Um levantamento do Ministério da Saúde do dia 07 de Junho de 2021 mostrou que 49.584.110 pessoas receberam a primeira dose da vacina contra o SARS-CoV-2. Deste montante, 23.026.663 receberam as duas doses. Olhando assim, parece um número muito bom. No entanto, até meados de maio, aproximadamente 5 milhões de brasileiros tomaram a primeira dose de uma das vacinas contra a COVID-19, mas não voltaram para a segunda dose.

Será mesmo que a segunda dose é fundamental? Você sabe porque ela é importante?

Um lembrete para o seu corpo

A vacina funciona como uma forma preventiva para que seu corpo já saiba criar uma resposta para o agente causador da doença, no caso o vírus SARS-CoV-2. A CORONAVAC usa uma tecnologia bem conhecida, a de vírus inativado, enquanto que a vacina da ASTRAZENECA usa um adenovírus que não consegue se replicar no nosso corpo e a da PFIZER uma mensagem codificada que faz nosso corpo reconhecer a proteína spike do vírus. Vocês podem ler um texto que falamos sobre as diferenças de vacinas aqui

Independente de qual das três vacinas você tomar, é necessária uma segunda dose. Isso acontece porque o primeiro contato com as vacinas criará uma resposta do seu sistema imune. Mas não tão forte quanto a prevenção com duas doses. A segunda dose funcionará como um lembrete para o seu corpo saber que aquele vírus segue por aí. Assim, consequentemente aumentará a sua resposta.

Além disso, alguns estudos ainda estão sendo feitos para compreender melhor como o corpo responde a essas vacinas. Os estudos da CORONAVAC garantem a eficácia da imunização após a segunda dose, mas ainda não possui nenhum estudo de apenas uma dose. Já a vacina da ASTRAZENECA possui uma eficácia de 76% após a primeira dose, e aos poucos o corpo “esquece” essa resposta no intervalo de 3 meses, por isso é necessária a segunda dose, que eleva a eficácia para aproximadamente 82% (Fonte: FioCruz). Já a Pfizer possui uma eficácia geral de 85% depois da primeira dose e 95% após as duas doses. Vale sinalizar que inicialmente o intervalo entre as doses da Pfizer era de 21 dias, mas depois foi alterado de acordo com um novo estudo em pré-print

Confusão entre o tempo de espera de cada tipo de vacina

A falta de informação a respeito do porquê tomar a segunda dose da vacina não é o único problema. Os diferentes intervalos entre as doses das vacinas também causam confusão. A CORONAVAC possui um intervalo de aproximadamente 20 dias, enquanto que o intervalo das doses de ASTRAZENECA é de 3 meses. Aqui no Brasil, a vacina da PFIZER também está seguindo o intervalo de 3 meses, em acordo com o resultado do estudo citado acima. 

Por conta da quantidade de nomes, é fácil de se confundir. A falta de padronização na escrita da carteirinha de vacinação também é um ponto crítico. Muitas vezes a CORONAVAC está escrita “Butantan” ou “Sinovac” e a vacina da ASTRAZENECA fica registrada como “OXFORD” ou “FIOCRUZ”.

Fique atento a sua carteirinha e a de seus familiares! Se tiver dúvida, não hesite em perguntar para a pessoa que estiver aplicando. Confira a data que estiver agendada na carteirinha. Evite perder o prazo entre as doses!

Mas e a vacina da Janssen/Johnson & Johnson?

Essa vacina já teve seu uso aprovado em caráter emergencial no Brasil, mas ainda não chegou nenhuma dose no país. Ela utiliza uma tecnologia de adenovírus semelhante à vacina da ASTRAZENECA. Nos estudos realizados até agora, apresentou uma eficácia desejável mesmo com apenas uma dose. Caso tua intenção seja tomar só uma dose, mas tua categoria (por idade, profissão ou comorbidade) chegue antes disso: não vale esperar! Vai e te vacina logo, pois precisamos de muita gente vacinada, rápido!

Falta de doses de vacinas

Outro problema encontrado é a falta de vacinas. Em um primeiro momento foi orientado aos municípios que guardassem a segunda dose das pessoas que estavam sendo imunizadas, para que elas não acabassem. Depois, em 20 de março todas as doses foram destinadas à primeira imunização de um grupo maior de pessoas, uma notícia sobre isso você pode conferir aqui. No dia 25 de abril o Ministério da Saúde voltou atrás e pediu para que 50% das doses recebidas fossem guardadas, mas isso não evitou que centenas de cidades, incluindo 13 capitais estaduais, ficassem sem doses. Essa série de erros também contribuiu para que diversas pessoas não conseguissem tomar sua segunda dose.

Nós temos reiterado que esta confusão faz com que a gente realmente fique inseguro com tudo o que está acontecendo! Por isso sempre reforçamos: pergunte, se certifique das datas, cobre por informações e, na dúvida, chegue junto que a gente tenta responder também!

Mais doses?

Tem mais debate por aí falando em terceira dose. Mas fique atento! Por enquanto não existem dados suficientes que comprovem a necessidade de tomar mais doses da vacina. Ou mesmo se teremos que tomar a vacina em intervalos de tempo pré-definidos, assim como tomamos a vacina da gripe, difteria, tétano e HPV.

E se eu tomar vacinas diferentes?

ATENÇÃO! Em alguns países, como a Espanha, a combinação de doses de diferentes vacinas já está sendo testada. Apesar disso, no Brasil a ANVISA ainda não autorizou nenhum tipo de combinação. Caso queira saber mais sobre um dos estudos preliminares, leia aqui.

Isso se dá ao fato de que  ainda estão sendo realizados estudos que comprovem uma resposta imune melhor se misturarmos as vacinas, ou até mesmo se existe algum tipo de interação entre as vacinas que possa ser prejudicial. Caso você tenha tomado doses trocadas de vacinas, é recomendado informar no posto de saúde o problema e aguardar instruções específicas para o seu caso. 

Eu preciso manter medidas de segurança mesmo depois da segunda dose?

Sim! Mesmo tomando as duas doses seu corpo ainda demora alguns dias para criar uma resposta e você ainda pode ser infectado de maneira leve pelo vírus. Além disso, mesmo com as duas doses, você pode ser um agente transmissor.

Por fim, ainda temos a questão de que a vacinação em nosso país está lenta, há poucas pessoas vacinadas (MUITO POUCAS). A vacinação é um evento efetivo QUANDO EXECUTADO EM MASSA. Isto é, em uma grande parcela da população – não estamos nem perto disso ainda! Por enquanto, no Brasil as recomendações permanecem as mesmas: Máscara e distanciamento! Além do clássico: se puder, fique em casa!

Para Saber Mais

Barifouse, R (2021) Covid-19: os erros que levaram centenas de cidades a suspender vacinação por falta de 2ª dose, BBC Brasil

Callaway, E (2021) Mix-and-match COVID vaccines trigger potent immune response, Nature 593, 491 (2021) doi: https://doi.org/10.1038/d41586-021-01359-3

Da Redação (2021) Ministério da Saúde muda orientação e libera vacinas armazenadas para uso como 1ª dose, G1

LedFord, h (2021) Delaying a COVID vaccine’s second dose boosts immune response, Nature

Rangel, D, Lang, P (2021) Vacina Covid-19 Fiocruz tem eficácia geral de 82%. Notícias, Fiocruz

Voysey, Merryn (…) and Pollard, Andrew and Group, Oxford COVID Vaccine Trial, Single Dose Administration, And The Influence Of The Timing Of The Booster Dose On Immunogenicity and Efficacy Of ChAdOx1 nCoV-19 (AZD1222) Vaccine. Available at SSRN: https://ssrn.com/abstract=3777268 or http://dx.doi.org/10.2139/ssrn.3777268 

Este texto foi escrito com exclusividade para o Especial Covid-19

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Os argumentos expressos nos posts deste especial são dos pesquisadores. Dessa forma, os textos foram produzidos a partir de campos de pesquisa científica e atuação profissional dos pesquisadores e foi revisado por pares da mesma área técnica-científica da Unicamp. Assim, não, necessariamente, representam a visão da Unicamp e essas opiniões não substituem conselhos médicos.


editorial


Alexandre Borin

Alexandre Borin, biólogo, mestrando em Imunologia pelo programa de Genética e Biologia Molecular da UNICAMP em parceria com o Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM).

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