Jurassic Park: a ficção que está inspirando a realidade

A molécula de DNA é relativamente estável, mas não é resistente há dezenas de milhões de anos. Até onde se sabe, é impossível encontrar DNA de dinossauros mesozoicos preservado em ossos fossilizados ou no estômago de mosquitos aprisionados em âmbar. Porém, um grupo de pesquisadores dos Estados Unidos, inspirados pela ficção de “Jurassic Park”, afirmam: ainda assim é possível realizar a façanha de se recriar dinossauros.

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Jack Horner

Inspirado por “Jurassic Park” e movido pelo desejo de ver um dinossauro vivo, com dentes, desde criança, o paleontólogo John Horner tem dedicado grande parte de sua carreira nas últimas décadas a tornar o seu sonho realidade. Horner e sua equipe de pesquisadores têm trabalhado duro no campo da Genética e Biologia do Desenvolvimento. A ideia deles é produzir um dinossauro, não por meio de DNA preservado em âmbar ou fósseis, mas por meio de manipulação genética do DNA de aves atuais. Especificamente, galinhas.

Sinosauropteryx , um dino com penas
Sinosauropteryx , um dino com penas

Não é mais uma novidade que as aves são descendentes dos dinossauros. Paleontólogos vêm estudando as semelhanças desses organismos há anos e cada vez mais aprendemos o quão parecidos os dinossauros terópodes eram das aves. Inclusive com o corpo coberto de penas.

De acordo com Jack Horner, estudar o DNA das aves pode não só nos ajudar a entender muitos aspectos evolutivos dos dinossauros, como também guardar o segredo para recriá-los. Bastaria ativar os genes corretos no momento certo do desenvolvimento do animal.

Embrião de galinha
Embrião de galinha

Muitos estudos têm avançado nessa direção. Recentemente foi publicado um artigo sobre a evolução do bico nas aves, em que cientistas modificaram proteínas produzidas durante o desenvolvimento embrionário de uma galinha e conseguiram criar um embrião com “focinho” reptiliano. O animal não tinha dentes, mas apresentava o rostro arredondado como o de um jacaré. Uma implicação da pesquisa é que mudanças simples podem ter causado grandes mudanças anatômicas nos primeiros dino-aves. A intenção desses pesquisadores não era incubar o animal e nem criar um dinossauro, mas eles definitivamente deram um grande passo nessa direção, como destacou o próprio John Horner.

Embrião de galinha, embrião experimental e embrião de jacaré.
Embrião de galinha, embrião experimental e embrião de jacaré.
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Clique para ampliar e entender a evolução do “dígito opositor” nas aves.

Outro estudo recente abordou a evolução dos dígitos nas aves, em especial o dígito opositor que as auxilia a empoleirarem (o hallux). Alguns pesquisadores chilenos conseguiram reverter esse caráter em embriões e puderam compreender como a capacidade de “agarrar com os pés” desenvolveu-se nos dinossauros (entenda mais AQUI).

De acordo com Horner, os outros passos em direção a se criar um dinossauro seriam conseguir desenvolver dentes, mãos com garras e uma cauda longa nos embriões. Sua equipe já conseguiu recriar dentes, mas infelizmente as aves perderam o gene responsável pela produção do esmalte dentário. Nesse caso, de acordo com o pesquisador, seria necessário inserir o gene artificialmente nesses organismos por um processo conhecido como transgenia (inserir genes de outros organismos no genoma da galinha).

Recriar as mãos seria o mais “fácil”, ainda de acordo com o pesquisador, já que todas as peças estão presentes nas aves, bastando descobrir como reorganizá-las. O que será realmente difícil, será a cauda. As aves desenvolveram uma estrutura bastante complexa, com vértebras fundidas, chamada pigostilo. Será necessário primeiramente descobrir como o pigostilo evoluiu, para então, revertê-lo.

Depois que todas essas modificações forem alcançadas, um último grande passo ainda será necessário: descobrir uma forma de deixar os embriões desenvolverem-se. O resultado disso tudo seria algo semelhante a um pequeno dinossauro terópode, que Horner apelidou de “Chickensaurus”. (Observação: por esse método seria difícil, para não dizer realmente impossível, criar um dinossauro saurópode ou um ornitísquio).

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Esqueleto de galinha e esqueleto fictício de “Chickensaurus”

Críticos do trabalho de Horner apontam que, assim como em ‘Jurassic Park’, criaturas geradas dessa maneira não seriam dinossauros “de verdade”, mas sim “monstros” geneticamente modificados. Além disso ressaltam: Qual seria a razão de se recriar “dinossauros”? Para entretenimento? Aonde eles se encaixariam: como animais ou produtos? Quem seria responsável por eles? Aonde seriam mantidos? Teriam eles direitos? Que problemas eles trariam para os organismos viventes e ecossistemas naturais caso fugissem de controle?

Essas são muitas questões também abordadas por “Jurassic Park”, a ficção criada por Michael Crichton no início da década de 1990. O personagem “Ian Malcom” é particularmente inquisitivo em relação a isso e tanto no livro quanto na série de filmes a “teoria do caos” é bastante enfatizada por ele.


Horner diz que “Chickensaurus” não seria criado apenas para ser um “pet”, mas que o que aprenderíamos com ele poderia promover grandes avanços na indústria médica.

A vida inspira a arte, mas a arte também pode inspirar a vida. Qual a sua opinião sobre tudo isso?

Assista a palestra de John Horner, aonde ele fala sobre a criação de “Chickensaurus”:


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Sobre o(a) autor(a):

Aline é bióloga, especialista em paleontologia de vertebrados e criadora da rede de divulgação científica "Colecionadores de Ossos". Atualmente é professora adjunta de Paleontologia do Departamento de Geologia da Universidade Federal do Rio Grande (UFRN) do Norte em Natal, RN.

2 comentários em “Jurassic Park: a ficção que está inspirando a realidade”

  1. Meu nome é Gabriel, sou estudante de Ciências Biológicas e aspiro à atuação em Paleontologia. Fiquei interessadíssimo pela matéria e pelo trabalho de Jack Horner. Gostaria de saber se alguém consegue conceber de que forma, especificamente, essa iniciativa poderia contribuir para com o desenvolvimento científico tecnológico atual. Compreendo que isso é possível, como explica Horner, mas não consigo visualizar a forma como esse acréscimo se daria à Ciência. Grato.

  2. Oi Gabriel, o que Horner argumenta é que, se a capacidade de “produzir algumas coisas” (como dentes ou focinhos em aves) continua latente em um organismo, mesmo depois de mais de 70 milhões de anos, isso pode nos indicar que a mesma capacidade está presente no nosso próprio DNA. Então, poderíamos usar isso em benefício próprio, ajudando a reverter “caracteres negativos”, que favoreçam a expressão de alguma doença, síndrome ou distúrbio, por exemplo.

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