Texto de Gian Guadagnin, Gildo Girotto Júnior e Ana Arnt

As vacinas e você

Não é porque é grátis que devemos aceitar qualquer coisa, certo? Nós do Blogs de Ciência da Unicamp, como sempre nos posicionamos pelas evidências científicas afirmamos isso. Então, é necessário nos certificarmos que estamos diante de um produto de qualidade – nesse caso, as vacinas!

Pois bem, com os anúncios recentes de empresas produtoras de uma possível vacina contra o novo coronavírus, algumas informações e desinformações têm surgindo. Temos ouvido falar bastante da Pfizer e da SINOVAC (produtora da vacina chinesa).

Nós entendemos que há muita gente preocupada! Mas ao invés de criticar, talvez seja melhor entender com calma como de fato funciona essa forma de prevenção. Além disso, quais são os protocolos para a produção de vacinas e por que precisamos sair do campo de estigmas e estereótipos sobre seu desenvolvimento.

No post de hoje nós continuamos com a série sobre vacinas, vamos trazer dados e discussões que nos auxiliem a entender um pouco mais sobre o assunto e evitando assim doses de desinformação. Vamos falar agora sobre a história, mas também de saúde coletiva e dos benefícios sociais da vacinação?

De onde e quando

Nossa ciência, ou nosso histórico de ciência é, por dominação europeia, muito ocidentalizado. Daí decorre, por exemplo, o desconhecimento sobre a medicina oriental e a sua desvalorização. Os primeiros indícios de uma utilização corporal de vírus atenuados, base de boa parte das vacinas, datam do combate à varíola. Mais precisamente na região da atual China, no século 10, ou seja, há mil anos! 

A aplicação não era como fazemos hoje. Na época, as cascas de feridas da infecção eram trituradas e o pó produzido (contendo o vírus morto) era aspirado pelas pessoas. Este processo espalhava partes do vírus morto pelo corpo ativando o sistema imunológico. A forma de aplicação “moderna” só surgiria em 1798 com o cientista inglês Edward Jenner. Ele averiguou os rumores de que trabalhadores do campo não pegavam a varíola humana. Isto aconteceria por já terem pego a varíola bovina (que é menos agressiva ao corpo humano). A partir disto, injetou ambos os vírus em um garoto de oito anos e constatou que a informação apresentava alguma consistência. 

A segunda geração de vacinas começou em 1881 com o cientista francês Louis Pasteur. Neste caso, o desenvolvimento de medicação voltou-se para o combate à cólera aviária e ao carbúnculo. Conhecendo os estudos de Jenner, Pasteur cunhou o termo “vacina” em homenagem ao inglês. Isto é, derivando o nome da varíola bovina, que em latim é chamada de Variolae Vaccinae.

Vacinação em massa

Com o amplo desenvolvimento da medicina, da biologia e da química nos séculos 19 e 20, as vacinas passaram a ser produzidas em massa. E desde então são fundamentais para combater inúmeras doenças no mundo todo. A varíola, por exemplo, matou mais de 300 milhões de pessoas e foi declarada erradicada no mundo em 1980. 

Mas calma, dizer que a doença foi erradicada não significa que ela não existe mais. Na verdade, a doença está controlada pela vacinação e pelo comprometimento global. Assim como, a adoção de protocolos e medidas que garantem um dia a dia saudável e seguro agora e futuramente. No entanto, se deixarmos de lado essa imunização novos surtos podem retornar, afinal o vírus não desapareceu do mundo, ele apenas não é capaz de infectar as pessoas que estão protegidas.

Mas, e no Brasil?

No Brasil, as estratégias de vacinação e controle de doenças infecto contagiosas são feitas pelo Programa Nacional de Imunização (PNI) criado em 1973. No ano de 1977 foi criado o primeiro calendário de vacinações, a partir do PNI. 

A vacinação de massa, no entanto, já tem mais do que 100 anos no Brasil! Foi feita pelo Oswaldo Cruz com o objetivo de controlar, exatamente, a varíola que comentamos anteriormente. No Brasil, o último registro de varíola foi em 1971.

Isto não quer dizer, no entanto, que não precisamos mais nos atentar a estas doenças consideradas erradicadas. Dessa forma, a vacinação continua sendo fundamental e, mesmo não tendo casos ativos, o vírus pode estar circulando em níveis muito basais. Ou seja, sem uma cobertura vacinal da população, as doenças podem sim voltar!

A vacinação não é um ato individual!

Ela é uma medida de saúde pública e coletiva. Isto é, uma estratégia que diminui quantidade de mortes, controla doenças altamente contagiosas ANTES que elas aumentem a quantidade de casos na população. Isto se dá, também e especialmente em populações vulneráveis e diminuem o custo da doença para a saúde pública também. Uma vez que as pessoas não adoecem, não existe o custo hospitalar e médicos. Além de perdas em tempo de trabalho e/ou escola em decorrência do adoecimento das pessoas. Pode parecer “sem noção” esta ideia, mas diminuir índices de doenças também diminui custos financeiros. Por exemplo, as pessoas faltam menos no trabalho e nas escolas.

Assim, a vacina pode ser vista, sim, como uma escolha individual. Todavia, ela é uma medida fundamental para controlarmos populacionalmente doenças que não tem cura e que deixam sequelas muito graves em nossa população! A vacina é um ato individual e, ao mesmo tempo, coletivo. Visto que, historicamente, diminuiu incidências de doenças gravíssimas no mundo inteiro (ressaltamos novamente varíola, sarampo, poliomelite dentre elas!).

Por fim

Uma política pública de vacinação, quanto mais abrangente e efetiva for, mais ela diminui a desigualdade social também! Parece estranho, não? Mas a situação é: coletivamente é mais barato para todos. Mais do que isto, para aquelas populações sem condições financeiras, existe a segurança de não adoecerem em função de estarem vacinadas. E isto sem custos adicionais para estas pessoas – e para o país… 

No próximo texto, vamos discutir o que é vacina e quais os tipos desenvolvidos. Já temos um outros textos aqui no Blogs: que falam sobre as fases da vacina em testes; sobre a história da vacina no Brasil e no mundo; incluindo a famosa Revolta da Vacina!

Não deixe de conferir!

Para saber mais

Homma, A, Martins, RM; Leal, MLF, Freire, MS, Couto, AR (2011) Atualização em vacinas, imunizações e inovação tecnológica, Ciênc saúde coletiva vol16 no2.

Brasil, Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), Resolução RDC nº 4, de 10 de fevereiro de 2009, Brasília: Anvisa; 2009

Domingues, CMAS, & Teixeira, AMS (2013) Coberturas vacinais e doenças imunopreveníveis no Brasil no período 1982-2012: avanços e desafios do Programa Nacional de Imunizações, Epidemiologia e Serviços de Saúde, 22(1), 9-27.

Pinto, EF, Matta, NE e Cruz, AM (2011) Vacinas: progressos e novos desafios para o controle de doenças imunopreveníveis, Acta Biol Colômbia.

Fiocruz: Vacinas: as origens, a importância e os novos debates sobre seu uso.

Yanjun Zhang, Gang Zeng, Hongxing Pan, Prof Changgui Li, Yaling Hu, Kai Chu, Safety, tolerability, and immunogenicity of an inactivated SARS-CoV-2 vaccine in healthy adults aged 18–59 years: a randomised, double-blind, placebo-controlled, phase 1/2 clinical trial. The Lancet Infectuous Diseases.

Textos do Blogs sobre Vacinas:

E aqueles resultados das Vacinas? (Parte 1)

Obrigatoriedade da Vacina: discurso contrário vem do século XIX

Vacinas: de onde vêm e para onde vão

Sobre Vacinas, método científico e transparência na ciência (parte 1)

Vacina, Estado e Liberdade: a manipulação do debate – Parte 1

Os Autores

Ana Arnt é Bióloga, Mestre e Doutora em Educação. Professora do Departamento de Genética, Evolução, Microbiologia e Imunologia, do Instituto de Biologia (DGEMI/IB) da UNICAMP e do Programa de Pós-Graduação em Ensino de Ciências e Matemática (PECIM). Pesquisa e da aula sobre História, Filosofia e Educação em Ciências, e é uma voraz interessada em cultura, poesia, fotografia, música, ficção científica e… ciência!

Gildo Girotto Junior é Licenciado em Química (UNESP), Doutor em Ensino de Química (USP) e atualmente é professor e pesquisador no Instituto de Química da Unicamp

Gian Carlo Guadagnin é estudante de graduação em Licenciatura em História (UNICAMP)

Este texto é original e escrito com exclusividade para o Especial Covid-19

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Os argumentos expressos nos posts deste especial são dos pesquisadores. Dessa forma, os textos foram produzidos a partir de campos de pesquisa científica e atuação profissional dos pesquisadores e foi revisado por pares da mesma área técnica-científica da Unicamp. Assim, não, necessariamente, representam a visão da Unicamp e essas opiniões não substituem conselhos médicos.


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