Algumas semanas atrás, interrogaram-me sobre os números de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, que estavam muito bons e parecidos com Hong Kong (em quantidade de casos confirmados e óbitos).

Tal questionamento foi feito no sentido das possibilidades de abertura do comércio com segurança e sem exposição das pessoas (com protocolos específicos, por exemplo), uma vez que os contágios estariam contidos. Esta ideia se dava ao comparar os dados das duas cidades naquele dia (26 de maio de 2020). Fui olhar com mais cuidado os dados. Além disso, conversar com a pessoa que me perguntou, para ver como ela entendia os números que me pedia para comparar…

Uma das questões que vem acompanhando grande parte das dúvidas sobre a COVID-19, os contágios, o isolamento social é a dificuldade em compreender gráficos exponenciais, relacionar projeções populacionais, a partir de ações pontuais (como os isolamentos em situações específicas e de lugares específicos), entender as curvas que tanto falam (tu podes ler aqui e aqui sobre isso). Também têm sido difícil entender mudanças de posicionamentos a partir de dados científicos. Assim, o que é tão propagado como fonte de segurança e tomada de decisões acertadas, parece mudar ao longo do tempo (tu podes acessar este texto e este aqui sobre o tema).

Meu intuito neste post não é acrescentar muitos dados difíceis de serem compreendidos. Pelo contrário! Quero tentar mostrar como olhar os dados de forma apressada pode nos passar uma falsa impressão de que é possível comparar números de modo isolado. Assim, podemos evitar cair em análises rápidas e descuidadas. A grande questão é que uma pergunta aparentemente simples me levou a muitos caminhos para organizar a resposta! Com isto eu, bióloga de profissão, fui convidando outros colegas especialistas para revisarem e me ajudarem na elaboração do texto/resposta. O resultado disso é: “senta que o texto é longo”! (E aguarda que este é só o primeiro de uma série!!!).

Vamos refazer a pergunta: Olha Porto Alegre e Hong Kong, os números estão parecidos, qual o motivo das ações de flexibilização serem diferentes? (pergunta feita dia 26 de maio de 2020).

Primeiros cuidados

É fundamental compreendermos que a comparação entre Porto Alegre e Hong Kong não deveria ser feita “pela mesma data do calendário”. Por quê? Pois, o tempo em que a doença iniciou e se disseminou nas duas cidades é diferente. Se comparamos a mesma data, pegamos uma função exponencial em Hong Kong com 30 dias de diferença a mais do que Porto Alegre.

Levando-se isto em consideração, o melhor a se fazer, nesse caso, seria uma comparação tomando por data inicial de ocorrência em uma cidade e comparando com o mesmo tempo decorrido na outra cidade.

Além desta primeira precaução, ao observarmos os dados, existem outros pontos, que eu vou apresentar a vocês agora e levantar outras questões acerca dos números que achei. Seria fundamental também vermos como cada cidade encarou as medidas de isolamento. Pois tudo isto interfere na contagem dos casos. Isto é, analisar antes e depois das exposições, transmissão comunitária, quantidade de leitos com respiradores,  entre outros fatores. Só este parágrafo é pano para manga – ou texto para vários posts…

Vamos aos dados?

Resolvi encarar o desafio e olhar os dados das duas cidades no dia que me perguntaram, tentando mostrar como também não é simples compará-las, mesmo ignorando o que já apontei no item anterior.

No dia 26 de Maio de 2020, Porto Alegre tinha um total de 32 mortes em 1049 casos confirmados da doença. Hong Kong, no mesmo dia tinha, um total de 4 mortes em 1.066 casos confirmados.

A suposição inicial, na pergunta que foi feita para mim, era: se os números são próximos, qual o motivo de Hong Kong poder abrir o isolamento social e em Porto Alegre afirmarem que a flexibilização era precoce?

Bom, ao ver os cenários aparentemente, numa primeira vista, os números eram próximos mesmo. Porém, será que estes números são suficientes para afirmar que as cidades estão parecidas em relação à COVID-19?

Eu resolvi pesquisar um pouco mais… Vale lembrar que no dia 26 de maio Hong Kong tinha 1066 casos confirmados, desde o primeiro registro, que ocorreu 125 dias antes (23 de Janeiro). Já Porto Alegre estava com 1049 casos confirmados em 81 dias de controle e registro.

Assim, as perguntas que achei pertinente fazer, num primeiro momento foi: quantos habitantes têm estas duas cidades? Qual a densidade populacional?
– Porto Alegre tem cerca de 1.483.770 habitantes e uma densidade populacional de 2.837,52 habitantes por km2 (segundo dados da Prefeitura de Porto Alegre).

– Hong Kong tem cerca de 7.493.240 habitantes e uma densidade populacional de 6.510,23 habitantes por km2 (Segundo o Index Mundi).

Estes dois dados são interessantes pois não apenas indicam que Porto Alegre têm menos gente (número de habitantes), mas têm uma menor quantidade de pessoas “no mesmo espaço” (número de pessoas “em um quilômetro quadrado”). Ainda têm dúvida sobre estes conceitos? De repente uma imagem pode nos ajudar com isto…

Densidade Populacional de Porto Alegre, cada rostinho feliz representa 100 pessoas. O espaço inteiro representa 1km2
Densidade Populacional de Hong Kong, cada rostinho feliz representa 100 pessoas. O quadrado inteiro representa 1km2.

Perceba que essa informação me pareceu importante de ser trabalhada para explicar essa questão, a partir da ideia de que: se o SARS-CoV-2 é transmitido através do contato com pessoas contaminadas (ou pelo contato com objetos contaminados por estas pessoas), quanto “mais pessoas” em um mesmo espaço, mais facilmente se daria o contato, caso não houvesse nenhuma medida eficaz de controle, correto?

Assim, o motivo de eu buscar estes dados de quantidade de pessoas e densidade populacional se deu pois o número absoluto de casos confirmados e óbitos não diz muito sobre o que está acontecendo em determinado lugar. Precisamos comparar números que sejam “compatíveis” entre si… Neste caso, eu busquei não apenas olhar os casos confirmados e óbitos, mas analisar também:

  1. os casos confirmados e óbitos em relação à quantidade de pessoas existente em cada cidade (eu achei melhor analisar quantos casos para cada 100.000 habitantes para entender melhor os números) e
  2. os casos confirmados e óbitos em um mesmo espaço (1 quilômetro quadrado);

    Veja o quadro comparativo, para o dia 26 de maio:

Estes dados, olhando para o dia 26 de maio apenas (sem analisar os dados e sua modificação ao longo do tempo), já demonstram que não são nem um pouco iguais. Vamos tentar entender?

A primeira ideia que tive foi ver “quantas pessoas contaminadas existem a cada 100 mil habitantes?”. Com isto, eu conseguiria comparar números compatíveis entre si, pois faria uma proporção para quantidades equivalentes na população. Hong Kong têm uma população muito maior que Porto Alegre – para ser exata 5,05 vezes maior. Porto Alegre, no dia 26 de maio, estava com 71 casos confirmados a cada 100 mil habitantes, enquanto que Hong Kong estava com 14 casos confirmados a cada 100 mil habitantes, para ser exata, Porto Alegre têm 5,07 vezes mais pessoas contaminadas do que Hong Kong, a cada 100 mil pessoas. Esta relação já nos diz que não. As cidades não apresentavam dados semelhantes naquele momento.

Outra pergunta que eu fiz ao olhar os números era a densidade populacional… Hong Kong tem uma quantidade de pessoas vivendo dentro de um mesmo espaço muito maior do que Porto Alegre, já mostrei isso com as carinhas felizes lá em cima. O fato de ter um número próximo de casos confirmados nos indica que há muito menos pessoas infectadas dentro de um mesmo território, comparativamente. A densidade de pessoas contaminadas confirmadas em Porto Alegre (2,01 pessoas) é mais que o dobro da densidade de pessoas contaminadas em Hong Kong (0,93 pessoas).

Outro dado para pensarmos: temos um número próximo de casos confirmados, no entanto, Hong Kong têm 5 vezes a quantidade de pessoas. Isto é: comparativamente, a cidade de Hong Kong tem muito menos pessoas contaminadas do que Porto Alegre em um total de habitantes.

Sobre a relação entre os óbitos, existem muitos fatores que podem influenciar estes dados e, embora Porto Alegre tenha 8 vezes mais óbitos do que Hong Kong, seriam necessárias informações mais minuciosas para se compreender completamente os óbitos e poder compará-los… Uma das questões poderia ser mais vinculada à quantidade de testes e à subnotificação no Brasil, o que gera uma ideia de maior letalidade aqui. Mas sobre os testes, falaremos em outro post… Aguarde 🙂

Voltarei a ressaltar que o SARS-CoV-2, o novo Coronavírus, se transmite pelo contato entre pessoas, em espaços públicos e comerciais, de trabalho e, também em moradias com mais de uma pessoa, correto? É de se esperar, portanto, que uma cidade em que a densidade populacional é maior teria uma quantidade de pessoas infectadas maior também, pela própria forma como esta doença se espalha. Aqui temos um dado muito importante: Hong Kong, mesmo com uma densidade populacional 2,3 vezes maior que Porto Alegre, tem uma densidade menor de casos confirmados (menos da metade de casos, por quilômetro quadrado!!!).

Em suma…

Por hoje resolvi apresentar este primeiro exercício respondendo à questão, de tentar observar os dados e realizar perguntas para eles, buscando resposta nos sites oficiais, reportagens jornalísticas e artigos científicos.

Esta pergunta se mostrou muito produtiva (para mim, ao menos) para pensar como existem dados que, sim, podem nos confundir e que existem diferentes maneiras de interpretarmos as informações. Além disso, compreender ciência não basta para sabermos explicar algo que é, numa primeira vista, uma pergunta simples. Com isso, já adianto que vem mais respostas por aí e que usarei estes dados para exemplificar e explicar como podemos analisar os números que nos vem sendo apresentados. Como podemos entender melhor os gráficos que têm sido mostrados, as relações entre estes gráficos e números, etc.

Para isso, já adianto que chamei um conjuntinho de pessoas incríveis para me ajudar (inclusive intimei para escrever hehehe)! E esta primeira parte da resposta eu já tive colegas que me deram um grande apoio, lendo, comentando, dando pitaco. Vou agradecer formalmente ao Marco Henrique, do blog zero (que além da revisão e das mil ideias, fez as imagens e corrigiu todos os cálculos! hehehe), o Samir Elian, do blog Meio de Cultura A Erica Mariosa, do blog Mindflow, e o Roberto Takata, do blog Gene Reporter.

Para saber mais

AAA INOVAÇÃO (2020) Linha do Tempo do Coronavírus no Mundo [31/12/19 até 10/06/2020], Acesso em 09/06/2020.

CRONOLOGIA DA PANDEMIA COVID-19 (2020) Wikipedia, Acesso em 09/06/2020.

DIHL, Bibiana (2020) Porto Alegre é a primeira cidade do país a ter decreto de emergência reconhecido pelo governo federal Gaúcha ZH Porto Alegre, 02/04/2020. Acesso em 09/06/2020.

GONZATO, Marcelo (2020) Porto Alegre tem a quarta menor incidência de coronavírus entre as capitais. Gaúcha ZH Saúde.

HONG KONG NÃO TÊM (2020) Hong Kong não tem novos casos de coronavírus pela 1ª vez em quase 2 meses Valor Econômico, Acesso em 09/06/2020.

LIMA, Lioman. (2020) Coronavírus: 5 estratégias de países que estão conseguindo conter o contágio BBC Brasil, 18/03/2020, Acesso em 09/06/2020

MINISTÉRIO DA SAÚDE (2020) Coronavírus Brasil Acesso em 09/06/2020.

MOTA, Renato (2020) Países asiáticos voltam a ver seus números da Covid-19 crescerem Olhar Digital, 07/04/2020, Acesso em 09/06/2020.

PORTO ALEGRE Secretaria de Saúde (2020a) Boletim COVID-19 nº 65/2020 Acesso em 09/06/2020.

PORTO ALEGRE. Secretaria de Saúde (2020b) Boletim COVID-19 nº 78/2020, Acesso em 09/06/2020.

PORTO ALEGRE (2020c) Prefeitura prorroga decreto de isolamento social e libera mais alguns setores Acesso em 09/06/2020.

ROCHA, Camilo (2020) Os estudos que mostram o impacto positivo do isolamento social Nexo Jornal, 21 de abr de 2020 Acesso em 09/06/2020.

SORDI, Jaqueline (2020) Lupa na Ciência: Estudos mostram eficácia do isolamento social contra Covid-19 e projetam cenários Agência Lupa, 20 de abril de 2020 Acesso em 09/06/2020.

YUGE, Claudio (2002) Países que já haviam controlado a COVID-19 confirmam a 2ª onda de infecções Canal Tech, 06 de Abril de 2020 Acesso em 09/06/2020.

Worldometers (2020) Coronavírus Acesso em 09/06/2020.

ZUO, Mandy; CHENG, Lilian; YAN, Alice e YAU, Cannix. (2019) Hong Kong takes emergency measures as mystery ‘pneumonia’ infects dozens in China’s Wuhan city. South China Moorning Post,  31 dezembro de 2019. Acesso em 09/06/2020.

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Os argumentos expressos nos posts deste especial são dos pesquisadores, produzidos a partir de seus campos de pesquisa científica e atuação profissional e foi revisado por pares da mesma área técnica-científica da Unicamp. Não, necessariamente, representam a visão da Unicamp. Essas opiniões não substituem conselhos médicos.


editorial


Ana Arnt

Bióloga, Mestre e Doutora em Educação. Professora do Departamento de Genética, Evolução, Microbiologia e Imunologia, do Instituto de Biologia (DGEMI/IB) da UNICAMP e do Programa de Pós-Graduação em Ensino de Ciências e Matemática (PECIM). Pesquisa e da aula sobre História, Filosofia e Educação em Ciências, e é uma voraz interessada em cultura, poesia, fotografia, música, ficção científica e... ciência! ;-)

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