de uma ferramenta de aprendizagem remota, a Khan Academy Brasil. A Khan Academy é uma organização estadunidense sem fins lucrativos, mas hoje possui representações em diversos países – dentre eles o Brasil. O objetivo da organização é criar um conjunto de ferramentas online (incluindo exercícios práticos e aulas curtas em vídeo) para ajudar na educação de estudantes de forma gratuita.

A Natália foi uma das colaboradoras do Ciência pelos Olhos Delas no período de 2019/2020 e é uma honra para nós trazermos suas experiências e visões sobre o ensino remoto e o uso de novas tecnologias nesse momento. A seguir apresentamos o conteúdo na íntegra das respostas fornecidas por ela.

Conte-nos um pouco sobre a sua formação e sobre a sua experiência com educação/ensino?

Sou formada em Física, Matemática, Pedagogia e tenho especialização em Design Instrucional. Durante uns 10 anos dei aula de matemática em instituições de ensino privado, na maior parte desse tempo para alunos do Ensino Fundamental II. Atualmente trabalho com produção de conteúdos de matemática para a Khan Academy Brasil.

Essa faixa etária é muito ativa e muitas vezes perdem o foco com facilidade, ainda mais com 6 aulas de matemática em uma semana, então sempre achei interessante usar diferentes estratégias para trabalhar conteúdos.

Como você conheceu a Khan Academy?

Foi nesse período, em que dava aulas, que um colega professor me apresentou a Khan e logo me encantei, pois era possível, na verdade ainda é, criar turmas e fazer recomendações específicas para cada um de seus alunos.

A Khan me ajudou muito nessa época, pois eu tinha turma de reforço, e normalmente todos os alunos ficavam juntos (de 6º ao 9º anos) e isso impossibilitava que eu fizesse uma aula tradicional na lousa, mas com a Khan cada um dos meus alunos recebia a atividade que eles precisavam e eu podia fazer um acompanhamento mais individual.

Como a pandemia da COVID-19 afetou as atividades da instituição de ensino em que você trabalha?

Com a pandemia, o nosso número de usuários aumentou e, além disso, criamos cursos preparatórios de matemática (Prepare-se) para os alunos de 3º ao EM. A ideia desses cursos é trabalhar as habilidades da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) que são consideradas habilidades essenciais, permitindo que o aluno estude o conteúdo do ano letivo de 2020 em que ele estava, juntamente com o conteúdo que ele aprenderá em 2021.

Como a Khan Academy pode ajudar no ensino remoto?

Atualmente temos conteúdos do Ensino Fundamental I e II alinhados à BNCC de matemática, ciências e português; essas atividades podem ajudar alunos e professores de diversas formas, desde a revisar conteúdos de anos anteriores até o uso completo de lições para o ensino a distância.

O fato do professor criar suas turmas e poder fazer recomendações individuais ou para a turma e acompanhar os relatórios de progresso dos alunos (por exemplo, ver quais itens de um exercício o aluno errou) é o que faz com que a Khan Academy seja tão completa.

Um fato super importante é que todo o conteúdo disponível na Khan é gratuito, a única coisa necessária é que o professor e os alunos tenham uma conta de e-mail e criem uma conta na plataforma.

Como os professores podem utilizar as ferramentas da Khan Academy para avaliar seus alunos?

Pelo relatório de progresso, o professor tem acesso a todas as tentativas e todos os erros e acertos dos seus alunos para cada exercício que ele recomendou, logo ele pode utilizar isso como forma de avaliação.

Como você acha que essa experiência coletiva de ensino remoto/híbrido vivida durante a pandemia vai impactar o futuro da educação no pós-pandemia?

Atualmente minha maior preocupação é que nem todos têm acesso a internet; muitas crianças e adolescentes não estudaram em 2020 e isso é muito complexo, pois gera uma evasão nas escolas, então um exercício que deverá ser feito é o de manter esses alunos nas escolas. Lógico que o modelo de 2020 provavelmente trará outras dificuldades para alunos e professores, e acredito que esse déficit todo será sentido nos próximos anos.

Agradecemos novamente a Natália por disponibilizar seu tempo para compartilhar um pouco mais sobre seu trabalho na Khan Academy e suas percepções sobre o ensino remoto na atual conjuntura.

Este foi escrito originalmente no blog Ciência Pelos Olhos Delas

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Os argumentos expressos nos posts deste especial são dos pesquisadores. Dessa forma, os textos foram produzidos a partir de campos de pesquisa científica e atuação profissional dos pesquisadores e foi revisado por pares da mesma área técnica-científica da Unicamp. Assim, não, necessariamente, representam a visão da Unicamp e essas opiniões não substituem conselhos médicos.


editorial


Marina Barreto Felisbino

Bióloga formada pela Unicamp em 2010 e doutora na área de Biologia Celular e Estrutural em 2016. Atualmente trabalho na Universidade do Colorado em Denver-USA, onde desenvolvo pesquisa de pós-doutorado. Apaixonada pela ciência, assim como pelo alcance das mulheres à equidade. Com o desejo que todos vejam a ciência pelos olhos delas.

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