No dia 26 de maio me perguntaram sobre a relação entre os casos confirmados e quantidade de óbitos de duas cidades, Porto Alegre e Hong Kong. A ideia geral da pergunta era: estes números são semelhantes?

Ao tentar responder a pessoa ao que parecia uma pergunta simples, me vi envolta a inúmeras questões importantes sobre todo o fenômeno da COVID-19 e o quanto, também, temos apresentado dados sem que necessariamente as pessoas saibam não apenas receber a informação, mas questioná-las e compreendê-las de maneira menos apressada. 

A pergunta gerou uma pesquisa que foi se estendendo, se estendendo e cá estamos, no segundo texto da série!

O primeiro texto pode ser lido aqui. Em resumo, no dia 26 de maio, Porto Alegre tinha 1049 casos confirmados e 32 óbitos. Hong Kong tinha 1066 casos confirmados e 4 óbitos. No primeiro texto, eu busquei analisar algumas questões relacionadas à população total das duas cidades e, também, densidade populacional. No segundo texto, que pode ser lido aqui, eu fiz uma comparação com as datas de 26 de maio e 09 de Junho, mostrando as diferenças entre os números neste meio tempo.

A outra questão que surgiu ao longo deste debate é sobre a subnotificação e as testagens, que é o que eu discuto hoje!

Antes de falar dos testes

Apenas para atualizar os dados das duas cidades

Porto Alegre

  • 01 de Julho: 3.624 casos confirmados; 1.309 casos recuperados; 94 óbitos; 8.971 casos em análise.
  • 09 de Junho: 1.712 casos confirmados, 45 óbitos, 619 casos recuperados e 4.753 casos suspeitos em análise (aguardando o resultado).

Hong Kong

  • 01 de Julho: 1.243 casos confirmados; 117 casos ativos; 1.120 casos recuperados; 07 óbitos;
  • 09 de Junho: 1.108 casos confirmados da doença, segue com 4 óbitos, 55 casos ativos (3 destes em estado crítico) e 1049 recuperados.

Agora vamos à questão dos testes…

E em que a quantidade de testes nos ajuda?

Basicamente, testar em massa nos possibilita não apenas aferir quem está doente em situação grave ou gravíssima. Os testes em massa, mesmo em casos em que as pessoas apresentam sintomas muito leves da doença, nos dá condições para um manejo muito mais eficaz da doença e dos doentes.

Se temos sintomas leves e temos a confirmação, podemos rastrear nossos contatos, testar estas pessoas e sinalizar a necessidade de isolamento (nosso e das pessoas ao nosso redor) até que a fase infecciosa da doença acabe. Podemos compreender melhor a quantidade de pessoas que já foi infectada em nosso município, possibilitando analisar com mais precisão quantos recuperados já temos e a segurança para flexibilizarmos os distanciamentos sociais e de que forma retomaríamos a vida em nosso espaço urbano.

Além disso, conhecendo melhor a quantidade de infectados – doentes leves, moderados, graves e críticos – poderíamos nos planejar melhor em relação às compras e instalações de equipamentos hospitalares, leitos, contratações de profissionais de saúde em modo emergencial, etc.

E estes dados são suficientes?

Bom, eu achei prudente também olhar outros dados, uma vez que muito têm se falado sobre a subnotificação aqui no Brasil. A subnotificação se dá, entre outras coisas, pela quantidade de testes feitos na população. Quanto mais testes fazemos, mais conhecemos realmente quantas pessoas foram infectadas, e conseguimos rastrear melhor os lugares em que a infecção está mais presente, para propor um distanciamento social mais eficaz, correto?

Eu não achei as testagens totais feitas em Porto Alegre, então eu analisei a partir da média de testes populacionais no Brasil. Como Hong Kong é uma “cidade-estado” estes números absolutos estão nos registros oficiais mundiais. Vale a pena observar que eu consegui apurar estes dados hoje (9 de Junho de 2020) e é a partir deles que eu vou fazer a próxima análise (como se fosse equivalente aos dias anteriores). Vamos dar uma olhadinha nestes números:

  • Hong Kong estava com uma média de 27.082 testes para cada 1 milhão de habitantes no dia 09 de Junho; no dia 01 de julho apresenta uma média de 42.883 para cada 1 milhão de habitantes e fez um total de 321.498 de testes no país;
  • O Brasil estava com uma média de  4.706 para cada 1 milhão de habitantes no dia 09 de Junho; agora apresenta uma média de 15.184 para cada 1 milhão de habitantes e fez um total de 3.227.591 de testes no país.

Como eu não encontrei o número exato de testes realizados em Porto Alegre (várias cidades não apresentam estes dados, ou não são fáceis de serem encontrados), eu vou supor que obteremos o total de testes diagnósticos feitos na cidade de Porto Alegre somando-se a quantidade de negativos, positivos e em análise.

Ao analisar o Boletim Epidemiológico de Porto Alegre lançado no dia 26 de maio de 2020, havia registrado um total de 4.105 testes (casos confirmados + casos negativos), enquanto ainda estavam em análise 2743 casos, totalizando 6.848 testes diagnósticos no dia 26 de maio

Se olharmos o Boletim Epidemiológico de Porto Alegre, lançado no dia 09 de Junho de 2020, observamos os seguintes números: 1.712 casos confirmados; 4.753 casos em análise e 4.614 casos negativos, isto somado teríamos o total de 11.079 testes realizados desde o início da pandemia no dia 09 de Junho.

Já o Boletim Epidemiológico de Porto Alegre, lançado no dia 02 de Julho de 2020 há um total de 16.410 testes (3.624 confirmados + 12.786 negativos), enquanto ainda estão em análise 8.971, totalizando 25.381 testes diagnósticos no dia 01 de Julho de 20220.

Hong Kong fez o total de 202.930 de testes diagnósticos até o dia 09 de Junho, o que nos dava uma quantidade de testes 18,31 maior. No dia 01 de Julho, a cidade completou o número de 321.498 testes diagnósticos totais, o que relacionado à Porto Alegre nos dá uma quantidade de testes 29,02 maior.

Se formos fazer relativo à quantidade de testes por 1 milhão de habitantes (que é a comparação padrão internacional), Hong Kong neste momento está com 42.883 e Porto Alegre com 7.467 testes. Neste sentido, Hong Kong está fazendo 5,74 mais testes por milhão de habitante do que Porto Alegre.

E a subnotificação?

O Ministério da Saúde divulgou, no dia 24 de Junho, que os casos suspeitos com sintomas leves começariam a ser testados no SUS. Pois bem, há muito se fala sobre a questão da subnotificação. Um dos dados acerca disto é, exatamente, a falta de testagens em massa na população – ainda estamos longe disto. No mundo, relativamente a testagens por milhão, estamos em 112º lugar. 

Em artigo publicado dia 24 de Junho, os pesquisadores apontam uma notificação em 9,2% dos casos no Brasil. Neste sentido, o nosso número atual de 1,456,969 de casos, se corrigido seria cerca de 15.836.619 pessoas contaminadas (no Brasil). Outro dado que indica que estamos subnotificando são os casos de Síndrome Gripal e Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG).

Em Porto Alegre, temos registrados em Pronto Atendimento, em Junho de 2018 um total de 261 casos de Síndrome Gripal. Este número em 2020 foi de 1.274 casos registrados (4,88 vezes mais casos do que dois anos antes). Em Unidades de Atenção Primária temos 289 casos em junho de 2018 e 2.141 casos em junho de 2020 (7,41 vezes mais casos em 2020).

Se olharmos os números no Brasil, o Painel Coronavírus do Ministério da Saúde aponta este comparativo

Gráfico retirado do Painel Coronavírus do Ministério da Saúde, no dia 02 de Julho de 2020.

A SRAG tem sido apontada como um importante indicador de subnotificação por diversos centros de pesquisa, cientistas e divulgadores de ciência (eu mesma já falei sobre isto neste texto aqui). 

Finalizando…

Não há muito o que falar sobre a abertura de espaços comerciais, tanto em Porto Alegre, quanto em outras capitais do país. Ao que parece, os planos de abertura estão em andamento com os casos subindo, óbitos batendo recordes e uma alarmante subnotificação ainda presente. As políticas públicas que poderiam estancar a reabertura seguem a passos lentos (quase parados) e a pressão de grandes empreendimentos parece ser maior do que um conjunto de análises científicas em meio à grave crise sanitária. 

Ainda estamos longe de superar a crise sanitária e de mortes e estamos longe de alcançar um bom plano de abertura, especialmente enquanto a quantidade de testes esteja tão baixa e a subnotificação siga tão presente em nosso cotidiano.

Mais do que traçar planos sobre a volta às atividades presenciais, deveríamos estar debatendo seriamente planos de manutenção da vida e minimizações de desigualdades sociais que só se acentuam nestes momentos.

Todavia, esta pauta é de uma vida inteira – e não apenas desta crise sanitária – e ainda temos muito o que fazer, lutar, trabalhar, para as novas distopias, não tão árduas como as que estamos passando agora. 

😉 Contamos com vocês, inclusive. 

Encerro estes conjuntos de postagens comparando duas cidades…

Inúmeras questões foram se abrindo com estas 3 postagens que fiz, comparando Porto Alegre e Hong Kong. Agradeço imensamente às revisões, questionamentos e inquietações que provocaram e a possibilidade de entender mais sobre aspectos que pareciam simples. Ainda há muito o que estudar, em breve apresentarei estas outras arestas que foram se fazendo contundentes ao longo da escrita destas postagens…

Para escrever este texto, assim como o primeiro, eu contei com a leitura, revisão e boas conversas com uma galera da Divulgação Científica e da Unicamp, que eu faço questão de agradecer aqui:Marco Henrique, do blog zero (que além da revisão e das mil ideias, fez as imagens e corrigiu todos os cálculos! hehehe), o Samir Elian, do blog Meio de Cultura A Erica Mariosa, do blog Mindflow, o Roberto Takata, do blog Gene Reporter e o Professor Hyun Mo Yang, do Instituto de Matemática, Estatística e Ciências da Computação (IMECC) da UNICAMP.

Para saber mais

AAA INOVAÇÃO. Linha do Tempo do Coronavírus no Mundo [31/12/19 até 10/06/2020]. Acesso em 09/06/2020.

BOFF, Thiago (2020) Passageiros e motoristas de linhas que podem ser suspensas afirmam que ônibus circulam lotados em Porto Alegre Gaúcha ZH, Porto Alegre, 26 de Maio de 2020. Acesso em 15/06/2020

CRONOLOGIA DA PANDEMIA COVID-19. Wikipedia. Acesso em 09/06/2020.

DIHL, Bibiana. Porto Alegre é a primeira cidade do país a ter decreto de emergência reconhecido pelo governo federal. Gaúcha ZH Porto Alegre, 02/04/2020. Acesso em 09/06/2020.

GONZATO, Marcelo (2020). Porto Alegre tem a quarta menor incidência de coronavírus entre as capitais. Gaúcha ZH Saúde.

HONG KONG. (2020a) Coronavirus  Acesso em 15/06/2020

HONG KONG (2020b) Latest Situation of Novel Coronavirus infection in Hong Kong Acesso em 15/06/2020

HONG KONG NÃO TÊM (2020) Hong Kong não tem novos casos de coronavírus pela 1ª vez em quase 2 meses. Valor Econômico. Acesso em 09/06/2020.

LIMA, Lioman. (2020). Coronavírus: 5 estratégias de países que estão conseguindo conter o contágio. BBC Brasil, 18/03/2020. Acesso em 09/06/2020

MINISTÉRIO DA SAÚDE (2020) Coronavírus Brasil. Acesso em 09/06/2020.

MOTA, Renato. Países asiáticos voltam a ver seus números da Covid-19 crescerem. Olhar Digital, 07/04/2020. Acesso em 09/06/2020.

PORTO ALEGRE. Secretaria de Saúde (2020a). Boletim COVID-19 nº 65/2020. Acesso em 09/06/2020.

PORTO ALEGRE. Secretaria de Saúde (2020b). Boletim COVID-19 nº 78/2020. Acesso em 09/06/2020.

PORTO ALEGRE. (2020c) Prefeitura prorroga decreto de isolamento social e libera mais alguns setores. Acesso em 09/06/2020.

PORTO ALEGRE (2020d). Vigilância do novo coronavírus mobiliza área de saúde da Capital. Acesso em 15/06/2020

PORTO ALEGRE (2020e). Saúde Municipal se mobiliza para vigilância do coronavírus

PORTO ALEGRE (2020f). Boletim COVID-19 n.101/2020.

Prado, Marcelo Freitas do, Antunes, Bianca Brandão de Paula, Bastos, Leonardo dos Santos Lourenço, Peres, Igor Tona, Silva, Amanda de Araújo Batista da, Dantas, Leila Figueiredo, Baião, Fernanda Araújo, Maçaira, Paula, Hamacher, Silvio, & Bozza, Fernando Augusto. (2020). Análise da subnotificação de COVID-19 no Brasil. Revista Brasileira de Terapia Intensiva, Epub June 24, 2020.https://doi.org/10.5935/0103-507x.20200030

ROCHA, Camilo. (2020). Os estudos que mostram o impacto positivo do isolamento social.   Nexo Jornal, 21 de abr de 2020. Acesso em 09/06/2020.

SORDI, Jaqueline (2020). Lupa na Ciência: Estudos mostram eficácia do isolamento social contra Covid-19 e projetam cenários. Agência Lupa, 20 de abril de 2020. Acesso em 09/06/2020.

YUGE, Claudio. (2002). Países que já haviam controlado a COVID-19 confirmam a 2ª onda de infecções. Canal Tech, 06 de Abril de 2020. Acesso em 09/06/2020.

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Este post foi escrito para o Especial COVID-19

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Os argumentos expressos nos posts deste especial são dos pesquisadores, produzidos a partir de seus campos de pesquisa científica e atuação profissional e foi revisado por pares da mesma área técnica-científica da Unicamp. Não, necessariamente, representam a visão da Unicamp. Essas opiniões não substituem conselhos médicos.


editorial


Ana Arnt

Bióloga, Mestre e Doutora em Educação. Professora do Departamento de Genética, Evolução, Microbiologia e Imunologia, do Instituto de Biologia (DGEMI/IB) da UNICAMP e do Programa de Pós-Graduação em Ensino de Ciências e Matemática (PECIM). Pesquisa e da aula sobre História, Filosofia e Educação em Ciências, e é uma voraz interessada em cultura, poesia, fotografia, música, ficção científica e... ciência! ;-)

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